sábado, 28 de julho de 2012

Pausa

Hoje em dia fazer férias é, desgraçadamente, um luxo e uma necessidade vital. 
Um luxo, se pensarmos nos milhares de desempregados ou se pensarmos naqueles que têm salários ou pensões semelhantes a esmolas. Ver tanta gente que foi despedida e cujo futuro ficou reduzido aos limites da sobrevivência, ou ver tanta gente que trabalha ou trabalhou um ano inteiro com salários, horários e condições de trabalho miseráveis, e que não pode usufruir do descanso a que tem direito, faz pensar e sentir que ainda ter a possibilidade de fazer férias é quase uma prodigalidade — mesmo que o subsídio respectivo, que a lei consagra, tenha sido objecto de extorsão.
Por outro lado, fazer férias é uma necessidade vital. É vital para a nossa saúde mental termos a possibilidade de, pelo menos durante uns dias, deixarmos de ter contacto visual e auditivo com quem governa este país. Recordar o que Passo Coelho prometeu, há um ano, na campanha eleitoral e ver como, tomado o poder, ele agiu e age causa uma profunda repulsa. O seu comportamento foi vergonhoso, quer do ponto de vista político quer do ponto de vista ético. A trafulhice política tornou-se a marca de água deste governo e a sua credibilidade está reduzida a zero. O país ficou infestado de aldrabices, de trapacices, de «malabarices» que Coelho, Portas, Gaspar, Relvas, Crato... têm protagonizado. Mas acima de tudo o país ficou ferido com a política de barbárie social que, com um enorme desprezo pelas pessoas, este governo tem desenvolvido e quer continuar a desenvolver.
Fazer uma pausa no «convívio» com estas personalidades é vital. É vital para se preservar a sanidade psicológica e para, no regresso da pausa, se poder continuar a dar um contributo, por pequeno que seja, no combate que é imperioso prosseguir contra o actual governo e por uma política que, em primeiro lugar, respeite as pessoas.
É por isso que este blogue vai fazer uma pausa e o seu autor também. Regressamos os dois no início de Setembro.
Votos de boas férias, para quem as puder fazer.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Exames nacionais - apontamentos (12)

Um terceiro argumento a favor da realização de exames nacionais apresentado por Nuno Crato, no livro  O 'Eduquês' em Discurso Directo (2006), é o seguinte: «Há uma correlação fortíssima [entre o que o aluno responde num exame e aquilo que ele efectivamente sabe]. [...] A este propósito, é curioso relembrar as semelhanças e dissemelhanças entre as avaliações internas e externas do 12.º ano verificadas nos dados difundidos através dos rankings. Nas escolas que apresentam alunos mais bem preparados, as avaliações médias internas e externas são muito semelhantes. Em contraste, nas escolas que apresentam alunos mais mal preparados, os valores nas avaliações internas são geralmente bastante mais elevados do que os obtidos nos exames nacionais» (p. 52).
A necessidade de recurso aos «dados difundidos através dos rankings» para sustentar um argumento é um prenúncio pouco favorável sobre a sua solidez, mas, pondo isso de lado, vejamos melhor o que diz o argumento.
Crato afirma que «nas escolas que apresentam alunos mais bem preparados, as avaliações médias internas e externas são muito semelhantes.» Mas que entende Crato por «alunos mais bem preparados»? Crato não esclarece o conceito de «aluno mais bem preparado», o que, num homem que se afirma adepto do rigor, é falha grave. Temos então de procurar adivinhar o que é, para Crato, o «aluno mais bem preparado». O seu raciocínio conduz-nos a supor que para ele o «aluno mais bem preparado» é aquele que tira bons resultados nos exames. Mas isto levanta um problema, porque afirmar isto significa já pressupor que o exame é uma prova que avalia com fidelidade. Ora isto era precisamente o que Crato queria provar, que o exame tem fidelidade, ou, por outras palavras, que o exame estabelece uma «correlação fortíssima entre o que o aluno responde num exame e aquilo que ele efectivamente sabe». Crato põe-nos assim a andar em círculo: a premissa e a conclusão são uma e a mesma coisa — acontece exactamente o mesmo com a parte que se refere aos «alunos mais mal preparados». Ora, como todos sabemos, uma proposição não pode ser simultaneamente conclusão e premissa do mesmo argumento. Portanto, Crato não pode afirmar que existe «uma correlação fortíssima entre o que o aluno responde num exame e aquilo que ele efectivamente sabe», porque não apresenta provas disso. Crato pode afirmar, como qualquer um pode afirmar, que há casos em que as classificações dos exames são semelhantes às classificações internas e há casos em que classificações dos exames não são semelhantes às classificações internas. Mas daqui conclui-se o quê quanto à fidelidade dos exames? Nada.

Para além deste argumento não chegar a ser um verdadeiro argumento, porque, como vimos, não tem validade, ele suscita algumas observações adicionais.
Não se sabe bem porquê, mas é evidente que está enraízado no pensamento de Crato que um aluno «bem preparado» é um aluno que responde bem num exame. Contudo, as múltiplas e por demais conhecidas limitações avaliativas de uma prova de exame nacional impossibilitam que, com seriedade, se possa dizer que um aluno que tira um boa nota num exame seja um aluno bem preparado. A não ser que, para Crato, a escola deva ser reduzida a um campo de treino para exames. Todavia, a escola não é — e, se um dia o for, isso significará a sua destruição — um campo de treino para exames.
A escola transmite saberes, desenvolve capacidades, educa — pelos valores que escolhe e que pratica — e forma para vida. Os exames, como é óbvio, não podem fazer esta avaliação global. É por isso que há alunos verdadeiramente bem preparados em todas estas vertentes que obtêm classificações em exames nacionais abaixo da sua real preparação e há alunos que globalmente estão menos bem preparados, mas que obtêm, em exames nacionais, classificações superiores, porque a sua «boa preparação» circunscrevia-se fundamentalmente a estar capacitado para responder a um exame de determinada natureza e com determinadas características. Mas isto não é um aluno «bem preparado», é um aluno preparado para fazer exames, ponto final.
A este propósito conviria que Crato lesse (ou relesse) com atenção o estudo realizado pela Universidade do Porto, e divulgado há pouco meses, que mostra não existir correlação entre as notas mais altas obtidas nos exames nacionais e os melhores desempenhos dos alunos, nos cursos superiores que frequentam. Quase todos os melhores alunos, nos diferentes cursos da Universidade Porto, não são aqueles que mais altas classificações obtiveram nos exames nacionais. Isto revela que, de facto, os alunos melhor preparados não eram aqueles que conseguiram notas mais altas nos exames.
As conclusões deste estudo levaram a que o reitor daquela Universidade preconizasse uma reformulação no modo como actualmente se procede à selecção dos alunos para o ingresso no ensino superior. Este estudo, contudo, tem sido olimpicamente ignorado pelos fundamentalistas dos exames nacionais, de entre os quais, Nuno Crato, actual ministro da Educação e Ciência.

(Continua)

Hoje, em Lisboa


quinta-feira, 26 de julho de 2012

Cortes na Função Pública e impúdicas contradições

O descontrolo verbal contra a declaração de inconstitucionalidade do corte dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos não pára. A imagem de contenção e de razoabilidade que os sectores dominantes da nossa sociedade gostam de preservar deu lugar a uma rara desorientação e à incontinência discursiva. Tudo isto porque aquilo que lhes era particularmente interessante e cómodo ver — os funcionários públicos, os pensionistas, para além dos desempregados, a pagarem o grosso da crise — já não pode ocorrer no próximo ano, do modo vergonhoso como este ano ocorreu.
A argumentação com que a elite governamental, empresarial e financeira se socorre para esgrimir contra a decisão do Tribunal Constitucional (TC) é intelectualmente grosseira. Um dos recorrentes argumento é este: no sector privado é mais fácil despedir que no sector público, isto quer dizer que os funcionários públicos são privilegiados, logo devem ser penalizados nos subsídios de férias e de Natal.
Três breves observações:
1. Os factos desmentem o discurso. O caso dos professores contratados é suficiente: profissionais com quinze, vinte e mais anos de serviço no ministério da Educação são despedidos, aos milhares, sem apelo nem agravo. Não parece que exista, com estas dimensões, exemplo idêntico no sector privado.
2. No contexto da discussão sobre a justiça do conteúdo do acórdão do TC, afirmar que há mais despedidos no sector privado do que no público é intelectualmente desonesto, é desconversar: quem é despedido não tem, infelizmente, subsídios de férias nem de Natal, portanto, não pode ficar sem eles. A discussão recai não sobre os despedidos mas sobre quem tem os subsídios e outros rendimentos, isto é, sobre aqueles que estão no activo, sejam do público ou do privado. Qual seria a exotérica razão que justificaria serem atingidos apenas os do sector público?
3. Um argumento não pode ser ambivalente, não pode ser utilizado para teses opostas. Mas as nossa elites fazem-no com à-vontade.
Defendem insistentemente que tornar o despedimento mais fácil é algo de benéfico — isso possibilita criar mais emprego, dizem-nos; sendo mais fácil despedir, os patrões contratarão mais pessoas e o desemprego baixará. A facilidade de despedir é, por conseguinte, algo de intrinsecamente bom. Ora, aquilo que é intrinsecamente bom não pode ser, em simultâneo, algo de intrinsecamente mau. Contudo, é precisamente isto que as nossa elites desonestamente defendem, quando afirmam que, sendo mais fácil despedir no sector privado, este sector está em desvantagem em relação ao sector público — ou seja, a facilidade de despedir, repentina e misteriosamente, deixa de ser uma coisa boa e torna-se uma coisa . A perturbação das nossa elites fá-las tropeçar em si próprias.

Como referi em texto anterior, quem tem autoridade política e ética para se opor aos cortes/taxas/impostos sobre os salários, sejam do sector público ou do sector privado, são aqueles que sempre defenderam que os impostos devem recair sobre o sector financeiro, as grandes fortunas e os rendimentos mais elevados. Estes têm autoridade para protestar, os demais não têm essa autoridade nem essa possibilidade, sem entrarem em impúdicas contradições.

Quinta da música - Vivaldi

Trechos - Serge Latouche

«Dizia Castoriadis: "Face a uma catástrofe mundial, por exemplo, vemos claramente regimes autoritários a impor restrições draconianas a uma população aflita e apática. [...] E se não houver um novo movimento, um redespertar do projecto democrático, a 'ecologia' pode muito bem ser integrada numa ideologia neofascista."
Em reacção a esta perspectiva aterradora, a aposta no decrescimento supõe que a atracção pela utopia convivial, associada ao peso das restrições à mudança, seja susceptível de favorecer uma "descolonização do imaginário" e de suscitar um número suficiente de comportamentos "virtuosos" a favor duma solução razoável: a democracia ecológica. Era esta também a análise de Castoriadis: "É indispensável a inserção da componente ecológica num projecto político democrático radical. Aliás, é tanto mais imperativa quanto o questionamento dos valores e das orientações da sociedade actual, implicado por tal projecto, é indissociável da crítica do imaginário do 'desenvolvimento' na dependência do qual vivemos."»
Serge Latouche, Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno, Edições 70.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Às quartas

CANÇÃO DA VERDADE JOVEM

A verdade cantava no escuro
No cimo da tília sobre o coração

O sol há-de amadurecer dizia
No cimo da tília sobre o coração
Se os olhos o iluminarem

Troçámos da canção
Agarrámos prendemos a verdade
Cortámos-lhe a cabeça debaixo da tília

Os olhos estavam noutro sítio
Ocupados com outra obscuridade
E nada viram

Vasko Popa
(Trad.: Eugénio de Andrade)

Bonecos de palavra

Quino, Quanta Bondade!, Teorema.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Ainda os cortes na Função Pública e o «esforço nacional»

A declaração de inconstitucionalidade dos cortes dos subsídios de férias e de Natal na Função Pública teve várias virtuosidades. Uma delas foi a de fazer justiça, outra foi a de pôr a descoberto a dissimulação daqueles que publicamente não se cansam de defender a inevitabilidade dos sacrifícios e da austeridade. Na realidade, sempre que afirmavam essa inevitabilidade, faziam-no, sabemo-lo hoje, com uma oculta nuance: os sacrifícios são necessários sim, mas para os outros, não para os próprios.

A indescritível histeria que se levantou quando foi conhecido o acórdão do Tribunal Constitucional ainda não terminou. Prossegue diariamente. Muitos dos nossos banqueiros, gestores, financeiros, empresários, comentadores, jornalistas mostram, em uníssono, o quanto os incomoda a decisão daquele tribunal. Esta histeria tem uma razão: o receio ou a certeza de que o governo se prepara para alargar os cortes/taxas/impostos ao sector privado, precisamente o sector de onde essas vozes provêm. Eles temem ser atingidos por esses cortes/taxas/impostos e, por isso, clamam.
O problema é que quem tem autoridade política e ética para clamar contra os cortes são aqueles que sempre o fizeram, que sempre clamaram, fossem os cortes no sector público ou no sector privado. São aqueles que sempre disseram que a política de austeridade aplicada aos salários é injusta — quer seja selectiva ou não —  e conduz à miserabilização. Quem tem autoridade política e ética para se opor aos cortes/taxas/impostos sobre os salários são aqueles que sempre defenderam que os impostos devem recair sobre o sector financeiro, as grandes fortunas e os rendimentos mais elevados. Estes têm autoridade para protestar, os demais não.

Os demais, os que sempre estiveram do lado da defesa dos sacrifícios e da austeridade, deveriam sentir-se lisonjeados pela forte probabilidade de agora virem a ser chamados a participar naquilo a que repetidamente designam de «esforço nacional». Deveriam sentir-se assim, mas, por alguma estranha razão, não parece ser isso que sentem. Na verdade, aquilo a que chamam de «esforço nacional» significa, para eles, o esforço dos funcionários públicos, dos pensionistas, dos reformados, dos desempregados e de todos os assalariados a quem são pagos salários indecentes. Banqueiros, gestores, financeiros, empresários, comentadores e jornalistas que se pronunciam perplexos com a declaração de inconstitucionalidade dos cortes dos subsídios de férias e de Natal na Função Pública consideram-se isentados de participar no referido «esforço nacional». Pretendem preservar os seus rendimentos, abster-se de pagar a crise, continuar a usufruir dos serviços públicos — saúde, educação, justiça, segurança, infra-estruturas, ... —, e, simultaneamente, desejam que os profissionais do Estado que lhes prestam esses serviços — médicos, professores, juízes, militares, polícias, ... — sejam penalizados nos seus vencimentos, em média anual, entre 15% e 25%.
Este é o entendimento que muitos dos nossos banqueiros, gestores, financeiros, empresários, comentadores e jornalistas têm sobre o «esforço nacional» que publicamente defendem.

Nacos

Canto VII

29
Bloom queria saber mais da Índia. Para
que lado o pescoço dos homens roda mais
— para as mulheres ou para as coisas?
Porque razão existem tantas escadas distribuídas
pelas ruas, quase todas deitadas no chão,
como se fossem um utensílio
para ser usado horizontalmente
e não na vertical? Serão assim tão religiosos
que nem precisem de escadas para pequenos arranjos
domésticos? — gracejou Bloom.
Anish respondeu: vou falar da Índia. O que tu
conheces são postais.

30
Mas a Índia tem homens e tem mulheres — disse Anish.
O ouro foi todo levado, mas por vezes parece que ainda
o querem levar de novo. As cidades
começaram a ser construídas como poemas,
mas rapidamente foram concluídas com tijolos baratos
e o sofrimento dos que trabalharam longamente
e ganharam pouco. Este país
é como os outros: belo e bruto.
E se conheces um país que não o seja, então
digo-te que não o conheces realmente.
Os países nasceram do lado
errado.

31
Um país deveria ser um espaço
para o povo existir, mas o povo não existe — disse Anish.
Ambíguas instituições adiam a salvação
imediata que uma refeição costuma dar
e encaminham os mendigos para
departamentos mais competentes
no outro lado da cidade, ou no céu,
onde os Deuses, inábeis na cozinha urgente,
se especializaram em longuíssimas promessas.
Eis a Índia; apresento-te este país.
Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Caminho

Carta aberta a Roberto Carneiro - a opinião de Paulo Duro

Não partilho da elevada opinião que o colega Paulo Duro tem de Roberto Carneiro, todavia, o testemunho que aqui nos deixa, enquanto professor contratado, é significativo.

Carta Aberta
Boa Tarde Dr Roberto Carneiro. 
Sempre me habituei a vê-lo como O Ministro de Educação por excelência. Não sei se foi por ter acompanhado o seu percurso ministerial enquanto estudante, mas fiquei, como aluno, com a noção de que é um homem de convicções, palavra, inteligência e seriedade. Apenas queria dar-lhe os meus sinceros parabéns pelo texto da sua autoria sobre o estado da nossa Educação. 
Agora do outro lado, enquanto docente, sinto-me usado, maltratado, e descartável pelo modelo mecanicista introduzido pelo ministro atual. Sou docente há cerca de 12 anos e sempre desempenhei a minha profissão com amor, seriedade, prazer e com um, inevitável, sentido voluntarista, porque acredito que contribuo, todos os dias, para um Portugal melhor, moderno, capaz, com jovens bem preparados cientificamente e moralmente, conscientes do passado, do presente e da importância do seu papel no futuro. Sou, tornei-me um homem que encara a profissão como uma missão, à qual não poupo dedicação, abnegação e esforço! Porém, deixe que lhe diga, a forma como a profissão tem sido enlameada pelos últimos ministros e secretários de estado tem-me levado ao desespero e à falta de fé no sistema educativo português. Sou enxovalhado quando sou usado e atirado fora para outro contrato, em local incógnito e condições incertas. Sinto-me lesado cada vez que os números se sobrepõem à minha dignidade enquanto professor e Ser Humano. Revolto-me quando o primado do dinheiro supera o primado pedagógico numa escola. Fico aterrado quando penso nas consequências que esta reforma monstruosa que aí se avizinha irá ter nas gerações que frequentam e frequentarão o ensino em Portugal! 
Queria convidá-lo, em nome individual, enquanto professor, enquanto guardião desta nobre profissão, a continuar a intervir. Faça ouvir a sua voz em todos os locais Dr. Roberto! Na situação em que o ensino português se encontra, todas as vozes se têm que unir numa só voz contra a destruição e traição perpetuada pelo atual ministro! Por Portugal! Pelo futuro! Pela Educação! 
Respeitosamente, 
Paulo Duro

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Sem desculpa

Para quem não é professor e, por conseguinte, desconhece a realidade a que o ministro da Educação se refere — nomeadamente o processo de elaboração de horários nas escolas —, o conteúdo desta entrevista pode não parecer particularmente estranho, todavia, para qualquer docente, as explicações que Nuno Crato dá sobre esta matéria são uma pungente ilustração da sua objectiva incompetência. Confesso que julgava não ser possível um ministro expor de modo tão cru a sua ignorância. Se existisse o sentido de decência, Nuno Crato teria de se demitir. 
Não é possível que tanto desconhecimento e tanta irresponsabilidade se mantenham no poder. Há anos seguidos que se brinca com a Educação em Portugal.

Para clicar


domingo, 22 de julho de 2012

Paolo Fresu & Uri Caine

Pensamentos de domingo

«O rico comete uma injustiça e mesmo assim mostra-se altivo; o pobre é injustiçado e mesmo assim precisa de se desculpar.»
Textos Bíblicos 
«Sempre por via irá direita
Quem do oportuno tempo se aproveita»
Luís de Camões
«Nada é tão contagioso como o exemplo.»
François La Rochefoucauld  
In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações, Âncora Editora (adaptado).

sábado, 21 de julho de 2012

Ao sábado: momento quase filosófico

Um homem, diz um pequeno conto sufi, apercebeu-se com alegria de que entendia a linguagem das formigas.
Aproximou-se de uma formiga e perguntou-lhe:
— Tendes um deus?
— Claro — disse a formiga.
— Como é ele? É parecido com uma formiga?
— Não exactamente — respondeu ela. — Nós só temos um ferrão. Ele tem dois.
In Jean-Claude Carrière, Tertúlia de Mentirosos, Teorema.

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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Exames nacionais - apontamentos (11)

No texto da semana passada, abordei o primeiro argumento que Nuno Crato apresenta a favor da realização de exames nacionais, no livro intitulado O 'Eduquês' em Discurso Directo (2006).
Hoje vou dar a minha opinião sobre o segundo argumento: «Os exames podem ser orientadores de percursos escolares, levando, por exemplo, a encaminhar estudantes com dificuldades para vias alternativas, com o mesmo ou outro término escolar.» (p.48).
Discordo deste ponto de vista. Elevar os exames nacionais à categoria de orientadores de percursos escolares suscita perplexidade; acrescentar que os exames nacionais podem encaminhar os estudantes com dificuldades para percursos alternativos duplica o espanto; apresentar isto como justificação para a realização destas provas triplica o embaraço.
O meu ponto de vista é, de facto, bastante divergente deste. Em primeiro lugar: eu já ficaria satisfeito se os exames nacionais cumprissem a primeira função para que foram criados, isto é, se fossem capazes de avaliar aprendizagens e competências com fiabilidade/fidelidade. Infelizmente não tenho essa satisfação, os exames não o conseguem fazer. Em segundo lugar: se a função básica de avaliar aprendizagens e competências com fiabilidade/fidelidade não é cumprida, não se compreende que se pretenda atribuir aos exames outras funções que, para além de serem mais complexas, dependem do cumprimento satisfatório da função básica.
Adicionalmente a esta objecção, existe outra e mais relevante: a função de orientar um percurso ou de encaminhar para percursos alternativos é uma função do(s) professor(es), não cabe a um exame nacional. 
Somente uma ideia muito limitada do papel do professor e um crença ilimitada nas potencialidades de um exame é que podem conduzir à extravagante conclusão de se atribuir a uma prova desta natureza capacidades orientadoras. E este é um dos problemas de Crato: a devoção que tem a tudo o que lhe surja traduzido em números. Crato acredita ou tende a acreditar que uma prova de exame nacional classificada, por exemplo, com 12,3 valores corresponde a um saber real (se estivermos a falar só de saberes) de 12,3 valores. Crato acredita que o número é o modo mais fiel de expressar uma realidade. Por isso, ele vê nos exames nacionais o poder de orientar e encaminhar, porque, no seu entendimento, os números não enganam: mostram o que a coisa é, ou seja, neste caso, mostram o que o aluno é. Mostram o que é, o que não é e o que poderá vir a ser, daqui a sua função supostamente orientadora e encaminhadora, do ponto de vista de Crato.
Crato não nega — se o fizesse não poderia ser ministro da Educação — mas desvaloriza a dimensão relacional que o acto de ensinar possui. A dimensão relacional, intersubjectiva é para Crato um adorno, algo que se existir é óptimo, mas se não existir não é grave. A sua obsessão pelo conhecimento fá-lo secundarizar e desvalorizar o resto. Ora é com estes desequilíbrios conceptuais que temos dado cabo da Educação em Portugal: ou vivemos imersos no mar do «eduquês» ou passamos para o outro extremo em que nada importa a não ser o conhecimento. 
O curioso é que Crato não valoriza mais do que eu valorizo a sólida formação científica que um professor tem de possuir. Eu também faço parte do grupo que defende que o conhecimento científico é condição necessária para se ser um bom professor. Sem o profundo domínio científico das matérias que lecciona ninguém pode ser um professor recomendável. Todavia, sendo isto uma condição necessária não é de todo uma condição suficiente. Não chega ser bom cientificamente. Ensinar implica uma relação pedagógica sã, humanamente rica, uma relação afectiva, uma relação de proximidade.
E é nesta e desta relação que surge o trabalho de orientação, de encaminhamento, que constitui, precisamente, o trabalho essencial do pedagogo (como o étimo da palavra indica) e que nenhum exame nacional pode ter, substituir ou complementar.
Se se estivesse à espera do resultado de um exame para orientar ou encaminhar um aluno, muito mal nós estaríamos. Primeiro, porque os resultados dos exames nacionais não são (con)fiáveis; segundo, porque esperar por tais resultados, para orientar e encaminhar, significaria que não tinha existido, durante o ano, qualquer trabalho pedagógico. Fazer depender o trabalho de orientação e de encaminhamento dos resultados dos exames nacionais seria a negação objectiva da função pedagógica do professor.

Concluindo: este segundo argumento de Crato a favor dos exames nacionais tem, à semelhança do primeiro, uma notória fragilidade.

(Continua)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Quinta da música - Max Bruch

Insuportável

No domínio da educação, vivemos, de 2005 a 2011, debaixo de uma mescla de desmedida arrogância e de generalizada incompetência técnica e política protagonizadas pelas equipas ministeriais de Rodrigues e de Alçada. 
De 2011 a 2012, isto é, no último ano, vivemos debaixo de uma mescla de amadorismo, ignorância e improvisação protagonizados pela equipa de Crato. 
Para além disto, em ambos os casos, os professores foram e são maltratados. Primeiro de modo insolente, agora de modo indigno.
As insolências de Rodrigues são bem conhecidas desde há muito, as indignidades de Crato estão agora a ser conhecidas. O episódio, que se encontra em desenvolvimento diário e que teve como consequência obrigar dezenas de milhares de professores dos quadros a concorrer, é um caso de extrema gravidade que ilustra, pelo menos, duas coisas: a torpeza com que o actual ministro trata os profissionais da educação e o diletantismo que impera no seu ministério.
Depois de ter provocado um tsunami nas escolas — levando ao desespero milhares de docentes e respectivas famílias, brincando com a vida profissional e pessoal dos professores — e depois de se ter apercebido da dimensão dos estragos que a sua irresponsabilidade originou, Crato emitiu um comunicado que, para além de estar vergonhosamente redigido e de ser quase ininteligível do ponto de vista técnico, parece (sublinho o «parece») dar a entender que, afinal, todos os horários zero vão ser aproveitados para mil e uma actividades e que nenhum professor terá de sair da sua escola. Parece (com o devido sublinhado) que agora já vale tudo para tapar o incomensurável buraco aberto. 
Tudo isto é demasiado mau para ser verdade, mas desgraçadamente tudo isto é também demasiado verdadeiro: primeiro destruiu-se, deixou-se tudo em cacos, agora, com cuspo, procura-se unir os estilhaços. Manipulam-se os professores como se fossem peças descartáveis de uma máquina.
Não é possível a educação resistir a tanta barbaridade seguida. Foram seis anos, agora foi mais um, e perfilam-se mais três. Impedir que esses mais três se concretizem tornou-se um imperativo categórico.