quarta-feira, 11 de maio de 2011

Às quartas

DESCENDENTE

Não há quadros dos meus antepassados
nem livro de família,
não conheço os seus legados,
suas faces, almas, vida.

Mas sinto pulsar o ancestral,
nómada, impetuoso sangue.
Furioso, desperta-me do sono nocturno,
encaminhando-me ao primeiro pecado.

Talvez a minha bisavó de negros olhos,
calças de seda e turbante,
tenha fugido a meio da noite
com algum louro khan estrangeiro

Talvez o trotar dos cavalos tenha ressoado
pelas planícies do Danúbio
e o vento, encobrindo seus vestígios,
os tenha salvo do vingador punhal.

Talvez por isso tanto ame
a estepe inatingível ao olhar,
o intempestivo voo dos cavalos
e a livre voz do vento

Talvez seja falsa e pérfida
e pelo caminho me dome,
sou na realidade tua filha,
minha consanguínea mãe — terra.

Elissavéta Bagriana

(Trad.: Vítor Tiago / J.C. González)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Eu também fiz um acordo

Gostaria de anunciar aos portugueses que cheguei hoje a um acordo com o FMI, BCE e CE. 

Quero que todos saibam que consegui um bom acordo. É um acordo que me defende. Naturalmente, não há acordos que não sejam exigentes e que não impliquem, para vós, muito trabalho. Isso não existe. Mas conhecendo outros acordos e depois de tantas notícias especulativas publicadas pela imprensa, o meu primeiro dever é tranquilizar os portugueses. 

Reparem bem, o acordo que eu consegui: 
Não mexe na proibição da pena de morte, nem a substitui pela prisão perpétua; 
Não mexe na taxa de natalidade dos portugueses, nem no tempo médio de vida dos reformados; 
Não obriga a que ninguém se mutile;

E, ao contrário do que por aí se dizia, não vai ser introduzida nenhuma ditadura. 
Mais: está expressamente admitido podermos continuar a chamarmo-nos portugueses, tal como sempre defendi. 

Com este acordo ainda garanti o seguinte: 
Não haverá tortura; 
Não haverá polícia política; 
Não haverá destruição da Assembleia da República; 
Mantém-se a permissão de circularmos livremente; 
Mantêm-se igualmente os urinóis públicos; 

Mantive ao longo deste processo os deveres de reserva e o sentido institucional que a situação impunha. Estabeleci, para isso, um sistema de informação clandestino, em que, sem ninguém saber, fazia chegar aos jornalistas notícias de que iríamos ser todos condenados à morte, ou pior ainda, para agora poderem ver que eu consegui que nada disso acontecesse. 

Dirijo, finalmente, aos portugueses uma palavra de confiança. Nenhuma Nação vence sem confiança em mim. Esse sentimento de confiança deve prevalecer sobre o negativismo e sobre o pessimismo, atitudes que só conduzem à descrença, à paralisia e à desistência do futuro. Pela minha parte, o que tenho a dizer aos portugueses é isto: eu sou ainda mais especial do que o outro.

A ler

«Protestos de rua nascidos na Internet no próximo fim-de-semana em Lisboa e no Porto»
          

Bonecos de palavra.

Calvin & Hobbes, por Bill Watterson (trad.: Ana Falcão Bastos).
Para ampliar, clicar na imagem.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A ler

«Sócrates acusado no Financial Times de fazer discurso enganador sobre pacote de ajuda.»
                  

Notas do fim-de-semana

UE e FMI garantem que o programa até é mais exigente que o grego e dizem que em termos de reformas estruturais é muito mais profundo

Troika diz que executivo devia ter pedido ajuda mais cedo

Declarações de Sócrates reacendem hesitações: 
Ajuda a Portugal volta a suscitar dúvidas entre os principais partidos finlandeses

Desigualdade salarial agravou-se em Portugal
Público (6/5/11)

Entre os 58 países intervencionados pelo FMI: 
Empréstimo a Portugal é o 3.º mais alto

Dívida portuguesa será a segunda maior da UE em 2014

Sócrates testemunha no Face Oculta
— Autorizado pelo Conselho de Estado, o 1.º-ministro foi confrontado com as prendas enviadas por Godinho —

Estado perde milhares de euros em coimas
— Ministério de Vieira da Silva alterou as leis do Trabalho, mas esqueceu-se de inscrever o valor das coimas no novo diploma —
Sol (6/5/11)

PS e PSD tentam travar redução de Câmaras

Dívidas em tribunal pagavam grandes obras

Um choque fiscal em cheio para a classe média

Trabalhadores perdem direitos em nome do emprego

Administração Pública: salários congelados até 2014
Expresso (6/5/11)

No dia seguinte ao momento lúdico em que Sócrates falou ao país para o informar sobre o Nada, enigmaticamente acompanhado por uma figura que esteve lá a fazer nada, a verdade começou, aos poucos, a saber-se. Mas, no dia seguinte, quando a verdade se começou a saber, Sócrates já não estava à frente das câmaras, tinha fugido, tinha deixado as câmaras para a figura enigmática que o tinha acompanhado. As más notícias, as notícias verdadeiras não são com Sócrates. Desde o início do seu primeiro mandato que há uma divergência de fundo, uma incompatibilidade objectiva entre Sócrates e a Verdade: os dois nunca estão juntos. E mais uma vez foi assim. E também foi assim que ficámos a saber que, ao contrário do que Sócrates afirmou, o nosso Acordo é mais exigente que o grego e ficámos a saber tudo aquilo que de muito mau constava do Acordo e que Sócrates não teve a coragem nem a hombridade de informar os seus compatriotas, como era seu dever.

O empréstimo a Portugal é o terceiro mais alto na história do FMI. Isto revela bem o estado a que Sócrates deixou chegar o país. Em 2014, seremos o segundo Estado com mais dívidas de todos os Estados que compõem a União Europeia. Isto revela bem o estado a que Sócrates deixou chegar o país. A desigualdade salarial agravou-se entre os portugueses — já era enorme, passou a ser ainda maior — nos últimos seis anos. Isto revela bem o estado a que Sócrates deixou chegar o país. Os salários dos profissionais do Estado vão ficar congelados até 2014. Se Sócrates continuar como primeiro-ministro, isto significará que em nove anos de governação socrática, ou seja, desde 2005 até 2014, os funcionários públicos terão os seus salários congelados durante quase sete anos. Isto revela bem o estado a que Sócrates deixou chegar o país.

Entretanto, o Estado perde o dinheiro das coimas, por inépcia de um ministro; os trabalhadores perdem direitos, por opção política do Governo; a classe média perde o pouco que tinha, como consequência da incompetência económica e financeira de Sócrates e Teixeira dos Santos; enfim, prosseguimos coerentemente na rota que o PS traçou para Portugal.
Até quando?

domingo, 8 de maio de 2011

Pensamentos de domingo

«A dívida é a mãe prolífica de loucuras e crimes.»
Benjamin Disraeli

«Um banco é um lugar que te empresta dinheiro se conseguires provar que não necessitas dele.»
Bob Hope

«Frequentemente tive a ocasião de observar que quando a beneficência não prejudica o benfeitor, mata o beneficiado.»
Honoré de Balzac
In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações.

Carla Bley & Steve Swallow

sábado, 7 de maio de 2011

Ao sábado: momento quase filosófico

O problema dos sonhos

Um homem sonha que é uma borboleta. Revoluteia com leveza de flor em flor, abrindo e fechando as suas asas, sem a mais ténue lembrança da sua natureza humana.
Quando acorda, percebe com espanto que é um homem. Mas será ele um homem que acaba de sonhar que era uma borboleta? Ou uma borboleta a sonhar que é um homem?
Diz-se que nunca conseguiu responder a esta pergunta.

Um homem está a dormir e no seu sonho encontra uma garrafa de aguardente de arroz. Muito contente, pois na realidade era demasiado pobre para poder obter álcool, encontra um fogão, acende-o, põe a aguardente a aquecer, como deve ser.
De repente, acorda.
— Devia tê-la bebido fria.
In Jean-Claude Carrière, Tertúlia de Mentirosos (adaptado).

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Faltam 30 dias

Faltam 30 dias para decidirmos se queremos continuar a ser governados por quem conduziu o país à bancarrota.

Erros a não repetir - 2

Tópico 1 - Um paradigma de professor (continuação)

Antes de avançar para o «Tópico 2» dos erros que, na minha opinião, não se devem repetir no futuro modelo de avaliação, tentarei desenvolver um pouco mais este «Tópico 1 - Um paradigma de professor», porque ele remete-nos para uma questão difícil e, ao mesmo tempo, nuclear em qualquer modelo de avaliação.
Escrevi no post anterior que «Um modelo de avaliação docente não pode ter nem deve ter subjacente qualquer paradigma de professor.» E acrescentei: «Não pode ter, porque simplesmente não existe um modelo consensual de professor, por mais que alguns «cientistas» da educação o desejem e por ele pelejem. Mas não o podendo ter, porque a realidade não o fornece, também não o deve querer ter, porque a diversidade de arquétipos de professor não só é uma riqueza humana, como é uma riqueza pedagógica. A formatação do acto de ensinar é, em si mesma, destituída de sentido e, consequentemente, não pode inspirar qualquer avaliação do desempenho docente.» 
Tentarei fundamentar um pouco mais estas ideias.

Começo por recorrer a Eric Hanushek, que esteve há cerca de três meses no nosso país. É um conhecido  professor e investigador da Universidade de Stanford (EUA), com um já longo currículo de investigação no domínio da Educação, em particular, na relação entre o desempenho dos professores e o sucesso dos alunos. Discordo, em absoluto, das suas teses, não só porque são, por vezes, confrangedoramente contraditórias, mas fundamentalmente porque denotam uma crença obsessiva na matematização da realidade educativa, como via ideal de resolução de problemas. A juntar a isto, o seu discurso revela, em vários passos, uma inaceitável insensibilidade social. 
Mas isto agora não interessa. Convoquei Eric Hanushek para este post apenas porque, do ponto de vista da actual ideologia dominante dos nossos «cientistas» da Educação e dos nossos responsáveis políticos, ele é uma figura insuspeita quanto a defesa de corporativismos ou, mais concretamente, quanto à alegada manutenção dogmática de direitos adquiridos, e é, ao mesmo tempo, alguém que tem o tal desenvolvido currículo de investigação  — facto que constitui, para os defensores do actual modelo de avaliação, um argumento de autoridade, que muito prezam e a que frequentemente recorrem.
Vejamos então o que diz Eric Hanushek acerca do assunto do tópico que hoje continuo a tratar.  Começo por recordar duas breves passagens de uma entrevista dada ao Expresso, há cerca de três meses. Perguntado sobre o que é que os bons professores têm em comum, respondeu: «Ainda não conseguimos identificar as características que fazem um bom professor. [...] Ainda não conseguimos identificar o que explica a qualidade.» Não nos esqueçamos que esta conclusão é tirada por alguém que acredita piamente que, um dia, será possível discriminar objectivamente as características que definem um bom professor, isto é, acredita que, um dia, será possível estabelecer um paradigma de professor. Todavia, reconhece que isso «ainda» não foi possível fazer. Esse paradigma não existe. A realidade ainda não o deu.
Já em 2008, numa entrevista à revista brasileira Veja, Hanushek tinha chegado a essa conclusão. À pergunta: «O senhor está dizendo que não há uma explicação estatisticamente confiável sobre as características que determinam um bom professor, respondeu taxativamente: «Existem muitas suposições, mas nenhuma delas tem valor científico. Por isso fica tão difícil estabelecer critérios prévios para a selecção dos melhores professores – e erra-se tanto.»
Erra-se tanto, diz Hanushek. Pois erra! E apesar de se errar tanto, e apesar de se saber que se erra tanto, persiste-se teimosamente em querer fazer uma avaliação assente no erro, assente no que não se sabe, assente num inexistente paradigma de professor. Estas conclusões de Hanushek contrariam, de forma objectiva, os pressupostos fundamentais em que se sustenta o modelo de avaliação em vigor.

Mas, obviamente, não é apenas este investigador que revela estarmos perante um problema não resolvido (ou irresolúvel): quase toda a literatura, de uma forma ou de outra, o reconhece. (Curiosamente, alguns autores desta literatura não retiram consequências práticas do reconhecimento que eles próprios fazem do problema. Perante a incapacidade de o resolver, optam por fazer de conta que ele não existe. Mas ele existe e, porque existe, tem de ser assumido). Até no que diz respeito à determinação dos domínios que devem enquadrar a acção do professor, com vista à definição de padrões de desempenho, não há consenso. Há quem defenda que devem ser três os domínios, como a Comissão Europeia o definiu, há investigadores que defendem que os domínios devem ser quatro, outros que os elevam para cinco, e por aí fora. No meio destas divergências, e se apertarmos a malha, veremos ainda que, para alguns, o essencial é definir o que o professor precisa de saber e o que precisa de ser capaz de fazer, para outros, o essencial inclui, entre outras pérolas, as qualidades pessoais do professor — o que é sintomático do desnorte a que é possível chegar. Dentro desta amálgama, ainda há aqueles que defendem que a função de professor deve ser vista essencialmente em contexto de uma prestação de serviços a clientes, e aqueles outros que a vinculam ao contributo que o professor pode dar para o crescimento económico.

Apesar deste quadro de ignorância generalizada acerca da definição de um paradigma de professor, que sirva de referência a todo o processo avaliativo, quiseram, os autores do actual modelo de avaliação, persistir na determinação exaustiva de um perfil de professor ideal, quase delineado a régua e esquadro. A tarefa era simultaneamente absurda, por ausência de fundamentos sérios, e ao mesmo tempo ciclópica, porque quem sofre de obsessão avaliativa o que mais deseja é ocultar o vazio de que parte, através da criação de uma parafernália de itens que aparetem dar substância àquilo que não a tem.
Deste modo, com o paradigma de professor que tinham na cabeça, os autores do actual modelo partiram para a elaboração do conjunto de descritores que deveriam configurar o denominado professor de nível «Excelente». Contudo, chegado a este ponto, o fundamentalismo avaliativo debateu-se com um problema: ou simplificava os descritores, centrando-se no essencial, e negava-se a si próprio; ou concretizava a sua monomania, partindo para uma desvairada descrição atomística de comportamentos, que, pretensamente, desenharia o seu paradigma de professor, e sujeitava-se a uma imediata reacção negativa, quando fosse publicada a infindável listagem que a sua sede descritiva exigia. O dilema foi resolvido de um modo simples: fazer de cada descritor uma concentração de vários descritores. Formalmente, os descritores aparentariam ser um número x, quando, na realidade, seriam um número mutíssimo superior. E foi isso que aconteceu: formalmente, são dezoito os descritores do nível «Excelente»; na realidade, ultrapassam os quarenta e cinco. Repito: quarenta e cinco descritores só para um nível. Deixo apenas um exemplo (que isto já vai longo) daquilo que aparece como sendo um descritor, mas que, na verdade, é a concentração de cinco descritores: «Concebe e implementa estratégias de avaliação diversificadas e rigorosas, monitoriza o desenvolvimento das aprendizagens, reflecte sobre os resultados dos alunos e informa-os regularmente sobre os progressos e as necessidades de melhoria.»

Temos assim um duplo erro a não repetir: não tentar impor um paradigma de professor, que não existe e que não é desejável, e não concentrar, não multiplicar, não inventar descritores.

Ligações a outros posts relacionados com a ADD: 

Acerca da simplicidade de um modelo de avaliação e da seriedade da sua concretização
Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 1
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 2
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 3
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 4
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 5
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 6
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 7
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 8 
. Sub-repticiamente 
. Requerimento do Dep. C.S.H. da Escola Secundária de Amora

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O sorriso da hiena

O recém-aparecido ministro das Finanças declarou hoje, em conferência de impressa, que estava satisfeito com o resultado alcançado nas negociações com a troika, que estava satisfeito com o seu trabalho à frente do ministério e que estava satisfeito consigo próprio, porque tinha cumprido o seu dever durante os dois mandatos. Há dias o primeiro-ministro também revelou, por motivos idênticos, a sua grande e sentida satisfação.
Confesso não compreender estas manifestações de regozijo. 
Elas fazem lembrar a história da hiena: depois do professor apresentar três características típicas da hiena (parecer estar sempre a sorrir, copular uma vez por ano e poder alimentar-se das suas próprias fezes), um aluno faz a pergunta inevitável: «Professor, se a hiena come dejectos e só faz amor uma vez por ano, ela ri de quê?» Adaptando, pergunta idêntica deve ser dirigida ao ministro das Finanças e ao primeiro-ministro: se ao fim de seis anos de governo, deixam o país endividado como nunca esteve, descredibilizado e empobrecido; e se o acordo com a troika ainda prevê um brutal agravamento dos impostos, um brutal agravamento do desemprego, dois anos de recessão e, consequentemente, um brutal empobrecimento dos portugueses, o ministro das Finanças e o primeiro-ministro estão satisfeitos com quê?
Se, na realidade, é difícil compreender o sorriso da hiena, não é mais fácil compreender a satisfação de Sócrates e de Teixeira dos Santos.

Quinta da música - Domenico Scarlatti

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Conexões

Recebido por e-mail:

Sem comentários ... 

· No dia 25 de Março de 2011, o deputado socialista Osvaldo Sarmento e Castro, presidente da Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, votou contra a revogação do modelo de avaliação de desempenho de professores. 

· Dias depois, o mesmo Osvaldo Sarmento e Castro escrevia no jornal digital “Setúbal na Rede”, a respeito da decisão do parlamento, o seguinte: “Algo recheado de violações à Constituição, designadamente por invasão das competências reservadas do Executivo, entre outras, e que, seguramente, não resistirá ao mais que provável escrutínio do PR ou do Tribunal Constitucional.” 

· A 29 de Abril de 2011, o Tribunal Constitucional (TC) declarou inconstitucionais os quatro artigos do diploma aprovado na Assembleia da República. 

· Tomou parte na deliberação, votando no mesmo sentido da maioria dos membros do TC, a juíza conselheira Catarina Sarmento e Castro, filha do deputado socialista. 

· Antes da sua eleição para o TC em Janeiro de 2010, a referida juíza ocupara, entre outros, os cargos de assessora do Ministro da Administração Interna (Primeiro-ministro: António Guterres) e de assessora da Secretária de Estado para a Modernização Administrativa (Primeiro-ministro: José Sócrates).

Ana Paula Silva Correia 
Isilda Maria Martins Lopes 
José Rodrigues Ribeiro 
ESPOSENDE

Às quartas

FOLHA

Mudei de estação: o Outono ficou para trás e as minhas malas.
Agora o céu duvidoso, como uma mentira inábil.
Na primeira taberna terei de esquecer
A carta melancólica que me tirou o sono.
Ocioso, arrasto-me pela rua, entre escritórios.
As andorinhas partiram e as máquinas de escrever ficaram.
No horizonte há uma grande trombeta de fumo.
Foi há pouco inventado um avião tão pequeno como uma borboleta.
Bravo! É um bom sinal.
A primeira folha de Outono cai no meu chapéu.

Rade Drainac

(Trad.: José Alberto Oliveira)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Presidente da Islândia dixit

«A Europa não está a enfrentar apenas uma crise económica: esta crise é política. Os governos não podem continuar a humilhar-se perante os mercados.»

«Uma das razões por que a Islândia está a recuperar rapidamente reside no facto de o país estar a dar uma resposta democrática espantosa, e não apenas uma resposta financeira. Os islandeses provocaram uma mudança de Governo, deram início a uma investigação e vão rever a Constituição.»

«A Islândia não aceita a ideia de o cidadão comum ter de pagar a totalidade da factura pelas loucuras dos bancos, como aconteceu noutros países com as nacionalizações pela porta das traseiras.»
Entrevista a Claudi Pérez, El País, in Courrier internacional (Maio, 2011).

Bonecos de palavra.

Calvin & Hobbes, por Bill Watterson (trad.: Ana Falcão Bastos).

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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Manifesto dos economistas aterrorizados - 3

Falsa certeza n.º 3: Os mercados são bons juízes do grau de solvência dos Estados.

Segundo os defensores da eficiência dos mercados financeiros, os operadores de mercado teriam em conta a situação objectiva das finanças públicas para avaliar o risco de subscrever um empréstimo ao Estado. Tomemos o exemplo da dívida grega: os operadores financeiros, e todos quantos tomam as decisões, recorreram unicamente às avaliações financeiras para ajuizar sobre a situação. Assim, quando a taxa exigida à Grécia ascendeu a mais de 10%, cada um deduziu que o risco de incumprimento de pagamento estaria próximo: se os investidores exigem tamanho prémio de risco é porque o perigo é extremo.

Mas há nisto um profundo erro, quando compreendemos a verdadeira natureza das avaliações feitas pelos mercados financeiros. Como não é eficiente, o mais provável é que apresente preços completamente desconectados dos fundamentos económicos. Nessas condições, é irrazoável entregar unicamente às avaliações financeiras a análise de uma dada situação. Atribuir um valor a um título financeiro não é uma operação comparável a medir uma proporção objectiva, como por exemplo calcular o peso de um objecto. Um título financeiro é um direito sobre rendimentos futuros: para o avaliar é necessário prever o que será o futuro. É uma questão de valoração, não uma tarefa objectiva, porque no instante t o futuro não se encontra de nenhum modo predeterminado. Nas salas de mercado, as coisas são o que os operadores imaginam que venham a ser. O preço de um activo financeiro resulta de uma avaliação, de uma crença, de uma aposta no futuro: nada assegura que a avaliação dos mercados tenha alguma espécie de superioridade sobre as outras formas de avaliação.

A avaliação financeira não é, sobretudo, neutra: ela afecta o objecto que é medido, compromete e constrói um futuro que imagina. Deste modo, as agências de notação financeira contribuem largamente para determinar as taxas de juro nos mercados obrigacionistas, atribuindo classificações carregadas de grande subjectividade, contaminadas pela vontade de alimentar a instabilidade, fonte de lucros especulativos. Quando baixam a notação de um Estado, as agências de notação aumentam a taxa de juro exigida pelos actores financeiros para adquirir os títulos da dívida pública desse Estado e ampliam assim o risco de colapso, que elas mesmas tinham anunciado.

Para reduzir a influência da psicologia dos mercados no financiamento dos Estados, colocamos em debate duas medidas: 

Medida n.º 8: As agências de notação financeira não devem estar autorizadas a influenciar, de forma arbitrária as taxas de juro dos mercados de dívida pública, baixando a notação de um Estado: a sua actividade deve ser regulamentada, exigindo-se que essa classificação resulte de um cálculo económico transparente; 

Medida n.º 8 (b): Libertar os Estados da ameaça dos mercados financeiros, garantindo a compra de títulos da dívida pública pelo BCE.
Adaptado de Courrier internacional, n.º 177, e do blogue Luis Nassif Online.

Notas do fim-de-semana

De défice em défice até à submissão ao exterior
Negócios (29/4/11)

Cavaco travou saída de Teixeira dos Santos

Governo deu 4 milhões a autódromo à beira da falência

Elogios de Soares a Passos caem mal no PS

Sócrates denunciado por gestão danosa
Sol (29/4/11)

Troika reestrutura Portugal de alto a baixo

Forças Armadas sem dinheiro para despesas

«Governo de Sócrates devia ir a tribunal» (Eduardo Catroga)

Bolonha inflaciona número de diplomados
— Com a reforma das licenciaturas muitos alunos tiram segundos graus e são contados por dois nas estatísticas nacionais —

Partidos insistem em anular avaliação dos professores
Expresso (30/4/11)
O título do Negócios ilustra muito bem a trajectória da governação do PS: dos apregoados défices «historicamente mínimos» (que Sócrates não se cansava de afirmar, em presunçoso auto-elogio) até aos défices ruinosos, culminámos de joelhos perante o mundo. Esta é a espantosa realidade, mas é a realidade. Todavia, Sócrates continua, todos os dias, a alegremente a discursar e candidamente a passear-se pelo país, de inauguração em inauguração, como se o assunto não tivesse nada que ver com ele, como se ele não fosse o primeiro-ministro que levou o país à ruína. 

Cumulativamente, Sócrates não revela nenhuma hesitação em adulterar a realidade, em falsear os factos: a sua declaração de eterna amizade e absoluta consonância com o ainda ministro das Finanças é o exemplo mais recente. Pessoalmente, considero que o primeiro-ministro merece o ministro das Finanças que tem e o ministro das Finanças merece o primeiro-ministro que tem. Nunca vi em Teixeira dos Santos nenhuma mais valia de seriedade ou de competência comparativamente com Sócrates. Parece-me, aliás, que quem consegue trabalhar seis anos ao lado de Sócrates estabelece um excelente retrato de si próprio. Seja como for, o facto é que estão publicamente desavindos, contudo, Sócrates não só o nega como alegre e candidamente jura o inverso.

Um advogado de Coimbra, António Castanheira Neves, apresentou no Ministério Público uma denúncia contra José Sócrates, por crime de gestão danosa. Este causídico disse ao Sol que permitir «a tolerância de ponto na véspera de um fim-de-semana prolongado de quatro dias, e tendo em conta a actual situação do país, é uma situação insuportavelmente lesiva do interesse público.» 
A propósito, recorde-se as vezes que Sócrates, durante os últimos seis anos, para justificar todo o tipo de tropelias que levou a cabo, alegou a necessidade de mudança, a necessidade de combater más práticas instaladas e insustentáveis para o país; porém, agora, para explicar a razão da atribuição da tolerância de ponto, alegou, cândida e alegremente, tratar-se apenas de respeitar uma «tradição»...

Mais uma burla estatística. Esta, a mais recente (pelo menos, que se saiba), permitiu anunciar espalhafatosamente, há umas semanas, que o número de diplomados em Portugal tinha subido exponencialmente entre 2000 e 2008. Era mais um exemplo da extraordinária política educativa deste Governo. O caso mais relevante, a todos os ventos propagandeado, tinha sido o do aumento de 193% dos diplomados nas áreas de Matemática, Ciências e Tecnologias. 
A verdade veio agora ao de cima. Naturalmente que o Governo não fazia a mínima ideia de que estava a ser realizada uma dupla contagem. Naturalmente, alegremente e candidamente.

domingo, 1 de maio de 2011

Maio, 1


Hoje — Dia do Trabalhador — os trabalhadores portugueses não têm qualquer razão para festejar, mas têm todas as razões para protestar, para contestar, para mostrar a enorme indignação que sentem pela situação com que estão confrontados e pela qual não têm responsabilidade.
Na verdade, e ao contrário do que repetidamente se ouve no discurso político de grande parte dos responsáveis governamentais e partidários, a responsabilidade pelo estado a que o país chegou não é de todos.
O enorme endividamento do Estado é da responsabilidade de quem tem gerido o Estado. Em primeiríssimo lugar, é da responsabilidade do Governo e, seguidamente, de todos aqueles que, nas administrações regionais ou locais, gastaram mal o dinheiro que não era seu.
O ainda maior endividamento privado (empresas e famílias) é, em primeiríssimo lugar, da responsabilidade de quem emprestou o dinheiro e, depois, mas de modo pouco significativo, daqueles que solicitaram empréstimos sem terem condições de o pagar. A verdadeira responsabilidade da dívida privada é daqueles que gerem os bancos, porque só eles sabiam, e só eles poderiam saber, o volume global dessa dívida, e se ela estava a atingir, ou não, um nível insustentável. A responsabilidade é das administrações dos bancos, porque, tendo elas conhecimento do excessivo endividamento a que se estava a chegar, continuaram irresponsavelmente a promover o recurso generalizado ao crédito. E, finalmente, a responsabilidade é dos bancos, porque são eles os profissionais, são eles os técnicos, que analisam, que avaliam se o dinheiro que emprestam é emprestado a quem tem condições de o pagar. Quem toma a decisão final de proceder ao empréstimo é o banco, não é quem o solicita, quem toma a decisão do montante do juro é o banco, não é quem o solicita, quem toma a decisão do montante do spread é o banco, não é quem o solicita.
Portanto, a responsabilidade da dívida pública é dos governos de Sócrates, a responsabilidade da dívida privada é dos donos e das administrações dos bancos e do Banco de Portugal.
O 1.º de Maio deste ano tem um alvo: o actual poder político e o actual poder financeiro.