sábado, 21 de janeiro de 2012

Ao sábado: momento quase filosófico

Um problema ontológico
«A história que se segue contava-se na Alemanha nos anos sessenta, nos meios frequentados por  magistrados. Mas deve ter uma origem mais antiga.
Um juiz foi passar férias a casa de um primo, que era lavrador. Ao terceiro dia, o juiz, invadido por um princípio de tédio e vendo o seu primo muito ocupado, propôs-se ajudá-lo.
— Que sabes fazer? — perguntou-lhe o lavrador.
O juiz reflectiu por momentos e não soube dar qualquer resposta satisfatória. O lavrador reflectiu por sua vez e encontrou um trabalho fácil. Levou o juiz a uma arrecadação cujo soalho estava inteiramente coberto de batatas acabadas de arrancar.
— Aqui tens o que vais fazer — disse ele. — Vais separar estas batatas em três categorias: grandes, pequenas e médias. Até logo.
O lavrador partiu e trabalhou todo o dia nos campos. Quando voltou, era quase noite, abriu a porta da arrecadação e viu que as batatas estavam exactamente como as tinha deixado de manhã. O juiz estava no meio da arrecadação com um ar abatido, o rosto coberto de suor, o cabelo em desalinho. Tinha na mão uma batata.
— Que se passou? — perguntou o lavrador.
O juiz estendeu-lhe a batata e perguntou-lhe com a voz alquebrada:
— Esta é grande, pequena ou média?»
In Jean-Claude Carrière, Tertúlia de Mentirosos, Teorema (adaptado).

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Um ponto da situação

No domínio da Educação, este Governo partia de uma situação privilegiada: o legado de Sócrates e Rodrigues era tão mau que se tornava praticamente impossível fazer pior. Na realidade, uma certa bonomia com que têm sido recebidas algumas das primeiras medidas do novo ministro justifica-se porque, tendo presente os seis anos anteriores, ainda há quem esteja a agradecer aos deuses a mudança de equipa no Ministério da Educação. Todavia, a memória do péssimo não pode constituir razão para a presente aceitação do medíocre. Mas é isto que tem acontecido.

O que foi feito com a avaliação dos professores constituiu a primeira medida medíocre deste ministro. Um inqualificável modelo de (pseudo) avaliação deu lugar a um medíocre modelo de (pseudo) avaliação — verdadeiramente, e em rigor, ainda não deu lugar a nada, porque até agora nada de oficial foi publicado no Diário da República. O que se fez foi transformar um monstro (modelo anterior) num rato (modelo anunciado); o que se fez foi dividir para melhor reinar (ao isentar-se, na prática, os professores dos últimos escalões da avaliação); o que se fez foi proporcionar um ano de paragem (o actual) e empurrar o problema lá mais para a frente.
Dever-se-ia perguntar: com o novo modelo vai haver uma avaliação que contribua para a melhoria das praticas lectivas, de modo a que haja melhor ensino e melhores aprendizagens? Não vai, seguramente que não vai haver nada disso. Possivelmente (digo possivelmente porque ainda falta saber o que vai este ministro fazer com os designados Padrões do Desempenho...) haverá menos estupidez nos processos (pseudo) avaliativos, mas a avaliação encenada e sem a mínima credibilidade prosseguirá nas nossas escolas, como até hoje tem acontecido.

O que neste momento está a ser feito com a revisão curricular é exemplo de mais uma medida medíocre de Nuno Crato. Se uma revisão curricular para existir tem de ter fundamentos que a justifiquem, então, esta revisão não existe, é um nada absoluto. Uma amena conversa de café entre amigos, munidos de lápis e de duas folhas de papel A4, produziria com facilidade esta revisão curricular: umas contas de mercearia para redistribuir os tempos lectivos pelas disciplinas e uma grande dose de senso comum para alinhavar meia dúzia de banalidades.

Duas medidas estruturais que era urgente serem tomadas acabaram por redundar em duas medidas medíocres. Avulsamente, foram sendo tomadas outras medidas, umas más, outras assim-assim, outras acertadas, mas tudo embrulhado em muito amadorismo e falta de preparação — um exemplo para cada caso, respectivamente: aumento do número de alunos por turma; fim dos prémios financeiros aos melhores alunos (uma boa medida feita da pior forma); revogação do documento designado de Currículo Nacional do Ensino Básico — Competências Essenciais. Competências Gerais.

Agora, aguarda-se o que vai ser feito em outros dois domínios estruturais: Gestão das Escolas e Novas Oportunidades. Provavelmente vai acontecer o que tem acontecido até aqui: ou se mexe no acessório para, no essencial, se deixar tudo na mesma, ou se mexe desconexamente para se deixar não se sabe bem o quê.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Quinta da música - Jean-Baptiste Lully

Trechos - Hervé Juvin

«Fazem girar a máquina do crescimento ilimitado e se eles se mobilizam sem demoras e sem tréguas, é pela sua própria salvação de seres económicos, sem outra razão de ser do que a sua contribuição para o crescimento, sem outra justificação para as suas existências minúsculas do que o valor acrescentado, primeiros seres vivos cujo crescimento é o oxigénio e cujo trabalho é a respiração. Como o burro que faz girar a roda, como os escravos de olhos estoirados acorrentados ao moinho das villas romanas, continuam sem ver o círculo daqueles cuja cultura acabou por separá-los para sempre do que teria podido, um dia talvez, torná-los homens. E acreditam, sem dúvida, que no fim do caminho invisível que seguem, as correntes caídas, a roda parada, a corrida feliz começará e, sem dúvida, que esperam, sem acreditar, que um dia qualquer coisa se passará verdadeiramente, como sangue, como vitória e como morte — na imensa paz que o início estende em cada coisa.»
Hervé Juvin
Gilles Lipovetsky, Hervé Juvin, O Ocidente Mundializado, Edições 70.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Para clicar


Às quartas

QUANDO CHEGAR A HORA

Quando chegar a hora decisiva,
Procurem-me nas dunas, dividido
Entre o mar e a terra.
Marujo e cavador, tanto me quer a espuma
Como a folhagem.

Mas se a grande aventura que se espera
Tiver no mesmo fruto sal e seiva,
Venham roubar-me às ondas que namoro
E à sombra das montanhas que me cobre
Com ternuras de amante.
Levem-me nu à festa do combate
Que vai unir os mares e os continentes.
Marujo e cavador, terei o mar inteiro
Das esperanças humanas,
E a terra universal
Da redonda e alada perfeição.

Miguel Torga

A flexibilidade ambicionada

Parece ser consensual considerar que o conteúdo do novo acordo de concertação social, assinado hoje pelo Governo, pelas confederações patronais e pela UGT, é a concretização de todos os desejos que os empresários portugueses reclamavam há já longos anos. Dos comentários que pude ler, desde os sectores designados de direita até aos designados de esquerda, esta conclusão é unânime — cheguei mesmo a ouvir um professor universitário, especialista em direito do trabalho, afirmar que a legislação laboral do tempo de Salazar era mais harmoniosa (entre direitos dos empregadores e dos empregados) do que a agora acordada. Não sei qual é o rigor desta afirmação, mas, para o caso, não importa.
Na verdade, este acordo reduziu praticamente a nada a segurança (do trabalhador) e elevou a flexibilidade (do despedimento) a níveis nunca antes atingidos, isto é, fez da designada «Flexisegurança» um arremedo de segurança e um potentado de flexibilidade. Em nome da defesa da produtividade e da competitividade, atribuíram-se todos os poderes e todos os direitos ao patronato. Todavia, a realidade tem mostrado, à exaustão, que o problema da produtividade e da competitividade do nosso país não estava, nem nunca esteve, na existência de direitos a mais para quem trabalha, o problema do nosso país está nas elites incompetentes que o dirigem, quer a nível político, quer a nível económico e empresarial. Os trabalhadores portugueses, cá dentro e lá fora, com os mais diversos géneros de legislação laboral, têm obtido iguais ou melhores resultados do que muitos trabalhadores estrangeiros, os trabalhadores portugueses são tão produtivos, são tão competitivos como outro trabalhador de qualquer nacionalidade.
O problema não está nos trabalhadores, o problema está em quem os dirige. E a verdade é que temos uma classe de patrões genericamente inculta, ignorante, grosseira, gananciosa e incompetente. De vistas curtas, muitos patrões portugueses desbaratam os rápidos lucros que obtêm na compra de lustrosos Ferraris ou na aquisição da segunda ou da terceira casa, descapitalizam as empresas, não planificam o futuro. Carroceiros como muitos são, não se preocupam com as condições de trabalho dos seus profissionais, não investem na sua formação, pagam-lhes mal e tratam-nos como seres-objectos e não como pessoas.
Este não é um retrato do séc.XIX, é uma foto digital do nosso séc.XXI e não tipifica apenas muito do pequeno e médio patronato português, existem, no nosso país, grandes empresas que impõem inaceitáveis condições de trabalho e de vencimento aos seus «colaboradores» (termo na moda, por razões algumas delas bem perversas).
Este acordo de concertação social sustenta-se numa proposição mentirosa: a legislação laboral era a causa da nossa falta de produtividade. Não é verdade. A causa está, mesmo dentro do modelo económico vigente, na mediocridade das nossas elites: naquelas que elegemos e naquelas que têm o poder económico e  financeiro.
Enquanto estas elites prevalecerem, nada de importante mudará em Portugal.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Bonecos (sem palavra)

Quino, Bem, Obrigado. E Você?, Pub. Dom Quixote.

Nacos

«Escapei de ir apanhar ar nessa ocasião, mas na manhã seguinte o médico conduziu-me ao tombadilho, onde ouvi de novo o grito de Camas à coberta; desta vez olhei para baixo e vi os soldados erguerem uma grande escotilha crivada de pregos e, dessa bocarra, sair, vinda do bojo do barco, uma infeliz raça de monstros e trogloditas com o mais pavoroso fedor. Com repugnância e fascínio, observei como esses seres faziam uma trouxa com a roupa de cama e a colocavam nas redes do cesto da gávea, e os rapazes... nunca se viam rapazes daqueles, com os olhos negros como os dos caranguejos, mirrados como uvas pretas rejeitadas pelo mundo.
Quando estavam todos reunidos, com as correntes a tilintar, bem comprimidos no tombadilho superior e rodeados pelos soldados com as suas armas e baionetas, o reverendo Potter fez as orações da manhã, o que levou vários prisioneiros, homens e mulheres, a ajoelhar-se, produzindo assim o mais pavoroso ruído de correntes a entrechocarem-se e a caírem com força na coberta da proa.Quando a seguir saímos para apanhar ar, tive medo não só do mar, mas desse enxame fervilhante, venenoso e negro, desses australianos, no ninho por baixo dos pés. Nesse dia frio e límpido mantinham-nos lá em baixo para sua própria segurança, mas eu ouvia o clamor e os gritos terríveis que chegavam lá acima sempre que a água invadia a coberta da proa. Não fazia ideia de quem eram, só sabia que aquelas criaturas assustadoras estavam dominadas pelo terror de se afogarem.»
Peter Carey, Parrot e Olivier na América, Gradiva.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Comentário de segunda: o Carnaval veio mais cedo

No calendário, o Carnaval ainda não chegou, mas, em Portugal, já é vivido intensamente.
Ver Passos Coelho afirmar, enquanto afivelava um ar de gravidade, que está a cumprir o que prometeu, isto é, que não está a dar emprego aos amigos, só pode ser entendido como um número de Carnaval.
Ouvir Eduardo Catroga falar é, invariavelmente, um momento carnavalesco.
Verificar que o ministro das Finanças cometeu um erro de palmatória na elaboração do Orçamento do Estado para 2012 — erro que implica que o défice previsto já tenha subido para 5,4%, e ainda o Orçamento mal começou a ser executado —, só pode ser compreendido como uma partida de Carnaval.
Escutar que aquela meia hora de trabalho a mais (até há pouco tempo considerada pelo Governo como uma medida imprescindível para relançar a economia) já não vai avançar; e que o anunciado fim das «pontes» (outra medida também anunciada pelo ministro da Economia como essencial para pôr o país a trabalhar mais) também já não vai para a frente, só pode ter uma interpretação: quando o ministro dizia que a nossa salvação residia em tais medidas, ele estava apenas a «carnavalar» connosco.
Ler que o secretário de Estado da Segurança Social deu ordem para que 117 mil cidadãos devolvam, em 30 dias, os 570 milhões de euros que, alegadamente, o Estado não lhes deveria ter abonado, só pode ser visto como um pretexto de ensaio do desfile carnavalesco.
Saber que Jardim pretende assumir agora o papel do governante responsável que não quer assinar acordos por saber que não os pode cumprir, só pode ser visto como um número do Carnaval da Madeira, que Jardim, até hoje, ainda não tinha tentado.
Este ano, no que diz respeito a carnavais, vamos pedir meças ao Brasil...

domingo, 15 de janeiro de 2012

Warne Marsh Quartet

Pensamentos de domingo

«Tudo é grande no templo do favor excepto as portas, que são tão baixas, que por elas apenas se pode entrar de rastos.»
(Duque de) Lévis

«Quem retribui com favor pensa no futuro: no dia da sua queda encontrará apoio.»
Textos bíblicos

«Um jantar lubrifica os negócios.»
Walter Scott
In Paulo Neves sa Silva, Dicionário de Citações, Âncora Editora.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Ao sábado: momento quase filosófico

O problema do Outro

Um mestre zen e o seu discípulo seguiam por um caminho, a meio da noite. O mestre tinha uma lanterna.
— Mestre — perguntou o discípulo — é verdade que podes ver no escuro?
— Sim, é verdade.
— Então para que é a lanterna?
— Para que os outros não choquem comigo.
In Jean-Claude Carrière, Tertúlia de Mentirosos, Teorema

Professores pedem explicações a Nuno Crato



O agradecimento ao Miguel Reis

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Apontamentos sobre um desastroso modelo de gestão -10

Ao longo das últimas semanas, procurei apresentar as razões que me levam a considerar o actual modelo de gestão das escolas, criado por Sócrates e Rodrigues, como desastroso.
Para concluir, proponho que se procure responder a uma pergunta: que ganharam as escolas, que ganharam os alunos, os professores, os funcionários, os encarregados de educação com a introdução da nova forma de gerir a escola portuguesa?
Não vislumbro que haja algo de relevante que anteriormente já se fizesse bem e que, por via do novo modelo, tenha passado a fazer-se melhor e não encontro situações negativas que, por via do novo modelo, tenham sido ultrapassadas. Por outro lado, vejo que, por via do novo modelo, há situações que pioraram objectivamente.
Quer do ponto de vista da qualidade do trabalho produzido, quer do ponto de vista do funcionamento, nenhum dos actuais órgãos (conselho geral, director, conselho pedagógico, departamentos curriculares) alcança melhor avaliação do que os órgãos dos modelos anteriores (assembleia de escola/inexistência de órgão similar, conselho executivo/directivo, conselho pedagógico, grupos disciplinares). Todos eles, na minha opinião, revelam mais aspectos negativos do que os seus predecessores, pelas razões que fui apontado nos textos anteriores.
O que justifica então a defesa e a manutenção deste modelo? A única justificação que encontro é de natureza ideológica. Só a crença — suscitada por inexpugnáveis razões, que a experiência não confirma — de que os melhores modelos de gestão escolar são aqueles que assentam na nomeação e na (artificial) autoridade individual é que explica a defesa deste modelo. Isto ou então uma manifesta dificuldade de se conviver com o escrutínio colectivo e com o método do reconhecimento da autoridade pelos pares. 
Como os resultados não comprovam que este modelo seja melhor do que os anteriores, a defesa da sua manutenção só pode ter uma base ideológica, no sentido pejorativo do termo: a partir de uma representação do mundo gerada por interesses individuais e/ou de grupo, procura-se impor, nos diferentes níveis da realidade, modelos organizacionais consonantes com essa representação e que servem para consolidar esses interesses individuais e/ou de grupo. No caso da Educação, privilegia-se essa representação do mundo e a defesa desses interesses em detrimento do desenvolvimento da Educação e do melhor funcionamento das escolas.

O debate desta matéria pode ter interesse se não se desenvolver em torno de clichés, mas a partir de um exame crítico rigoroso do que a realidade tem revelado. O confronto com a realidade é decisivo. É preciso é não ter medo de o fazer.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Quinta da música - Nicola Porpora

Trechos - Hervé Juvin

«É o projecto implícito do totalitarismo que se estende sob a cobertura do cosmopolitismo dominante que garante a apreensão do indivíduo despido de tudo o que fazia dele pessoa pela ideologia liberal apresentada, na realidade pelos interesses geopolíticos bem reais das potências emissoras de sistemas, de representações e dos códigos da modernidade em vigor. Nove mil milhões de indivíduos semelhantes, persuadidos da sua individualidade, incitados a fazer valer os seus direitos, convencidos de que se tornaram livres ao fugir de todas as determinações, ao recusar as suas origens, seduzidos pelo seu novo ser económico que acaba por confundir neles o produtor e o consumidor na mesma utilidade global. Nove mil milhões de indivíduos conformes, "processados" pela torrente permanente de informações, de representações e de experiências, vivendo uma condição inédita que é necessário chamar humana, à falta de outra palavra para a nomear.»
Hervé Juvin
Gilles Lipovetsky, Hervé Juvin, O Ocidente Mundializado, Edições 70

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Às quartas

ANO

Benéficas agora, ainda tranquilas
As cepas, as uvas
A vinha do enforcado. O Outro
É ainda o desconhecido, o Outro estava, está empre
Fechado neste céu opaco
Onde a luz avinhada
É cada vez mais frouxa
 e o grito do tentilhão já é só gelo.

Aqui, nestes trabalhos calmos,
Claros, aqui prossegue e arde
O todo que não tenho
Mas tenho que perder.
Os tempos que se foram,
O tempo que aí vem
Arremetem —
Sem saber como, cheguei aqui,
Espero, ardo, avanço por
Dias e dias inacessíveis
E torno-me sem fim o que já sou,
A repousar nesta luz vazia.

Mario Luzi
(Trad.: Ernesto Sampaio)

Os problemas da ideologia

A ideologia tem vários problemas, desde logo o da sua definição. Afastado há muito do seu sentido original (uma ciência das ideias), o termo ideologia foi adquirindo diferentes significados e, ao longo do tempo, foi sendo utilizado, consoante os contextos, quer com uma conotação valorativa (enquanto sistema de ideias que sustenta convicções pessoais no domínio político, económico, social, etc.), quer com uma conotação pejorativa (enquanto conjunto de crenças dogmáticas que reflecte interesses pessoais e/ou de grupo/classe). 
Apesar da sua morte já ter sido várias vezes decretada, o facto é que a ideologia, seja num sentido ou no outro, não morreu — pelo contrário, alguma até rejuvenesceu. O problema (recorrente) é que há um determinado tipo de ideologia que pretende apresentar-se ao mundo como não ideológica. Hoje em dia, essa rejuvenescida ideologia surge travestida com a ponderosa capa da «inevitabilidade», ou da «exigência do futuro», ou do «rumo irreversível da história», ou de outros clichés não menos assertivos e sugestivos, mas nunca como ideologia.
Ora, esta circunstância constitui mais um problema, porque: ou os protagonistas desta ideologia «não ideológica» pretendem deliberadamente esconder a natureza ideológica do seu discurso e dos seus argumentos, o que, do ponto de vista da honestidade intelectual, é inaceitável, porque tem um intuito enganador; ou os protagonistas desta ideologia «não ideológica» não têm realmente consciência da natureza ideológica daquilo que defendem, o que, intelectualmente, revela debilidade, e, socialmente, pode redundar em fanatismo acéfalo.
Na história, as evidências «não ideológicas» nunca deram bons resultados.