«A forma como a globalização tem sido gerida tem conduzido a salários ainda mais baixos, visto que o poder de negociação dos trabalhadores foi destruído. Com o capital altamente móvel — e com as tarifas baixas —, uma empresa pode simplesmente comunicar aos seus trabalhadores que, caso estes não aceitem menores salários e piores condições laborais, ela fecha e vai para outro lado. Para vermos como uma globalização assimétrica pode afetar o poder de negociação, imaginemos, por um momento, como seria o mundo caso houvesse livre mobilidade laboral, mas nenhuma mobilidade de capital. Os países competiriam para atrair trabalhadores. Prometeriam boas escolas e um bom ambiente, assim como impostos baixos sobre os trabalhadores. Isto podia ser financiado por impostos altos sobre o capital. Mas não é esse o mundo onde vivemos, e isso acontece, em parte, porque os 1% não querem que assim seja.»Joseph E. Stiglitz, O Preço da Desigualdade, Bertrand Editora.
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sábado, 13 de setembro de 2014
Trechos — Joseph Stiglitz (14)
sábado, 14 de junho de 2014
Trechos — Joseph Stiglitz (13)
«A ironia é que durante as crises financeiras quem suporta os custos são os trabalhadores e as pequenas empresas. As crises vêm acompanhadas por altas taxas de desemprego que fazem baixar os salários, pelo que os trabalhadores sofrem a dobrar. Em crises anteriores, o FMI (como é habitual, com o apoio do Tesouro dos EUA) não só insistiu em levar a cabo enormes cortes orçamentais nos países com problemas, convertendo crises em recessões e depressões, como também exigiu liquidação de ativos, altura em que os agentes financeiros atacaram para a matança. No meu livro anterior, Globalization and Its Discontents, descrevi como a Golden Sachs foi uma das vencedoras da crise financeira asiática de 1997, assim como da crise de 2008. Quando nos interrogamos como é possível que as agências financeiras enriqueçam tanto, parte da resposta é simples: ajudaram a redigir uma série de regras que as beneficiam, mesmo nas crises que ajudam a criar.»Joseph E. Stiglitz, O Preço da Desigualdade, Bertrand Editora
quarta-feira, 14 de maio de 2014
Trechos — Joseph Stiglitz (12)
«Esta narrativa à volta das transformações de mercado e do contributo das forças de mercado para uma crescente desigualdade ignora o papel que o Estado desempenha na configuração do dito mercado. Grande parte dos empregos que não foram mecanizados (e que provavelmente não serão tão cedo) pertencem ao setor público, à área do ensino, da saúde e por aí adiante. Se tivéssemos decidido pagar mais aos nossos professores, poderíamos ter atraído e mantido melhores professores, e isso poderia ter melhorado o desempenho económico global a longo prazo. Permitir que os salários da função pública descessem foi uma decisão política.»Joseph E. Stiglitz, O Preço da Desigualdade, Bertrand Editora.
domingo, 27 de abril de 2014
Trechos — Joseph Stiglitz (11)
«O capitalismo moderno tornou-se um jogo complexo, e os que o vencem têm de ter mais do que um pouco de inteligência. Porém, os que vencem costumam também ter menos características admiráveis: a capacidade de contornar a lei, ou de moldar a lei a seu favor, a vontade de tirar vantagem dos outros, até dos mais desfavorecidos, e de jogar sujo quando necessário.»Joseph E. Stiglitz, O Preço da Desigualdade, Bertrand Editora.
domingo, 6 de abril de 2014
Trechos — Joseph Stiglitz (10)
«Uma das formas como a elite financeira faz dinheiro é tirando vantagem do seu poder de mercado e poder político para se favorecer, para aumentar os seus rendimentos à custa dos outros.O setor financeiro desenvolveu competências em várias formas de rent-seeking, acumulando dezenas e dezenas de mil milhões de dólares por ano. Já mencionámos algumas, mas há muito mais: tirar vantagens das assimetrias de informação (vendendo seguros que foram criados para falhar, mas sabendo que os compradores não o sabiam); assumir riscos excessivos com o Estado a fornecer a tábua de salvação, socorrendo-os e assumindo as perdas sempre que seja necessário, o que por sua vez lhes faculta o acesso a empréstimos a juros mais baixos [...]Contudo, a forma de rent-seeking mais escandalosa — e que mais tem sido aperfeiçoada nos últimos anos — tem sido a capacidade dos responsáveis pelo setor financeiro de tirar vantagem das camadas mais pobres e mal-informadas, uma vez que obtiveram grandes quantidades de dinheiro saqueando estes grupos com empréstimos predatórios e práticas abusivas em cartões de crédito. Uma pessoa pobre pode ter muito pouco, mas existem tantos pobres que um pouco de cada um equivale a muito. Qualquer sentido de justiça social — ou um mínimo de preocupação com uma eficiência geral — faria com que o Governo proibisse estas actividades.»Joseph E. Stiglitz, O Preço da Desigualdade, Bertrand Editora.
segunda-feira, 24 de março de 2014
Trechos — Joseph Stiglitz (9)
«Adam Smith, pai da economia moderna, defendia que as actividades privadas de interesse pessoal conduziriam, como se de uma mão invisível se tratasse, ao bem-estar de todos. Como consequência da crise financeira, hoje ninguém pode defender que as actividades privadas de interesse pessoal dos banqueiros conduziram ao bem-estar de todos. No máximo, conduziram ao bem-estar dos banqueiros, com o resto da sociedade a suportar os custos.. [...]Os mercados por si só não costumam obter resultados eficientes e desejáveis, e por isso o Estado tem o dever de corrigir estas falhas dos mercados, ou seja, de criar políticas (impostos e regulações) que alinhem os incentivos privados e os retornos sociais. (Claro que existe alguma discordância em relação à melhor forma de o fazer. Mas hoje poucos acreditam em mercados financeiros livres de restrições — as suas falhas impõem um custo grande demais para o resto da sociedade — ou em deixar as empresas dispor do ambiente sem limitações).»Joseph E. Stiglitz, O Preço da Desigualdade, Bertrand Editora.
terça-feira, 11 de março de 2014
Trechos — Joseph Stiglitz (8)
«As políticas de impostos e despesas progressivas (que taxam mais os ricos que os pobres e providenciam sistemas de boa protecção social) podem limitar a extensão da desigualdade. Por contraste, os programas que entregam os recursos de um país aos ricos e a quem tem boas ligações podem aumentar a desiguladade. Boas escolas públicas e impostos elevados sobre heranças podem aumentar a igualdade de oportunidades.O nosso sistema político tem vindo a funcionar cada vez mais de uma forma que aumenta a desigualdade dos resultados e reduz a igualdade de oportunidades. Isto não devia ser surpresa para ninguém: temos um sistema político que dá um poder excessivo aos do topo, e eles têm usado esse poder não só para limitar a extensão da redistribuição, como também para moldar as regras do jogo a seu favor, e para extrair do público o que pode apenas ser chamado de "prendas" avultadas. Os economistas têm um nome para estas actividades: rent-seeking, ou seja, obtenção de rendimentos não como recompensa por se ter criado riqueza mas por açambarcamento de uma fatia excessiva de riqueza que não se produziu. [...] Os ricos do topo aprenderam a extrair dinheiro dos outros com métodos que esses outros mal conhecem — é essa a sua verdadeira inovação.»Joseph E. Stiglitz, O Preço da Desigualdade, Bertrand Editora.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Trechos — Joseph Stiglitz (7)
«A desigualdade [...] não surgiu do nada. Foi criada. As forças do mercado desempenharam um papel, mas não atuaram sozinhas. [...] A desigualdade desmesurada não é inevitável, o que nos dá alguma esperança; contudo, é provável que piore. As forças que têm criado estes resultados são de autorreforço.
Se compreendermos as origens da desigualdade, podemos perceber melhor os custos e os benefícios de a reduzir. A tese que defendo é muito simples: embora as forças de mercado ajudem a moldar o nível de desigualdade, as políticas governamentais moldam essas forças de mercado. Muita da desigualdade atual resulta de políticas governamentais, tanto as que o Governo aplica como as que se abstem de aplicar. O Estado tem o poder de movimentar dinheiro do topo para a base e para o meio, ou vice-versa.»Joseph E. Stiglitz, O Preço da Desigualdade, Bertrand Editora.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Trechos — Joseph Stiglitz (6)
«Os princípios do "mercado livre" conduziram a uma Europa que facilitava a movimentação de capital além-fronteiras. Defendeu-se que fazê-lo melhoraria o desempenho económico; mas os banqueiros e os líderes políticos não se aperceberam da importância dos pormenores. Os bancos sempre receberam subsídios implícitos dos governos — o que se tornou evidente na crise de 2008, quando governo atrás de governo se envolveu em enormes resgates. A confiança no sistema bancário de um país depende da confiança na capacidade e na vontade dos governos em resgatar os bancos nacionais. Mas quando um país é enfraquecido por uma recessão económica, a sua capacidade de resgatar os bancos é enfraquecida, mesmo quando a assistência é mais necessária. A confiança no sistema bancário de um país diminui inevitavelmente; mas o sistema europeu tornou mais fácil a saída de dinheiro de um país — exacerbando a recessão, corroendo ainda mais a confiança no sistema bancário e acelerando o declínio da economia.
[...] A austeridade conduziu não só a níveis de desemprego faraónicos e salários mais baixos, mas também a enormes cortes em serviços públicos numa altura em que são mais necessários. Na Grécia, por exemplo, existe uma escassez de medicamentos que salvam vidas, uma condição que só encontramos nos países em vias de desenvolvimento mais pobres. Os que encontram trabalho aceitam qualquer coisa, mesmo que não seja para isso que estudaram e sonharam. Muitos dos que não conseguem trabalho sobretudo entre os jovens, emigram; as famílias estão a separar-se. Os países estão a ser esventrados dos seus cidadãos mais talentosos.»Joseph E. Stiglitz, O Preço da Desigualdade, Bertrand Editora.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Trechos — Joseph Stiglitz (5)
«Os políticos fazem discursos sobre o que está a acontecer aos nossos valores e à nossa sociedade, mas depois nomeiam para altos cargos públicos os diretores-executivos e outros representantes do mundo empresarial que estavam ao leme do setor financeiro enquanto este se desmoronava. Não devíamos esperar que os arquitetos de um sistema que não funcionava fossem reconstruir o sistema de modo a funcionar, e, sobretudo, funcionar para a maioria dos cidadãos, coisa que não aconteceu.
As falhas na política e na economia estão relacionadas, e reforçam-se uma à outra. Um sistema político que amplifica a voz dos mais ricos dá azo a que leis e regulamentações — e a gestão das mesmas — sejam desenhadas de maneira que não só falham em proteger os cidadãos comuns contra os ricos, como também enriquecem ainda mais os ricos a expensas do resto da sociedade.
Isto leva-me a uma das teses centrais deste livro: embora possa haver forças económicas subjacentes em jogo, a política moldou o mercado, e moldou-o de modo a dar vantagem aos do topo em prejuízo do resto da sociedade.»Joseph E. Stiglitz, O Preço da Desigualdade, Bertrand Editora.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
Trechos — Joseph Stiglitz (4)
«O sistema político parece fracassar tanto quanto o sistema económico. Dado o alto nível de desemprego entre os jovens em todos o mundo — quase 45% em Espanha e 18% nos Estados Unidos —, foi talvez mais surpreendente que os movimentos de protesto tenham demorado tanto tempo a começar e não que tenham de facto começado. Os desempregados, incluindo os jovens que estudaram muito e fizeram tudo o que era suposto fazerem ("cumpriram as regras do jogo", como alguns políticos costumam dizer), enfrentavam uma escolha difícil: continuarem desempregados ou aceitarem um emprego muito abaixo das suas qualificações. Em muitos casos, nem sequer tinham escolha: simplesmente não havia trabalho, e não havia há anos.Uma das interpretações para o longo prazo na chegada dos protestos em massa foi a de que, como consequência da crise, havia esperança na democracia, fé de que o sistema político funcionaria e de que responsabilizaria os que provocaram a crise, consertando a tempo o sistema económico. Todavia, alguns anos depois de a bolha rebentar, ficou claro que o sistema político falhara, tal como falhara em prevenir a crise, em verificar a crescente desigualdade, em proteger os mais pobres, em prevenir os abusos dos poderes económicos. [...]O que os manifestantes querem saber é se esta democracia é uma democracia verdadeira. A verdadeira democracia é mais do que o direito ao voto a cada dois ou quatro anos. As escolhas dos cidadãos devem ter significância. Os políticos têm de ouvir as vozes dos eleitores. Mas parece que, cada vez mais [...] o sistema político é mais adepto do "um dólar [/um euro], um voto" do que do "uma pessoa, um voto". Em vez de corrigir as falhas do mercado, o sistema político reforça-as.»Joseph E. Stiglitz, O Preço da Desigualdade, Bertrand Editora.
domingo, 15 de dezembro de 2013
Trechos — Joseph Stiglitz (3)
«Os mercados, por si só, mesmo quando eficientes e estáveis, costumam conduzir a níveis altos de desigualdade, a resultados que são amplamente vistos como injustos. Pesquisas recentes sobre economia e psicologia mostraram a importância que os indivíduos dão à justiça. Mais do que tudo, a perceção de que o sistema político-económico foi injusto é o que motiva as manifestações em todo o mundo. Na Tunísia, no Egipto e noutras partes do Médio Oriente, a questão não era meramente a dificuldade em encontrar trabalho, mas sim que os empregos disponíveis eram ocupados por quem tinha ligações políticas.Nos Estados Unidos e na Europa, as coisas pareciam mais justas, mas só de um ponto de vista superficial. Os que se formavam nas melhores escolas com as melhores notas tinham melhores hipóteses de arranjar um bom emprego. Mas o sistema estava viciado porque os pais endinheirados enviavam os filhos para os melhores infantários e para as melhores escolas primárias e secundárias, e esses estudantes tinham muito mais hipóteses de entrar nas universidades das elites.[...]
A crise financeira desencadeou uma nova perceção de que o nosso sistema económico não era só ineficiente e instável, como também era fundamentalmente injusto. [...] O que aconteceu no meio da crise revelou que não era o contributo para a sociedade o que determinava a remuneração de alguém, mas sim outra coisa: os banqueiros recebiam prémios enormes, ainda que o seu contributo para a sociedade — e mesmo para as empresas — tivesse sido negativo. A riqueza dada às elites e aos banqueiros parecia surgir da sua capacidade e da sua vontade de tirarem vantagem de outros.»Joseph E. Stiglitz, O Preço da Desigualdade, Bertand Editora.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Trechos - Joseph Stiglitz (2)
«Três temas ressoaram com força pelo mundo: que os mercados não funcionavam como deviam, porque não eram, obviamente, nem eficientes nem estáveis; que o sistema político corrigira as falhas do mercado; e que o sistema político e o sistema económico eram fundamentalmente injustos. [...] Os três temas estão intimamente relacionados: a desigualdade é causa e consequência do falhanço do sistema político e contribui para a instabilidade do nosso sistema económico, que por sua vez contribui para uma maior desigualdade.
O falhanço dos mercados
Os mercados não têm claramente funcionado como os seus defensores clamam. É suposto que os mercados sejam estáveis, mas a crise financeira global mostrou que podem ser bastante instáveis, com consequências devastadoras. Os banqueiros apostaram que, sem ajuda governamental, tanto os bancos como toda a economia cairiam. Mas se olharmos de perto para o sistema, apercebemo-nos de que nada disso aconteceu por acaso; os banqueiros tinham incentivos para se comportarem assim.
Supostamente, a virtude do mercado é a sua eficiência. Mas é óbvio que o mercado não é eficiente. A mais básica lei económica — necessária para que a economia seja eficiente — é a da procura ser igual à oferta. Mas vivemos num mundo onde existem enormes necessidades não atendidas — investimentos para tirar os pobres da pobreza, para promover o desenvolvimento de países africanos menos desenvolvidos, entre outros países do mundo, para melhorar a economia global de modo a enfrentar os desafios do aquecimento global. Ao mesmo tempo, temos vastos recursos subutilizados — trabalhadores e maquinaria que estão parados ou não produzem de acordo com o seu potencial. O desemprego — a incapacidade do mercado de criar emprego para tantos cidadãos — é o maior falhanço do mercado, a maior fonte de ineficiência, e uma grande causa de desigualdade.»
Joseph E. Stiglitz, O Preço da Desigualdade, Bertrand Editora.
sábado, 23 de novembro de 2013
Trechos - Joseph Stiglitz (1)
«Ao longo de 2011, aceitei de bom grado convites do Egito, da Espanha e da Tunísia, e encontrei-me com manifestantes no Parque Buen Retiro em Madrid, no Zuccotti Park em Nova Iorque, e no Cairo, onde falei com jovens que tinham estado na Praça Tahir.À medida que conversava com os manifestantes, pareceu-me evidente que, embora as queixas específicas variassem de país para país — e, em particular, que as queixas políticas no Médio Oriente fossem bem diferentes das do Ocidente —, havia questões comuns. Havia um entendimento mútuo de que o sistema económico e o sistema político tinham falhado em muitos aspectos, e que ambos eram fundamentalmente injustos.Os manifestantes tinham razão em que algo estava mal. O hiato entre o que o nosso sistema político-económico deve fazer — o que nos disseram que faria — e o que realmente faz tornou-se grande demais para ser ignorado.»Joseph E. Stiglitz, O Preço da Desigualdade, Bertrand Editora.
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