quinta-feira, 31 de março de 2011

A avaliação de Pacheco Pereira

«Não me custa admitir que o actual processo de avaliação de professores seja demasiado burocrático e mesmo imperfeito [...], mas talvez seja bom perceber porque o é. É-o porque, no processo de recuo em relação à proposta anterior, que já padecia do mesmo mal, professores e sindicatos exigiram uma selva de garantias e escapatórias, para tornar a avaliação dos professores um dos processos mais garantistas de avaliação que o estado faz aos seus funcionários. Pelo contrário, um elemento fundamental da avaliação, o desempenho escolar dos alunos, não entra, mesmo com todas as correcções sociais que se possam imaginar. Comparados com os professores, os funcionários públicos não têm nenhuma das garantias que os professores tinham e que, como é óbvio, complicam imenso o processo de avaliação.»
Pacheco Pereira, in Sábado (31/3/11)
Quando, há vários anos, o jornal Público contratou Pacheco Pereira para cronista, fez uma enorme campanha publicitária a anunciar o facto. Durante algumas semanas, que precederam a publicação da primeira crónica, o jornal não se cansou de anunciar a nova contratação — à semelhança dos anúncios que os clubes de futebol fazem quando contratam os chamados craques. Na altura, eu era leitor assíduo do Público e achei que aquela campanha era de mau gosto, na forma, e sem justificação, no conteúdo. Na qualidade de leitor, escrevi ao director (José Manuel Fernandes) a manifestar essa minha opinião. Recordo-me de ter escrito, nesse e-mail, que Pacheco Pereira era, do ponto de vista intelectual, um bluff: pose muita, substância pouca — as muitas leituras que ele possa ter feito (acreditando que tenha lido uma parte significativa da sua também muito publicitada biblioteca) não chegavam para que ele produzisse boa análise política e, muito menos, para que ele se tornasse um político interessante e/ou competente. Era o que eu achava da personagem e, por essa razão, não percebia tanta publicidade à dita aquisição. 
De então para cá, o tempo que passou serviu para confirmar a ideia que tinha. O excerto que acima transcrevi, da crónica que Pacheco Pereira escreveu na revista Sábado, de hoje, é o mais recente exemplo da vacuidade e da superficialidade do pensamento de Pacheco Pereira.
A verdade é que se Pacheco Pereira falar de todos os assuntos como fala sobre a avaliação dos professores, para além de ser intelectualmente um bluff, é intelectualmente uma fraude. O excerto revela que o seu autor não faz a mais leve ideia do que está a falar, mas fala como se soubesse o que diz. Julgando que pode aplicar ao assunto «avaliação dos professores» o mesmo método que aplica a assuntos generalistas, o autor espalha-se ao comprido e não diz coisa com coisa. Sobre assuntos generalistas, Pacheco Pereira diz generalidades, que, se bem espremidas, normalmente nada dizem de especial, mas, como as diz com um discurso um pouco mais rebuscado que o discurso do senso comum, há, pelo menos aparentemente, quem lhes descubra interesse. Todavia, quando o assunto obriga a algum trabalho de casa, isto é, a algum estudo, a algum labor de aquisição de conhecimento mais especializado, como é o caso da avaliação dos professores, as generalidades não chegam, o «bitaite», por  mais aparentemente intelectualizado que seja, não funciona.
Deste modo, Pacheco Pereira escreve dislates e engana quem o lê. Tudo o que está escrito no excerto é asneira grossa, que se resume nesta proposição falsa e absurda: «há na avaliação dos professores uma selva de garantias e escapatórias e isso complica imenso o processo de avaliação». A incompetência do processo de avaliação reside na sua inoperacionalidade e na sua arbitrariedade. E a inoperacionalidade e arbitrariedade são exactamente o oposto de garantias e de escapatórias.
Pacheco Pereira ou não leu nada sobre o assunto, ou, se leu, não percebeu, mas apesar de não ter lido ou de não ter percebido, Pacheco Pereira, levianamente, opina e, desta  forma, engana quem o lê. O que, para além de ser feio, é intelectualmente desonesto.
O bluff confirma-se e a fraude também.