quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Da falta de credibilidade

1. Curiosamente, algumas das personalidades mediaticamente mais indignadas, pelo menos na aparência, que hoje em dia se fazem ouvir, contra as políticas de austeridade e contra a perda de direitos adquiridos são aquelas vozes que, precisamente, há cerca de três décadas iniciaram e/ou apoiaram políticas de austeridade, de enfraquecimento dos direitos de quem vivia somente do seu salário, de marginalização de quem defendia caminhos de aprofundamento da justiça e da solidariedade sociais e, ao mesmo tempo, fizeram renascer políticas de progressivo e irreversível fortalecimento dos interesses dos grandes detentores de capital.
Quem, em Portugal, iniciou essa viragem histórica foi Mário Soares, quando, exercendo as funções de primeiro-ministro, anunciou que era tempo de se meter o socialismo na gaveta. Mário Soares, com o apoio de muito socialistas, iniciou, de facto, o trilho político que veio a ser seguido ao longo dos últimos 30 anos e que atingiu, pelo menos até este momento, o ponto mais alto do seu desenvolvimento: perda brutal de direitos por parte de quem é assalariado e simétrico aumento dos direitos de quem é empregador ou de quem é financeiro. Ainda não ouvi Mário Soares fazer mea culpa, assim como a nenhum dos seus companheiros de partido. É verdade que, se o fizessem, seria demasiado tarde, todavia, essa assunção daria certamente maior credibilidade às afirmações que agora proferem e torná-las-ia, sem dúvida, mais úteis ao combate contra a gravíssima regressão histórica que o objectivo de mais justiça e de mais bem-estar sociais está a sofrer.

2. O principal problema de quase todos os políticos é mesmo o da falta de credibilidade, e junto com a  falta de credibilidade vem a falta de autoridade. Passo Coelho há muito tempo que já perdeu uma coisa e outra — julgo não me enganar se disser que o actual primeiro-ministro é visto, por grande parte dos portugueses, como um rapaz bem-parecido que, não sabendo muito bem como, chegou a chefe de Governo, sem ter feito a mais elementar preparação para o exercício dessa função —, mas, agora, depois do episódio carnavalesco da tentativa de terminar com a tolerância de ponta, a sua autoridade tornou-se, provavelmente, irrecuperável.
Na realidade, é confrangedor constatar que o país não liga nenhuma a quem o lidera, ainda que isso seja compreensível, pois quem o lidera também não faz a mais pequena ideia do que é liderar um país. Passos Coelho não compreende que não chega apresentar circunstancialmente um ar grave e sério ou procurar falar em tom de baixo-barítono, para ser respeitado. Passos Coelho não o compreende. Por isso, não compreende que, tendo apresentado o ar mais grave e sério de que foi capaz, mesmo assim, praticamente ninguém lhe tenha prestado atenção.
Passos Coelho não tem credibilidade nem autoridade. Passos Coelho apenas vai sendo (incompreensivelmente) tolerado...