terça-feira, 9 de outubro de 2012

Bonecos de palavra

Quino, Quanta Bondade!, Teorema.

Um e-mail esclarecedor

A propósito do post «Da falta de competência e de respeito», recebi um elucidativo e-mail do qual transcrevo um excerto:
«Desde que entrou em vigor a reorganização curricular, que transformou as aulas de 50' em 45', cada escola passou a distribuir o conjunto de horas atribuídas às áreas disciplinares (incluíam e incluem várias disciplinas em cada área) de forma diferente, com a agravante de não ter havido alteração dos respetivos programas. 
No caso, por exemplo, de Inglês do 2º ciclo, continua a ter de se "encaixar" um programa feito para 200' semanais (desde 1996) em cargas horárias de 135'. Aliás, penso que tal acontece(u) em quase todas as disciplinas dos 2º e 3º ciclos do ensino básico. 
[...] Em disciplinas que implicam sequências de conteúdos em espiral, caso das línguas estrangeiras, a impossibilidade de se contemplar nas planificações anuais os conteúdos obrigatórios estipulados nos programas (ainda em vigor) origina uma bol(s)a de conteúdos a serem dados no/s ano/s de escolaridade seguinte/s que vai aumentando de forma assustadora! Presentemente, com a junção dos agrupamentos em mega-agrupamentos, esta constatação chega, factual e finalmente, ao conhecimento do ensino secundário que, só agora, "percebe" a/s razão/ões pela/s qual/is os conteúdos dos anos anteriores não são lecionados na sua totalidade. 
Com a atual reorganização curricular, o problema mantém-se e, em algumas escolas, está agora a surgir, pois foi-lhes reduzida a carga horária semanal a língua estrangeira! Se forem implementados exames a mais disciplinas sem se alterarem os programas, vai ser interessante ver o que vai acontecer! 
Claro que há sempre a quem atribuir as culpas: ao corpo docente, como não podia deixar de ser!»
AC

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Um caso de estudo

Como é humanamente possível reunir tanta incapacidade para governar um país como o nosso, que tem uma área geográfica pequena, que é pouco populoso e cuja gente tem uma evidente tendência para a pacatez?
Como é humanamente possível governar tão mal um país que não tem conflitos internos, que se dá bem com tudo o que é estrangeiro, que tem um clima invejado por muitos, que se situa no centro do mundo ocidental, que está a um pé de África, que tem uma língua falada em todos os cantos do planeta e que já há muitos anos não se mete em guerras com ninguém?
Como é humanamente possível termos elites tão incompetentes, cujo resultado da sua acção é a contínua degradação do país, desde há décadas?
A história da humanidade, um dia, há-de estudar o nosso caso...

domingo, 7 de outubro de 2012

Debate das políticas educativas

Decorreu ontem, no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha, o Encontro denominado «A  Blogosfera e a Discussão das Políticas Educativas em Portugal». Esta iniciativa foi organizada pelos blogues Ad Duo, A Educação do Meu Umbigo, Blog de Arlindo, Correntes, Educar a Educação, Professores Lusos.
Foi um dia marcado por intervenções de elevada qualidade de vários dos convidados, moderadores e participantes. A quantidade da informação fornecida e a qualidade das análises, das propostas e das reflexões apresentadas ultrapassaram as melhores expectativas. Os temas tratados foram: modelos de gestão; vinculação dos professores contratados; gestão das expectativas dos docentes; burocracia e desinformação; autonomia/centralismo.
Seria bom que muitos daqueles que têm obrigação institucional de conhecer e de resolver os problemas da Educação no nosso país estivessem tão bem preparados para o fazer como vários dos professores presentes neste encontro.

1.º Painel - Modelos de Gestão
 Mário Carneiro, Paulo Prudêncio (moderador), Ricardo Silva.

 2.º Painel - Vinculação: Ordinária ou Extraordinária?
 Helena Mendes, Arlindo Ferreira (moderador), César Paulo, Jorge Costa.

3.º Painel - Gestão de expectativas e Da burocracia à desinformação na Educação
 Ricardo Montes (moderador), Nuno Coelho, Luís Braga, Nuno Rolo (moderador).

4.º Painel - Autonomia/Centralismo
Rui Correia, Paulo Guinote (moderador), José Alberto Rodrigues.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

5 de Outubro

1910, a implantação da República. 102 anos depois, a «Coisa Pública» é cada vez menos Pública. 

Dia Mundial do Professor

Ser professor num país cujos últimos governos apostaram e apostam em maltratar a Educação.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Resultados fantásticos seguidos de um aumento de impostos fantástico

Ouvir o ministro das Finanças é um exercício pouco agradável. A forma e o conteúdo dos discursos que profere são quase sempre rebarbativos. Todavia, o que é mesmo grave é que já ninguém acredita em Vítor Gaspar. Pausadamente, este governante foi perdendo a credibilidade que lhe foi atribuída. Todas as certezas que afirmava, pausadamente, acabaram por não se confirmar. Todas as evidências que revelava, pausadamente, tornaram-se obscuridades ou falsidades. Pausadamente, o ministro das Finanças tem-se conduzido e tem-nos conduzido para o desastre.
Do que hoje pude ouvir da conferência de imprensa dada por Vítor Gaspar, retive o seguinte: os primeiros vinte minutos foram consumidos a informar-nos de que, com a política seguida pelo governo, temos alcançado resultados fantásticos — alguns deles atingidos muito antes do tempo previsto; os segundos vinte minutos foram consumidos a informar-nos de que, em 2013, vamos ter um fantástico aumento de impostos!
O que agora me preocupa, para além do brutal aumento de impostos, é que um homem verdadeiramente inteligente sente-se impedido de fazer dos outros insuficientes mentais...

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Sobreviver a Rodrigues, Alçada e Crato

Sobreviver a Rodrigues, Alçada e Crato é uma tarefa quase impossível. A Educação, nos últimos oito anos, foi, e continua a ser, objecto da conjugação do pior que seria possível conjugar. 
Ainda hoje é um mistério a razão que conduziu Rodrigues à pasta da Educação. Sem experiência política, sem currículo na área, sem perfil pessoal, o que esteve na base do convite que lhe foi dirigido? A razão não é conhecida, mas as consequências do seu exercício no cargo são desgraçadamente bem conhecidas.
Rodrigues conjugou incompetência, aventureirismo e irresponsabilidade. O rancor, de origem oculta, que sentia pelos professores, mais a profunda ignorância sobre a realidade educativa, mais a desequilibrada personalidade, mais o amontoado de pressupostos ideológicos primários que lhe preenchiam a mente resultaram em quatro anos de destruição do que ainda de positivo restava nas nossas escolas. Rodrigues foi quem pior tratou a Educação, desde o 25 de Abril.
Alçada partilhou com Rodrigues a impreparação para as funções e trouxe como novidade o patusco de querer substituir as ideias políticas por sorrisos. Politicamente foi um epifenómeno que infelizmente a nossa história não poderá esquecer, porque ela quis ser a continuidade de um desastre educativo.
Crato, antes de assumir as funções de ministro, vivia do brilho mediático. E como é costume nestas situações, quando as luzes do estrelato se apagam e nos confrontamos com a realidade que a luz do dia nos revela, normalmente não gostamos do que se vê. A impressionante desorientação que actualmente reina no ministério da Educação não surpreende, é o resultado normal de um pensamento educativo composto por meia dúzia de ideias de um senso comum não muito ilustrado.
O mais recente exemplo da anarquia que se vive neste ministério faz com que, neste momento, nas escolas com ensino nocturno haja professores a ter de abandonar as turmas que leccionavam à noite para irem leccionar os horários do ensino diurno pertencentes a professores que se encontram de atestado médico. Isto sucede porque Nuno Crato, apesar de ter dado indicações, por escrito, para serem abertas novas turmas dos cursos EFA, (desde que não fosse necessário contratar recursos humanos exteriores à escola) agora mandou encerrá-las. E de um dia para o outro a barafunda instalou-se nestas escolas. Mais uma vez, Crato revela não saber o que faz, e revela mais uma vez também que não tem respeito algum pelos alunos, que já haviam pago as suas matrículas, e pelos professores que já leccionavam as suas turmas. Mas isto é somente mais um exemplo.
O que na realidade importa é mesmo saber como é que, no nosso país, a Educação vai conseguir sobreviver a Rodrigues, a Alçada e a Crato.

domingo, 30 de setembro de 2012

O Terreiro da indignação

Quinze dia depois, a indignação voltou a sair à rua. 
Desta vez, em Lisboa, foi o Terreiro do Paço que transbordou.






sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Exames nacionais — apontamentos (16)

Já referi nestes apontamentos o estudo realizado pela Universidade do Porto (divulgado há pouco meses) que concluiu: os alunos que obtêm as notas mais altas nos exames nacionais de acesso ao ensino superior não são, depois, os melhores alunos nos cursos superiores que frequentam. Isto é, quase todos os melhores alunos da Universidade do Porto não são aqueles que obtiveram classificações mais elevadas nas provas nacionais. Dito de outro modo, esta conclusão revela que os alunos melhor preparados afinal não eram aqueles que os exames disseram ser os alunos melhor preparados. De outra forma ainda: os exames não avaliam bem, não avaliam com fidelidade. Por esta razão, o reitor da Universidade do Porto, na apresentação das conclusões deste estudo, considerou ser necessário e urgente proceder a uma alteração na forma como se processa o acesso ao ensino superior.
Apesar deste estudo dizer o que diz, e aquilo que diz é de particular relevância, não tenho conhecimento de que lhe esteja a ser dada qualquer atenção por parte do ministério da Educação. Também não tenho conhecimento de qualquer análise realizada por Nuno Crato às suas conclusões. Desconheço igualmente qualquer argumento apresentado pelos fundamentalistas da generalização dos exames nacionais a todas as disciplinas, no final de cada ciclo, que conteste ou contrarie a investigação realizada.
O silêncio e a omissão a que este estudo foi e está a ser votado é passível de ser entendido de um modo pouco abonatório para quem, em nome do rigor, da seriedade e da objectividade defende tão entusiasticamente os exames nacionais. Na realidade, o rigor, a seriedade e a objectividade exigiriam uma especial atenção aos dados que esta investigação apurou. Ao não se dar essa devida atenção, torna-se legítimo pensar que aquilo que verdadeiramente sustenta a cruzada pela proliferação dos exames nacionais são apenas cegas e surdas motivações ideológicas.

O estudo confirma muitas das críticas que são dirigidas a este tipo de provas. Uma delas é: ou aquilo que é objecto de avaliação nas provas de exame não é o relevante, ou o modo como se avalia não tem fidelidade nem credibilidade (na verdade, ainda há uma terceira hipótese: o que se avalia não é relevante e o modo como se avalia não é fiel...). Qualquer uma das hipóteses é má, demasiado má para poder ser ignorada.
O estudo também mostra que, ao contrário do que é insistentemente propagandeado, os exames não premeiam o suposto «mérito» nem os supostos «melhores». Mostra até ser pertinente supor que alguns dos melhores poderão ter ficado pelo caminho, barrados por aqueles que obtiveram melhores notas nos exames, mas que depois, nos cursos superiores que frequentam, se revelam menos capazes.
No fundo, este estudo confirma o que muito de nós, professores, sabemos por experiência própria. Recordo-me de alguns casos de alunos que obtiveram no exame nacional uma classificação superior à classificação que eu lhes havia atribuído na classificação interna, e relembro a cara de alguns que se me dirigiam para me informar dos resultados e aproveitar a circunstância para sugerirem, ainda que de modo simpático, que afinal até mereciam ter tido, da minha parte, uma notazinha melhor... Não esqueço um caso especial, ocorrido há já algum tempo: no final do ano, atribuí a um aluno a classificação final de 11 valores (Filosofia - 12.º ano); no exame nacional, esse aluno obteve, a Filosofia, a classificação de 20 valores. Entrou na faculdade. Dois anos depois, mudou de curso. Ao fim de seis anos, já tinha frequentado três cursos diferentes, sem ter concluído nenhum. Acabou por abandonar o ensino superior sem nenhuma licenciatura.
A crer no resultado do exame nacional, este aluno era um génio. A crer no resultado do exame nacional, não havia dúvidas de que o aluno estava preparadíssimo para ser um excelente aluno no ensino superior. Mas a realidade revelou o contrário. 
Assim também o revela o estudo da Universidade do Porto.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Da falta de competência e de respeito

Chegámos a um ponto perigoso: damos como relativamente normal que o extravagante, o bizarro, o esdrúxulo e o grotesco entrem no nosso quotidiano e se tornem dominantes. No âmbito do excêntrico, o ministério da Educação é um arquétipo.
Um exemplo, entre muitos, muitos outros.
Sem se conhecer o fundamento, o ministério da Educação determinou, através da nova matriz curricular, saída em Junho, uma redução de 25% na carga horária da disciplina de Filosofia, no 10.º e 11º anos do Ensino Recorrente (nocturno), e uma redução de 33% na carga horária da disciplina de Psicologia B, no 12.º ano (diurno). Aconteceu algo de semelhante em várias outras disciplinas.
Apesar de ter operado esta arbitrária e drástica redução nas horas a leccionar, Nuno Crato não teve o cuidado de alterar os programas ou, no mínimo, as orientações de gestão dos programas destas disciplinas, e, assim, as escolas vivem neste momento esta situação impensável: não havendo critério orientador, não existindo coordenação superior, cada escola inventa a adequação que vai fazer dos programas às novas cargas horárias: umas escolas vão cortar aqui e desvalorizar acolá, outras farão provavelmente o inverso, outras seguirão uma terceira via, outras uma quarta e por aí adiante. Isto que, por si mesmo, é do domínio da imbecilidade, mais estultícia revela quando verificamos que algumas destas disciplinas têm exame nacional. No caso concreto dos alunos de Filosofia do Ensino Recorrente, o que está a suceder é inimaginável, mesmo, presumo, no mais recôndito país africano: para além de não existirem quaisquer orientações quanto ao modo de adequar o programa à nova carga horária, ficando os alunos sujeitos à subjectividade de cada escola, estes discentes enfrentam ainda a circunstância de, no final do ano, concorrerem, a nível de exame nacional, com os colegas do ensino regular diurno, apesar de terem menos 25% de aulas nesta disciplina para cumprirem o mesmo programa.
Para além da evidente falta de competência para o cargo, Nuno Crato tem uma inadmissível falta de respeito pelas pessoas.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A desonestidade política como padrão de conduta

Ouve-se dizer com alguma frequência que uma das qualidades de Passos Coelho é a sua honestidade política, a sua franqueza, a sua capacidade de dizer a verdade aos portugueses. Sempre que oiço isto, da boca de políticos e de comentadores, fico perplexo. Se há coisa que eu acho é o oposto: Passos Coelho é um político desonesto. Aliás não vislumbro de onde lhe vem aquela boa fama.
Para não recuar muito no tempo, o primeiro episódio que, na história mais recente do líder do PSD, mostrou os pouco exigentes critérios éticos que utiliza consigo próprio na acção política foi o comportamento que teve com Santana Castilho. Depois de meses de pública sintonia com este professor, de trabalho conjunto com vista à elaboração do programa eleitoral do PSD sobre Educação,  depois de prefaciar, apresentar e tecer rasgados elogios ao livro O Ensino Passado a Limpo e ao seu autor, Passos Coelho verga-se à pressão dos lóbis internos do partido e renegando tudo o que tinha dito e feito, foge e desaparece, sem explicação, dessa relação de trabalho político.
A seguir a isto, e ainda antes de vencer as eleições, veio uma série indeterminada de desonestidades políticas que são conhecidas de todos: a promessa, feita a uma criança, de que nunca tiraria os subsídios de férias e de Natal a ninguém; a promessa de que nunca baixaria os salários a nenhum trabalhador, porque, em caso de necessidade, seria mais justo subir os impostos sobre o consumo; a promessa de que acabaria de imediato com a monstruosidade kafkiana, que era a (pseudo) avaliação do desempenho dos professores, da responsabilidade de Sócrates e Rodrigues; a promessa de que acabaria ou alteraria radicalmente a Iniciativa Novas Oportunidades (baluarte do oportunismo político de Sócrates); a promessa de que nunca subiria os impostos, sem acabar primeiro com as gorduras do Estado; a promessa de que nunca se desculparia com o passado para justificar a sua política, se viesse a ser governo; a promessa de que nunca se desculparia com o desconhecimento sobre o estado em que as finanças se encontrava; etc., etc.
Nenhuma destas promessas foi cumprida. Nem uma. Isto tem um nome: desonestidade política. Passos Coelho venceu as eleições porque assumiu compromissos políticos que a maioria eleitoral dos portugueses sufragou. Passos Coelho não deu cumprimento a esses compromissos. Passos Coelho venceu as eleições com um programa político que jurou cumprir. Não o cumpriu. Isto é desonestidade política. Desonestidade que mina o alicerce fundamental da democracia: a confiança entre eleitor e eleito. Passos Coelho deu um contributo decisivo para destruir esse alicerce.
Também é desonestidade política dizer, umas vezes, que não é a contragosto que cumpre o Memorando de Entendimento, acrescentando que quer mesmo ir mais longe do que aquilo que nele está determinado; e, outras vezes, dizer que não é da sua responsabilidade a política que está a ser seguida, que a responsabilidade é do governo anterior que assinou o Memorando de Entendimento. Esta cínica duplicidade é desonestidade política.
O rol de exemplos é enorme. Desgraçadamente para todos nós, Passos Coelho é politicamente desonesto e faz dessa desonestidade um padrão de conduta.