sábado, 15 de junho de 2013

Um contributo dos professores

1. Há dias, vi na televisão um ex-ministro da Educação, Couto dos Santos, comentar a luta dos professores de uma forma mal educada, arrogante e impreparada. Ao ouvi-lo, perguntei-me como era possível um indivíduo que se comporta assim alguma vez ter sido ministro. Perguntei-me como era possível um indivíduo, que foi ministro, apresentar-se para discutir, em público, algo sobre o qual pouco ou nada sabia, cuja qualidade das opiniões era insistentemente inferior à qualidade dos comentários dos adeptos à saída de um estádio. Perguntei-me como é possível que um ex-ministro fale para o seu interlocutor, neste caso, um professor (Paulo Guinote), de modo grosseiro e acintoso. Perguntei-me como foi possível um indivíduo que manifesta tão descontrolado rancor aos professores ter ocupado precisamente a pasta da Educação.

2. Ontem, vi na televisão o actual ministro da Educação, Nuno Crato, comentar a situação que se vive na Educação. Ouvi-o e não ouvi uma única palavra sua sobre Educação. Não ouvi uma única palavra sua sobre os problemas da Educação que estão na base do conflito entre os professores e o seu ministério. Ouvi-o apenas falar de serviços mínimos, de colégio arbitral, de recurso a tribunais superiores, de requisição civil, de abuso do direito à greve, etc. Um ministro da Educação, para efectivamente o ser, trata de assuntos da Educação, preocupa-se em compreender e resolver os problemas específicos da Educação. Um ministro da Educação deveria saber que uma greve de professores só ocorre quando existem problemas muito graves no domínio educativo, e que é sua obrigação, enquanto responsável máximo dessa área, centrar-se nesses problemas e não descansar enquanto não os resolver, conjuntamente com os professores.

3. Hoje, vi que o primeiro-ministro afirmou, no parlamento, o seguinte: se, acerca da lei da greve no sector do ensino, os tribunais não decidirem a favor do governo, irei mudar a lei da greve. Tirando os anos do PREC, não me recordo de ter visto um governo tão desorientado e tão condicionado pelo primário sentimento da revancha. À imagem do político que mais mentiu numa campanha eleitoral, Passos Coelho junta a imagem do político que menos respeito tem pelas leis e que menos competência tem para exercer as funções de chefe de governo.

4. Há minutos, vi Nuno Crato anunciar que não alterava a data dos exames marcados para o dia 17 de Junho. Depois da Comissão arbitral ter proposto outra data, depois de todos os sindicatos afirmarem que não recalendarizariam a greve do dia 17, o ministro da Educação e o governo optam por prejudicar os alunos que não vão poder fazer exame naquele dia. Teimosa e arrogantemente, é o ministro e o governo quem fazem dos alunos seus reféns. É o ministério da Educação que utiliza os alunos como meio para atingir os seus ilegítimos fins políticos.

5. Este ministro e este governo têm de ser impedidos de prosseguir a sua barbárie. Para sobreviver, o país necessita de se livrar urgentemente destes governantes.
Os professores irão dar certamente um contributo significativo na concretização desse objectivo patriótico: sábado, realizando uma enorme manifestação nacional, em Lisboa; na segunda-feira, realizando uma maciça greve nacional; e, nos dias seguintes, prosseguindo ininterruptamente a greve às avaliações.
O país vai ficar a ganhar.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Obrigado, Professores - Manifesto de personalidades da arte e da cultura

Recebido por e-mail:

Manifesto - Obrigado professores 

Sem Educação não há país que ande para a frente. E é para trás que andamos quando o governo decide aumentar o número de alunos por turma, despedir milhares de professores e desumanizar as escolas, desbaratando os avanços nas qualificações que o país conheceu nas últimas décadas. Não satisfeito, continua a sua cruzada contra a escola pública. Ameaça com mais despedimentos e com o aumento do horário de trabalho dos que ficam. 

Ao atacar os professores o governo torna os alunos reféns. Com menos apoios educativos e menos recursos para fazer face à diversidade de estudantes, é a escola pública que sai enfraquecida. Querem encaixotar os alunos em turmas cada vez maiores com docentes cada vez mais desmotivados. Cortam nas disciplinas de formação cívica e do ensino artístico e tecnológico, negando aos jovens todos os horizontes possíveis. 

Os professores estão em greve pela qualidade da escola pública e em nome dos alunos e das suas famílias. Porque sabem que baixar os braços é pactuar com a degradação da escola. Os professores fazem greve porque querem devolver as asas aos seus alunos que o governo entretanto roubou. Esta greve é por isso justa e necessária. É um murro na mesa de quem está farto de ser enganado. É um murro na mesa para defender um bem público cada vez mais ameaçado. 

Por isso, estamos solidários. Apoiamos a greve dos professores em nome de uma escola para todos e onde todos cabem. Em nome de um país mais informado e qualificado, em nome das crianças que merecem um ensino de qualidade e toda a disponibilidade de quem sempre esteve com elas. É preciso libertar a escola pública do sequestro imposto pelo governo e pela troika. Aos professores dizemos “obrigado!” por defenderem um direito que é de todos. 

Subscritores: 

António Pinho Vargas, Compositor
Bruno Cabral, Realizador
Camilo Azevedo, Realizador, RTP
Carlos Mendes, Músico
David Bonneville, Cineasta
Eurico Carrapatoso, Compositor
Hélia Correia, Escritora
Leonel Moura, Artista plástico
Luís Varatojo, Músico, A Naifa
Luísa Ortigoso, Actriz
Jacinto Lucas Pires, Escritor
Joana Manuel, Actriz
João Salaviza, Cineasta
José Luís Peixoto, Escritor
José Mário Branco, Músico
José Vítor Malheiros, Jornalista
Marta Lança, Editora e produtora
Messias, Músico, Mercado Negro
Nuno Artur Silva, Autor e produtor
Pedro Pinho, Cineasta
Rui Vieira Nery, Musicólogo
Raquel Freire, Cineasta
Sérgio Godinho, Músico
Valter Vinagre, Fotógrafo.
Zé Pedro, Músico, Xutos e Pontapés.

O cinismo e a greve dos docentes

Vivemos um tempo terrível. Vivemos rodeados de gente que pensa e vê quadriculadamente e que só lê e escreve numericamente. O poder foi-lhes parar ao colo e, sem cultura política nem formação humanista, puseram-se a governar segundo as quatro operações básicas da aritmética. 
Para além disto, socorrem-se de uma poderosa arma: a hipocrisia política. Tem sido pungente ouvir os lamentos, os prantos e os gemidos dos membros do governo relativamente à incomodidade que a greve aos exames nacionais pode provocar nos alunos. 
Nós, professores, sabemos o que essa incomodidade significa. Não recebemos lições de ninguém nessa matéria, porque esses alunos não são entidades abstractas, não são números metidos em quadrículas, são crianças e jovens que conhecemos pessoalmente e com quem vivemos e convivemos todos os dias, são adolescentes com quem partilhamos angústias e alegrias, com quem desenvolvemos empatias e amizades, que muitas vezes perduram a vida inteira. Por isso, os professores não fazem greve por gosto nem para gerar incomodidades aos seus alunos. Fazem greve porque não têm outra alternativa. Fazem greve porque já ultrapassaram o limite do suportável e porque agora têm à sua frente o abismo. Depois de seis anos de espezinhamento socratista, Passos e Crato pretendem agora proletarizar por completo o trabalho docente e instalar a precariedade e o medo na vida dos professores. É por isto que os professores são obrigados a fazer greve. Uma greve que, para os professores, é mais do que uma incomodidade, pois cada hora e dia de greve é menos salário que têm — menos salário que se junta aos muitos outros menos salários que, há três anos consecutivos, mensalmente lhes são subtraídos.
Mas regresso aos lamentos, aos prantos e aos gemidos, que acima referi, dos membros do governo, a propósito da perturbação que esta greve dos professores pode causar. Na verdade, com este governo, a hipocrisia política parece não ter limites. Um governo cuja política é responsável, em dois anos, pelo despedimento de milhares de trabalhadores, pelo abaixamento brutal dos rendimentos de milhares de famílias, pelo corte a eito de pensões e vencimentos, pela supressão de subsídios; um governo que é responsável pela desnutrição de milhares de crianças e de idosos mostra-se preocupado com a perturbação que uma greve dos professores pode causar? Um governo que não se inibe de fazer alastrar a fome e a miséria, que revela uma absoluta insensibilidade social, uma total indiferença com o sofrimento que gera, preocupa-se com adiamento de uma ou mais provas de exame? O cinismo destes governantes não tem mesmo limites.
Afinal de contas: quem é este governo, quem são estes ministros, quem de entre eles tem autoridade para alardear moral sobre as decisões sindicais dos professores?

domingo, 9 de junho de 2013

Pensamentos

«De erro em erro, vai-se descobrindo toda a verdade.»
Sigmund Freud 
«Algumas pessoas nunca cometem os mesmos erros duas vezes. Descobrem sempre novos erros para cometer.»
Mark Twain 
In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações, Âncora Editora.

Acerca da crise e da corrupção (1)

Excertos do livro, recém-editado, Da Corrupção à Crise - Que Fazer?, de Paulo Morais:
«Portugal vive hoje intoxicado por duas mentiras colossais.
A primeira é a ideia, repetida à exaustão, de que os portugueses são responsáveis pela crise, porque andaram a viver acima das suas possibilidades, compraram bens de consumo que não deviam e a que não tinham direito [...]. Diz-se ainda que tiveram este comportamento reiteradamente e de forma descontrolada ao longo de anos e anos. Esta seria a razão da nossa desgraça, o motivo do défice e da dívida. Nada mais falso. Um logro. Um embuste.
Quem viveu e esbanjou acima das suas possibilidades nas últimas décadas foi a classe política portuguesa e seus apaniguados. Muitos foram e são os que se alimentaram da enorme manjedoura que é o orçamento do Estado. A administração central e local enxameou-se de milhares de boys, criaram-se institutos inúteis, fundações fraudulentas e empresas municipais fantamas. Atrás deste regabofe veio uma epidemia fatal: a corrupção.
Os casos de corrupção sucederam-se ao longo das duas últimas décadas. A Expo 98 transformou uma área degradada, com terrenos contaminados e armazéns ao abandono, numa nova cidade, moderna e sofisticada. Na zona oriental de Lisboa construíram-se prédios de habitação, hotéis de todo o tipo de equipamentos. Permitiu-se a geração de mais-valias urbanísticas milionárias. Mas, afinal, inexplicavelmente, o projecto resultou num défice colossal. Ainda hoje se pagam os prejuízos e a Justiça não conseguiu condenar ninguém por este roubo incomensurável perpetrado ao erário público.
Um outro exemplo de corrupção de todos conhecido foi constituído pelo Euro 2004, um campeonato de futebol que levou ao desbaratar de recursos públicos, um pouco por todo o País, em estádios, acessibilidades, ruas, estradas e auto-estradas, mais-valias urbanísticas de milhões.
A corrupção instalou-se, surgiu o Apito Dourado, processo que envolvia promotores imobiliários, governantes, futebol, árbitros e prostitutas. No final do processo [...] ficaram apenas os pobres dos árbitros, acompanhados das prostitutas. E nem mesmo estes foram acusados.
Os casos desta corrupção reiterada que, ao longo das últimas décadas, nos empobreceu, são inúmeros. Foi a a nebulosa compra dos submarinos pelo Ministério da Defesa de Portugal, que envolveu pagamento de luvas, com corrupção provada e condenados, mas só na Alemanha. E foram os escândalos do Banco Português de Negócios [...] a que se junta o Banco Privado Português. Mas os exemplos não acabam. E nos últimos anos, os mais criminosos de todos os negócios públicos são os contratos de parcerias público privadas, nomeadamente as rodoviárias. Através deste modelo de negócio, garantem-se aos privados rentabilidades de capital superiores a 17%, haja ou não trânsito. O Estado (ou seja, nós) assume todos os riscos e cede todos os potenciais lucros.
A primeira de todas as PPP foi a Ponte Vasco da Gama, em Lisboa. Os privados financiaram à partida apenas um quarto do valor da ponte e, com isso, ganharam o direito às receitas com portagens da ponte Vasco da Gama, da "25 de Abril" e ainda o exclusivo das travessias rodoviárias sobre o Tejo por toda uma geração. O governante que concebeu este calamitoso negócio, Ferreira do Amaral, preside hoje à empresa concessionária, a Lusoponte. Os seus sucessores seguiram-lhe o triste exemplo. Jorge Coelho e Valente de Oliveira [...] são administradores na maior concessionária de PPP, a Mota-Engil.
Todos estes negócios e privilégios, concedidos a um polvo que, com os seus tentáculos, se alimenta do dinheiro do povo, tem responsáveis conhecidos. Que a Justiça portuguesa jamais pune.»
Paulo Morais, Da Corrupção à Crise - Que Fazer?, Gradiva.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Amanhã (re)começa a luta dos professores

1. Está marcado para amanhã o início de um alargado período de greves nas nossas escolas. Terminou há minutos a última ronda de negociações entre os sindicatos dos professores e o ministério da Educação, sem acordo. As duas principais reivindicações que estão na base deste processo de luta são: impedir o aumento do horário de trabalho docente e impedir a aplicação do ilegítimo, e certamente que inconstitucional, mecanismo de despedimento colectivo, designado, sem vergonha e com eufemismo, de mobilidade especial ou, mais recentemente e com ainda menos pudor, de programa de «requalificação».

2. O ministro da Educação gosta de se apresentar como um homem de ciência, praticante do rigor científico. É um gosto dele, mas desgraçadamente não é uma prática sua. Se, na realidade, ele fosse um praticante do rigor, não utilizaria argumentação desqualificada para combater politicamente a anunciada greve do dia 17 de Junho, dia de exame nacional. Não é sério dizer, como ele disse, que os professores estão a fazer os alunos de reféns. Não é sequer uma acusação, é um insulto. Lamentavelmente, o ministro da Educação mostra, mais uma vez, não estar à altura das responsabilidades que lhe estão atribuídas e mostra que, nele, o termo «rigor» é uma palavra vazia.

3. Se Nuno Crato estivesse realmente preocupado com os alunos, nunca poderia aceitar a possibilidade de despedir professores, para cumprir o objectivo cego de retirar dinheiro à educação. Todavia, desde que chegou ao seu Ministério, Nuno Crato praticamente não tem feito outra coisa que não seja isso mesmo: subtrair dinheiro a todo o sistema educativo. A consequência objectiva dessa permanente subtracção é o prejuízo dos alunos: cada vez mais alunos por turma, cada vez menos apoios, cada vez mais mega-agrupamentos, cada vez menos professores. Nuno Crato não está preocupado com os alunos, Nuno Crato tem uma só preocupação: diminuir o dinheiro destinado à educação. A política de Nuno Crato é objectivamente contrária aos legítimos interesses e direitos dos alunos.
Se há país que precisa de professores é Portugal. Admitir a possibilidade de despedir professores significa optar pelo regresso à política da iliteracia e optar pelo subdesenvolvimento.

4. Admitir que é possível sobrecarregar com mais horas de trabalho os professores significa uma de duas coisas: inadmissível ignorância acerca do trabalho docente ou objectivo desprezo pela função do professor. Se Crato sabe, como diz que sabe, que os professores já trabalham mais de 40 horas, por semana, então também sabe que não pode acrescentar-lhes mais horas. Se a razão, como quer dar a entender, fosse simplesmente formal, as 5 horas adicionais só poderiam ser colocadas na componente individual do trabalho do professor. Mas nem isso Crato quer fazer. Ele quer tornar a hora de trabalho docente mais barata e quer, a prazo, transferir parte dessas 5 horas para a componente lectiva, de modo a poder despedir mais professores.

5. Aos docentes não resta outra alternativa que não seja oporem-se vigororamente a esta barbárie. Amanhã (re)começa a luta.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Para clicar


Manifesto do Agrupamento de Escolas D. Sancho II (Alijó)

Recebido por e-mail:

MANIFESTO

Os professores do Agrupamento de Escolas D. Sancho II de Alijó, reunidos em plenário e abaixo assinados, tomando em consideração as políticas deste Governo e do Ministério da Educação e Ciência, nomeadamente: 

- Mobilidade especial/Requalificação profissional e os despedimentos, bem como o completo congelamento das carreiras e progressões profissionais; 

- Aumento do número de alunos por turma, que se repercute na qualidade de ensino aprendizagem com consequências graves para os alunos; 

- Cortes salariais, que provocaram quebras de qualidade no ensino pondo em causa o funcionamento das escolas e o trabalho pedagógico com os alunos; 

- Aumento do horário para as 40 horas e o fim anunciado da redução da componente letiva (Artigo 79o do ECD); 

- Intenção de levar a cabo um despedimento coletivo que abrangerá os professores colocados em horário-zero e possivelmente a totalidade dos professores contratados. 

Deliberaram: 

- Exigir uma revalorização da educação enquanto aposta estratégica fundamental para o futuro do país e o correspondente aumento do investimento; 

- Rejeitar em absoluto a integração dos professores no “regime de mobilidade especial/requalificação profissional da Função Pública”, objetivo ostensivamente negado por este Governo e por este Ministro da Educação e Ciência em várias intervenções públicas e não constante do Programa de Governo aprovado na Assembleia da República ou nos programas eleitorais dos partidos membros da coligação de Governo. Istocorresponderá, de facto, ao despedimento liminar, em muitos casos, de professores e professoras com mais de vinte e vinte cinco anos de serviço, com quarenta, cinquenta ou mais anos de idade, que toda a sua vida adulta foram formados para as profissões que desempenham; 

- Rejeitar o aumento de número de alunos por turma e de turmas e níveis por professor; 

- Rejeitar o aumento de número de horas de trabalho, que já ultrapassa em muito as 35 horas semanais (no desenvolvimento dos seguintes itens: investigação e atualização científico-pedagógica, preparação de aulas, elaboração de materiais, correção de trabalhos e portefólios, elaboração e correção de testes, avaliação de alunos, reuniões, atividades extracurriculares, preparação e participação em visitas de estudo, projetos, clubes, desempenho de cargos como o de direção de turma e de coordenação intermédia e avaliador docente interno e externo, trabalho burocrático, vigilância e classificação de exames, ...), não existindo, nas escolas, as condições necessárias para que todos os docentes desempenhem as suas funções com a qualidade devida e necessária a uma educação de excelência; 

- Solicitar aos pais/encarregados de educação dos nossos alunos que dialoguem ativamente com os professores, de modo a melhor compreenderem o atual processo de desestruturação da Escola Pública por parte deste Governo, de que o despedimento massivo de milhares de professores e a destruição das suas vidas é apenas a primeira parte, mas de que os seus filhos e as suas expetativas de ascensão e progresso social serão as vítimas principais; 

- Enviar o presente documento ao MEC, DGE, DGAE, à Direção do Agrupamento de Escolas D. Sancho II de Alijó, Conselho Geral do Agrupamento, aos sindicatos, à Comunicação Social, ao Presidente da Associação de Pais e Associação de Estudantes; 

- Divulgar ainda este documento junto de outras escolas. 

Alijó, 30 de maio de 2013

terça-feira, 4 de junho de 2013

O «Não à troika e ao governo», no Porto

O «Não à troika e ao governo», no dia 1 de Junho, no Porto. O agradecimento a AC, pelo envio das fotos.






segunda-feira, 3 de junho de 2013

Fanatismo educativo (2)

(conclusão do texto «Fanatismo educativo (1)»)

As afirmações de Eric Hanushek sobre alguns dos principais problemas educativos resvalam frequentemente para a zona da falta de credibilidade.
Na entrevista que deu ao Público, perguntado se considerava que o nosso país estava a gastar demasiado dinheiro com a educação, respondeu:
«A questão não é se estão a gastar demasiado, mas se os resultados não deveriam ser melhores. Outros países da OCDE que gastam o mesmo que Portugal têm melhores resultados. Portanto, é muito importante para o país melhorar o seu desempenho escolar.»
A leitura desta resposta não proporciona conhecimento novo nem elucida sobre nada. Evidentemente que os resultados poderiam ser melhores — teoricamente é sempre possível fazer melhor e a procura da permanente melhoria é praticamente um dever moral, em qualquer actividade. O que já não é evidente é a comparação que Hanushek faz entre os resultados dos gastos na educação de outros países da OCDE e os gastos de Portugal.
Em primeiro lugar, é preciso saber quais são esses países e aquilo que a história comparada desses países com o nosso nos indica. Apenas assim poderemos avaliar se é ou não pertinente a comparação dos gastos. Em segundo lugar, é necessário determinar o que significa «melhores resultados». Melhores resultados de que ponto de vista: do abandono escolar? Do número de aprovações? Dos resultados quantitativos dos exames nacionais? Dos resultados em testes internacionais? Da qualidade das aprendizagens, tendo em conta a situação real de partida dos alunos ou sem ter em conta a sua situação real de partida?
Hanushek fala de quê, precisamente? 
É difícil compreender como é que um investigador consegue fazer sucessivas afirmações cuja fragilidade científica é confrangedora. Concluir, como ele conclui, que temos de melhorar o desempenho escolar, sem esclarecer do que é que está a falar, faz-nos lembrar afirmações levianas, típicas de políticos irresponsáveis, mas pouco típicas de alguém que se apresenta como investigador.
Todavia, é à luz do estatuto de investigador científico que Eric Hanushek viaja pelo mundo e difunde ideias que, sendo crenças suas, são apresentadas como resultados de investigação científica.
Ao defender como defende o aumento do número de alunos por turma, o pagamento do salário dos professores em função dos resultados dos alunos, o direito dos directores decidirem sobre os professores que entram e saem das escolas, a competitividade entre escolas e outras ideias de natureza idêntica, Hanushek revela uma fanática concepção mercantilista da educação, que ele procura travestir de conhecimento científico.

domingo, 2 de junho de 2013

Contra a troika e o governo

Cidadãos de cento e duas cidades europeias de dezoito países manifestaram-se ontem, 1 de Junho, contra a troika e contra os governos que de forma subserviente executam as suas políticas.
Em Lisboa, alguns milhares de participantes não se cansaram de protestar contra o governo de Passos, Gaspar e Portas, contra o FMI e contra a política da miserabilização.
Algumas imagens dessa manifestação:






Na manifestação também esteve presente a Iniciativa Auditoria Cidadã, que fez circular a petição «Pobreza Não Paga a Dívida. Renegociação Já!» Para subscrever a petição, clicar em: pobrezanaopagaadivida.info.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Fanatismo educativo (1)

Reconheço a capacidade de persistência de alguns. Reconheço a capacidade que alguns têm de persistir no absurdo, de persistir naquilo que não tem fundamento. Essa persistência é uma persistência de natureza semelhante à do fanatismo religioso. Todavia, em abono da verdade, e apesar de ambos os fanatismos serem inaceitáveis, há uma diferença: o genuíno fanatismo religioso tem por base uma convicção no que é o «bem»; o fanatismo de que falo (e que a seguir explicitarei) tem por base a convicção no que mais «convém».
Refiro-me ao fanatismo que politicamente nos domina e que abarca toda a vida humana: desde a Economia à Educação, da Saúde à Cultura, do Público ao Privado, etc. Este fanatismo não se cansa na difusão das suas ideias, que afirma como inevitabilidades, e apesar da objectiva falta de sustentação de grande parte do que diz e do que faz, não perde nenhuma oportunidade para se fazer ouvir.
Serve isto para fazer notar que, esta semana, esteve entre nós, a convite do Ministério da Educação e Ciência, um dos fundamentalistas da ideologia dominante na área da Educação. Chama-se Eric Hanushek. É um conhecido americano que veio da Força Aérea dos Estados Unidos para se doutorar em economia no MIT e posteriormente se dedicar à investigação em Economia e Educação, na Universidade de Stanford. Vive obcecado com a «excelização» da educação, trata os «resultados» educativos como se fossem «resultados» contabilísticos de uma fábrica, defende o aumento do número de alunos por turma, acha que tudo se resolve dando mais dinheiro a alguns professores e menos a outros, ainda que não consiga fundamentar o critério para tal distinção.
Estranha e curiosamente, veio cá repetir precisamente aquilo que há dois anos já aqui tinha dito. O que nos faz interrogar sobre a razão do convite...
E o que disse e diz Hanushek?
Apesar da realidade teimar em não confirmar as suas teses, isso não o faz desistir. Vejamos a sui generis linha argumentativa deste investigador.
Há dois anos, quando perguntado sobre o que é que os bons professores têm em comum, respondeu: «Ainda não conseguimos identificar as características que fazem um bom professor. [...] Ainda não conseguimos identificar o que explica a qualidade.» 
Esta foi a resposta dada há dois anos, mas, em 2008, numa entrevista à revista brasileira Veja, Hanushek, a uma pergunta semelhante — «O senhor está dizendo que não há uma explicação estatisticamente confiável sobre as características que determinam um bom professor?» —, respondeu: «Existem muitas suposições, mas nenhuma delas tem valor científico. Por isso fica tão difícil estabelecer critérios prévios para a selecção dos melhores professores – e erra-se tanto.»
O que responde hoje Hanushek à mesma questão, volvidos vários anos de investigação? Responde deste modo: «A investigação falha na descrição das características ou do comportamento de um “professor eficiente”. Sabemos que há profissionais que, por sistema, são melhores em sala de aula do que outros, mas é difícil descrevê-los
Esta confissão de objectiva ignorância relativamente à definição do que é um bom professor (ou professor eficiente, ou professor de qualidade — termos que Hanushek utiliza como sinónimos), seria de louvar, enquanto humildade intelectual, se o mesmo Hanushek, de seguida, não tecesse desabridas considerações que conflituam abertamente com a confessada impossibilidade de conceptualização do que é  o «bom professor».
Apesar de afirmar não ser possível descrever o que é um professor eficiente, Hanushek defende que «as turmas podem ser maiores, desde que haja professores eficientes». É difícil compreender como é que Hanushek defende que as turmas podem ser maiores, se houver professores eficientes, se ele diz não saber o que é um professor eficiente, porque a investigação ainda não conseguiu defini-lo. Isto é, apesar de não ter base empírica para afirmar o que afirma, Hanushek não se inibe de o fazer. E fá-lo repetida e insistentemente, às vezes de modo a fazer inveja aos «bitaites» que se ouvem na rua. Diz: «Um bom professor sabe como gerir uma sala e levar os seus estudantes [independentemente do seu número por sala de aula], mesmo quando eles não estão naturalmente preparados para tal.» Mas perguntado sobre o que é um «bom professor», Hanushek não sabe responder. Alguns entrevistados de rua das nossas «futeboladas» certamente não diriam pior.
Hanushek não sabe responder e lamentavelmente parece não saber do que fala.

(Continua)

Sábado, 1 de Junho



10:00
Torino | Piazza Castello 

10:30
Aurillac
Boulogne-sur-Mer

11:00
Clichy
Frankfurt | Baseler Platz
Marseille
Mende
Zaragoza | Plaza de España

11:30
Le Mans

12:00
Annecy
Den Haag | Lange Voorhout
Dublin | Garden of Remembrance
Vigo | Praza dos Cabalos

12:30
Angers

13:00
Toulouse

14:00
Amiens
London | HM Treasury
Lyon
Poitiers
Strasbourg

14:30
Chartres
Nantes
Saint-Brieuc

15:00
Châlons-en-Champagne
Manosque
Montluçon
Nevers
Saint-Etienne

15:30
Barcelos | Largo da Porta Nova
Nimes
Porto | Cordoaria

16:00
Aveiro | Estação CP
Beja | Praça da República
Funchal | Praça do Município
Guimarães | Largo do Toural
Lisboa | Praça de Entrecampos
Loulé | Mercado Municipal
Marinha Grande | Parque da Cerca
Paris | Boulevard Saint-Germain
Portimão | Praça Municipal
Setúbal | Largo José Afonso
Vila Real | Praça do Município
Wien | Museumsplatz 1

17:00
Firenze | Piazza della Repubblica

18:00
Alicante | Escaleras del IES Jorge Juan
Αθήνα | Πλατεία Συντάγματος
(Athens | Syntagma Square)

18:30
Bourges
Madrid | Plaza de Neptuno

19:00
Ourense | Parque de San Lázaro
Pavia

sábado, 25 de maio de 2013

Governo, sindicatos e greves dos professores

Vários sindicatos de professores anunciaram uma manifestação nacional para o próximo dia 15 de Junho, uma greve ao serviço de avaliações para os dias 7, 11, 12, 13 e 14 do mesmo mês e uma greve nacional para três dias depois, primeiro dia dos exames. 
Sobre isto, quatro notas:

1. Nos últimos anos os professores têm sido uma classe profissional maltratada, massacrada e humilhada. Sócrates e Rodrigues, movidos por uma obsessão de origem recôndita, iniciaram o processo, e Passos e Crato deram-lhe continuidade. Um modelo estúpido de avaliação do desempenho (que continua), um modelo incompetente de gestão escolar (que continua), uma redução grotesca das horas destinadas à componente de trabalho individual (que continua), uma reforma curricular alarve, despedimento de milhares de professores, amontoamento dos alunos por turma, equiparação das escolas a grandes unidades fabris (mega-agrupamentos) constituem — para além dos cortes nos salários e do congelamento das carreiras (situação comum a várias carreiras da Função Pública, mas não a todas...) — exemplos das políticas que têm atingido os docentes.
Por tudo isto e pelo iminente aumento do horário laboral e pela passagem à antecâmara do despedimento de mais outros milhares de professores, não faltam razões mais do que ponderosas para ser desencadeado um forte e ininterrupto combate à política que o governo está a levar a cabo.

2. Dito isto, acrescento: não dou crédito político nem técnico-jurídico às direcções sindicais que temos.
No decurso dos trinta e dois anos que possuo de profissão, em nenhuma ocasião os sindicatos levaram até ao fim qualquer um dos grandes processos de luta ocorridos, e os professores acabaram sempre por sair derrotados, naquilo que era essencial, e «vencedores», no que era acessório. Os dois mais próximos exemplos do que acabo de afirmar foram a indecorosa assinatura do Memorando de Entendimento, com Rodrigues, e a não menos indecorosa assinatura do designado Acordo de Princípios, com Alçada.
Simultaneamente, os sindicatos têm sido um desastre, do ponto de vista técnico-jurídico, no aconselhamento e na orientação dos professores no decurso dos processos de luta. A última greve aos exames foi um triste exemplo dessa incompetência técnico-jurídica e de uma confrangedora desorientação, quando, na altura, o governo decretou os serviços mínimos. O mesmo aconteceu, há poucos anos, na altura da (não) entrega dos objectivos individuais para a avaliação do desempenho, isto é, num momento crucial da luta que se travava contra o monstruoso e incompetente modelo de ADD de Rodrigues.

3. Seria, pois, uma excelente notícia que a falta de credibilidade política e técnico-jurídica das direcções sindicais não prosseguisse. Seria uma excelente notícia podermos encontrar agora as direcções sindicais seriamente empenhadas na luta, assim como preparadas tecnicamente para dar, no decurso do processo, as respostas às previsíveis reacções e ameaças do governo. Seria uma excelente notícia observar que o anúncio destas greves não resulta de um fogacho, que logo se apaga, ou de uma encenação, que logo se desfaz. Seria uma excelente notícia verificarmos que estas direcções sindicais sabem o que devem fazer antes, durante e depois deste prometido período de greves.

4. Obviamente que farei as greves anunciadas. Este governo tem de ser incessantemente combatido, em nome do legítimo direito dos alunos a uma escola pública de qualidade e em nome da defesa dos legítimos direitos dos professores.