sábado, 31 de outubro de 2009

Ao sábado: momento quase filosófico

Acerca do Existencialismo
Para compreendermos o existencialismo, precisamos de ter alguma noção do que foi o Absolutismo Hegeliano do século XIX, o ponto de vista filosófico segundo o qual a única verdadeira imagem da vida é do exterior a olhar para o interior. [...]
George Wilhelm Friedrich Hegel defendeu que a história é p desenrolar no tempo do "Espírito Absoluto". O espírito de uma era (por exemplo, o conformismo reprimido da década de 50 do século XX) gera a sua própria antítese (o movimento hippie da década de 60) e o choque dos dois cria uma nova síntese (os "hippies plásticos" da década de 70, como os banqueiros de Wall Street com os seus cortes de cabelo à Beatles).
E assim continua indefinidamente, uma dialéctica de tese/antítese/síntese (que se torna nova tese), etc.
Hegel estava convencido de que tinha saído da história e estava a observar "Tudo" de um ponto de vista transcendente. Denominou o seu ponto de vista de Absoluto. E do ponto superior em que se encontrava as coisas paraeciam bastante bem. Guerras? Apenas um movimento da dialéctica. Pestilência? Simplesmente outro movimento. Ansiedade? Não era motivo para preocupação. A dialéctica está em movimento e não se pode fazer nada quanto a isso. [...]
Surge em cena Søren Kierkegaard, o contemporâneo de Hegel, e fica indignado. "Que diferença faz que tudo esteja bem do ponto de vista do Absoluto?", pergunta Søren. Esse não é — nem pode ser — o ponto de vista dos indivíduos existentes. Nessa declaração, nasceu o existencialismo. "Eu não sou Deus", afirmou Søren. "Eu sou um indivíduo. Que importa que tudo seja pacífico visto do alto? Eu estou aqui na ponta finita e estou ansioso. Estou em risco de entrar em desespero. Eu. E que interessa que o universo esteja a avançar inevitavelmente — está a ameaçar passar por cima de mim!"[...]
O filósofo francês do século XX, Jean-Paul Sartre, corrigiu a ideia de Kierkegaard do isolamento assustador de um indivíduo e estendeu as implicações para a liberdade e responsabilidade humanas. Na interpretação de Jean-Paul, "a existência precede a essência», querendo com isto dizer que os seres humanos não têm essência predeterminada da mesma forma que, por exemplo, um cabide tem. Nós somos indeterminados, sempre livres para nos reinventarmos.
Jean-Paul Sartre tinha estrabismo divergente e não era um fulano muito atraente. Portanto, pode ter sido apanhado de surpresa quando o seu colega existencialista, Albert Camus, expandiu a noção de Sartre da liberdade humana ao dizer: "Lamentavelmente, após uma certa idade todos os homens são responsáveis pelo rosto que têm." Curiosamente, Camus era muito parecido com Humphrey Bogart.»
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar..., pp. 143-146.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A incompetência levada ao limite do inimaginável

O Diário da República publicou, há nove dias (21 de Outubro), uma portaria que é mais um exemplo da inimaginável incompetência do Governo cessante (e, por extensão, do actual, pois o primeiro-ministro é o mesmo e os principais ministros também). Essa portaria, n.º 1317/2009, vem assinada pelo ministro de Estado e das Finanças, Teixeira dos Santos, e pelo secretário de Estado da Educação, Valter Lemos. O primeiro tem a injustificada auréola de muito competente, o segundo tem a justificada auréola de muito incompetente. Ao assinarem o que assinaram, ambos fizeram jus, respectivamente, à injustificação e à justificação das suas auréolas.
Esta portaria veio estabelecer o regime (transitório) de avaliação de desempenho dos professores que, no ano lectivo 2008-2009, exerceram funções nos conselhos executivos, ou nas comissões executivas, ou nas novas direcções das escolas, assim como dos professores que exerceram as funções de director de centro de formação.
O conteúdo desta portaria raia o absurdo. O conteúdo desta portaria revela, pela enésima vez, como somos governados por pessoas que não estão minimamente qualificadas para as funções que exercem.
Vamos por partes.
1. Esta portaria dita as regras para a avaliação do desempenho daqueles professores num ano lectivo específico: 2008-2009. É o desempenho desse ano lectivo que é objecto de avaliação e nada mais. Convém não esquecer isto, na análise que se segue.

2. O sistema de avaliação estabelecido na portaria assenta, exclusivamente, na classificação do que a portaria apelida de elementos curriculares. São eles: habilitações académicas (10%), habilitações profissionais (25%), formação profissional (25%) e experiência profissional (40%).

3. Nas habilitações académicas atribui-se 5 pontos a quem é doutor ou mestre, 4 pontos a quem é licenciado e 3 pontos a quem é bacharel.
a. Primeira aberração: se o que vai ser avaliado é o desempenho de alguém no ano lectivo 2008-2009, que tem isso que ver com a habilitação académica que esse alguém possui? Está a ser avaliado o seu desempenho ou o seu currículo?
b. E mesmo que fosse o currículo a ser avaliado, com que fundamento se pontua do mesmo modo um doutoramento e um mestrado? Têm o mesmo valor académico? Desde quando e para quem? Mais: que fundamento, que seriedade tem diferenciar com um ponto o doutoramento da licenciatura? Para o ministro Teixeira dos Santos e para o ex-secretário de Estado Valter Lemos, doutoramento, mestrado e licenciatura é o tudo o mesmo ou quase o mesmo?

4. Segunda aberração. A segunda aberração é sequência da primeira. Repete o mesmo inconcebível critério de, nas habilitações profissionais, atribuir a mesma pontuação ao doutoramento e ao mestrado em administração escolar ou administração educacional. E continua a diferenciar com um ponto o doutoramento de uma pós-graduação, naquelas áreas. E a diferenciar com dois pontos um doutoramento de qualquer outra formação em administração e gestão.

5. Terceira aberração: para avaliar o desempenho do ano lectivo 2008-2009, o ministro Teixeira dos Santos e o ex-secretário de Estado Valter Lemos consideram justo, adequado e pertinente atribuir 5 pontos a quem tenha mais de seis anos de exercício de funções como membro do órgão de gestão e administração, seguidos ou interpolados; 4 pontos a quem tenha mais de três e até seis anos; e por aí fora. O conceito que o Governo tem de avaliação é isto, é esta aberração: avalia-se o desempenho de um ano lectivo pelo número de anos em que alguém já exerceu essas funções!!! E até pode ter desempenhado essas funções há vinte anos, que não interessa, desde que atinja o número mágico de seis anos, tem a pontuação máxima. Como não interessa igualmente se nesses seis anos desempenhou bem ou mal essas funções, tem na mesma a pontuação máxima.
Estamos a ser governados por pessoas que não só não têm qualificação para o que estão a fazer como não tem pudor em legislar enormidades destas.

6. Quarta aberração. Um outro critério para a atribuição de 5 pontos (pontuação máxima em tudo) é a escola ter tido uma classificação igual ou superior a Bom, no domínio da liderança, na avaliação externa a que tenha sido sujeita. Ora, como, em alguns casos, a avaliação externa recaiu sobre o ano lectivo anterior ao que estava a ser realizada, e no ano lectivo anterior era outro o conselho executivo, quem vai apanhar com os bons ou os maus resultados é quem pode não ter nada que ver com o objecto dessa avaliação, porque, simplesmente, não exercia funções no tempo sobre o qual recaiu a avaliação. Este é o rigor, é a objectividade e a fiabilidade da avaliação que o Governo pratica.

7. Aberração final. Para não ser demasiado longo, há uma última pergunta que é anterior a tudo o que acima foi exposto: é aceitável, é possível, ou é sequer imaginável realizar-se um jogo e depois do jogo concluído serem elaboradas as regras desse jogo?
Isto é possível, isto é imaginável? Esta portaria saiu em 21 de Outubro e estabelece as regras para avaliar o desempenho de um mandato que, na maioria dos casos, terminou no mês de Junho do ano lectivo anterior, isto é, há quatro meses.
Por exemplo, estipula-se, agora, depois do jogo finalizado e depois dos jogadores terem recolhido ao balneário, de terem tomado banho e de terem regressado a suas casas, que se dá 5 pontos a quem frequentou acções de formação com mais de 25 horas, e 4 pontos a quem frequentou acções de formação entre 10 e 25 horas, e por aí fora. Estipula-se, agora, depois do jogo finalizado, que se dá 5 pontos a quem criou cursos profissionais ou CEF e cursos EFA, e 4 pontos a quem criou apenas cursos profissionais ou CEF, e por aí fora. A posteriori informa-se que são estes os itens avaliativos.

Como é possível que nem nas coisas mais elementares haja uma réstia de seriedade? Onde chegámos nós, como país?
Mesmo no Terceiro Mundo, não deve ser fácil encontrar situações destas.

Fragmenti veneris diei

«Eucaliptos e zimbros, cedros, ciprestes, vinhas decepadas ou apenas aguardando a grande nudez do Inverno, giestas adormecidas, e a imagem do rio como um espelho luminoso — havia uma recordação infiel nestas coisas e Jaime Ramos não gostava de sentir pena de si mesmo, não gostava da melancolia. Acendeu uma cigarrilha e abriu um pouco a janela do carro para que o fumo iniciasse a fuga depois da primeira baforada. Muitos anos atrás, vinte talvez, ele percorrera aquelas estradas em busca de um assassino invisível que que matara à beira do rio e abandonara o corpo à podridão do porta-bagagens de um carro. Matar por amor, matar por desfastio, matar para mudar o destino. O seu sentido de justiça tinha-se alterado ao longo da vida e, sobretudo, ao longo da sua vida como polícia — houve assassinos misericordiosos, assassinos justos, por muito que um assassino fosse sempre um assassino, e tivesse de conservar um módico de moral e de disciplina. Os seus casos preferidos terminavam muito antes de desmontar o puzzle desenhado de um homicídio. Sou um biógrafo incompreendido, Isaltino. Interessam-me os desaparecidos que não deixam rasto e que nunca mais saem da lista de desaparecidos. De vez em quando vou lá, a essas listas, escolho um caso, imagino os primeiros passos do inquérito. Imagino as falhas. As peças que não encaixam. Sobretudo o lado de lá. Sou um biógrafo sem sorte. A ironia matou o resto de entusiasmo que havia em mim. Interessam-me as pessoas que não querem ser vistas, as pessoas que preferem a sombra, as que atravessam a noite pelas estradas secundárias. Onde se escondem as pessoas que não querem ser vistas? Interessam-me as pessoas que têm recordações dolorosas e passam em frente e não sucumbem, não choram, não se lamentam, não sofrem à vista dos outros. Interessam-me cada vez mais as pessoas de antigamente, quando havia um sentido de justiça que se resolvia na sombra. Sou um biógrafo preguiçoso, Isaltino.»
Francisco José Viegas, O Mar em Casablanca, pp. 86-87.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Quinta da Clássica - Johannes Brahms

Uma possível celebração e uma enorme improbabilidade

Parece adquirido que o modelo de avaliação de Maria de Lurdes Rodrigues e de José Sócrates vai deixar de existir. Esse facto, só por si, merecerá, da minha parte, uma comemoração especial, independentemente do modelo que venha substituí-lo. E digo independentemente do modelo que aí venha, porque é objectivamente impossível fazer pior.
O dia em que o modelo de avaliação de Maria de Lurdes Rodrigues e de José Sócrates for destruído deve ser celebrado, porque isso significará a destruição do maior monumento à incompetência que, no domínio da Educação, alguma vez foi produzido em Portugal.
O dia em que for anulado o concurso para professor titular e em que se dê por finda a divisão da carreira também deve ser efusivamente celebrado, porque isso significa o fim da arbitrariedade legalizada por Maria de Lurdes Rodrigues e por José Sócrates, e significa que, finalmente, a justiça será reposta.
Quanto ao que virá de novo, nada sei, e penso que, neste momento, ainda ninguém sabe. Desenham-se várias hipóteses, mas falta saber um dado fundamental: o que pretende o Governo fazer. Há sinais contraditórios: o líder parlamentar do PS, Francisco Assis, já afirmou, sem subterfúgios, que o modelo terá que ser substituído, mas não adiantou mais nada — também não podia; por outro lado, as «fugas de informação» para os jornais dão a entender que não será bem assim. Logo veremos.
Há, contudo, dois aspectos que me parecem merecer relevo.
1. Ainda que me custe fazê-lo, porque tenho uma péssima opinião acerca dele, devo reconhecer que Paulo Portas está a defender e a executar uma metodologia de trabalho que acho correcta: «Primeiro ouvir os agentes educativos, depois apresentar os nossos projectos, a seguir conversar com todos os partidos. Parece-nos que há no Parlamento e no país uma maioria a favor de mudar, corrigir e rectificar quer a questão da avaliação, quer o Estatuto da Carreira Docente.»
São palavras avisadas e que revelam sensatez. Sejam os actos à altura das palavras.
Paulo Portas acrescenta: «É possível o Parlamento balizar o que tem de mudar, respeitando a indispensável negociação que terá de se seguir entre o Governo e os representantes dos professores. Se todos estes passos forem seguidos com método e bom espírito, creio que será possível obter a paz no sector».
Quanto à paz no sector, referir-me-ei no ponto a seguir, quanto ao resto, continuo a subscrever.

2. A paz no sector. Se queremos a paz no sector? Queremos. Não queremos outra coisa. Estamos todos mais que fartos destes anos de combate à incompetência, à prepotência e à arrogância de Maria de Lurdes Rodrigues e de José Sócrates. É provável que isto aconteça? Infelizmente, não é provável.
Não é provável por diversas razões. Algumas delas são:
a) o primeiro-ministro é o mesmo;
b) a inexistência de um currículo com um mínimo de garantias, ou, mais especificamente, de uma bibliografia mínima sobre Educação, que a nova ministra tivesse produzido ao longo dos seus 58 anos de idade — compreende-se a omissão, porque, no fundo, Isabel Alçada consumiu o seu tempo a escrever ficção para crianças, mas isso não abona nada acerca das suas competências para as funções que considerou estar capacitada a desempenhar (recordo que o mesmo sucedeu com Maria de Lurdes Rodrigues: nem uma linha tinha escrito sobre Educação, e deu o que deu);
c) os rasgados elogios que a nova ministra da Educação tem feito à política da sua antecessora e às Novas Oportunidades;
d) a, no mínimo, caricata situação que a nova ministra protagonizou: de manhã, declarou não ter sido convidada para nenhum cargo e, à tarde, o seu nome já vigorava na lista de ministros entregue ao presidente da República (ou a senhora faltou à verdade, ou os convites são feitos à pressa e em cima do joelho, e a aceitação dos mesmos também — não sei o que preferir);
d) e o ter aceitado trabalhar com José Sócrates.
Tudo isto não augura nada de bom.
É, então, um dado certo ser impossível haver paz no sector? Não é impossível, mas é muito improvável, pois só existe uma possibilidade.
Essa possibilidade assenta no facto de termos um primeiro-ministro que só na aparência tem convicções, pois que, sempre que a situação se propicia, é capaz de trocar as suas mais inabaláveis convicções por algo que lhe seja mais conveniente, desde que fique assegurado que publicamente não vai ser essa a imagem que prevalecerá (há quatro anos era sua inabalável convicção não subir os impostos, há três anos era sua inabalável convicção de que o novo aeroporto teria de ser na OTA, há quatro anos era sua inabalável convicção fazer um referendo sobre o futuro da União Europeia, há dois anos era sua inabalável convicção de que os resultados dos alunos tinham de contar para a avaliação dos professores, etc.).
Portanto, a paz no sector só será possível se estes dois elementos se aglutinarem: Sócrates considerar, por alguma razão, que isso lhe convém, e se estiver convencido de que, publicamente, a sua imagem não sairá prejudicada.
Mesmo que a improbabilidade aconteça, nunca será, pois, por uma boa razão. Isto significa dizer que, certamente, só existirá paz no sector quando Sócrates for despedido, como Maria de Lurdes Rodrigues já foi.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Retratos de Sócrates (7)

«Apesar de o processo ainda não ter chegado ao fim, a cereja em cima do bolo viria a ser revelada, obviamente, por José António Cerejo: nem mais nem menos do que a destruição dos arquivos do Ministério do Ambiente em relação a um dos mais espectaculares investimentos públicos no concelho do Fundão.
Este processo teve todos os ingredientes para fazer o mais crédulo dos cidadãos descrer no Estado de direito. E mais: colocou a imagem externa de Portugal nas ruas da amargura. Uma diligência de última hora, em 2003, que consistiu no envio de uma carta rogatória para o Reino Unido, teve um desenvolvimento humilhante para o magistrado titular do processo e para o MP. As autoridades britânicas recusaram um pedido de buscas à HLC Environmental Projects, de Horácio Luís de Carvalho, com sede em Londres. A justificação terá sido a mais óbvia: seis anos depois dos factoss não fazia qualquer sentido desencadear tal diligência. Aliás, toda a informação bancária também já tinha sido destruída, de acordo com os prazos legais. Alguém acredita que um qualquer corruptor continue a ter na sua posse informação comprometedora seis anos depois do início de investigações judiciais?
Os amigos beirões foram, eventualmente, salvos in extremis pela incúria da investigação portuguesa e pela compreensível recusa das autoridades inglesas, porventura pouco habituadas a este tipo de iniciativas que se arrastam no tempo e que mais parecem farsas. [...]
Numa das diversas conversas informais com José Sócrates, sempre disponível para tentar iluminar com a sua opinião uma qualquer conversa, das profissionais às de 'salão', fui surpreendido por uma afirmação que me deixou atónito e curioso. A propósito das relações entre o Estado e os privados, desvalorizou o interesse da investigação jornalística sobre o acordo 'secreto' entre o Estado e António Champalimaud. Foi como uma espécie de aviso, admito que até com contornos de um conselho fraterno. Face à minha determinação, o feedback foi qualquer coisa do tipo:
— "E depois? Está feito, está feito!".
Fiquei desconcertado! Sempre considerei que o tal 'acordo' esteve associado a um dos maiores escândalos do processo de reprivatizações do pós-25 de Abril. Não foi por acaso que esta investigação deu origem ao maior processo judicial de sempre contra jornalistas e órgãos de comunicação social, à época, bem como a constituição de duas comissões parlamentares de inquérito.
A observação ficou gravada na minha memória por representar uma perspectiva muito peculiar dos limites da governação, em particular da gestão dos bens públicos. Ainda que mais tarde tenha vindo a confirmar a amizade entre o governante e dois dos mais próximos do falecido banqueiro, Leonor Beleza e Daniel Proença de Carvalho, o episódio permitiu descortinar uma determinada visão do governante, muito antes dela vir à tona em todo o seu esplendor.»
Rui Costa Pinto, José Sócrates - o Homem e o Líder, Exclusivo Edições, pp. 34-40.

Às quartas

O Carteiro

que queres tu carteiro?
estou longe do mundo
sem dúvida estás equivocado...
já que nada de novo há
que o mundo possa trazer a este fugitivo.
o que era
é ainda o que é costume:
sonhar
ou enterrar
ou evocar
enquanto a gente tem ainda seus festejos
e seus funerais juntando festa com festa
seus olhos desenterrados em suas mentes
outro osso para uma nova fome.
a China ainda tem sua muralha
um mito apagado e um destino em repetição
a Terra tem ainda o seu Sísifo
e uma pedra que não sabe o que quer.

carteiro
sem dúvida estás equivocado...
já que nada é novidade
volta à estrada
já que a estrada tanta vez te trouxe.
e que queremos nós?

Buland al-Haydari
(Trad.: Adalberto Alves)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Um debate

Em 2 de Outubro, escrevi, neste blogue, um texto intitulado "Movimentos independentes de professores - sempre eles!". Esse texto suscitou 52 comentários e um debate em que intervieram vários leitores. No passado dia 19, publiquei um texto, retirado do blogue de Octávio Gonçalves e da autoria do mesmo, a que dei o título "Gostei de Ler". Este post deu origem, até há pouco, a 54 comentários e à intervenção de mais alguns leitores. No total, intervieram cerca de quinze leitores. Apesar dos textos serem de conteúdos diferentes, o debate que suscitaram foi o mesmo, teve o mesmo pano de fundo: os sindicatos, os movimentos independentes, a crítica aos sindicatos, o Memorando, que política sindical, e aspectos adjacentes.
Já tive oportunidade de agradecer a todos os que participaram nesta prolongada troca de ideias. Volto a fazê-lo, agora na página principal do blogue, não só para realçar a disponibilidade que manifestaram mas também o cuidado que tiveram na procura de um discurso dialogante e não acintoso. Houve, quase sempre, procura de seriedade na argumentação e discutiram-se questões substantivas.
Sou de opinião, já o manifestei várias vezes, que o debate público, por mais crítico que seja, sobre a política sindical não enfraquece os sindicatos. A ausência dessa discussão é que leva ao seu fechamento e à dogmatização.
Julgo, pois, que todos nós, os que participámos neste debate, demos um contributo, ainda que modesto, para que os sindicatos sejam um poucachinho melhores, porque, esse desejo, eu sei que é partilhado por todos.
Penso que a troca de opiniões chegou ao fim ou estará a chegar. Pela minha parte dou-a por concluída — é tempo de tratar do que aí vem e que é, agora, o mais importante.
A todos os que participaram (pela ordem das intervenções), Mário Amoreira, Ana Joaquim, fb, Marrod, Ferreira Monteiro, Luísa Félix, Luís Pedro, Carlos Ribeiro, Virgínia Sá, Moisés Nascimento, Ana Rosa, P. Santos e alguns leitores anónimos, deixo o meu abraço.

Bonecos de palavra

Para ampliar, clicar na imagem.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Registos do fim-de-semana

Número de multas caiu para metade com a extinção da BT

Director do Colégio Militar garante que punições diminuíram e que há sensibilização

Fernando Ulrich diz que aquilo que se passa na PT "não é bonito"

Autarquia oferece tratamento dentário à população necessitada
Público (23/10/09)

Sócrates aposta tudo na Obras Públicas e pacifica Justiça e Educação

Compra de casas com crédito cai para metade por causa da crise

Jurados estão à espera de receber 16 mil euros
— A decisão do tribunal só pode seguir para recurso depois de se saldar a dívida com os membros do júri —
i (23/10/09)

Arguido do Freeport declara que um responsável político recebeu 750 mil euros

Eleições passadas não há propaganda que resista ao estado comatoso do país
— A culpa é do Governo que iludiu, e também da oposição que desiludiu —

«Espero que o próximo Governo reforce a componente política. A tecnocracia é uma reminiscência do antigo regime» (Francisco Assis)

Costa alarga apoio
— PCP vai ter vice-presidência na Assembleia Municipal —

Professores na expectativa
— Processo de avaliação segue a ritmo lento, à espera das alterações prometidas pelos partidos —
— Oposição quer suspensão da avaliação e fim dos titulares —

Portugal menos livre
— Relatório mostra queda da liberdade de expressão —
Sol (23/10/09)

Novo governo dá prioridade total à avaliação dos profs

Colégio Militar sabia dos maus tratos

Espanha tira água a Portugal

Os maiores problemas que tive foram com a bancada do PS (Franscisco Assis)

Representante da República está farto da Madeira

«O país ficou menos livre com este Governo» (José Manuel Fernandes)

PS e PCP têm acordo em Lisboa
Expresso (24/10/09)

Desemprego disparou depois das férias e atinge 510 mil pessoas

Suicidaram-se 1038 pessoas no ano passado

Novo Governo: sensibilidades do PS foram esquecidas

Narciso desafia Sócrates a pronunciar-se sobre expulsão

Portugal fez muito pouco no combate à corrupção
Público (24/10/09)

domingo, 25 de outubro de 2009

Pensamentos de domingo

«Ser actor é uma arte que consiste essencialmente em impedir as pessoas de tossir.»
Ralph Richardson

«Mais uma bebida e acabo por ir parar debaixo do anfitrião.»
Dorothy Parker

«Estava tão frio que quase me casei.»
Shelley Winters
In José Manuel Veiga, Manual para Cínicos

John Coltrane

sábado, 24 de outubro de 2009

Ao sábado: momento quase filosófico

«Já foi dito que o filósofo alemão do século XIX, Arthur Schopenhauer, decobriu o budismo filosoficamente. Como Gautama, o Buda, dois milénios antes, Schopenhauer pensava que toda a vida é sofrimento, luta e frustração e que a única saída é a resignação — a rejeição do desejo e a negação da vontade de viver. O lado positivo é que ambos pensavam que a resignação conduziria à compaixão por todos os seres e à santidade. Como se fosse uma troca. [...]
[Para ambos] a vida é um ciclo constante de frustração e tédio. Quando não temos o que queremos, ficamos frustrados. Quando temos o que queremos, ficamos entediados. E, tanto para Artie como Gautama, a pior frustração ocorre precisamente quando o alívio parece estar ao alcance da pessoa.
Era uma vez um príncipe que, apesar de não ter feito mal, foi enfeitiçado por uma bruxa malvada. A maldição ditou que o príncipe só podia dizer uama palavra por ano. Porém, podia ficar com créditos, por isso, se não falasse num ano, no ano seguinte poderia dizer duas palavras.
Um dia, conheceu uma bela princesa e apaixonou-se loucamente por ela. Decidiu não falar durante dois anos para poder olhá-la e dizer: "Minha querida."
Todavia, no fim dos dois anos também queria dizer-lhe que a amava, por isso decidiu esperar mais três anos, num total de cinco anos de silêncio. No entanto, passados os cinco anos soube que teria de a pedir em casamento, por isso precisaria de esperar mais três anos.
Por fim, quando o oitavo ano de silêncio chegou ao fim, ele ficou compreensivelmente exultante. Levou a princesa para o sítio mais romântico do jardim real, ajoelhou-se diante dela e disse:
— Minha querida, eu amo-te muito. Aceitas casar comigo?
— Desculpe? — replicou a princesa.
É precisamente o tipo de reacção que Schopenhauer teria esperado.»
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Fragmenti veneris diei

«"Eu sei, chefe. Se as coisas fossem feitas à sua vontade, o mundo estava melhor. Mas as coisas são como são", disse ainda Isaltino, voltando-se para o lago de onde fora retirado o corpo e sobre o qual uma estranha paz tinha descido, como uma neblina arrastada pela tarde. As lareiras acesas. O ruído das árvores. Cães que ladram entre as vinhas, rodeadas de muros em ruínas. Jaime Ramos não gostava do campo. Luzes acesas subitamente nas colinas, entre aldeias escondidas na serra — o bosque do Vidago era o último refúgio para quem queria refugiar-se. A última oportunidade. Reis, príncipes, actores de cinema, jornalistas, políticos transportados em carros negros, antigos, volumosos. Folheara o álbum do hotel, vira os rostos, as cores de fotos que perdiam a cor, alguém saltando para a piscina, uma família vestida para jantar, aguardando que o criado os acompanhe a uma mesa no terraço. Há velas acesas na mesa, uma jarra de flores, outras famílias sentadas a mesas iguais, um criado serve o vinho, Jaime Ramos imagina os ruídos da hora de jantar, uma espécie de murmúrio que não cessa enquanto não passar a hora de jantar, pessoas que se cumprimentam apesar de se conhecerem há pouco. Mas participam todos desse espectáculo, da grandiosidade do hotel, um monumento recuperado dos anos de ouro da velha burguesia do Porto, que gostava de termas, de médicos compreensivos e de bom serviço de piscina. Ou ingleses que reviviam o seu tempo, a memória dos grandes hotéis do passado, escondidos entre bosques, com salas de jogo, sofás, mesas de leitura, conhaque servido todas as noites a uma mesma hora, juntamente com uma caixa de charutos. Casais em lua-de-mel, tomando chá, vestidos para passeios pelos pinhais, a pé ou de bicicleta. Ou casais de idade avançada, a quem o porteiro ajuda a escolher uma mesa voltada para o lago e a quem chama o criado — pedem água mineral, café com leite, informações sobre o tempo de amanhã. Sol todo o dia, diz o criado, com um sorriso amável, o de quem conhece todos os clientes do ano, todos os hóspedes do Verão. E há crianças ruidosas que atravessam o pequeno campo relvado nas traseiras, ou brincam às escondidas entre os cedros à beira do lago.»
Francisco José Viegas, O Mar em Casablanca, p 37.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Retratos de Sócrates (6)

«As inúmeras adjudicações públicas entregues a empresas e empresários amigos ou próximos de José Sócrates — em que até o seu pai, Fernando Pinto de Sousa, foi chamado a intervir profissionalmente — impressionaram pelos montantes envolvidos. Aliás, certamente por uma nova coincidência, António Morais viria ainda mais tarde, em 2005, a ser nomeado por Alberto Costa (Foi ministro da Administração Interna no governo de António Guterres. Esteve envolvido num escândalo de pressões sobre um juiz, em Macau, em 1988), ministro da Justiça, para presidente do Instituto de Gestão Financeira e Patrimonial da Justiça.
Em termos substantivos, António Morais, Ana Morais e Horácio Luís de Carvalho foram acusados dos crimes de corrupção e branqueamento de capitais, mas o processo ainda tem muita 'estrada' para percorrer. [...]
A estratégia de defesa não saiu vencedora, pois em Maio de 2009 os acusados foram pronunciados. Sobrou — e certamente não é despiciendo! — a marcação da primeira audiência de julgamento para 14 de Outubro de 2009, isto é, para depois das eleições legislativas, sendo que o primeiro-ministro é uma das testemunhas chamadas a depor.
A actual situação processual da "Cova da Beira" não evitou o acumular de dúvidas. José António Cerejo, o jornalista que mais investigou o caso, deixou perguntas capitais [cf. "Investigação da Cova da Beira durou 10 anos e deixou muito por explicar", Público, 14/3/09] que ainda ninguém quis ou conseguiu esclarecer:
"Por que razão é que a investigação demorou dez anos?;
Por que é que o antigo motorista Jorge Pombo nunca foi inquirido, apesar de na Averiguação Preventiva ter relatado informalmente à Polícia Judiciária (PJ) factos relevantes, nomeadamente as idas e vindas de várias pessoas envolvidas no caso e conduzidas por ele ao gabinete de José Sócrates e aos escritórios da HLC e de António Morais, todos em Lisboa?;
Por que é que Augusto Teixeira, antigo director delegado da Associação de Municípios da Cova da Beira, que foi o único a votar contra a intenção de adjudicar o aterro à HLC, e que foi presidente da Câmara da Covilhã pelo PS, só foi inquirido formalmente em 2007, já com 85 anos e depois de ser acometido pela doença de Parkinson?;
Por que é que João José Cristóvão, ex-assessor de Pombo, nunca foi inquirido, apesar de ser amplamente referido no decurso da Averiguação Preventiva e ser autor de um documento, datado de Março de 1998 e apreendido no gabinete de Horácio de Carvalho, em que diz que vai ter uma 'reunião com o Sócrates'?;
Foi encontrada alguma explicação para o convite feito à empresa de Morais e às duas empresas de Silvino Alves, todas de Lisboa, para assessorar o concurso?;
Uma peritagem da PJ concluiu, em 2002, que as mudanças de localização do aterro, em 1998, implicaram elevados custos adicionais e beneficiaram sobretudo a HLC. Esses custos foram suportados pela Associação de Municípios da Cova da Beira por decisão do coordenador do projecto escolhido por Sócrates. O assunto foi investigado?
José Sócrates alguma vez foi ouvido no âmbito do processo?;
Foram feitas escutas telefónicas no decurso da investigação?;
Houve pagamentos adiantados à HLC com base em autos de medição de obra falsos?;
A investigação seguiu a pista das numerosas adjudicações do Gabinete de Estudos e Planeamento de Instalações do Ministério da Administração Interna (GEPI), dirigido por Morais, à Conegil e a empresas ligadas a Armando Trindade e Silvino Alves?".
A transcrição do rol de questões impressiona, sobretudo quando ficamos a saber que o governante nem sequer chegou a ser ouvido em sede do processo... E releva uma nova questão: é possível ter alguma confiança num MP que remata assim um processo para as calendas da sua autonomia imperial? A confirmar-se que o procurador-geral da República, Fernando Pinto Monteiro, à data da publicação daquele artigo, não tomou qualquer medida no âmbito processual e/ou disciplinar para apurar responsabilidades internas, a resposta só pode ser não!
José Sócrates saiu ileso de toda esta extraordinária investigação, depois do arquivamento pelo MP de todos os indícios que lhe diziam respeito, mas não se livrou — e não se livra! — do ónus de ter tutelado áreas de actividade — o Ambiente e o Ordenamento do Território — em que se multiplicaram suspeições. E ainda a 'procissão' ia no adro, como se verá a propósito de inúmeros negócios públicos nos últimos quinze anos, magistralmente observados por Helena Matos, em "Os áugures num país de primos" [cf. Público, 5/2/09].»
Rui Costa Pinto, José Sócrates - o Homem e o Líder, Exclusivo Edições, pp. 34-36.

Quinta da Clássica - Joseph Haydn

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O Manifesto noticiado no sítio do jornal Público


Avaliação tem que ser suspensa já, apelam blogues e movimentos de professores

21.10.2009 - 10:58 Por Clara Viana, C.V.

“Não podemos esperar mais”. O alerta partiu hoje de seis blogues animados por docentes e quatro movimentos independentes de professores, que subscrevem um manifesto em prol da suspensão urgente do modelo de avaliação.
O "ambiente crispado promete agudizar-se" nas escolas
“Independentemente das alternativas que importa construir de forma ponderada, é urgente que a Assembleia da República decida sem demoras parar já com as principais medidas que desestabilizaram a educação, sob pena de arrastar o conflito em cada escola e nas ruas”. No manifesto recorda-se que, “se até lá nada for feito”, as escolas terão, por lei, de fixar o calendário de avaliação docente até ao próximo dia 31. Um cenário que está a agudizar o “ambiente crispado e negativo” nas escolas.
O PCP, o Bloco de Esquerda e os Verdes já entregaram no Parlamento novas propostas com vista à suspensão do modelo de avaliação e ao fim da divisão da carreira entre titulares e não titulares. Conforme o PÚBLICO noticia na sua edição de hoje, a oposição no conjunto deverá apoiar estes objectivos, votando a suspensão num primeiro momento e deixando para depois a apresentação de alternativas tanto ao modelo de avaliação, como ao Estatuto da Carreira Docente, que consignou a divisão entre titulares e não titulares.
Estas medidas "criaram o caos na escola", frisam os subscritores do manifesto, que acrescentam: "A burocracia, a desconfiança e o autoritarismo jogam contra a melhoria das aprendizagens. Quem perde é a escola pública".
O documento é subscrito pelos blogues A Educação do Meu Umbigo, ProfAvaliação, Correntes, (Re)flexões, Outròlhar, O Estado da Educação; e pelos movimentos APEDE, MUP, Promova e MEP. O Promova apelou também hoje às escolas e professores para enviarem emails aos grupos parlamentares do PSD, CDS/PP, BE e PCP, manifestando a sua “expectativa e o empenho em verem revogadas aquelas medidas, com a maior urgência possível”.

MANIFESTO

A escola não pode esperar mais

O actual modelo de avaliação de professores e a divisão arbitrária da carreira em duas categorias criaram o caos nas escolas. A burocracia, a desconfiança e o autoritarismo jogam contra a melhoria das aprendizagens e contra a dedicação total dos professores aos seus alunos. Quem perde é a escola pública de qualidade.

Este ambiente crispado e negativo promete agudizar-se nas próximas semanas. Com efeito, até ao dia 31 de Outubro, se até lá nada for feito, as escolas estão obrigadas por lei a fixar o calendário da avaliação docente para o ano lectivo que agora começou. Pior ainda, sucedem-se os Directores que teimam em recusar avaliar os docentes que não entregaram os objectivos individuais, aumentando a instabilidade e a revolta.

Independentemente das alternativas que importa construir de forma ponderada, é urgente que a Assembleia da República decida sem demoras parar já com as principais medidas que desestabilizaram a Educação, sob pena de arrastar o conflito em cada escola e nas ruas.

Porque a escola não pode esperar mais, os subscritores deste manifesto apelam à Assembleia da República que assuma como uma prioridade pública a suspensão imediata do actual modelo de avaliação de professores, a revogação de todas as penalizações para os que não entregaram os objectivos individuais e o fim da divisão da carreira docente. Sem perder mais tempo.

Não podemos esperar mais. A Educação também não.


Subscrevem

Os blogues: A Educação do Meu Umbigo (Paulo Guinote), ProfAvaliação (Ramiro Marques), Correntes (Paulo Prudêncio), (Re)Flexões (Francisco Santos), Outròólhar (Miguel Pinto), O Estado da Educação e do Resto (Mário Carneiro), O Cartel (Goretti Moreira), Octávio V Gonçalves (Octávio Gonçalves), Educação S. A. (Reitor), Escola do Presente (Safira), Pérola de Cultura (Lelé Batita).

Os movimentos: APEDE (Associação de Professores em Defesa do Ensino), MUP (Movimento Mobilização e Unidade dos Professores), Promova (Movimento de Valorização dos Professores), MEP (Movimento Escola Pública).

Às quartas

Oriente

Este lugar amou perdidamente
Quem o cabo rondou do extremo Sul
E a costa indo seguindo para Oriente
Viu as ilhas azuis do mar azul
............................................................

Viu pérolas safiras e corais
E a grande noite parada e transparente
Viu cidades nações viu passar gente
De leve passo e gestos musicais

Perfumes e tempero descobriu
E danças moduladas por vestidos
Sedosos flutuantes e compridos
E outro nasceu de tudo quanto viu
..........................................................

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Retratos de Sócrates (5)

«A passagem de José Sócrates pela secretaria de Estado do Ambiente, no primeiro governo de António Guterres, ficou marcada por este dossiê polémico ["Caso da Cova da Beira"]. Um processo de adjudicação, dinheiros públicos e comunitários, vários amigos, entre os quais um de "há mais de vinte anos", e uma autarquia socialista estiveram na origem do embaraço, o primeiro de muitos outros.
A investigação do processo arrastou-se ao longo de mais de sete anos. Repito, sete ano e seis meses, para ser mais preciso, pois as investigações só foram concluídas em meados de Outubro de 2006! E por uma razão exógena ao processo. Os desenvolvimentos da investigação só foram conhecidos, publicamente, depois de ter rebentado o escândalo da licenciatura de José Sócrates na "Universidade Independente", em 2007, outro dos casos paradigmáticos que entenebreceram o seu percurso político.
A existência de protagonistas comuns aos dois casos, nomeadamente António Morais (professor universitário que aderiu ao Partido Socialista, em 1991), veio a ser deslindada através de uma notável e persistente investigação de um jornalista (José António Cerejo do matutino "Público"), obrigando a justiça a acelerar o passo. [...]
Entretanto, o processo seguiu os seus trâmites... ou seja, treze anos depois do concurso e de quatro cartas anónimas cheias de detalhes, a justiça ainda não conseguiu inocentar os acusados ou condenar os culpados [...].
As culpas de tal lentidão couberam à PJ e ao MP? Em parte, sim. Mas é preciso não esquecer que não há milagres. A principal polícia de investigação criminal depende do Ministério da Justiça, isto é, depende do poder político, situação que pode, em tese, facilitar ou influenciar o curso das investigações, como veremos mais à frente, com as sucessivas interferências e demissões na sua cúpula.
A conclusão lógica só pode ser uma: os casos de corrupção em que [José Sócrates] esteve, — e está! —, envolvido, directa ou indirectamente, demoraram sempre muito tempo a ser investigados. Na verdade, permaneceram — e permanecem! — numa espécie de limbo durante anos a fio [...].
Os contactos que [José Sócrates] foi fazendo nos mais diversos departamentos de Estado, calma e paulatinamente, podem não o ter favorecido, mas seguramente que lhe poderiam ter permitido estar, permanentemente, muito bem informado. Não é crime ter amigos na justiça, por isso, e até por causa de outros casos, destaco um: Leones Dantas (Procurador-geral adjunto. Esteve envolvido no processo de Teresa Sousa, funcionária da PGR, detida no âmbito do "Caso Albarran"). O ex-chefe de Gabinete do então procurador-geral da República, José Souto Moura, sempre foi referenciado com um dos seus próximos. Será o único? Não. António Luís Santos (Ex-inspector geral do Ambiente) é outro dos magistrados das relações de José Sócrates, desde o tempo em que se cruzaram no Ministério do Ambiente. Terá este magistrado, ou qualquer outro agente judiciário, sido um trunfo para estar sempre um passo à frente dos acontecimentos? [...]
O "Caso Cova da Beira" serve também para encontrar outra coincidência: a 'estrela' do "guterrismo" esteve — e continua a estar! — sempre no 'olho' do furacão. [...]
Rui Costa Pinto, José Sócrates - o Homem e o Líder, Exclusivo Edições, pp. 29-32.

Bonecos de palavra

Para ampliar, clicar na imagem.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Registos do fim-de-semana

Oposição quer rever já avaliação de professores
e cálculo das pensões


Implosão do estádio do Euro gera polémica
Público (16/10/09)

1004 edifícios à espera
— Monumentos acabam por ruir antes de chegarem a património nacional —

Eólicas e amortização de dívidas dos consumidores fazem subir electricidade
Sol (16/10/09)

Estado não cobrou €2,3 mil milhões a fabricantes de armas

Emigram de Portugal uma centena de licenciados por mês

Carvalho da Silva combinou encontro com António Costa

Fisco precisa de cobrar €105 milhões por dia para cumprir défice

[PT] De mão dada com o poder político
Expresso (17/10/09)

Estado falhou na fiscalização do negócio dos submarinos

Helena Roseta pede ao Parlamento que revogue negócio do terminal de Alcântara
Público (17/10/09)

«Os meus animais são mais bem tratados que os pobres deste país» [Victor Hugo Cardinali]
i (17/10/09)

Portugal com boa velocidade, mas na cauda da Europa em banda larga

Relatório coloca Portugal entre os países que menos têm feito para combater a fome no mundo
Público(18/10/09)

Gostei de ler

«O papel que Carvalho da Silva tem jogado nos bastidores da política portuguesa parece-me eticamente duvidoso, envolvido que está em combinações mais ou menos secretas, cuja intencionalidade e objectivos são muito pouco transparentes e tendo em conta que dificilmente interpreta o posicionamento maioritário daqueles que representa e o catapultaram a figura pública (certamente com direito a opinar e a decidir enquanto cidadão, mas devendo fazê-lo às claras, sem dissimulações teatrais e sem recurso a meias verdades).
É que as “negociatas” de bastidores com o PS não se restringiram, pelos vistos, à Câmara de Lisboa, pois não foi desmentida a sua intervenção no famigerado “memorando de entendimento”, cozinhado com o ministro Vieira da Silva, com todas as consequências desastrosas que o mesmo teve na prorrogação para lá do admissível da conflitualidade entre professores e ministério da Educação.
O que vale é que, neste caso específico, está tudo para ir às "Silvas", pois os professores e os seus movimentos independentes (e posteriormente a Fenprof, a FNE e o próprio Mário Nogueira) cavaram o "desentendimento" e entornaram o caldinho da "gente controla a coisa".
Tenho para mim que os professores (a ministra da Educação tinha sido afastada e tudo já estaria resolvido se não fosse o “memorando de entendimento”, que sacrificava incompreensivelmente a substância nefasta das medidas ao tempo e à logística da sua implementação), os lisboetas e muitos dirigentes, militantes e simpatizantes do PCP (amputou-se o crescimento do PCP em Lisboa e o seu papel decisivo na Câmara) mereciam muito mais do que esta política subterrânea e obscura de "toupeira", mesmo que com uma ou outra saída a terreiro, nem que mais não seja para tomar um café na Brasileira.
Celebrem os entendimentos que quiserem e transaccionem os apoios ou influências que achem por bem, mas, por favor, façam-no sob luz diurna e não procurem fazer de nós os "burros" da praxe (ou será da praxis?!).
É tempo de os partidos à esquerda do PS saírem da menoridade e da pequenez que a procura da sombra do PS projecta e calcinarem de vez a “muleta” com que alguns (felizmente, não a maioria) dão a sensação de quererem pautar a sua intervenção política.»

domingo, 18 de outubro de 2009

Pensamentos de domingo

No Teatro Rada aprendi duas coisas: Uma foi que não tinha talento e a outra que isso não tinha importância.»
Alfred Hyde White

«Na Califórnia o lixo não se deita fora — dele fazem séries de televisão.»
Woody Allen

«Temos de dizer a verdade aos nossos amigos, por mais agradável que ela seja.»
Magnus Von Platen
In José Manuel Veiga, Manual para Cínicos

Wayne Shorter

sábado, 17 de outubro de 2009

Ao sábado: momento quase filosófico

Acerca das Distinções Teológicas (II)

«O subgénero de piadas de sectarismo preferido por todos é, evidentemente, a piada da Contra-Reforma. A colectânea básica de grandes piadas da Contra~Reforma contém sempre a que se segue:
Um homem está em grandes apuros financeiros e reza a Deus para que o salve, permitindo-lhe ganhar a lotaria.
Passam-se dias, depois semanas, e o homem não consegue ganhar um único prémio. Por fim, na miséria, grita para Deus:
— Tu dizes-nos: "Batei e a porta será aberta. Procurai e encontrareis." Estou a ir por água abaixo e ainda não ganhei a lotaria!
Uma voz do alto responde:
— Tens de te encontrar comigo a meio caminho, meu! Compra um bilhete!
Este homem era claramente um protestante que, como Martin Luther, pensava que somos salvos apenas pela graça; que não podemos fazer nada para obter a salvação. Por outro lado, apesar da utilização apta de palavra "meu", neste caso, Deus está a levar água para a Contra-Reforma católica. Na verdade, esta piada pode muito bem ter tido origem no Concílio de Trento, em 1545, onde os bispos decidiram que a salvação surge através de uma combinação de graça e obras, oração e comprar um bilhete.
Uma crença que todas as comunidades religiosas têm em comum é que apenas a sua própria teologia é o caminho mais rápido para o divino.
Um homem chega às portas do céu e São Pedro pergunta-lhe:
— Religião?
— Metodista — responde o homem.
São Pedro olha a lista e diz:
— Vá para a sala vinte e oito, mas não faça barulho quando passar pela sala oito.
Outro homem chega às portas do céu.
— Religião?
— Baptista.
— Vá para a sala dezoito, mas não faça baruljo quando passar pela sala oito.
Um terceiro homem chega às portas.
— Religião?
— Judeu.
— Vá para a sala onze, mas não faça barulho quando passar pela sala oito.
— Até posso compreender que haja salas diferentes para religiões diferentes — diz o homem —, mas porque é que não posso fazer barulho quando passar pela sala oito?
— As Testemunhas de Jeová estão na sala oito — explica São Pedro — e pensam que são os únicos que estão aqui.»
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar...

Rankings

O relevo que a comunicação social dá aos rankings das escolas evidencia bem o estado de superficialidade em que vivemos e a que moda as elites, que têm poder no nosso país, estão vinculadas. A argumentação a favor da elaboração dos rankings é confrangedoramente pobre e deliberadamente falaciosa: 1. os rankings fazem justiça pois premeiam quem tem mérito; 2. os rankings promovem uma salutar competitividade entre as escolas; 3. os rankings incentivam à melhoria das piores classificadas; 4. os rankings informam os pais da qualidade das escolas. Basicamente é isto.
É isto e tudo isto é falso. Contudo, tudo isto passa para a opinião pública como sendo um conjunto de verdades óbvias. Os publicistas destes argumentículos, quando, nesta altura do ano, colocam ou lêem nos jornais estes rankings, vivem o seu momento único de prazer. Cegos por meia dúzia de dogmas ideológicos, julgam ter encontrado nos rankings o Santo Graal, na versão educativa. Pouco importa se aquilo que defendem tem alguma correspondência com a realidade. Fazer esse teste, proceder a esse escrutínio não é pertinente, nem relevante. O mito da competividade, enquanto sagrado motor da evolução, remédio de todos os males e salvador da humanidade, tem de continuar a ser idolatrado custe o que custar, embuste o que embustear. Os dados estão viciados e compara-se o que não tem comparação? Que importa? Vale tudo. Veja-se.
O Colégio Nossa Sra. do Rosário, do Porto, é, pelo segundo ano consecutivo, a primeira escola, a nível nacional, do ranking de alguns jornais. Este colégio particular situa-se na Avenida da Boavista, numa área dominada por famílias de nível sócio-económico elevado. A maioria dos alunos que frequentam aquele colégio é oriunda dessas famílias.
A Escola Básica e Secundária do Cerco, do Porto, está entre as vinte piores escolas, a nível nacional, no ranking de alguns jornais. Esta escola pública situa-se na zona do bairro do Cerco, junto à Estrada da Circunvalação. É um bairro de habitação social, já famoso pelas piores razões. A maioria dos alunos que frequentam aquela escola é oriunda de famílias de nível sócio-económico muito baixo, muitas delas desestruturadas e outras atingidas pela toxicodependência e pelo crime.
São estas realidades que são comparadas nos famosos rankings das escolas, como se fossem realidades que se pudessem comparar.
Esta comparação ilucida-nos alguma coisa quanto à qualidade de uma e outra escola? Ilucida-nos nada. Ilucida-nos alguma coisa quanto ao mérito do trabalho desenvolvido em cada uma das escolas? Ilucida-nos nada. Esta comparação é credível? Não é. Esta comparação é séria? Não é. Quem faz estes rankings sabe que isto não é credível nem é sério? Sabe.
Sabe e continua a fazê-lo, ano após ano, vergonhosamente.
Vergonhosamente, porque estes rankings mentem acerca das realidades escolares e enganam os pais dos alunos.
As nossas elites sempre foram, salvo raras excepções, medíocres. E as elites que dominam os nossos jornais não fogem à regra. Alimentam e alimentam-se do mito da competitividade e do mito da redução da realidade a números, a fórmulas, a classificações, ou, se se preferir, a folhas de Excel. As cabeças que vêem na folha de Excel a sua máxima realização intelectual são as cabeças da moda. Formatadas na superficialidade querem fazer das suas limitações as limitações do país.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Fragmenti veneris diei

«Mas ele, Ramos, não era um homem tranquilo. Inquietavam-no as certezas absolutas mas não sabia como contrariá-las. Aos vinte e um anos uma certeza absoluta é a coisa mais invejável que se pode ter, tal como a superioridade moral, uma camisa sem nódoas, o cabelo penteado, os vincos das calças, uma voz grossa, de tenor. Ele não sabia o que era uma voz de tenor, ligeiramente rouca, nunca tinha ouvido ópera, mas seria de um tenor que fumava Kart, os cigarros que dão quilómetros de prazer. Fontoura nunca repetia o prato às refeições, nunca tomava mais de um café, não ficava acordado até tarde. Jaime Ramos invejava essa disciplina, os sapatos engraxados para os domingos de dispensa de serviço, o pente escondido no bolso de trás das calças, os livros arrumados junto da cama, a caneta Bic Laranja no bolso da camisa branca, a escova de dentes limpa, a superioridade de um homem que raramente bebia mais de duas cervejas e que tinha um ascendente desconhecido sobre os milicianos que chegavam à Guiné para visitar uma guerra de que desconfiavam. Fontoura não desconfiava da guerra. Ao contrário de Ramos, que caíra em combate e passara um mês de baixa, primeiro no hospital, depois arrastando-se pelas duas esplanadas do centro de Bissau, Fontoura era um homem determinado com um horário preciso para as suas tarefas do dia-a-dia: escrever cartas, ler, sentar-se ao canto da parada, no quartel, observando como chegava até ali a luz do crepúsculo. Ele via-o, sentado, ao canto da parada — uma estátua, um perfil iluminado pela luz do crepúsculo, silencioso e superior diante dos seus vinte e um anos e daquela surdez prematura de que só despertava aos domingos, para escutar relatos de futebol na rádio.»
Francisco José Viegas, O Mar em Casablanca, pp. 71-72.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A publicidade e a realidade

Um estudo, hoje divulgado no jornal i, revela que cerca de 30% dos alunos do 3.º ciclo corre o risco de reprovar.
O mesmo jornal divulga as conclusões do último relatório do Observatório Permanente da Justiça, que, segundo o i, arrasam a justiça portuguesa (da reforma penal à formação dos magistrados).
O jornal Público, por sua vez, titula, na primeira página, que o investimento público ficou longe das metas anunciadas pelo Governo.
São três notícias que revelam uma realidade oposta àquela que é engendrada pelo primeiro-ministro. Entre aquilo que o Governo publicita e aquilo que o país é vai sempre uma distância enorme.
Sempre.

Quinta da Clássica - Gustav Mahler

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Às quartas

Guitarra

Começa o choro
da guitarra.
Partem-se as copas
da madrugada.
Começa o choro
da guitarra.
É inútil calá-la.
É impossível
calá-la.
Chora monótona
como chora a água,
como chora o vento
sobre a nevada.
É impossível
calá-la.
Chora por coisas
distantes.
Areia quente do Sul
pedindo camélias brancas.
Chora a flecha sem alvo,
a tarde sem manhã,
e o primeiro pássaro morto
nas ramadas.
Oh, guitarra!
Coração malferido
por cinco espadas.

Frederico Garcia Lorca
(Trad.: Eugénio de Andrade)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Retratos de Sócrates (4)

«Hoje, ainda não sei quem inventou e enviou a carta anónima. Até posso desconfiar, mas não o posso provar. Assim, e para estabelecer um padrão de coincidências, limito-me a descrever duas que me levaram a ter suspeitas, puramente lógicas, em que o papel principal foi desempenhado por Maria Rui Fonseca, então minha amiga pessoal e assessora de José Sócrates.
A primeira coincidência ocorreu a seguir ao incidente telefónico com o então ministro adjunto. Fui convidado para jantar no "Alcântara Café". Considerei o gesto normal, tanto mais que os contactos com a assessora eram regulares. A conversa decorreu calma e agradavelmente, apesar do tema de fundo versar a própria notícia sobre a "Cova da Beira", cuja publicação o 'patrão' tinha evitado no último minuto. [...] O que me espantou, e me colocou de sobreaviso, foi o facto da então assessora ter deixado cair uma frase enigmática: " Quando fores alvo de uma carta anónima é que vais sentir como elas doem». Fiquei atónito, mas desvalorizei o assunto, pois nunca me passou pela cabeça que tal suposição se viesse a revelar tão certeira.
Uns dias depois lá chegou a tal carta anónima. Confesso que fiquei siderado! Não pelas insinuações alarves, mas pela sequência dos acontecimentos.
A segunda coincidência ainda foi mais elucidativa: o gabinete do então ministro adjunto também tinha recebido um exemplar da carta anónima, contudo as pessoas com quem falava regularmente nunca me alertaram.»
Rui Costa Pinto, José Sócrates - o Homem e o Líder, Exclusivo Edições, pp. 25-26.

Registos do fim-de-semana

Educação é primeiro teste à nova maioria

"Ajudei a pagar a hospitalização de Salazar" (José Hermano Saraiva)

Cravinho e Soares lançam Guterres para Belém

Ferro perde recurso na Casa Pia
Sol (9/10/09)

Carvalho da Silva dá passo de afastamento do PCP

Ferreira Leite recusa "ajuda envergonhada" a Sócrates

Médico critica violência verbal usada no combate político
Público (9/10/09)

Parlamento abre com a vingança dos professores

Por que razão continuam a votar em suspeitos?

Eurodeputados gastam mais 30 milhões em despesas
Expresso (9/10/09)

Caso TVI discutido em Bruxelas

PS sem apoios para formar governo
i (9/10/09)


Erro no recenseamento obriga milhares de eleitores a votar fora das suas freguesias

Há alunos que têm aulas em estádios, igrejas e quartéis

Praias algarvias fecham no final do mês,
apesar de se promover sol e praia todo o ano

Público (11/10/09)

domingo, 11 de outubro de 2009

Pensamentos de domingo

«Os leões não são perigosos pois não têm ideais, nem religião, nem credo político, nem cavalheirismo ou preocupações de linhagem. Em suma, não há motivos para que eles destruam qualquer coisa que não queiram comer.»
Bernard Shaw

«Perguntar a um escritor o que ele pensa dos críticos é o mesmo que perguntar a um poste o que pensa dos cães.»
Cristopher Hampton

«Eu tenho a maior confiança na sua indiscrição.»
Sidney Smith
In José Manuel Veiga, Manual para Cínicos

Joe Henderson

sábado, 10 de outubro de 2009

Ao sábado: momento quase filosófico

Acerca das Distinções Teológicas
Segundo o filósofo e teólogo do século XX, Paul Tillich, a diferença entre filosofia da religião e teologia [...] [assenta no seguinte:] o filósofo busca a verdade acerca de Deus e das coisas divinas o mais objectivamente possível, ao passo que o teólogo está "agarrado pela fé" e comprometido e empenhado. Dito de outra forma, o filósofo da religião olha para Deus e para a religião do exterior enquanto o teólogo olha para eles do interior.
Na teologia, os cismas surgiram devido a questões tão prementes como "O Espírito procede do Pai ou do Pai e do Filho?". O leigo necessita claramente de um guia simples para as diferenças teológicas e, graças a Deus, os comediantes estão sempre dispostos a fazer-lhe a vontade. Afinal, a chave para determinar a persuasão religiosa de uma pessoa é quem ela reconhece ou não reconhece:
Os judeus não reconhecem Jesus.
Os protestantes não reconhecem o papa.

Os baptistas não se reconhecem uns aos outros numa loja de bebidas alcoólicas.

Este último ponto traduz-se num conselho muito prático. Se forem à pesca, não convidem um baptista; ele beberá a cerveja toda. Porém, se convidarem dois baptistas, terão a cerveja toda para vocês. [...]
Mas falando a sério, amigos, existem diferenças doutrinais importantes entre as comunidades religiosas. Por exemplo, apenas os católicos acreditam na Imaculada Conceição, a doutrina de que, para poder conceber o Senhor, a própria Maria foi concebida sem a mancha do Pecado Original.
Jesus caminhava pelas ruas quando reparou numa multidão que atirava pedras a uma adúltera.
— Quem nunca pecou que atire a primeira pedra — disse Jesus.

De repente, uma pedra voou pelo ar.
Jesus voltou-se e exclamou:

— Mãe?
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Fragmenti veneris diei

«Toda a gente conhece Larus. Tinham-me dito que, se eu quisesse compreender a criatividade exuberante dos islandeses, tinha de falar com Larus. [...]
Dizer que Larus tem uma educação eclética é como dizer que Roger Federer leva o ténis na brincadeira. Com os seus quarenta e poucos anos, Larus ganhou a vida como jogador de xadrez, mas também como jornalista, gerente de uma empresa de construção, teólogo e, agora, produtor de música.
— Eu sei — pressentindo a minha incredulidade. — Mas este tipo de currículo é perfeitamente normal na Islândia.
Ter múltiplas identidades (mas não múltiplas personalidades) é, está ele convencido, favorável à felicidade. Esta ideia é contrária à crença que prevalece nos Estados Unidos, e noutros países ocidentais, segundo a qual a especialização é considerada o bem mais precioso. Académicos, médicos e outros profissionais dedicam a vida inteira a aprender mais e mais acerca de menos e menos. Na Islândia, as pessoas aprendem mais e mais acerca de mais e mais.
Peço a Larus que me fale sobre a efervescência criativa que se sente no ar de Reiquiavique. De onde provém — e como é que posso arranjar alguma?
Ele empurra os óculos contra o nariz.
— Inveja
— O que é que tem?
— Não há muita na Islândia.
A falta de inveja de que ele está a falar é ligeiramente diferente daquela que vi na Suíça. Os suíços acabam com a inveja, escondendo as coisas. Os islandeses põem fim à inveja partilhando-as. Os músicos islandeses ajudam-se mutuamente, explica Laarus. Se uma banda precisa de um amplificador ou de uma guitarra solo, há sempre uma outra banda disposta a ajudar, e sem fazer perguntas. Também as ideias circulam livremente, sem serem dificultadas pela inveja, o mais tóxico dos sete pecados mortais. [...]
Esta relativa falta de inveja é um sinal inequívoco de uma Idade de Ouro, comenta Peter Hall. Na passagem que se segue, Hall está a descrever a Paris do virar do século, mas poderia, muito bem, estar a descrever a Reiquiavique do século XXI: "Viviam e trabalhavam em conjunto. Qualquer inovação, qualquer nova tendência, era de imediato conhecida, e poderia ser livremente incorporada no trabalho de qualquer outro." Por outras palavras, os artistas parisienses de 1900 acreditavam no software livre. É o que acontece com os islandeses. É claro que também competem entre si, mas no sentido original da palavra. A raiz da palavra "competir" encontra-se no latim competure, que significa "procurar com".
Muito bem, encontrei mais uma peça do puzzle. Inveja mínima. Mas continuo a achar que me está a escapar qualquer coisa. Como é possível que este país minúsculo produza, per capita, mais artista e escritores do que qualquer outro?
— Isso deve-se ao insucesso — explica Larus, empurrando os óculos com força contra a cana do nariz.
— Insucesso?!
— Sim. Na Islândia, o insucesso não acarreta um estigma. Na verdade, nós, em certa medida, até admiramos os insucessos.
— Admiram os insucessos?! Isso parece... absurdo. Ninguém admira o insucesso.
— Deixe-me colocar a questão de outra forma. Gostamos das pessoas que falham quando elas falham com as melhores intenções. Talvez tenham falhado porque não eram suficientemente implacáveis, por exemplo.
Quanto mais pensava nisto, mais sentido me fazia. Porque, se somos livres de falhar, somos livres de tentar.»
Eric Weiner, A Geografia da Felicidade, Lua de Papel, pp. 190-192.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A incompetência não é só na Educação também é nas Finanças

O jornal i noticia hoje que o Estado perde entre 50 a 75% das acções movidas pelos contribuintes. É uma cifra inadmissível.
É inadmissível porque ela significa uma de duas coisas (e nenhuma das possibilidades é aceitável): ou a máquina fiscal é incompetente a calcular os impostos, cobrando deliberadamente por excesso e sem o mínimo de respeito pelo contribuinte, seja ele pessoa individual ou colectiva, provocando o litígio e a justa contestação; ou a máquina fiscal não é incompetente a calcular e a cobrar os impostos, mas é incompetente a defender e a fundamentar as cobranças que faz, e perde indevidamente os processos nos tribunais. Nenhuma das alternativas tem atenuantes.
E quem paga toda esta incompetência é, como não poderia deixar de ser, o contribuinte. Exactamente aquele a quem o Ministério das Finanças procura, segundo os tribunais: ilegalmente, sacar dinheiro.
E responsáveis por isto, há? Quem são? São responsáveis técnicos ou são responsáveis políticos? É pouco crível que haja tanta incompetência técnica no Ministério das Finanças. É mais plausível que as directivas políticas sejam de tal modo obsessivas na procura desenfreada de obter receitas que o critério imposto aos serviços tenha passado a ser: «disparar primeiro e perguntar depois».
Entretanto, nos períodos eleitorais, esta sanha de autoritarismo arbitrário (transversal a quase todos os Ministérios: por exemplo, Educação, Administração Interna, Justiça, Finanças, Agricultura) dá lugar a sorrisos complacentes e a discursos repletos de promessas humanistas e de justiça social.
E como a memória é curta, — tudo o que tenha para além de três meses de existência é esquecido —, lá se consegue chegar aos trinta e tal por cento, no dia da votação.

Quinta da Clássica - Gaetano Donizetti

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

PROmova inicia operação «COMPROMISSO EDUCAÇÃO É PRA VALER»

Num momento político único em que todos os partidos da oposição subscreveram o COMPROMISSO EDUCAÇÃO e vêm reafirmando, publicamente, a vontade de concretizarem as principais reivindicações dos professores através de iniciativas legislativas no Parlamento, onde garantiram uma maioria absoluta, é importante que as escolas/agrupamentos e os professores e educadores façam chegar aos Grupos Parlamentares a expectativa e o empenho em verem revogadas, com a maior urgência possível, a divisão da carreira e a implementação do modelo de avaliação do desempenho em vigor.
Para a obtenção deste efeito, o PROmova desencadeia a partir de hoje a operação "COMPROMISSO EDUCAÇÃO É PRA VALER", disponibilizando textos modelos (meras propostas) e incentivando todos os professores/educadores, sindicatos e movimentos a organizarem subscrições colectivas destes textos, escola a escola, de forma a que os mesmos possam ser remetidos aos Grupos Parlamentares dos partidos da oposição, logo que arranquem os trabalhos parlamentares.
Naquelas escolas/agrupamentos em que não seja possível, por medo, acomodação ou falta de organização/liderança, desencadear a dinâmica que permita aos professores e educadores subscreverem o texto colectivo, estes podem sempre remeter a sua própria posição pessoal, utilizando, para o efeito, o texto relativo à "Posição Individual".
É muito importante que à tomada de posição colectiva ou individual se anexe, para envio, o documento do COMPROMISSO EDUCAÇÃO que aqui é, igualmente, disponibilizado.
Os endereços dos grupos parlamentares são os seguintes:
Grupo Parlamentar PSD: gp_psd@psd.parlamento.pt
Grupo Parlamentar CDS/PP: gp_pp@pp.parlamento.pt
Grupo Parlamentar BE: blocoar@ar.parlamento.pt
Grupo Parlamentar PCP: gp_pcp@pcp.parlamento.pt

As subscrições dos textos podem começar a ser desencadeadas desde já, devendo depois aguardar-se pelo início da nova legislatura e pela tomada de posse dos novos deputados para as mesmas serem enviadas.
Por fim, o PROmova agradece que as escolas/agrupamentos e os professores nos dêem conhecimento dos envios efectuados para o e-mail profsmovimento@gmail.com
Valeu e continua a valer a pena a mobilização de todos, porque o objectivo está quase atingido!...
Clicar aqui para ler e copiar os textos.