domingo, 13 de fevereiro de 2011

Pensamentos de domingo

«O arqueiro que ultrapassa o alvo falha tanto como aquele que não o alcança.»
Michel de Montaigne

«O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele.»
Friedrich Nietzsche

«Se estiver zangado, conte até cem; se estiver mesmo muito zangado, blasfeme.»
Mark Twain
In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações.

Andrew Hill

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Contestação em crescendo



Semanalmente, cresce o número de escolas que já assumiram uma posição de denúncia, de protesto e de oposição ao incompetente e deontologicamente insultuoso sistema de avaliação do desempenho docente. As improficiências e as perversidades do modelo são de tal ordem que é um imperativo e uma inevitabilidade a sua imediata extinção e consequente substituição.
Alguns dos blogues que estão a divulgar as tomadas de posição de escolas e/ou de professores: A Educação do Meu Umbigo, APEDE, Correntes, Octávio V. Gonçalves, ProfBlog.

Ao sábado: momento quase filosófico

Já chega!

O problema do ennui — termo francês existencialista para tédio extremo relativamente à vida, acompanhado por muitos encolheres de ombros e suspiros de fadiga — atinge uma dimensão nova com a perspectiva da vida eterna, por exemplo, no mesmo velho café em Saint-Germain-des- Prés. No seu ensaio O Caso Makropulos: Reflexões sobre o Tédio da Imortalidade, o filósofo moral de Cambridge do século XX, Sir Bernard Williams, afirma que a morte é necessária para a vida se manter interessante. O ponto de referência de Williams é a peça O Caso Makropulos do escritor checo Karel Capek (e a ópera subsquente do compositor checo Leos Janácek), na qual a heroína recebe a dádiva de uma vida extraordinariamente longa (342 anos até à data), graças a um elixir alquímico. Porém, no fim da peça ela decide não se candidatar a mais séculos porque percebeu que a vida eterna só traz uma apatia interminável. Escreve Williams: "A sua vida interminável atingiu um estado de tédio, indiferença e frieza. Tudo é triste."
Como assim? Williams acredita que, depois de uma pessoa viver um certo número de anos (aparentemente esse número varia de indivíduo para indivíduo), é incapaz de ter experiência novas — é o velho problema do "já estive ali, já fiz aquilo". Ipso facto, sente um tédio de morte. A vida boa, diz Williams, é uma vida que termina antes de a repatição e o tédio se instalarem inevitavelmente.
Claro que existem algumas pessoas, como o comediante Emo Philips, que defendem que apreciar a repetição incessante é um gosto que se adquire:
"Um amigo ofereceu-me um disco do Philip Glass. Ouvi-o durante cinco horas antes de me aperceber de que tinha um risco."
O filósofo alemão do século XIX Friedrich Nietzsche pôs a questão do tédio num nível inteiramente novo com a sua ideia do Eterno Retorno. Segundo o Freddy N., o melhor símbolo da futilidade de um destino eterno é a história repetir-se vezes sem conta, ad infinitum. Para alguns, como Woody Allen, essa perspectiva parece merecedora de um ai eterno! Diz o professor Allen: 
"[Nietzsche] disse que vamos viver de novo a vida que vivemos exactamente da mesma forma para toda a eternidade. Não me faltava mais nada. Isso significa que vou ter de aguentar novamente os campeonatos de patinagem artística."»
Thomas Cathcart, Daniel Klein, Heidegger e um Hipopótamo Chegam às Portas do Paraíso, pp. 220-222.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 11

À medida que nos vamos detendo com razoável atenção no conteúdo deste modelo de avaliação, verificamos que estamos perante uma inesgotável nascente de surpresas e de perplexidades.
A primeira parte do quarto descritor do nível «Bom», da dimensão «Desenvolvimento do ensino e da Aprendizagem», enuncia: «[O professor] procura adequar as estratégias de ensino às necessidades dos alunos [...]»
«Procurar adequar as estratégias» significa que o professor tenta implementar estratégias adequadas, o que comporta, evidentemente, a possibilidade de não conseguir implementar essas estratégias adequadas. O professor procura, mas, por qualquer razão, pode não conseguir. Apesar disso, o professor deve ser classificado, neste item, com o nível «Bom».
Agora, vamos ler a primeira parte do descritor correspondente, mas relativo a um nível abaixo, o nível «Regular», que, recorde-se, equivale a uma classificação negativa. Esse descritor diz: «[O professor] implementa estratégias de ensino nem sempre adequadas às necessidades dos alunos [...]» 
«Nem sempre», neste contexto, significa: umas vezes sim, outras vezes não. Isto é, este professor às vezes implementa estratégias adequadas às necessidades dos alunos, outras vezes não. Segundo o nível do descritor, o professor que assim proceda obtém uma classificação negativa. 
A perplexidade é óbvia: um professor que efectivamente implemente estratégias de ensino adequadas, ainda que nem sempre o faça, é penalizado e classificado como «Regular»; e um professor que apenas procure implementar estratégias adequadas, mesmo que não o consiga, é classificado de «Bom».
É claro que isto não tem qualquer sustentação, nem para os próprios autores deste disparate. O que isto revela é o modo irreflectido e irresponsável como este sistema de avaliação foi elaborado. É espantoso como um documento que deveria ter sido pensado e trabalhado com o máximo de atenção, com o máximo de ponderação e cuidado foi redigido sem rigor conceptual, sem escrúpulo e sem a mínima consideração por aqueles a quem este documento era dirigido: os professores.
Prosseguindo. A primeira parte do sexto descritor dos níveis «Excelente» e «Muito Bom» refere: «[O professor] concebe e implementa estratégias de avaliação diversificadas e rigorosas». O descritor do nível «Bom» diz: «[O professor] implementa estratégias de avaliação adequadas».
Passando ao lado da diferenciação bizantina entre um professor que concebe e implementa e outro que só implementa (como se, relativamente a estratégias de avaliação, se pudesse implementar sem conceber. A não ser que se esteja a falar de um imaginado mundo etéreo de superlativas e geniais concepções estratégicas de avaliação...), daqui conclui-se que:
1. Para os autores destes documentos, o top das estratégias de avaliação configura-se na diversidade e no rigor, mesmo que não sejam adequadas. Porque a adequação pertence apenas ao nível imediatamente inferior. Quer dizer que, segundo os autores, a diversidade e o rigor são bons em si mesmos, valem por si próprios, independentemente de serem adequados. Todavia, se não são adequados, são bons porquê e em quê?
2. A adequação, exigida no nível «Bom», não implica diversidade nem rigor. O descritor deste nível prevê a existência de estratégias de avaliação adequadas sem qualquer menção à diversidade e ao rigor. Sendo assim, se há estratégias de avaliação adequadas sem serem diversas nem rigorosas, para que serve, então, a diversidade e o rigor nas estratégias de avaliação?
No nível «Regular», a primeira parte do descritor passa a ser assim: [O professor] utiliza processos pouco diversificados de avaliação.» Comparativamente com os descritores anteriores, decorre daqui que o professor,  é classificado de «Regular» apenas porque as sua estratégias não são diversificadas, e não porque as suas estratégias sejam  inadequadas. O descritor não diz: o professor utiliza processos pouco adequados. Diz, somente: utiliza processos pouco diversificados. Assim, de modo incongruente, determina-se que as estratégias podem ser adequadas, mas, se não forem diversificadas, o professor deverá ser penalizado.

A confusão conceptual que o conteúdo deste modelo de avaliação revela é muito grave. Este facto, só por si, deveria constituir condição suficiente para que estes documentos não pudessem manter-se por mais tempo como letra de lei. Mas a seriedade política é algo que, há muito, deixou de existir, nas nossas elites.
Para a semana, iniciarei as observações sobre a terceira dimensão: «Participação na escola e relação com a comunidade educativa.»

Ligações a posts anteriores relativos a este assunto:
. Acerca da simplicidade de um modelo de avaliação e da seriedade da sua concretização
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 1
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 2
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 3
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 4
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 5
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 6
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 7
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 8 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Isto não pode continuar assim

No passado sábado, o jornal i intitulava assim uma notícia de duas páginas: «Professores: Começou a revolta que ainda não faz barulho». É um título feliz e verdadeiro. 
Provavelmente,  nos últimos seis anos, os professores têm sido a classe profissional mais maltratada pelos governos de Sócrates. Ainda não se sabe exactamente porquê, mas tem sido isso que tem acontecido. Naturalmente que havia e há vários aspectos relacionados com o funcionamento das escolas, com a carreira docente, com o sistema educativo que deviam e devem ser alterados, mas isso é uma constatação tão verdadeira a nível do ensino como é verdadeira relativamente a qualquer outra actividade da nossa sociedade. Contudo, coube aos professores ser o alvo principal de toda a incompetência política e técnica da governação socialista.
Lurdes Rodrigues e a sua equipa de secretários de Estado ficarão, não tenho nenhuma dúvida, no lado mais sombrio da nossa história da Educação. Arrogância patológica, aventureirismo político desmedido e impreparação técnica constituíram os traços principais do mandato daqueles três políticos. Com Isabel Alçada, manteve-se a impreparação técnica, e a arrogância foi substituída pela total ausência de capacidade de decisão política, transformando o ministério da Educação numa subsecretaria de Estado sem qualquer relevância dentro do Governo.
Num contínuo de degradação, os professores estão confrontados com um sistema de avaliação do desempenho completamente incompetente, assente na arbitrariedade e na opacidade; estão confrontados com um modelo de gestão que fomenta a compadrice política, os aconchegos entre amigos, a bajulice e a subserviência; estão confrontados com a iminente ameaça de desemprego em massa — como se vivêssemos num país cujo problema é ter educadores a mais. 
O vergonhoso sistema de avaliação docente tem de ser imediatamente interrompido e o despedimento de milhares de professores tem de ser impedido.
Estamos a chegar a um momento de fractura, em que não é possível suportar mais. A revolta já (re)começou. O bruaá está a aumentar. Cresce diariamente. As primeiras concentrações públicas de protesto e indignação já se iniciaram e não vão parar.
A consciência e a responsabilidade profissionais assim o exigem.

Às quartas

POEMA BARROCO

Os cavalos da aurora derrubando pianos
Avançam furiosamente pelas portas da noite.
Dormem na penumbra antigos santos com os pés feridos,
Dormem relógios e cristais de outro tempo, esqueletos de atrizes.

O poeta calça nuvens ornadas de cabeças gregas
E ajoelha-se ante a imagem da Nossa Senhora das Vitórias
Enquanto os primeiros ruídos de carrocinhas de leiteiros
Atravessam o céu de açucenas e bronze.

Preciso conhecer meu sistema de artérias
E saber até que ponto me sinto limitado
Pelos sonhos a galope, pelas últimas notícias de massacres,
Pelo caminhar das constelações, pela coreografia dos pássaros,
Pelo labirinto da esperança, pela respiração das plantas,
E pelos vagidos da criança recém-parida na Maternidade.

Preciso conhecer os porões da minha miséria,
Tocar fogo nas ervas que crescem pelo corpo acima,
Ameaçando tapar meus olhos, meus ouvidos,
E amordaçar a indefesa e nua castidade.

É então que viro a bela imagem azul-vermelha:
Apresentando-me o outro lado coberto de punhais,
Nossa Senhora das Derrotas, coroada de goivos,
Aponta seu coração e também pede auxílio.

Murilo Mendes

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Bonecos de palavra

Calvin & Hobbes, por Bill Watterson (trad.: Ana Falcão Bastos).
Para ampliar, clicar na imagem.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Registos e notas do fim-de-semana

Lacão desautorizado e poupado por Sócrates
Público (4/2/11)
PS só dá €400 mil a Alegre. Soares recebeu cinco vezes mais: €2 milhões
Sol (4/2/11)
«Já não se sabe quem manda no Governo» (Miguel Relvas)

Alemanha a mandar em vez do FMI

Autarcas do PS querem saída de secretário de Estado

Motos da cimeira da NATO estão por pagar

 Cavaco Silva ouve panorama negro do país

CGTP branqueia a sua história
— livro oficial silencia os episódios esquerdistas durante a revolução —

Rui Pedro Soares é o maior accionista português de novo semanário
Expresso (5/2/11)
Empresas do Estado ficam-se por metade dos cortes exigidos

PCP acena com moção de censura

BE desafia PS nos salários de gestores
Público (5/2/11)
Professores: Revolta começa a ganhar nova forma
i (4/2/11)
A despropósito de tudo, mas a propósito dos interesses de fazer distrair os portugueses, o ministro dos Assuntos Parlamentares e o Governo decidiram fazer grande alarido com a redução do número de deputados, à mistura com muita hipocrisia, com muitos jogos de sombras, com muitos jogos de gabinete, com muita teatralidade. Assim se retrata fielmente a qualidade dos políticos que nos governam. Este Governo e este PS serão, até ao fim, politicamente obscenos.

Sócrates mostrou-se satisfeito com as decisões que se preparam no sentido de ser a Alemanha a mandar na União Europeia. A sua satisfação tem uma só razão: assim, perspectiva-se que, na aparência, o FMI não terá de ser chamado. É apenas esta aparência que interessa a Sócrates. Que, para isso, Portugal tenha de aceitar tudo o que o FMI imporia, mais o que a senhora Merkel imponha, mais a assunção do estatuto de pedinte, nada interessa a Sócrates. Pensando ele que a sua imagem pessoal sai beneficiada, nada mais importa. Para ele, Portugal sempre foi um adereço para trazer à lapela.

Sócrates não conseguiu comprar a TVI, mas conseguiu tirar de lá quem o incomodava. Agora, vai ter um jornal semanário feito à sua vontade, à sua imagem e à sua semelhança. O principal accionista português é Rui Pedro Soares, cujo currículo dispensa apresentações, e o director é Emídio Rangel, cuja subserviência a Sócrates é do domínio do patológico.

Finalmente, os professores parecem começar a acordar de um prolongado e injustificado torpor. A verticalidade profissional não pode ser hipotecada à incompetência política e a Educação não pode ser destruída pelo irresponsabilidade de quem nos governa.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Pensamentos de domingo

«O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte do desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente com uma insubordinação inconsciente e feliz.»
Fernando Pessoa

«O mestre disse: Não quero nada com quem não se pergunta: como fazer, como fazer?»
Confúcio

«Os animais são amigos tão agradáveis: não fazem perguntas, não criticam.»
George Eliot
In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações.

Lloyd Miller

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A notícia do jornal «Expresso»

A edição desta semana do Expresso veio acompanhada de um mapa. Uma mapa de estradas. Esse mapa de estradas tem um título. O título é: «Mapa Espanha 2011». Tem um subtítulo: «Novas autoestradas e Novas autovias». Esse título vem impresso com as cores da bandeira espanhola: vermelho e amarelo. Tem uma foto: um painel preto com a figura do touro (símbolo espanhol).
Abri o mapa. Vi as estradas, as autoestradas e as autovias à volta de Madrid, à volta de Barcelona, à volta de Sevilha, à volta de todas as cidades espanholas. Vi as estradas, as autoestradas e as autovias que ligam todas as cidades espanholas. Ainda vi as estradas das ilhas espanholas de Ibiza e Maiorca.
Depois vi que Espanha cresceu. 
Vi que tem um novo território. Vi que, no «Mapa Espanha 2011», está lá Valença do Minho, está lá Viana do Castelo, está Braga, Bragança, Vila Real, Porto, Coimbra, Viseu, Guarda, Santarém, Lisboa, Évora, Beja, Sagres, Faro... Portugal inteiro (salpicado de três ovais com um P no meio, provavelmente a assinalar parques de estacionamento).  Com este mapa, intitulado «Mapa Espanha 2011», oferecido pelo jornal Expresso, percebi que, agora, a Espanha é a totalidade da Península Ibérica.
Esta é, seguramente, a grande notícia do Expresso de hoje.
Conto que, na próxima semana, o Expresso possa igualmente oferecer aos seus leitores um opúsculo com a lista dos jornais espanhóis, onde, certamente, o Expresso terá lá o seu lugar.

P.S. Gosto de Espanha e dos espanhóis, mas, inspirando-me num já falecido almirante que dizia não gostar de ser sequestrado, eu acrescento que não aprecio ser anexado.
Com o devido agradecimento, devolvi o mapa ao novel director do Expresso, sem lhe cobrar o selo do correio.

Ao sábado: momento quase filosófico

O problema do desemprego da sra. morte e outras considerações

Entre as questões mais práticas suscitadas pela possibilidade realista de imortalidade estão as considerações morais da ética ambiental, uma subdivisão recente da ética aplicada. A pergunta mais premente: Onde raio vamos meter todos estes imortais? Num mundo já pressionado por recursos escassos para uma população em crescimento, que faremos quando o nosso estabilizador básico da população — a Morte — pendurar a foice?
A solução óbvia é cortar na outra extremidade — reduzir ou até acabar com a produção de novos corpos a fim de arranjar espaço para corpos muito velhos. [...]
O judaísmo reformista ataca a solução de imortalidade sem reprodução [da seguinte] forma (numa meditação comovente do serviço fúnebre Yom Kippur — Dia da Expiação):
        "Se algum mensageiro nos abordasse com a proposta de a morte ser anulada com a condição inseparável de o nascimento também cessar; se a geração existente tivesse a oportunidade de viver eternamente mas com plena consciência de que nunca mais haveria uma criança, ou um adolescente, ou um primeiro amor, nunca mais pessoas novas com esperanças novas, novas ideias, novos empreendimentos, nós para sempre e nunca outros — poderia a resposta suscitar dúvidas?"
Claro que mesmo que mesmo que a perspectiva de imortalidade biológica fosse inteiramente realista, a perspectiva de que estaria à disposição de todos sem excepção é totalmente improvável. A maioria da população mundial não tem poder económico para pagar cuidados médicos básicos, por isso a possibilidade de haver nanorrobôs de "busca e reparação"  para quem pedir é bastante incredível. A maior probabilidade é que a terapia de nanorrobôs ou a telomerase estejam reservadas para homens como Warren Buffet, Bill Gates e Tiger Woods, homens que podem dar-se ao luxo de financiar um passatempo dispendioso como a Existência Eterna.
Se isto parece patentemente injusto é porque notoriamente o é. Confere ao conceito de "sobrevivência dos mais fortes" um significado inteiramente novo — sobrevivência eterna dos mais fortes. [...]
[Mas] digamos que temos nanorrobôs a reparar atarefadamente todas as partes decadentes do nosso genoma para que a doença e o desgaste normal deixem de ter como desfecho o Grande Sono. Mesmo assim, esses pequenos robôs atarefados têm os seus limites; não servirão para nada se formos obliterados por um piano de cauda que caiu de um prédio ou se apanharmos boleia com Thelma e Louise na sua viagem para o Grand Canyon. A partir de então morreremos se ocorrer uma catástrofe desse género. Em que medida é que isto afectará a nossa maneira de pensar? A questão deixa de ser se vamos morrer agora ou mais tarde; passa a ser se vamos morrer. Poderemos dizer que as probabilidades se limitaram a aumentar — a aumentar muito. Nesse novo contexto, não estaremos propensos a [tentar] viver vidas que sejam totalmente desprovidas de risco — por exemplo, enclausurados numa caixa à prova de bomba enterrada no solo?
Thomas Cathcart, Daniel Klein, Heidegger e um Hipopótamo Chegam às Portas do Paraíso, pp.217-220 (adaptado).

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 10

O presente modelo de avaliação do desempenho docente enferma de múltiplos erros que se revelam quer a nível técnico quer a nível de concepção. Vários destes erros são, contudo, derivados de um problema anterior que os precede e que não foi, segundo parece, objecto de devida reflexão, por parte dos responsáveis do Ministério da Educação. Isto é, parece não ter havido grande preocupação em responder à pergunta: a nível do desempenho docente, que domínios e que práticas podem, com um mínimo de fiabilidade, ser objecto de avaliação?
Como o tempo dedicado a esta pergunta parece ter sido escasso, ficou por determinar a fronteira entre o que é e o que não é susceptível de ser avaliado. Esta indeterminação teve a consequência prática de se pretender avaliar tudo o que o delírio ou a obsessão avaliativa quiseram. É certamente por esta razão que, desde expressões que apontam para «alguma preocupação» até outras que requerem «profundidade de comprometimento», de tudo encontramos no meio da parafernália de indicadores e descritores que compõem o modelo de avaliação. Os seus autores definiram o perfil do que entendem ser um professor modelar, listaram-lhe as características e transformaram essa características em descritores pretensamente objectivos. Ou seja: idealizaram o (seu) professor e assumiram, ainda que sem fundamento, que o idealizável é avaliável.
Adicionalmente, confiaram, sem escrutínio e sem contextualização, na teoria avaliativa que defende o seguinte preceito: perante um objecto complexo, devem ser introduzidas múltiplas variáveis de modo a que, pelo cruzamento dessa variedade de factores, o resultado final global seja, estatisticamente, aproximado da realidade. Deste modo, mecanicamente e sem parcimónia, foram semeados pelo modelo os conhecidos 11 domínios de avaliação, os 39 indicadores e os 72 descritores. O problema é que, quando a quase totalidade das variáveis introduzidas apenas pode ser aferida a «olhómetro», ou por suposição, ou por palpite, os erros avaliativos têm um efeito multiplicador e o resultado final é um produto acumulado de inúmeros juízos incorrectos.
Este problema atravessa o modelo e inquina-o de uma ponta a outra.

Mas prossigamos a análise da segunda dimensão (iniciada em «Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 8»). O terceiro descritor do nível «Excelente» diz: «[O professor] promove consistentemente a articulação com outras disciplinas e áreas curriculares e a planificação conjunta com pares.»
Todos sabemos que alguns advérbios avaliativos são de objectivação particularmente difícil ou mesmo impossível. Apesar disso, os autores deste modelo de avaliação não se inibiram de os aplicar: são múltiplos os descritores com este tipo de advérbios. Este descritor é mais um exemplo. «Consistentemente» é um advérbio que nos obriga, novamente, a perguntar pelo modo de determinar a fronteira entre o «consistente» e o «não consiste». Que critério vai o avaliador utilizar para definir essa fronteira? Existe critério que ele possa utilizar e que não seja de formulação arbitrária? Se existe, qual é? Até hoje, ele não foi revelado. E se o avaliador não tiver um critério para definir essa fronteira, nunca poderá saber se um professor promove «consistentemente» isto ou aquilo.

O quarto descritor do nível «Excelente» enuncia: «[O professor] concebe e aplica estratégias de ensino adequadas às necessidades dos alunos e comunica com rigor e elevada eficácia.»
Este quarto descritor encavalita-se parcialmente no conteúdo do segundo descritor do mesmo nível. Não se compreende que aconteça, mas acontece.
Todavia o problema maior não está aqui. Está no seguinte: o descritor correspondente a este, mas respeitante ao nível «Muito Bom», prescreve: «[O professor] concebe e aplica estratégias de ensino adequadas às necessidades dos alunos e comunica com rigor e  eficácia.» Isto é, desaparece o termo «elevada». O que deverá significar que um professor «Muito Bom» comunica com rigor e com eficácia, mas não com elevada eficácia. Já aqui voltaremos. Vejamos agora o que diz o descritor para o nível Bom: «[O professor] procura adequar as estratégias de ensino às necessidades dos alunos e comunica com rigor.» Aqui, introduz-se o «procura adequar» e faz-se desaparecer a «eficácia».
Avançando por partes:
1. Se, nestes descritores, a diferença entre um professor «Excelente» e um professor «Muito Bom» reside no facto de um comunicar com «elevada eficácia» e o outro comunicar apenas com «eficácia», isto pressupõe afirmar que é possível determinar, com clareza, a diferença entre uma eficácia «elevada» e um eficácia «não elevada». Todavia, não chega pressupor uma possibilidade, é necessário demonstrar que ela existe. É preciso demonstrar como se opera essa destrinça. É preciso mostrar qual é o critério de avaliação que o avaliador pode utilizar, de modo fiável, para determinar se uma comunicação é feita com «elevada» eficácia ou não. Sem a definição do critério, tudo que for feito é leviano e irresponsável.
2. Para além disto, como poderia ser aferida, em apenas duas aulas, a suposta elevada eficácia? Que instrumentos sérios existem que possibilitem essa medição? Quais são?
3. Por fim, o caricato. Com o descritor do nível «Bom», ficamos a saber duas coisas:
a) Para os autores deste modelo de avaliação um «Bom» professor não precisa de adequar as estratégias de ensino às necessidade dos alunos, a um Bom professor basta «procurar adequar». Pode nunca o conseguir, mas desde que procure é considerado um Bom professor;
b) Para os autores deste modelo de avaliação um «Bom» professor é aquele que comunica com rigor, mas sem eficácia. Pergunta óbvia: em contexto educativo, porque é conveniente não esquecer que é deste contexto que estamos a falar, para que serve uma comunicação rigorosa, se for ineficaz?
Tentar, à força e sem bom senso, construir um modelo de avaliação dá nisto: um rol infindável de incongruências e de dislates.

Ligações a posts anteriores relativos a este assunto:
. Acerca da simplicidade de um modelo de avaliação e da seriedade da sua concretização
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 1
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 2
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 3
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 4
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 5
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 6
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 7
. Apontamentos sobre o desnorte de uma avaliação - 8 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Às quartas

O ASSINALADO

Tu és o Louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De beleza eterna, pouco a pouco.

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

Cruz e Sousa

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Perguntas

Depois de concluído o debate de ontem sobre educação, no programa «Prós e Contras», da RTP 1, comecei a perguntar à madrugada:
i) Como é que Isabel Alçada chegou a ministra?
ii) O melhor que o PSD tem para falar sobre educação é Pedro Duarte? O próprio não sente vergonha em falar sobre educação, depois de, há pouco mais de um ano, ter publicamente assumido o compromisso de votar a favor da suspensão do modelo de avaliação e, vinte e quatro horas depois, ter votado de modo a viabilizá-lo?
iii) Para além da certeira crítica ao «eduquês», Nuno Crato não sabe dizer mais nada que não seja a afirmação da sua fé em exames objectivos e na reafirmação de um ou dois clichés acerca do princípio da liberdade no ensino?
iv) Que esteve a fazer Isabel Soares, no debate? Disse que não representava o ensino particular, porque a escola dela era diferente, que não representava o Ministério da Educação,  porque não tinha procuração para isso. Então, representava quem: Lurdes Rodrigues? O pai? Os dois? Ela foi convidada porquê?
v) A RTP não conhece ninguém que possa falar sobre educação, com interesse, qualidade e verdade?
vi) Na RTP, não há mais quem possa moderar aqueles debates? E que seja um pouco mais isento, menos palavroso e que faça um pouco menos de ruído ao ouvido de quem assiste?
Uma última curiosidade: foi por malvadez que a RTP relembrou e destacou o sorriso de satisfação de Mário Nogueira, quando este assinou o Acordo com Isabel Alçada e disse: «Já tínhamos saudades de um verdadeira negociação»?

Bonecos de palavra

Calvin & Hobbes, por Bill Watterson (trad.: Ana Falcão Bastos).
Para ampliar, clicar na imagem.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Registos e notas do fim-de-semana

«Redução dos salários na Função Pública é injusta» (Silva Peneda)

Todos contra bónus a Noronha

Juiz põe em causa decisão do PGR
Sol (28/1/11)

CMVM usa estatuto público para escapar a cortes de dez por cento

CGD ainda não deliberou sobre a recomendação do Banco de Portugal 
para reduzir os dividendos

Mais de 42 mil pessoas tiveram problemas para votar no dia 23

Governo recuou e Bruxelas arquivou processo dos Magalhães
Público (28/1/11)

Governo despeja culpas sobre Rui Pereira
Expresso (29/1/11)

Limitar salários de gestores pouparia 2,8 milhões de euros
— Teixeira dos Santos diz não haver justificação para isso —

Reforço na PT [ultrapassou os 10% do capital] permite ao BES receber
117 milhões em dividendos livres de impostos
Público (29/1/11)

A injustiça da redução dos salários na Função Pública é, para algumas pessoas, uma descoberta recente. Cavaco Silva fez essa descoberta há muito pouco tempo, quase em cima do dia das eleições; outras figuras, da área do PSD, têm, salpicadamente, vindo a público, en passant, deixar a notícia de idêntica descoberta; Silva Peneda, ex-ministro de Cavaco Silva e seu apoiante nas recentes eleições, revelou-se agora mais um descobridor, na matéria. 
Confirma-se, pois, o poder que o fenómeno eleições tem nos políticos: fá-los descobrir coisas que de outro modo nunca descobririam. Lamentavelmente, é um poder efémero: só dura uns dias — antes da realização do acto, ou quando paira no ar a hipótese do acto se vir a realizar.

A tentativa do Governo de premiar os (na sua óptica) bons serviços de Noronha do Nascimento, prolongando-lhe o mandato de presidente do Supremo Tribunal de Justiça para além da idade limite da reforma, parece deparar-se com obstáculos de peso: o Conselho Superior da Magistratura votou contra, a associação sindical dos juízes está contra e o sindicato dos magistrados do Ministério Público também. Há oferendas de difícil concretização...
O PGR, outra figura de topo da nossa Justiça e muito bem-querida do Governo, viu ser posto em causa, pelo juiz Carlos Alexandre, o fundamento da sua decisão de abrir processos disciplinares a alguns magistrados. O conteúdo do despacho de pronúncia do juiz deixa o procurador-geral em mais uma periclitante posição.
A nossa Justiça continua, portanto, ao seu melhor nível...

CMVM, CGD, BES e muitos outros tudo fazem, a nível de «engenharias de gabinete», para fugir às medidas de austeridade. O curioso é que, em público, são esses gestores, são esses presidentes de conselhos de administração, são esses «homens de negócios» os primeiros a defender a urgência e o acerto dessas medidas.
Teixeira dos Santos, que faz questão de querer competir com Cavaco Silva no campeonato público da honestidade, da competência e do sentido de justiça, é quem permite que as «engenharias de gabinete» proliferem. Por exemplo, foi ele, e o seu chefe de Governo, que considerou justo, e nesse sentido legislou, que os accionistas que detenham mais de 10% do capital de uma empresa não paguem imposto sobre os dividendos. Isto é, aqueles que mais capital têm são aqueles que ficam isentos de imposto. 
Também é este mesmo ministro que considera não haver justificação para que haja limites aos salários dos gestores. 
Desgraçadamente, o sentido de justiça de Teixeira dos Santos sofre de recorrente unilateralidade.