quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Investigação sobre assédio moral em professores portugueses

Por solicitação do doutorando António Portelada, da Universidade de Évora, divulga-se a investigação abaixo descrita e o pedido de colaboração na mesma.

Caro(a) Colega 
O projeto “lMPORTUNUS: estudos de caracterização do assédio moral em professores Portugueses” apoiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) é realizado por António Portelada, aluno do 2º ano do Curso de Doutoramento em Ciências da Educação na Universidade de Évora, orientado pelo Professor Doutor António Neto e pela Professora Doutora Adelinda Candeias.
 O projeto destina-se a caracterizar e compreender, em que medida, o assédio moral ou mobbing está presente e como se manifesta, assim como, descobrir em que grau ele afeta o bem-estar, equilíbrio psicológico e integridade dos professores a nível nacional. Com um melhor conhecimento da temática em questão, poder-se-á obter uma melhor compreensão do fenómeno, bem como atuar na sua prevenção. Para que tal seja possível, pretendemos aplicar o Questionário “lMPORTUNUS: estudos de caracterização do assédio moral em professores Portugueses” pelo que gostaríamos de contar com a sua colaboração na resposta ao questionário que foi já previamente submetido à apreciação da Direção Geral da Educação, Sistema de Monitorização de Inquéritos em Meio Escolar, e devidamente aprovado com o n.º de registo 0512600001.

As suas respostas são CONFIDENCIAIS e ANÓNIMAS, não tendo este questionário outra intenção além da que foi acima descrita. A sua participação, com a resposta sincera às questões propostas, é imprescindível para o sucesso deste projeto.
Estimamos que a resposta ao questionário não demore mais de 20 minutos.
Para preencher o questionário clique aqui ou, em alternativa, aceda pelo link: https://docs.google.com/forms/d/1l7gL20ICNiD5vRGS9XODjJuYXU15wUjKRfySLwU4j3s/viewform?usp=send_form. 
Alguma dúvida ou esclarecimento adicional, por favor contacte-nos para o seguinte endereço de correio eletrónico: mobbingprof@gmail.com  
Os nossos sinceros agradecimentos e os melhores cumprimentos, 
António Portelada

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Crato e Rodrigues - a condecoração que os uniu...

 Na semana passada, o (ainda) Presidente da República, condecorou 8 ex-ministros. Entre eles, estavam Lurdes Rodrigues e Nuno Crato, ex-ministros da Educação.
O acto de condecorar, independentemente do condecorador e dos condecorados, é, em si mesmo, discutível, mas, neste caso concreto, quando olhamos com atenção para quem condecora e para quem é condecorado o discutível torna-se incompreensível. Incompreensível em pelo menos dois sentidos.
Primeiro: é difícil compreender que alguém, mesmo aqueles que concordam com o exercício de condecorar, considere honroso ser condecorado por Cavaco Silva. Na verdade, Cavaco Silva foi dos políticos que mais negativamente marcou a história recente do nosso país — quer pelas muito evidentes limitações a nível da formação cultural (que fez dele um representante exótico do nosso país), quer pela muito evidente ausência de honestidade política e evidente presença de mesquinhez política, quer pelas evidentes opções desastrosas que tomou, enquanto governante (como ministro das Finanças e como primeiro-ministro) e enquanto Presidente. Considerar significativo e até honroso receber uma condecoração resultante de uma avaliação feita por Cavaco Silva é, pois, de difícil compreensão.
Segundo: é igualmente incompreensível que Rodrigues e Crato possam receber uma condecoração pela mesma razão, ou seja, pelo desempenho que tiveram como ministros da Educação. 
Crato, antes de ser ministro, criticou assídua e veementemente a política educativa de Rodrigues. Considerou-a um desastre. Quando ministro, afirmou múltiplas vezes que estava a realizar alterações profundas em todo o sistema (avaliação do desempenho dos docentes, alteração da estrutura curricular do ensino básico e secundário, alteração de programas, substituição de metas por objectivos, abandono dos cursos de educação e formação, introdução de cursos vocacionais, proliferação de provas de exame, etc.). Por sua vez, Rodrigues não se cansou de acusar Crato do mal que este estava a fazer aos alunos, à educação e ao futuro do país. Acusou-o de levar à prática orientações que desvalorizavam o ensino público, que contrariavam o objectivo de criação de uma escola inclusiva, que tomava decisões fundadas apenas em crenças ideológicas, etc. Classificou a sua política de desastre.
Daqui retira-se que Crato desfez o que Rodrigues fez e que Rodrigues nunca faria o que Crato fez.
Isto tem uma consequência: se se considerar que, em matéria educativa, Rodrigues prestou um bom serviço ao país, não se pode, ao mesmo tempo, considerar que Crato o tenha feito também. Se se considerar que, em matéria educativa, Crato prestou um bom serviço ao país, não se pode, ao mesmo tempo, considerar que Rodrigues o tenha feito também. Condecorar os dois é, pois, um acto contraditório. Um acto que se anula a si mesmo, porque uma condecoração anula a outra. 
Ou, então, na verdade, as condecorações nada significam, porque quem as dá não tem credibilidade nem critérios para o fazer e/ou porque quem as recebe não as merece receber e/ou porque, afinal, a condecoração é apenas um ritual de comprazimento, em que membros de um mesmo círculo se condecoram uns aos outros.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

O PS está a tomar opções políticas que, por si só, jamais tomaria?

Fotografia de José Almeida
1. Li, algures, que o PS estava a tomar opções políticas que, por si só, jamais tomaria. Quem fazia esta observação aludia a opções concretizadas a nível do Orçamento de Estado e a algumas decisões tomadas a nível do governo e do parlamento. O comentário em questão referia-se, como é evidente, aos condicionamentos a que o PS está sujeito, decorrentes dos acordos que celebrou com o BE, o PCP e o PEV. Isto era dito com um sentido claramente pejorativo. Mas podia ter sido dito com um sentido oposto. Estamos, aliás, perante uma ocorrência comum: um mesmo facto ter interpretações diferentes ou mesmo opostas. 
Na verdade, é um facto que o PS está a tomar opções políticas que, por si só, jamais tomaria, e que isso acontece porque está condicionado pelos acordos que celebrou com o BE, o PCP e o PEV. Esta realidade, que é verificada por todos, é tida pelo autor daquela observação como uma situação negativa, perigosa, insustentável. Curiosamente, faço parte do grupo daqueles que vêem esta realidade como positiva, virtuosa e sustentável. 
É inteiramente verdade que, se o PS não tivesse celebrado os acordos com os partidos da esquerda parlamentar e deles não estivesse dependente, não estaria a fazer a política que está a fazer. Estaria a fazer, como quase sempre fez, uma política idêntica ou ligeiramente diferente das políticas do PSD e CDS, isto é, uma política idêntica às políticas que o tradicional arco da governação praticou durante as últimas décadas e que conduziu o país a escandalosos níveis de desigualdade e de injustiça social.
É precisamente a circunstância da sobrevivência do governo do PS depender do apoio do BE, do PCP e do PEV que o obriga à tomada de medidas que farão reverter totalmente, em 2016, algumas das situações mais injustas que PSD e CDS geraram, quando governaram coligados (algumas delas — cortes nas pensões e nos salários — iniciadas, como se sabe, por um governo do PS, o de Sócrates). É precisamente a circunstância da sobrevivência do governo do PS depender do apoio do BE, do PCP e do PEV que originou um orçamento de Estado muito diferente daquele que decorreria se dependesse apenas do programa eleitoral do Partido Socialista. É justamente a circunstância da sobrevivência do governo do PS depender do apoio do BE, do PCP e do PEV que fez com que a banca e as grandes empresas tenham, em 2016, um aumento de impostos.
É, portanto, inteiramente verdade que o governo do PS está a tomar opções políticas que, por si só, jamais tomaria. Uma «pequena» diferença que pode fazer alguma diferença...

2. Uma das prioridades do novo presidente eleito, Rebelo de Sousa, vai ser a de criar condições para que esta situação termine o mais rapidamente possível, e que PS e PSD deixem de ser irmãos desavindos. Rebelo de Sousa irá empenhar-se activamente (ainda que também discretamente) para que se regresse ao pântano político do bloco central. Se o novo presidente conseguir realizar este objectivo, muitos dos que votaram em Rebelo de Sousa vão arrepender-se de o terem feito. Mas, como é hábito entre nós, nessa altura, já será tarde.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Continuamos um povo crédulo

Fotografia de Pixel Eye.
Continuamos a ser um povo crédulo. Um povo que ainda vive muito de futebóis, de fado e de Fátima. O futebol alimenta-nos, de modo fácil, o mito das grandezas, o mito de que poderemos voltar a ser grandes em alguma coisa, mas sem trabalho (delegamo-lo numa dúzia de heróis do pontapé); o fado, algo paradoxalmente, alimenta-nos o mito de um destino de dor, ingratidão e desamor, que de forma inexorável marca o rumo à nossa existência individual e colectiva, o que justifica a tendência para a lamúria (e para a inacção); e Fátima alimenta-nos o mito de que, apesar de tudo, poderemos ter esperança numa imaginada recompensa (dos pobres é o reino dos céus).
Formados e alimentados nestes mitos, estendemos a nossa credulidade a quase tudo. Como crianças ingénuas, somos aliciados por narrativas de afectos, de ternuras e de carinhos. Somos atraídos por contos que nos falem de misericórdias, de caridades, de sentimentos cristãos, de avós e de netos. Sentimo-nos próximos do olhar cândido, do sorriso condescendente e do conselheiro paternal. Afeiçoamo-nos ao portador do mistério da elevada sabedoria e, em simultâneo, protagonista de actos de proximidade e simplicidade que nos enlevam e ilusoriamente nos fazem sentir seus cúmplices, companheiros, amigos. Desejamos ser cordeiros conduzidos pelo pastor protector.
Além disto, também não temos memória. Apagámo-la voluntariamente e com gosto, se ela contradisser a nossa ingenuidade, a nossa atracção, o nosso sentimento, a nossa afeição, o nosso desejo. Nada queremos com uma memória de factos potencialmente destruidores da ilusão. Preferimos o esquecimento que permite manter viva a chama da fantasia.
Vemos no exercício da análise, do escrutínio e da crítica uma perda de tempo e um aborrecimento. Não querendo averiguar as causas, não compreendemos os efeitos e ficamos sem perceber nada do que nos acontece. Todavia, mantemo-nos campeões do «bitaite», do palpite e da insinuação. Com a barriga encostada ao balcão, ainda deitando abaixo «copos de três», ou, no meio da rua, deitando abaixo shots, ou, de rabo no sofá, deitando abaixo novelas e reality shows, somos imbatíveis a absorver álcool, estupidez e dormência cívica, 
Deste modo, com tranquilidade, mantemo-nos crédulos em quase tudo, em particular com os Rebelo de Sousa que nos aparecem pelo caminho.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Sondagens e mistérios

Fotografia de Pixel Eye
A última sondagem do Expresso, publicada ontem, dá uma vitória de Rebelo de Sousa à primeira volta, com 54,8% dos votos, apresentando uma subida de 2,3% desde a sondagem anterior. A mesma sondagem dá a Sampaio da Nóvoa 16,8% dos votos e a Maria de Belém 16,3%. Nenhum dos restantes candidatos chega aos 5%.
A envolver estes números surgem alguns mistérios.

1.º mistério - Rebelo de Sousa tem muito mais votos do que PDS e CDS tiveram juntos, nas últimas eleições. Para isso suceder, tem certamente de começar por recolher a unanimidade dos votantes do PSD e CDS. Este fenómeno tem explicação?
As direcções do PSD e do CDS apoiaram a candidatura de Rebelo de Sousa por uma razão: porque não tinham alternativa. Na verdade, este candidato nunca foi o preferido, porque não possui o perfil político que ambos os partidos desejavam. Apesar de ser um candidato de direita, Rebelo de Sousa é um candidato que põe o seu protagonismo político à frente de todos os outros interesses. Sempre foi assim. As suas motivações políticas, os seus jogos de bastidores e as intrigas permanentes que criou e alimentou sempre estiveram em primeiro lugar nas prioridades da sua acção política. Rebelo de Sousa é um maníaco da conspiração política, faz parte da sua natureza. É assim que frui a política, é assim que vive a política.
Sendo um direito seu fazer política deste modo, não se compreende, todavia, que unanimemente a direita vote nele. A direita, em particular a mais conservadora, gosta de ter representantes em quem possa confiar. Não aprecia «cata-ventos», utilizando a designação de Passos Coelho.
Como se explica, então, esta unanimidade? O sentido pragmático da direita não chega para justificar tão grande consenso e conformismo na 1.ª volta; em particular, quando todas as sondagens lhe dão uma vitória logo a 24 de Janeiro.
É um mistério... ou a sondagem está errada.

2.º mistério - Para ter mais votos que o PSD e o CDS juntos, Rebelo de Sousa tem de recolher, no mínimo, milhares de votos de eleitores do PS.
Admitindo que muitos votantes do PS votam umas vezes PS e outras PSD, isto é, são votantes híbridos, não votam em função de convicções; admitindo que não aprendem com a experiência, isto é, repetem erros sem daí nada concluírem; admitindo que vêem as eleições como um leilão, isto é, dão o voto a quem oferece mais; mesmo assim, admitindo tudo isto, é inevitável a pergunta: predispõem-se agora a votar em Rebelo de Sousa, porquê?
Ele não oferece mais do que os outros candidatos; tem um discurso de desavergonhado oportunismo político; apresenta-se como uma figura cinzenta, negando o que sempre foi e querendo aparentar ser o que nunca foi nem será (um político de confiança); não tem uma ideia mobilizadora; não aponta nenhuma esperança para o país e foi cúmplice das políticas de PSD e do CDS, nos últimos quatro anos. Muitos votantes do PS querem votar nele porquê? Porque aparecia ao domingo na TV?
É um mistério... ou a sondagem está errada.

3.º mistério - Para  a esquerda, a eleição presidencial é ou não é importante? Se a resposta é negativa, compreende-se que haja tantos candidatos à esquerda. Se é positiva, não se compreende que haja tantos candidatos à esquerda, ou melhor, que haja tantos candidatos à esquerda que levem a sua candidatura até ao fim. Se houver 2.ª volta, as sondagens acima referidas, assim como outras, mostram que só um de dois candidatos pode acompanhar Rebelo de Sousa à votação decisiva: Sampaio da Nóvoa ou Maria de Belém. Assim, é inevitável a pergunta: para a esquerda, é indiferente que vá um ou outro destes candidatos à 2.ª volta? Se é indiferente compreende-se que mantenham as candidaturas até ao fim; se não é indiferente, então, é incompreensível que não desistam a favor de um daqueles dois candidatos. Ora, evidentemente que, para a esquerda, não é indiferente ter Sampaio da Nóvoa ou Maria de Belém na 2.ª volta. E se a esquerda foi capaz de dialogar para suportar um governo do PS e evitar um governo de direita, certamente que também é capaz de dialogar para apoiar na 1.ª volta Sampaio da Nóvoa, evitando o desastre que seria ter Maria de Belém na 2.ª volta.
Se as desistências não acontecerem, estaremos perante um mistério... ou perante um erro grave da nossa esquerda.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Se se confirmar, é uma boa notícia

Portas anunciou, há dias, que vai deixar a liderança do CDS. Este anúncio é uma boa notícia, se se confirmar (se se confirmar, porque a credibilidade de Portas e do que ele anuncia ou afirma é idêntica a zero). 
Julgo que a saída de cena de Portas (se se confirmar) é uma boa notícia, porque higieniza a vida política: deixaremos de ter de suportar constantemente a falta de seriedade, a mercantilização de princípios e o recorrente recurso à teatrialização ordinária, que esta personalidade protagonizava com denodo. 
Só isto chegaria para que aquele anúncio constituísse uma boa notícia. Todavia, o que se lê e ouve da parte de alguns políticos, de alguns jornalistas e de alguns comentadores, em relação a Portas, são elogios, aplausos e encómios. Entre outras coisas, pudemos ler e ouvir que o consideram: um político brilhante; um estadista; um grande líder europeu. Mas os mesmos que escrevem e dizem isto também reconhecem que Portas, ao longo da sua vida pública, defendeu tudo e o seu contrário: foi anti-Cavaco e foi cavaquista; foi anti-europeísta e foi europeísta; foi anti-PSD e coligou-se com o PSD; foi irrevogável e foi revogável; negou qualquer possibilidade de um dia ser militante partidário e foi militante e líder partidário; foi campeão da defesa do contribuinte e foi co-responsável pelo maior aumento de impostos das últimas décadas; foi Não e foi Sim, sempre em função do que lhe convinha, e sempre com o mesmo à-vontade e com a mesma falta de pudor. 
Ora, não é possível considerar que Portas foi tudo isto e simultaneamente considerá-lo um político brilhante, um estadista e um grande líder. Só será possível fazê-lo, se considerarmos a política um pântano, onde vale tudo fazer e tudo dizer. Se equipararmos o político ao vendedor de vão de escada e a política ao reino da publicidade enganosa. Se tivermos esta ideia manhosa de política, então, um político brilhante será aquele que melhor concretiza essa ideia. Deste ponto de vista, não ficam dúvidas de que temos tido alguns políticos brilhantes e alguns grandes estadistas. E, neste caso, Portas foi um deles.
Mas este modelo de política e de político é o modelo responsável pela degradação da qualidade da nossa vida política e pelo afastamento de grande parte da população pelos assuntos políticos. Tem sido esta ideia de política — que os responsáveis políticos, pela sua prática, e os órgãos de comunicação social, pela idolatria que lhe devotam — que nos vai envolvendo numa cultura de irresponsabilidade cívica e de oportunismos sociais.
Se tivermos um outro conceito do que é e do que deve ser a política, se pensarmos a política como o exercício generoso e responsável da cidadania, em que a assunção de responsabilidades governativas exige espírito de missão em prol do bem comum e exige honestidade, verticalidade e uma entrega destituída de protagonismos pessoais; se pensarmos a política a partir desta ideia, onde não há lugar a tacticismos, a acobracias e a dissimulações, então, Portas, foi o antípoda de um político brilhante e de um estadista.
É por isto que considero que o anúncio do seu abandono da liderança do CDS é uma boa notícia para o país, se se confirmar...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Banca, uma elite que nos arruina

Durante vários anos, ouvimos, regular e insistentemente, que os nossos banqueiros e os seus gestores pertenciam ao grupo do melhor que havia na Europa e no mundo, no domínio financeiro. Ouvimos, regular e insistentemente, que a nossa banca estava na vanguarda da inovação e que a sua solidez era superior à de muitos dos maiores bancos estrangeiros. 
E esta elite, com sobranceria, reluzia pelos corredores do poder. Conduzia negócios, punha e dispunha, discriminava financiamentos, garantia redes de interesses, alimentava especulações e aliciava as classes média e baixa para o consumismo e para o endividamento incontrolados. Simultaneamente, em fins-de-semana ou em noites quentes de Verão, organizava festas sumptuosas nas quintas, nas herdades, dos «seus» Alentejos e dos «seus» Algarves, ou nos «seus» hotéis da capital. Para além dos corredores do poder, também os corredores da fama estavam à sua disposição, com a cumplicidade subserviente e acéfala de órgãos de comunicação social. Jornais e televisões davam páginas e horas de publicidade e de engrandecimento a tudo que era evento organizado por estes protagonistas: festas de aniversário, de casamento, de baptizado, de noivado, de Verão, festa comemorativa, festa evocativa, festa porque sim e porque não eram objecto de permanentes mesuras mediáticas. Esposos, filhos, tios, primos, imensas amigas e imensos amigos enfileiravam assiduamente para a pose em frente às máquinas dos repórteres, que tinham a função, coadjuvados pelos designados «colunistas sociais», de propagandearem a notícia, de levarem ao comum dos mortais aquele glamour exclusivo.
Este mundo era o mundo modelo: quem dele fazia parte supostamente merecia essa pertença, pela sua alegada competência, pela sua alegada excelência, pela sua alegada competitividade e pela sua alegada moralidade. Constituía o paradigma da eficiência, da inteligência e dos bons costumes. À massa dos anónimos restava manifestar sentimentos de gratidão (pela sorte de haver uma elite assim preparada) e de humildade (perante a grandiosidade dos escolhidos).

Agora, ao fim destes anos de encenação orquestrada, de mitos construídos e de crimes escondidos, estamos cientes de que esta elite é uma das responsáveis (conjuntamente com a elite empresarial e a elite política que nos tem governado) pelo que de pior o nosso país está a passar. Na verdade, não há país que resista a uma ininterrupta amálgama de criminalidade, de corrupção e/ou de incompetência. A lista parece não ter fim: BPN, BPP, BCP, BES/NOVO BANCO, CGD, MONTEPIO, são siglas que não representam apenas instituições bancárias, são siglas que significam processos onde actos criminosos, actos de corrupção e/ou actos incompetentes se repetiram ao longo de anos e que contribuíram de forma determinante para a ruína do país, cujo o último episódio é o do BANIF, com mais uns milhares de milhões de euros que os contribuintes vão ter de desembolsar. Ao todo, já foram delapidados milhares de milhões de euros, que a designada massa anónima está a pagar e vai continuar a pagar, retirando a si própria verbas que poderiam e deveriam ser investidas na Saúde, na Educação, na Segurança Social, em investimento Público. É a massa dos anónimos que retira verbas dos seus salários e das suas pensões e que perde empregos para pagar a depradação e o esbulho levados a cabo pelos protagonistas da elite da excelência, da competitividade, da competência e da moralidade.
A estes responsáveis directos juntam-se os responsáveis indirectos, isto é, os dirigentes políticos e os dirigentes da entidade fiscalizadora (Banco de Portugal) que por omissão ou conivência ou subserviência possibilitaram ou ajudaram a que estas situações ocorressem. E a tudo isto junta-se ainda a vergonhosa inépcia da Justiça portuguesa. Os processos arrastam-se ano após ano e a impunidade prevalece. 
Tudo isto é inaceitável, mas tudo isto continua a existir, com a complacência da designada massa anónima.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Novamente as listas

Do mesmo modo que existe a época da caça, e a época de outras actividades, também existe a época das listas. Refiro-me a umas listas de escolas que alguns jornais e estações de televisão publicam por esta altura do ano. Costumam chamar-lhes rankings. Prefiro chamar-lhes listas, porque um ranking é uma classificação, uma graduação, ora as listas das escolas que anualmente aparecem nos órgãos de comunicação social são uma falsa classificação, são uma falsa graduação, nada dizem acerca do que alegadamente deveriam graduar ou classificar: as supostas melhores escolas. Do ponto de vista desta finalidade, são uma mentira. A falta de seriedade destas listas tem sido exaustivamente denunciada, mas o carnaval das listas, a farsa das listas, ou o que se lhe quiser chamar, continua. Anualmente, despudoradamente, pornograficamente.
É verdade que o movimento talibã que deu origem a esta coisa das listas tem perdido fulgor e agora sempre que as listas vêm a público vêm acompanhadas de muitos mas, de muitos poréns, de muitos contudos. Começa a existir alguma vergonha naqueles que as publicitam — todavia, é uma vergonha inconsequente, porque ainda não os inibe de prosseguirem. 

É neste contexto que quase todos os órgãos de comunicação social passaram a acompanhar a publicitação das listas com entrevistas sobre o tema. Curiosamente, muitos dos entrevistados enredam-se em contradições terríveis, porque, sem se perceber muito bem porquê, pretendem agradar a todos. 
Um exemplo disso é entrevista que o Expresso faz a Ana Balcão Reis, na edição desta semana.
A entrevistada afirma, e bem, que «os rankings não têm em conta informações relevantes para avaliar a qualidade da escola». Diz, e bem, que os rankings não têm em conta «a percentagem de estudantes que vão a exame, [a percentagem] dos que passam, as características da população de cada estabelecimento e que condicionam os resultados que é possível obter, [nem têm em conta] outras componentes do ensino que são importantes e que não são avaliadas em exame.» Chama a atenção, e bem, para um facto essencial: «as escolas públicas tendem a receber os alunos de meios socioeconómicos mais desfavorecidos e cujos pais têm níveis de escolaridade mais baixos. [E] os estudos em Economia da Educação mostram que o nível de escolaridade dos pais é uma determinante fundamental dos resultados escolares dos filhos.» Acrescenta ainda, e bem, que «não chega estar bem classificada no ranking para se poder dizer que é uma boa escola» e que «focar demasiado nos exames pode ser um resultado negativo.»

Ana Balcão Reis, depois de enunciar estas premissas, conclui, sem se conseguir saber muito bem como, que os rankings são «uma abertura ao escrutínio exterior, é algo de muito positivo e estou convencida que contribui para a melhoria da qualidade. [...] Os rankings ajudaram a que houvesse mais informação sobre os estabelecimentos de ensino.»
Depois de ter apresentado um vasto conjunto de premissas que afirmam, de modo claro, que os rankings não têm em conta informação relevante e a informação determinante, para se saber se uma escola é boa ou não, Ana Balcão Reis conclui precisamente o contrário do que as premissas permitem concluir. É surpreendente, mas é assim. A dislexia lógica também existe. Um aluno de Lógica que, numa prova, apresentasse um raciocínio assim estruturado teria zero na resposta.
É inacreditável que, depois de se constatar a inexistência de informação fundamental, se possa dizer que há escrutínio. É inacreditável que, depois de se afirmar que estar bem classificado no ranking não significa ser uma boa escola, se diga que os rankings ajudam na melhoria da informação. É inacreditável que, depois de se ter dado a entender que com toda a informação os resultados dos rankings poderiam ser muito diferentes (isto é, uma escola que agora está na parte superior de um ranking poderia ir parar à parte inferior do mesmo, ou o inverso), se diga que estamos perante algo muito positivo para o conhecimento das escolas.

Na verdade, o que aquelas premissas permitem concluir é o contrário: as listas de escolas são uma mentira informativa e, do ponto de vista educativo, são uma iniquidade.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Da mediocridade de Passos à incerteza de Costa

Imagem de Emília Duarte
1. A discussão do programa do Governo no parlamento teve vários momentos que serviram, uma vez mais, para mostrar a mediocridade política de muitos dos deputados que ali se sentam. Passos Coelho e Portas são lideres dessa mediocridade e seus protagonistas. Acusar o novo governo de ilegítimo e o novo primeiro-ministro de ter sido escolhido nas costas do povo é uma forma ordinária de fazer política. Aqueles que se afirmam insistentemente como os melhores defensores da democracia representativa são também os primeiros a insultá-la, quando as regras dessa democracia representativa não se coadunam com a satisfação do seus interesses. 
Ilegitimidade política houve quando, há quatro anos, uma maioria foi eleita mentindo aos eleitores. Essa é que é a verdadeira ilegitimidade: mentir, para ganhar votos.

2. Ainda não sabemos se António Costa chegou a acordo com os partidos da esquerda parlamentar por convicção ou por tacticismo. Ainda não sabemos se considera que esse é o caminho que o PS deve seguir ou se vai por este caminho apenas porque não queria perder o poder dentro do seu partido. A inclusão de ex-ministros de Sócrates, que com ele tiveram uma cumplicidade total, suscita evidentemente objecções. Circunstância a que se junta o facto de, entre esses ministro, ter escolhido, para um governo apoiado pelo BE e pelo PCP, alguém como Santos Silva que considera aqueles dois partidos as «forças mais conservadoras e reaccionárias que conheceu na vida», e em relação às quais sente especial prazer em «malhar». Ou António Costa não leva a sério o que Santos Silva diz, vendo-o como um fala-barato útil que hoje diz uma coisa e amanhã o seu contrário, que hoje malha nuns e amanhã malha noutros, que hoje está com um líder e amanhã está com qualquer outro,  ou António Costa não está verdadeiramente empenhado nos acordos que celebrou. 

3. A concretização de uma política que valorize o trabalho e que vise combater as pornográficas desigualdades sociais de que o país enferma dependerá essencialmente da acção que BE e PCP venham a desenvolver, porque não está na tradição do PS fazer rupturas dessa natureza. Isto significa que BE e PCP têm de realizar um escrutínio permanente e rigoroso a toda a política governativa, de modo a não permitirem que os inúmeros e fortíssimos grupos de pressão (de patrões, de financeiros, de grandes escritórios de advogados, etc.) que existem dentro do PS façam valer os seus interesses, que em nada coincidem com os interesses de grande parte dos portugueses.