sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Testemunho sobre o mérito de um trabalho menosprezado

Há uns meses, tive o prazer de «postar», neste blogue, três músicas do CD Cruzes Canhoto, dos Toque de Caixa. Na minha mais que modesta opinião de apreciador de música, entendo que este trabalho musical é de elevada qualidade, em particular, quando ouvido ao vivo. Pude confirmar, junto de alguns músicos, parecer idêntico. Todavia, para os principais programas de rádio e de televisão nada de especial aconteceu com a edição deste CD. É inverosímil o modo como em Portugal se trata aquilo que é bom, aquilo que merece distinção. O que deveria ser elogiado, enaltecido e divulgado é votado ao esquecimento, enquanto que o lixo e a pimbalhice invadem a nossas rádios, televisões e jornais. Somos, em quase tudo, um país medíocre que se compraz em viver na mediocridade. Decidi, por isso, transcrever, com a devida autorização, parte de um e-mail que recentemente me foi dirigido pelo crítico de música Álvaro José Ferreira. Fica aqui o testemunho sobre o mérito de um trabalho menosprezado.


Caro Mário Carneiro,

[...]

Quero referir um grande (enorme) disco de música portuguesa: o CD "Cruzes, Canhoto!", do grupo Toque de Caixa. O álbum saiu mesmo no final de 2009, se bem me lembro, mas – e infelizmente – não tem tido a divulgação que merecia em razão da altíssima qualidade que apresenta. À excepção de Armando Carvalhêda (nos espaços que mantém na Antena 1), de Octávio Fonseca (no programa "Os Cantos da Casa"), de João Sá (no programa "Folklândia") e de um ou outro autor de programa de música tradicional/folk em rádios locais, mais ninguém lhe prestou atenção. O que é de uma tremenda injustiça para os músicos/compositores nele intervenientes e também para o público que está a ser privado de conhecer (e de fruir) o trabalho realizado.

O disco é, no seu conjunto, uma obra-prima de encanto, beleza e arte, e está muito para além do conceito estrito de música tradicional. Se é verdade que boa parte do material musical de partida é de origem tradicional (de Portugal, da América Latina e de outras paragens) e muitos dos instrumentos usados estão ligados à música tradicional (concertina, gaita-de-foles, 'tin whistle', adufe, caixa, bandolim, viola braguesa, etc.), o refinamento e a riqueza harmónica dos arranjos (assinados por José Miguel Teixeira) colocam "Cruzes, Canhoto!" no patamar da grande música, de recorte erudito, ora de pendor mais barroco ora de cariz mais clássico. Clássico até na citação de uma ária de Mozart ("Là ci darem la mano", da ópera "Don Giovanni"), no tema "Hamburgo" (faixa 9). A dimensão erudita do disco está bem patente no elaborado e inspirado trabalho composicional e/ou de desenvolvimento do material musical de base. Disso são bom testemunho, além do citado "Hamburgo", os temas "Fado da Gaita" (faixa 3), "Em Tarde Ser" (faixa 4), "Corridinho N.º 2" (faixa 7), "Michael (Sem Fronteiras)" (faixa 12) e "Os Passacalhes" (faixa 16).

Simplesmente sublime é este álbum do grupo Toque de Caixa. Não será, por isso, exagero considerá-lo um dos registos de topo da colheita discográfica de 2009 e igualmente um dos álbuns mais fascinantes e mais bem conseguidos da primeira década do séc. XXI.


Cordialmente,

Álvaro José Ferreira


Um dos temas do álbum: