quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Às quartas


... Como nos cães,
tocados por seu dono,
vagueia todo o amigo na terra,
assim quisera eu minha palavra:
simples,
tímida nas pupilas,
com sílabas errantes de menino.

    Improvisar o mundo,
e todo o diáfano do mundo,
com a data encontrada no orvalho
e com o sopro tépido da mão...

    Pois o que vale é o real
escrito com a exaltação do real,
e com o sedimento aéreo
do coração que pulsa chamado por seu dono,
leve,
muito levemente
oh, poema.

Leopoldo Panero
(Trad.: José Bento)

O verdadeiro projecto para o país

Eu ando preocupado com o país e por isso sempre que o destino me proporciona a leitura de um artigo de jornal assinado por alguém que se denomina de Especialista em Estratégia Inovação e Competitividade tudo com letra maiúscula eu não perco a oportunidade e posso não fazer mais nada durante o dia mas o artigo escrito pelo especialista eu tenho de o ler dê por onde der ainda para mais se o artigo tem como título Uma Nação Star Up e se logo para começo de conversa nos anuncia que é o nome de um projecto que vai ser lançado no nosso país e que uma nação start up é um grande desafio para Portugal porque o projecto consiste numa «verdadeira dimensão colaborativa de mobilização dos "actores da mudança"» dito assim com ênfase e panache e quem são pergunta o leitor esses "actores da mudança" na opinião do Especialista em Estratégia Inovação e Competitividade e eu respondo porque o Especialista em Estratégia Inovação e Competitividade foi muito claro neste ponto não foi claro em mais nenhum ponto mas neste ponto foi claro e então para ele os actores da mudança são precisamente e pela ordem que se segue os empresários os académicos e os empreendedores sem tirar nem pôr são estes e mais nenhuns é claro que isto me deixou a pensar como é que esta meia dúzia de tipos pode fazer a mudança se não incluir os trabalhadores que são aqueles que dão o corpo ao manifesto e que manifestamente são aqueles que ganham menos e pagam mais contudo isto é um problema que não interessa nada ao Especialista em Estratégia Inovação e Competitividade mas isto foi só o começo do artigo as primeiras quatro linhas porque as restantes linhas é que explicam bem em que consiste o projecto start up o projecto que vai salvar Portugal e então uma pessoa fica a saber que esse projecto vai ter «efeitos de alavancagem na percepção da necessidade de reinventar a economia» que também vai «consolidar uma ideia de marca» que ainda vai «protagonizar novas soluções com novas respostas» que tem um «novo paradigma de desenvolvimento» que aposta numa «agenda de mudança» que está «centrado em novas ideias e novas soluções» e pergunta-me o leitor mas concretamente em que é que consistem essas novas ideias e essa nova agenda e essa alavancagem e por aí fora e eu respondo um momento que ainda estamos a meio do artigo e o Especialista em Estratégia Inovação e Competitividade ainda não acabou de falar portanto retomando o que estava a dizer segundo o Especialista em Estratégia Inovação e Competitividade nós temos de perceber que a «aposta nos factores dinâmicos de competitividade, numa lógica territorialmente equilibrada e com opções estratégicas claramente assumidas» é aquilo que constitui um «contributo central para a correcção das graves assimetrias sociais e regionais que se têm acentuado» é por isso que se torna óbvio ser necessário originar «um choque operacional capaz de produzir efeitos sistémicos ao nível do funcionamento das organizações empresariais» ora só assim se compreende que o «novo paradigma» radique «na capacidade de os resultados potenciados pela inovação e conhecimento serem capazes de induzir novas formas de integração social e territorial capazes [sic] de sustentar um equilíbrio global do sistema nacional» e isto é tanto mais evidente quanto é sobre este «desígnio que o start up Portugal se propõe estabelecer um novo contrato de confiança, dinamizar um novo projecto, promover uma nova marca» depois ler isto e felizmente que o destino me proporcionou o encontro com este Especialista em Estratégia Inovação e Competitividade de nome Jaime Quesado e que escreveu este artigo no Diário Económico no dia dezasseis de Novembro de dois mil e onze deixei de estar preocupado com o país porque não há nada como deixar o nosso futuro nas mão destes especialistas.

Zé Portugal

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Bonecos de palavra

Quino, Bem, Obrigado. E Você?, Dom Quixote.

Nacos

«Se o leitor alguma vez foi rapaz deve recordar-se das preocupações que temos nessa fase da vida e de como elas não nos largam e se, até agora, ainda não tive motivo para referir as minhas, não quer dizer que não fossem companheiras constantes. A vida de um rapaz, tal como a vida de uma ave, não é o que em geral se pensa. Por exemplo, vejam-se os papa-amoras a empanturrarem-se, as felosas-assobiadeiras a satisfazerem a sua gula entre as amoras, as toutinegras-de-barrete-preto a baloiçarem nas roseiras bravas, todos em pânico a quererem engordar antes que o Verão acabe. Eu, pelo meu lado, estava sempre inquieto, não fosse o meu pai morrer como a minha mãe e deixar-me sem ninguém que cuidasse de mim, sem ninguém para me salvar da minha natureza impertinente, das minhas imitações, do meu medo dos desconhecidos na estrada ou nos bosques à noite, dos vagabundos, dos patifes, dos eremitas, dos homens que põem narizes de papelão para assustar os rapazinhos.»
Peter Carey, Parrot e Olivier na América, Gradiva

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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Uma fita assim-assim: «Nos Idos de Março», de George Clooney

Comentário de segunda

Alunos universitários de Aveiro e do Algarve passam fome, alunos do ensino básico e do secundário passam fome, polícias passam fome, pensionistas passam fome, desempregados passam fome... Estas são notícias que todos os dias nos chegam. De quem é a responsabilidade?

Ainda não faz parte da nossa cultura exigir o apuramento de responsabilidades, com consequências civis, da acção política. Mas, na realidade, a política é demasiado importante para que a responsabilidade dos seus actos se extinga com os resultados dos processos eleitorais. É demasiado fácil apagar as consequências das acções dos políticos e simultaneamente lavar as consciências com o designado julgamento eleitoral.
Não é de todo compreensível nem aceitável que, por exemplo, a nível profissional, actos de pequena negligência, com consequências limitadas, possam dar lugar a processos disciplinares e até a despedimentos e actos da maior gravidade que lesam milhões de pessoas passem impunes quanto à sua responsabilização civil.
É verdade que este é  um problema difícil porque nos obriga a pisar um território que está cheio de armadilhas, onde a fronteira entre o grosseiro justicialismo e a responsabilização ética, com consequências civis, não é fácil de encontrar, mas é um caminho que tem de ser trilhado. Penso que uma das causas, entre várias outras, da facilidade com que os povos são chamados a pagar — com dor, fome e miséria — os desvarios dos políticos é a impunidade de que eles gozam. 
E não é válido o argumento que co-responsabiliza os eleitores, dizendo que são eles que elegem os políticos. Não é válido, porque a conclusão omite uma premissa fundamental: quem os elege não o faz para que eles realizem as políticas que, na realidade, praticam; quem os elege, elege-os para que eles realizem as políticas que prometeram realizar. O mandato que lhes é conferido é apenas para que realizem as políticas prometidas e não outras. Os eleitores seriam, de facto, co-responsáveis se os políticos por eles eleitos cumprissem o que em campanha eleitoral anunciam. Mas isso não acontece. Os político prometem e mentem sem pudor e, quando atingem o poder, agem de modo muito diverso — em alguns casos de modo objectivamente oposto — ao que publicamente se haviam comprometido.
Esta impunidade não pode continuar, porque representa brincar com a vida de milhões de seres humanos. 

domingo, 27 de novembro de 2011

Pat Metheny

Pensamentos de domingo

«A lei é poderosa, porém, mais poderosa é a necessidade.»
Johann Goethe

«A necessidade é capaz de quebrar até o aço.»
Textos Judaicos

«Este método estóico de prover as nossas necessidades suprimindo os nossos desejos é como cortar os pés quando necessitamos de sapatos.»
Jonathan Swift
In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações, Âncora Editores

sábado, 26 de novembro de 2011

Ao sábado: momento quase filosófico

O problema da crença na fiabilidade dos números

Um conto árabe.
Um homem queria assegurar-se de que depois da sua morte os seus três filhos saberiam encontrar um bom conselheiro.
Por isso deixou-lhes em testamento dezassete camelos com as seguintes instruções:
— Quero que o mais velho fique com metade dos camelos, o segundo com um terço e o mais novo com um nono.
Os filhos, à leitura do testamento, ficaram perplexos. Pediram conselho aos amigos. Estes disseram-lhes que vendessem os camelos e partilhassem o dinheiro segundo as proporções indicadas. Outros consideravam que o testamento não se podia executar e por conseguinte não tinha valor.
Por fim, encontraram um homem que, depois de reflectir, disse:
— É muito simples. Empresto-vos um camelo. Juntai-o aos outros dezassete. Dais ao mais velho metade dos dezoito camelos, isto é, nove camelos. Ao segundo dais um terço, isto é, seis camelos. O mais novo recebe um nono, isto é, dois camelos. No total, dá dezassete. Então devolvem-me o meu camelo e está feito.
Os três filhos tinham encontrado o melhor conselheiro possível. Pensa-se — mas não há a certeza — que o mantiveram muito tempo junto deles.
In Jean-Claude Carrière, Tertúlia de Mentirosos, Teorema

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Apontamentos sobre um desastroso modelo de gestão -5

A lei atribui ao conselho geral o lugar cimeiro na hierarquia do actual modelo de gestão e administração das escolas. 
É-lhe atribuído o poder de definir as linhas orientadoras da actividade da escola, nomeadamente a nível da elaboração do orçamento, da acção social escolar, da participação em actividades pedagógicas, científicas, culturais e desportivas. É-lhe atribuído o poder de aprovar ou não os documentos mais importantes para o funcionamento de um estabelecimento de ensino: o projecto educativo (cuja execução também deve acompanhar e avaliar), o regulamento interno, o plano anual de actividades e o relatório final sobre a sua execução, as propostas de contratos de autonomia e o relatório de contas de gerência. Ainda lhe é atribuído o poder de apreciar os resultados do processo de auto-avaliação, de se pronunciar sobre os critérios de organização dos horários, de promover o relacionamento com a comunidade educativa e de acompanhar a acção dos demais órgãos de administração e gestão da escola.
Para além de tudo isto, o conselho geral tem o poder de eleger o director — de o eleger, de o demitir e de o reconduzir ou não.
Formalmente tem todos estes poderes. Mas tem-nos, de facto? Isto é, na realidade, tem condições para os exercer? Não tem. Por diversas razões. Vejamos duas de diferente natureza.

1. Ausência de condições objectivas.
A maioria dos membros do conselho geral tem uma actividade profissional desligada do ensino. Por razões óbvias, esta maioria necessitaria de condições de tempo para poder dedicar-se minimamente ao estudo e preparação da multiplicidade de documentos acima referidos, a fim de se sentir capacitada a formular opinião e a elaborar propostas fundamentadas. Ora, como é natural, as actividades profissionais que essas pessoas desenvolvem não lhes dão essas condições de tempo. Só roubando várias horas ao legítimo direito ao descanso é que esse tempo poderia surgir. Compreensivelmente, muitos não o fazem, do que resulta uma manifesta incapacidade de exercerem os poderes conferidos por lei.
Mesmo os professores que pertencem ao conselho geral o máximo a que poderão ter direito, se o regulamento interno da escola o contemplar, é a uma redução na componente não lectiva, que, todavia, em nada lhes reduz o tempo que dedicam ao trabalho de leccionação. Isto significa que mesmo quem é profissional do ensino tem objectivas limitações para cumprir adequadamente a panóplia de competências que lhe são atribuídas, enquanto conselheiro geral.
Adicionalmente, o conselho geral não possui um serviço de secretariado que o assessore, de modo a ter acesso fácil à informação relevante que chega à escola (desde decretos-lei a simples ofícios e circulares) e à informação que é produzida dentro da própria escola. Sem informação adequada e completa não é possível o exercício pleno das funções que lhe estão destinadas, nomeadamente o de «acompanhar a acção dos demais órgãos de administração e gestão da escola.»
Há, pois, um enorme desequilíbrio entre as responsabilidades que formalmente são atribuídas ao conselho geral e as condições reais que lhe são proporcionadas para as cumprir.

2. Ausência de condições subjectivas.
A composição, as competências e a posição hierárquica que o conselho geral ocupa no organograma do regime de administração e gestão das escolas geram, no seu conjunto, graves e inultrapassáveis situações de natureza contraditória e conflituante.
O poder de eleger, demitir ou reconduzir; o direito a votar a favor ou contra e o exercício da crítica têm de ser realizados de modo livre. Não podem existir condicionamentos — seja por receios de represálias, seja por defesa de interesses pessoais ou profissionais. Ora, a composição do conselho geral e o seu modo de funcionamento são favoráveis à ocorrência de situações que configuram esse tipo de condicionamento, e que, subjectivamente, podem colocar em causa a liberdade de cada um falar e agir segundo a sua consciência.
Vejamos. Nas reuniões do conselho geral, participa o director, ainda que não tenha direito a voto. O director está presente, intervém sempre que o deseja, apresenta propostas, e ouve o que os conselheiros dizem. Os conselheiros, pelas funções que a lei lhes determina, devem escrutinar o exercício dos vários órgãos da escola, nomeadamente a acção do director. Ora, esse escrutínio, para ser sério, não pode ser condicionado. Todavia, foram criadas, pela legislação, as condições para que esse exercício possa ser fortemente condicionado.
Na verdade, os funcionários e os professores que são membros do conselho geral se, por um lado, são membros de um órgão que, no organograma do regime de administração e gestão das escolas, ocupa o lugar cimeiro, por outro lado, têm, do ponto de vista administrativo, o director como seu superior hierárquico, a quem devem obediência funcional. Esta circunstância, só por si, é um potencial factor de constrangimento, em particular, no que diz respeito a funcionários auxiliares e administrativos. Quem se habituou, dia a dia, a receber e a cumprir ordens de serviço do director é natural que se sinta pouco confortável numa situação em que tem a obrigação de escrutinar, através da inquirição e da crítica, a acção daquele a quem diariamente obedece.
Para além disto, o director é também o responsável máximo pela avaliação do desempenho dos funcionários e dos professores. Avaliação do desempenho que tem consequências a nível da progressão na carreira e que pode também ter consequências a nível disciplinar.
Ambas as circunstâncias que envolvem o director (superior hierárquico e responsável pela avaliação) são demasiado ponderosas para que se possa garantir que não condicionam o comportamento daqueles que têm a obrigação, entre outras, de submeter a exame crítico a sua acção. Exame que pode conduzir à sua exoneração ou à sua não recondução.
Inversamente, também se abre campo a que, em período pré-eleitoral, o director seja tentado a ganhar votos, aliciando representantes de funcionários e de professores no conselho geral, através da atribuição de privilégios de variada ordem.

Estamos, pois, perante um terreno demasiado pantanoso onde tudo é possível. Confronte-se agora este processo com a eleição democrática e universal dos anteriores órgãos directivos e veja-se de que lado está a maior transparência.

Continua na próxima semana.

Ontem: Greve Geral e Marcha da Indignação

Uma cada vez mais forte e determinada contestação social, aqui, na Europa e no Mundo, é o único caminho que pode ser seguido por quem é, sistematicamente, objecto de espoliação.
O modelo económico-financeiro dominante está profundamente errado. É um imperativo ético transformá-lo.

Momentos da marcha que partiu do Marquês de Pombal, no dia da Greve Geral.




quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Às quartas

COMPANHEIRA

Não temas
Quanto não perdi para sempre
Sequer conheci ou sonhei
Para te poder reconhecer
E ao lembrar-me que eras sonhada
Rasguei todos os papéis onde rabisquei
Cavalguei seres alados na planície interior
Acelerei a alma enquanto houve alimento
E ar

E pão
E estrelas
Alimentava-me da doce memória de que existirias
Naquela cabana à beira do riacho
Que dividia a província distante
Já o comboio silvava perto do apeadeiro
No sopé das montanhas
Na mais alta estavam os pais
Abraçados à bandeira eterna
Dos resistentes ao invasor
Sabemos que oferecemos flores silvestres
Enquanto as balas estilhaçavam urzes
E todos os arbustos das encostas
Morreríamos abraçados nessa noite
Era quase alvorada
Não o sabíamos

Pois todos os galos haviam morrido

Álvaro José Ferreira Gomes

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Amanhã é dia de greve geral. E depois de amanhã?

Amanhã farei greve. Dito isto, acrescento o seguinte. 
Há dias, no Fórum da TSF, ouvi Carvalho da Silva explicar por que razão devemos fazer greve. Se eu tivesse dúvidas sobre a minha adesão à greve geral, depois de ouvir o secretário-geral da CGTP, tê-las-ia dissipado e teria decido não aderir. A única razão por ele aduzida para justificar a greve geral foi: «É preciso manifestar o nosso repúdio pela política que está a ser seguida pelo actual governo». Durante quase duas horas de participação no programa, em que respondeu a perguntas do jornalista de serviço e dos ouvintes, Carvalho da Silva não acrescentou mais nada. Isto é, para Carvalho da Silva a greve só tem mesmo uma serventia: evidenciar desagrado, mostrar discordância em relação à política do governo. Carvalho da Silva não disse uma palavra sobre o futuro, sobre as perspectivas e as expectativas que tinha sobre a continuação e o aprofundamento da luta contra as medidas governamentais. Não o disse desta vez como nunca o disse em vezes anteriores. E como não o voltará a dizer no dia seguinte à greve geral. Ouviremos o que sempre ouvimos nestas ocasiões, nem mais nem menos. Apesar de vivermos um momento gravíssimo, sem paralelo nas últimas décadas, a resposta sindical é a mesma e o desenlace da luta sindical será o mesmo.

Provavelmente, seria aconselhável que os dirigentes da CGTP e do PCP se interrogassem e se inquietassem com os recorrentes elogios que, de modo unânime, os banqueiros, a CIP, o CDS, o PSD, o PS e a generalidade dos comentadores de direita lhes dirigem, a propósito da absoluta garantia de que, com a Intersindical e com o Partido Comunista, tudo está sob controlo e nada de imprevisto acontecerá que ponha em perigo o statu quo. Na semana passada, o presidente da CIP afirmou, sem rodeios, que a realização da greve geral até poderia ser benéfica, porque ela teria um efeito de escape que aliviaria as tensões, e, no dia seguinte, o clima social estaria melhor para todos (cf. entrevista ao jornalista José Gomes Ferreira, SIC Notícias, programa «Negócios da Semana», 16/11/11).
Na verdade, o absoluto legalismo, a doentia obsessão pelo «bom comportamento» e o muito delimitado campo em que o PCP e a CGTP concebem o desenrolar dos conflitos sociais constituem, para o poder dominante, uma garantia de que nada de verdadeiramente importante é posto em causa. O PCP e a CGTP idealizam rupturas e mudanças de poder sem que um «prato se parta». O ininterrupto ciclo de «negociação-manifestação-greves de limitada duração-negociação-manifestação-greves de...» esgota os seus instrumentos reivindicativos e de contestação. É por isso que, para Carvalho da Silva, nunca há o dia seguinte à greve. Para ele, a greve refere-se ao pretérito, não ao futuro.

Felizmente, os movimentos sociais não são sempre encarceráveis nos espartilhos conceptuais de ninguém. Porque tenho esta convicção, farei greve amanhã, a pensar no dia seguinte.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Bonecos de palavra

Quino, Bem, Obrigado. E Você?, Dom Quixote

Nacos

«Era meio-dia e um quarto e sol forte, quando o homem soube que a mulher morrera. Foi assim de repente, com todas as pontadas ou tiros de emboscada.
Ele estava sentado numa esplanada em Santos, e chegaram uma rapariga e um engenheiro, que era uma espécie de noivo da rapariga. O engenheiro telefonara meia hora antes a dizer: «A Teresa e eu queremos ver-te com muita urgência.» O homem notara uma solenidade na voz que lhe telefonara, mas pensando que quando muito o outro estaria mais engenheiro do que da última vez.
Tinham combinado encontro na esplanada em frente do Jardim de Santos. Sentado aí, ele observou o engenheiro e a rapariga avançando, ao sol de um dia de meio-dia e um quarto muito forte. De cada vez que o homem via a rapariga pensava na irmã mais velha dela, pensava na outra até por causa desta, cuja consciência já não tinha as dores de saber coisas como o meu azar foi não ser feia ou então bonita doutro modo.
O homem levantou-se quando o par chegou junto das mesas, e viu que a irmã mais nova da mulher não sabia o que lhe havia de dizer. «Está tudo solene hoje», pensou ele. «São Miguel Arcanjo deve ter partido um bule ao pequeno-almoço.» Nessa altura viu uma lágrima, aparecendo, vinda de trás dos óculos pretos que tapavam os olhos da rapariga. Estendeu rapidamente a mão e tirou-lhe os óculos. Então ele viu as lágrimas todas e a vermelhidão de muitas outras antes, e perguntou: «O que foi?» «A Zana morreu», disse a Teresa.
O homem olhou para a calçada, viu um bilhete de carro eléctrico caído entre duas pedras de basalto. Naquele momento não sentia ainda nada de especial. Só percebeu bem a ilusão dessa insensibilidade anos e anos decorridos; a imagem exacta do rectângulo encarnado entre duas pedras pretas permanecia nele tão inalterada como quando, nessa manhã de dia com sol forte, olhando para o engenheiro, viu também e ainda a imagem do bocadinho de papel caído no basalto.»
Nuno Bragança, A Noite e o Riso, Dom Quixote

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Dia 24 - Greve Geral com manifestação

Comentário de segunda

Li que o nosso ministro da Economia «convocou a nata da comunidade empresarial para dois encontros». A referida nata é constituída pelos 50 maiores empresários, «que vão indicar as 10 medidas mais urgentes para relançar a economia» (Expresso - Economia, 19/11/11). 
A minha perplexidade é a seguinte: foi esta «nata», numa empenhada parceria com a «nata» do PS de Sócrates, que conduziu o país à situação que actualmente vivemos; não compreendo, por isso, que contributo positivo o ministro da Economia espera que essa «nata» preste ao país, no relançamento da economia. 
Foi esta nata que afundou a nossa economia. Foi esta nata que se endividou e endividou o país até à medula. A dívida privada é, como se sabe, muito superior à dívida pública, e, se o exagero dessa dívida não é da responsabilidade das famílias — como vários estudos o têm demonstrado, com clareza —, ela é da responsabilidade das empresas (e dos bancos, que sem critério competente a permitiram). Que rendibilidade produziram os empréstimos, supostamente contraídos para investimento nas empresas? Para onde foi esse dinheiro? Foi mal aplicado e/ou foi mal gerido? Seja qual for a resposta, a responsabilidade do desastre é desta «nata» empresarial — não é certamente dos profissionais que são dirigidos por essa «nata»; esses profissionais, esses trabalhadores, quando mudam de país e são dirigidos por outro género de empresários tornam-se co-responsáveis pela obtenção de excelentes resultados. O problema está pois na nossa «nata» empresarial, precisamente aquela que foi convidada pelo ministro da Economia para lhe dar conselhos.
É verdade que «nata» também é sinónimo de gordura — talvez seja este o verdadeiro significado do termo, quando aplicado aos nossos empresários.

Durante a semana passada, foi dado relevo noticioso a um estudo da Universidade do Minho sobre os resultados da reforma da Segurança Social, operada por Sócrates e Vieira da Silva. Apesar de não constituir uma novidade, foi enfatizado o facto de, dentro de vinte a trinta anos, as reformas ficarem reduzidas a cerca de 60% do salário. Isto é, milhares de pensionistas deixarão de ter condições para usufruir de uma vida digna.
Em 2007, quando esta reforma foi realizada, algumas vozes (poucas) alertaram para esta situação, mas, na altura, como prevalecia sobre tudo e sobre todos a tirania das mentiras de Sócrates, o que foi profusa e descaradamente propagandeado foi que o governo tinha conseguido dar sustentabilidade à Segurança Social. Na realidade deu, porque não pagando reformas a Segurança Social não pode falir, mas onde esteve e onde está o mérito disso, se o resultado é a miserabilização dos pensionistas?
O empobrecimento que Coelho agora preconiza como remédio para o país é apenas o aprofundamento da política iniciada por Sócrates.