terça-feira, 25 de maio de 2010

Bonecos de palavra

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A APEDE e a manifestação do dia 29 de Maio

Porque temos sofrido, nos últimos vinte anos de governação, todo um conjunto de opções políticas, no domínio económico-financeiro, que apenas agravaram as insuficiências estruturais de Portugal, criando uma ilusão de desenvolvimento que se vê agora dramaticamente desmentida;

porque essas escolhas desastrosas, de que os Governos foram principais responsáveis, acompanharam o aprofundamento das desigualdades sociais entre os pobres, a classe média e os muito ricos, o aumento exponencial da corrupção e do tráfico de influências, a promiscuidade entre o sistema político-partidário e a esfera dos negócios privados, bem como a reinstauração de monopólios que alimentam os interesses de uns poucos, sem quaisquer vantagens para a economia nacional;

porque o nosso país continua à espera das reformas necessárias no campo da Educação e da Justiça, sem as quais continuaremos na cauda da Europa;

porque os dois principais partidos, que têm partilhado a governação deste país, estão hoje reduzidos a agências de emprego para políticos medíocres e carreiristas, com vergonhosos percursos pessoais, que não os têm, contudo, impedido de ascender a cargos de elevada responsabilidade, nos quais tomam, de forma sempre impune, decisões que hipotecam o futuro de Portugal;

porque são esses políticos, ao serviço de um mundo empresarial dependente de relações promíscuas com o Estado, que agora recorrem à receita invariavelmente seguida, sobrecarregando os trabalhadores com todos os encargos da crise e poupando os que, tendo-a gerado, mais lucraram com ela;

porque nenhuma das gravosas medidas agora impostas irá contribuir para ultrapassarmos, de forma duradoura e sustentada, a crise em que nos mergulharam, prevendo-se, pelo contrário, que a recessão seja acentuada, que o desemprego aumente ainda mais e que o endividamento continue a crescer;

porque toda esta política está desenhada para minar e destruir direitos sociais e laborais conquistados no decurso de décadas de lutas difíceis e duras;

porque é tempo de juntar os trabalhadores de todos os sectores profissionais, públicos e privados, para dizer BASTA;

porque é tempo de unir trabalhadores efectivos e contratados, empregados e desempregados, na certeza de que TODOS se encontram hoje precarizados e de que os direitos de uns são os direitos de TODOS;

porque é tempo de exigirmos uma inversão de políticas que não penalize os que sempre são penalizados e que responsabilize quem tem efectivamente de ser responsabilizado;

a APEDE apela a que TODOS participem na Manifestação do dia 29 de Maio,

sem, contudo, deixar de manifestar o seu profundo descontentamento com a forma como as cúpulas sindicais têm vindo a conduzir o processo de luta dos professores, alienando aquela que deveria ser a sua base de apoio, assinando um acordo com o Ministério que preserva uma série de bloqueios graves na nossa profissão e enredando-se em contradições escandalosas no que toca ao concurso de colocação de professores.

Por isso, vamos estar na Manifestação de 29 de Maio sem abdicarmos da nossa atitude crítica, onde se destaca a exigência de um plano de luta consequente para os professores, com uma auscultação rigorosa às bases e total independência de interesses políticos-partidários.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Registos do fim-de-semana

Medidas ainda mais duras

Escutas contradizem respostas de José Sócrates

Reformas debaixo de fogo
— Com a crise voltou a polémica da acumulação de pensões e das reformas antecipadas. O Estado não vai ter dinheiro para pagá-las e no PS aumentam as críticas —

Núcleo duro de Sócrates desafina
— Teixeira dos Santos, Vieira da Silva e Amado divergem enquanto PS se agita com a crise —

Governo cria imbróglio no IRS

Crise abala equipa de Teixeira dos Santos
— Ministério das Finanças anda agitado. Sérgio Vasques é desautorizado e Emanuel dos Santos meteu 'baixa' —
Sol (21/5/10)

Negócio TVI: PSD insiste no envolvimento de José Sócrates

Taxa adicional será aplicada ao IRS do ano todo

Jerónimo de Sousa: Moção do PCP não é para fazer cair o Governo

Portugal é o país da União Europeia onde a natalidade caiu mais na última década

Um quinto dos doentes com cancro é operado fora de tempo

Parlamento quer avaliação fora dos concursos de professores
Público (21/5/10)

Empréstimos para compra de casa disparam mesmo com spreads recorde

Quantos meses tem um semestre? Sete, se o governo for português

Rui Ramos: «Falta de credibilidade de Sócrates põe em causa bloco central»

Octávio Teixeira: «O mundo só pode ter mudado em três semanas para quem hibernou»
i (21/5/10)

Até 2013, Estado vai endividar-se em mais 44 200 000 000

Semana de caos no Governo. Francisco Assis defende que a partir de agora só Sócrates e Teixeira dos Santos é que devem falar

Alemanha teme Portugal
— Berlim impõe regras. O governo germânico está disposto a defender o euro, mas exige garantias —

Vamos pagar imenso até 2013... e depois ainda mais

Os 100 erros de Sócrates
— A estranha língua que o PM usou para falar em Espanha —
Expresso (22/5/10)

Subida do IRS: Novas taxas já em vigor, diz o Diário da República. É só em Junho, diz o Governo

Ministra [da Educação] desvaloriza recomendação sobre avaliação docente
i (22/5/10)

Finanças geram confusão sobre entrada em vigor de taxas do IRS

Professor punido por chamar "preto" a aluno

PSD salva Sócrates mas deixa ameaça no ar para 2011

Portugueses mais favoráveis do que os espanhóis à ideia de uma união ibérica.
Público (22/5/10)

Concluindo.
No Governo, toda a gente desmente toda a gente, os semestres passaram a ter sete meses e já nem o próprio Diário da República é de leitura confiável. No Parlamento, requerem-se escutas para depois se anular os efeitos da audição das mesmas. Às recomendações aprovadas no Parlamento, há uma ministra que diz que isso não interessa nada. Há um partido que apresenta uma Moção de Censura ao Governo, mas diz que não é para o derrubar. O primeiro-ministro vai a Espanha mostrar como se aprende a falar castelhano nas Novas Oportunidades. O Governo consegue que a Alemanha tenha medo de Portugal. E os espanhóis (que não são tolos) não estão interessados na união ibérica.

domingo, 23 de maio de 2010

Pensamentos de domingo

«Os bons prometem pouco e fazem muito; os maus prometem muito e fazem pouco.»
Textos Judaicos

«Um político é tanto maior quanto mais amiúde se contradiga.»
Friedrich Durrenmatt

«A força dos governos é inversamente proporcional ao peso dos impostos.»
Delphine Gay de Girardin

Orquestra de Jazz de Lagos

sábado, 22 de maio de 2010

Ao sábado: momento quase filosófico


Acerca de Nietzsche
«Nietzsche sentia uma certa estima pelos animais (de facto, os seus livros estão cheios de referências simbólicas aos animais), quase tanto como o desprezo que sentia pela maioria dos homens, em especial pelos seus contemporâneos. Sabemos que, uns dias antes de perder a razão, se abraçou, chorando, ao pescoço de um cavalo de tiro que estava a ser açoitado por um cocheiro impiedoso. Não é portanto de estranhar que, num dos seus aforismos, sentenciasse, contra a teoria de Darwin: "Os macacos são demasiado bons para que o homem possa descender deles."»
Pedro González Calero, A Filosofia com Humor.

A propósito de umas actas há 6 meses desaparecidas

Texto enviado pelo colega Paulo Ambrósio:

Citação de: http://www.fenprof.pt/?aba=27&mid=115&cat=100&doc=4755



(...) Entretanto, as actas mais importantes do processo negocial (30 de Dezembro, 7 de Janeiro, 20 de Janeiro e 10 de Fevereiro) estão já em fase de correcção, sendo divulgadas integralmente pela FENPROF, junto de todos os professores, logo que estejam assinadas. (...)



Haja deus! Apreciei, contudo, o pormenor línguo-estilístico do "estão (!] em fase de correcção". Raios, essa correcção/confecção está mais demorada que a da mão de vaca com grão!
Mas uma coisa é certa: começa a valer a pena a persistência do coro, cada vez mais heterogéneo e ruidoso, do Clube "Onde Páram as Actas?".
Queremos ver as actas. Não por qualquer curiosidade mórbida, mas por elementar direito e justiça democráticos. E não nos calaremos nem baixaremos os braços enquanto elas não "surgirem".
Atendendo aos quase 6 meses que já decorreram (!) desde a assinatura do Acordo, talvez devêssemos logo ter logo feito como aquela mediática aluna do "Quero o meu telemóvel já!". Sim, porque nós todos temos mais direito a utilizar com propriedade o imperativo "JÁ" que aqueles indolentes mestre-cuca, que alegadamente andam a confeccionar (vulgo encanar a perna à estropiada rã), digo, a confeccionar as benditas actas há quase meio ano.
Até porque, pelas referências escritas públicas que as duas partes já fizeram ao processo negocial extra-texto oficial do Acordo de Princípios, é linear e científico que uma delas está a faltar à verdade. E como me ensinaram em pequeno que "mentir é uma coisa muito feia", continuo a pensar (e a agir) deste modo. E a querer tirar toda esta interminável novela mexicana a limpo.
Paulo Ambrósio

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Fragmenti veneris diei

«No século XIX, em meados ou nos finais do século XIX, disse o tipo grisalho, a sociedade costumava coar a morte pelo filtro das palavras. Se uma pessoa ler as crónicas dessa época dir-se-ia que quase não havia delitos ou que um assassínio era capaz de comover todo um país. Não queríamos ter a morte em casa, nos nossos sonhos e fantasias, no entanto, é um facto que se cometiam crimes terríveis, esquartejamentos, violações de todo o tipo e até assassínios em série. Claro que a maioria dos assassinos em série nunca eram capturados, senão repare no caso mais famoso da época. Ninguém soube quem era Jack, o Estripador. Tudo passava pelo filtro das palavras, convenientemente adequado ao nosso medo. O que é que faz um menino quando tem medo? Fecha os olhos. O que é que faz um menino que vai ser violado e depois morto? Fecha os olhos. E também grita, mas primeiro fecha os olhos. As palavras serviam para esse fim. E é curioso, pois todos os arquétipos da loucura e da crueldade humanas não foram inventados pelos homens desta época, mas sim pelos nossos antepassados. Os gregos inventaram, por assim dizer, o mal, viram o mal que todos tínhamos dentro de nós, mas os testemunhos ou as provas desse mal já não nos comovem, parecem-nos fúteis, inintelegíveis. O mesmo se pode dizer da loucura. Foram os gregos que abriram esse leque e no entanto agora esse leque já nada nos diz. Você dirá: tudo muda. Claro, tudo muda, mas os arquétipos do crime não mudam, da mesma maneira que a nossa natureza também não muda. Uma explicação plausível é que a sociedade, naquela época, era pequena. Estou a falar do século XIX, do século XVIII, do XVII. Claro, era pequena. A maior parte dos seres humanos estava no exterior da sociedade. No século XVII, por exemplo, em cada viagem de um barco negreiro morria pelo menos uns vinte por cento da mercadoria, isto é, das pessoas de cor que eram transportadas para ser vendidas, por exemplo, na Virgínia. E isso não comovia ninguém nem saía em grandes títulos no jornal da Virgínia nem ninguém pedia que fosse enforcado o capitão do barco que os tinha transportado. Se, pelo contrário, um fazendeiro sofresse de uma crise de loucura e matasse o seu vizinho e depois voltasse a galopar para a sua casa onde assim que se apeava matava a sua mulher, no total duas mortes, a sociedade virginiana vivia atemorizada pelo menos durante seis meses, e a lenda do assassino a cavalo podia perdurar durante gerações inteiras. Os franceses, por exemplo. Durante a Comuna de 1871 morreram assassinadas milhares de pessoas e ninguém derramou uma lágrima por elas. Por volta dessa mesma data um amolador matou uma mulher e a sua mãe velhinha (não a mãe da mulher, mas sim a sua própria mãe, querido amigo) e depois foi abatido pela polícia. A notícia não só percorreu os jornais de França como também foi comentada noutros jornais da Europa e até apareceu uma nota no Examiner de Nova Iorque. Resposta: os mortos da Comuna não pertenciam à sociedade, as pessoas de cor mortas no barco não pertenciam à sociedade, enquanto que a mulher morta numa capital de província francesa e o assassino a cavalo da Virgínia sim, pertenciam, isto é, o que lhes acontecera a eles era escrevível, era legível. Mesmo assim, as palavras costumavam exercitar-se mais na arte de esconder do que na arte de desvendar. Ou talvez desvendassem alguma coisa. O quê? Confesso-lhe que não sei.»
Roberto Bolaño, 2666, pp. 310-311.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Portugal sem governo

«Portugal foi o último país a entrar na crise e foi o primeiro a sair dela. Portugal está em todos os índices económicos acima da média europeia.»
«Portugal teve de antecipar algumas medidas do PEC.»

«Garantidamente, os impostos não vão subir.»
«Tivemos de aumentar os impostos.»

«As grandes obras públicas vão avançar porque elas são vitais para o País. Seria uma irresponsabilidade não o fazer.»
«Vamos repensar as obras públicas que ainda não foram adjudicadas.»

«O TGV Lisboa-Madrid é uma obra imprescindível, por isso vai ser realizada.»
«Só vamos adjudicar a obra do TGV entre Poceirão e Caia.»

«A terceira travessia do Tejo não vai avançar.»
«A terceira travessia do Tejo avança daqui a 6 meses.»
«A terceira travessia do Tejo não se sabe se vai avançar daqui a 6 meses. Depende.»

«O aumento dos impostos vai durar até final de 2011.»
«O aumento dos impostos vai durar até quando for preciso.»

«Os impostos aumentam a partir do início do 2.º semestre deste ano.»
«O aumento do IRS tem efeito retroactivo a 1 de Janeiro.»
«Os impostos aumentam a partir do dia 1 de Junho.»

Todas estas afirmações foram proferidas, no espaço de um mês, por vários membros do Governo, entre eles: pelo primeiro-ministro, pelo ministro das Finanças, pelo ministro dos Transportes e Obras Públicas, pelo ministro do Assuntos Parlamentares e pelo secretário de Estado das Finanças.
Algumas destas afirmações contrárias foram proferidas no período de 24 horas.
Várias destas afirmações contrárias foram proferidas pela mesma pessoa.
Portugal está à deriva. Portugal está a ser governado por um grupo de aventureiros e de irresponsáveis.

Quando, há vários anos, a irresponsabilidade e o aventureirismo se começaram a manifestar no domínio da Educação, os analistas políticos da nossa praça diziam que se estava a realizar uma fantástica reforma no Ensino, que finalmente os professores iriam entrar nos eixos, que a Escola Pública iria passar a ser um exemplo, e por aí fora..., e muito povo aplaudia e considerava que as críticas e as manifestações dos professores eram reacções corporativas de quem estava a perder privilégios e mordomias.
Quando a irresponsabilidade e o aventureirismo alastraram à Saúde, à Justiça e às Obras Públicas, os analistas políticos da nossa praça continuavam a dizer que se tratava de reformas corajosas e necessárias, e muito povo aplaudia e achava que as críticas e as manifestações de protesto eram reacções corporativas de quem estava a perder privilégios e mordomias.
Agora que a irresponsabilidade e o aventureirismo chegaram à Economia e às Finanças, isto é, agora, que a irresponsabilidade e o aventureirismo atingem toda a gente, eis que as vozes aduladoras deste Governo repentinamente se calaram e eis que já se ouve e vê muito povo a reclamar. O mesmo primeiro-ministro que era apelidado de corajoso, de decidido, de justiceiro, passou a ser o desorientado, o mentiroso, o incompetente.
O problema é que o aventureirismo e a irresponsabilidade que há vários anos governam a Educação em Portugal é o mesmo aventureirismo e a mesma irresponsabilidade que governam a Saúde, a Justiça, as Obras Públicas, a Economia e as Finanças.
Porque Portugal tem sido conduzido por um grupo de políticos irresponsáveis e aventureiros é que chegamos ao ponto a que chegamos.
Na realidade, Portugal está sem governo há já vários anos.

Quinta da Clássica - Jacques Ibert

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Às quartas

A Vida Anterior

Vivi por muito tempo em pórticos faustosos
Pelos marinhos sóis de fogos mil queimados,
Que à noite eram quais grutas de basalto, alteados
Os seus grandes pilares, direitos, majestosos.

As ondas, ao rolar os céus nelas gravados,
Fundiam, em transportes místicos, sumptuosos,
Da música que é sua acordes portentosos
Aos tons do sol-poente em meu olhar espelhados.

Aí foi que eu vivia de volúpias calmas,
Em meio dos azuis, das vagas, de esplendores,
E dos escravos nus e rescendendo odores,

Que a fronte me abanavam agitando palmas
E cujo só cuidado era quem descobria
O segredo angustioso que me enlanguescia.

Charles Baudelaire
(Trad.: Jorge de Sena)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Certificados de aforro

«O que devia ser feito era o congelamento do 13.º e do 14.º mês e o pagamento feito em certificados de aforro», afirmou Mira Amaral ao Diário Económico.
Continua a ser curiosa a facilidade com que se põe e dispõe do dinheiro dos outros, porque, quando se trata do dinheiro do próprio, os critério mudam radicalmente. É conveniente recordar que Mira Amaral foi administrador da CGD, cargo de que se demitiu, em 2004, ao fim de um curtíssimo exercício. Dessa demissão e desse curtíssimo exercício resultou uma pensão mensal de 18 mil euros, paga pelo banco do Estado. Mira Amaral não considerou a situação obscena, nem se lembrou de sugerir receber essa pensão em certificados de aforro, como agora sugere que se faça com o subsídio de férias e o subsídio de Natal dos outros.
A nossa elite política e económica acumula a mediocridade com a falta de pudor.
Mira Amaral é, actualmente, presidente do banco BIC.

Terças da MP - Sérgio Godinho (e Chico Buarque)

Bonecos de palavra

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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Registos do fim-de-semana

Banca Rota
— Banca portuguesa viveu no início desta semana momentos aflitivos sem dinheiro para o crédito —

Costa falta a reunião do PS em protesto contra adiamento da 3.ª ponte

PS exige explicações ao líder

Cortes revoltam Segurança Social

Nova alteração às férias judiciais
— PSD e PCP propõem voltar ao regime antigo, com paragem entre 15 de Julho e 31 de Agosto —

CTT tem novo inquérito no MP

Saúde sem controlo nas despesas hospitalares

Militares irritados com Santos Silva
Sol (14/5/10)

Cortes vão afectar mais os bolsos dos portugueses do que o previsto
Público (14/5/10)

Corte no défice custa três vezes mais às famílias do que às empresas
— Salários vão ajudar mais que os lucros no combate ao défice; Nos bens essenciais a carga fiscal aumenta 20% com subida do IVA —

Jardim acusado de impedir concorrência na imprensa regional

CDS: "Há condenados a receber rendimento mínimo"
i (14/5/10)

Educação e saúde são as mais atingidas pelo congelamento de admissões no Estado

Contradições obrigam Bava a voltar à AR
Público (15/5/10)

Economistas alertam para recessão iminente

Sala de fumo do Parlamento pode custar 380 mil euros

Seguro está disponível para liderar

Um aperto de cinto histórico em Portugal

Detalhe de uma escuta pode comprometer José Sócrates
Expresso (15/5/10)

Como Portugal perdeu trinta anos entre duas graves crises onde os argumentos se repetem

Seguro desafiado a avançar para a liderança do PS já no próximo congresso do partido

Direcção de Passos responde a críticas de João Jardim

Sargentos da GNR não almoçaram dois dias em protesto
Público (16/5/10)

domingo, 16 de maio de 2010

Pensamentos de domingo

«É melhor merecer as honras sem recebê-las do que recebê-las sem merecê-las.»
Mark Twain

«O verdadeiro mérito é como os rios: quanto mais profundo, menos ruído faz.»
George Halifax

«Aqueles que merecem um monumento não precisam dele.»
William Hazlitt

In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações.

Philly Joe Jones

sábado, 15 de maio de 2010

Ao sábado: momento quase filosófico


Acerca de Sören Kierkegaard

«Sören Kierkegaard, que foi considerado o precursor do existencialismo pela sua reivindicação do carácter irredutível da existência individual, interessou-se também pela análise do humor e da ironia. Kierkegaard encontrava no humor uma certa simpatia pela fragilidade, a dor e o absurdo presentes na existência humana. Esse absurdo que nos acompanhará até ao último momento.
No seu Diapsalmata, escreveu: "Aconteceu certa vez num teatro que houve fogo nos bastidores. O palhaço correu a avisar o púbico da ocorrência. Pensaram que se tratava de uma graça e aplaudiram; ele repetiu e eles riram-se ainda mais. De igual modo, penso que o mundo acabará com uma gargalhada geral dos simpáticos espectadores, acreditando que se trata de uma graça."»
Pedro González Calero, A Filosofia com Humor.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Fragmenti veneris diei

«Enquanto passavam esta reportagem na televisão, Fate sonhou com um tipo sobre o qual escrevera uma crónica, a primeira crónica que publicou no Amanhecer Negro, depois de a revista lhe ter rejeitado três trabalhos. O tipo era um preto velho, muito mais velho do que Seaman, que vivia em Brooklyn e era membro do Partido Comunista dos Estados Unidos da América. Quando o conheceu já não havia um único comunista em Brooklyn, mas o tipo continuava a manter a sua célula operacional. Como é que ele se chamava? Antonio Ulises Jones, embora os rapazes do seu bairro o tratassem por Scottsboro Boy. Também lhe chamavam Velho Louco ou Saco de Ossos ou Pelinhas, mas regra geral chamavam-lhe Scottsboro Boy, entre outras razões porque o velho Antonio Jones falava frequentemente dos acontecimentos de Scottsboro, dos julgamentos de Scottsboro, dos negros que estiveram quase a ser linchados em Scottsboro e dos quais, no seu bairro de Brooklyn, ninguém se lembrava.
Quando Fate, por mero acaso, o conheceu, Antonio Jones devia ter uns oitenta anos e vivia num apartamento de duas divisões numa das zonas mais depauperadas de Brooklyn. Na sala havia uma mesa e mais de quinze cadeiras, dessas velhas cadeiras de bar dobráveis, de madeira e pernas longas e encosto curto. Na parede estava pendurada a fotografia de um tipo muito grande, com uns dois metros pelo menos, vestido como um operário da época, no momento de receber um diploma escolar das mãos de um menino que olhava directamente para a câmara e sorria mostrando uma dentadura branquíssima e perfeita. O rosto do operário gigantesco, à sua maneira, também parecia o de um menino.
— Aquele sou eu — disse Antonio Jones a Fate na primeira vez que este foi a sua casa —, e o grandalhão é Robert Martillo Smith, operário de manutenção do município de Brooklyn, especialista em meter-se dentro dos esgotos e lutar com crocodilos de dez metros.
Durante as três conversas que mantiveram, Fate fez-lhe muitas perguntas, algumas destinadas a remexer na consciência do velho. Perguntou-lhe por Estaline e Antonio Jones respondeu-lhe que Estaline era um filho da puta. Perguntou-lhe por Lenine e Antonio Jones respondeu-lhe que Lenine era um filho da puta. Perguntou-lhe por Marx e Antonio Jones respondeu-lhe que era por ali, precisamente, que ele devia ter começado: Marx era um tipo magnífico. A partir daquele momento, Antonio Jones pôs-se a falar de Marx nos melhores termos. Só havia uma coisa de Marx que não lhe agradava: a sua irritabilidade. Atribuía isso à pobreza, pois para Jones a pobreza não só gerava doenças e rancores e também irrritabilidade. A pergunta seguinte de Fate foi a sua opinião acerca da queda do Muro de Berlim e o consequente desmoronamento dos regimes do socialismo real. Era previsível, já vaticinei isso dez anos antes de acontecer, foi a resposta de Antonio Jones. Depois, sem que viesse a propósito, pôs-se a cantar "A Internacional".»
Roberto Bolaño, 2666, pp. 302-303.

13 de Maio

A fronteira entre o sonho e a realidade, ou entre o real e o imaginário, não é sempre fácil de determinar. Por vezes consegue-se fazer a destrinça, outras vezes não se consegue. Todavia, no que diz respeito à nossa vida política, essa fronteira nunca se encontra, ficamos sempre na dúvida se aquilo que estamos a ver e/ou a ouvir é real ou se é sonhado ou se é imaginado. A dúvida ganha maior força quando os acontecimentos ocorrem uns a seguir aos outros, de modo ininterrupto, todos no mesmo dia, todos a 13 de Maio.
Papa em Fátima, Passos Coelho em S. Bento, Papa a rezar em Fátima, Sócrates em Conselho de Ministros, Papa a rezar em Fátima, Sócrates em conferência de imprensa a anunciar que hoje é verdade o que há duas semanas era mentira, Papa a rezar em Fátima, Passos Coelho em conferência de imprensa a pedir desculpa, Papa em Fátima, Teixeira dos Santos na televisão a pedir compreensão, Papa em Fátima, Francisco Assis em conferência de imprensa a não pedir desculpa, Papa a dormir em Fátima.
São muitos acontecimentos no mesmo dia — ainda mais, num dia, já por si, repleto de mistério. Assim, a dúvida acerca da veracidade de todos estes acontecimentos é legítima. Eu, por exemplo, ainda estou na dúvida se Passos Coelho esteve em S. Bento e se depois veio pedir desculpa por ter estado em S. Bento, ou se apenas veio pedir desculpa por Sócrates ter governado mal e por agora ter de aumentar os impostos. É uma dúvida que ainda não esclareci. E, como o outro, radicalizo a dúvida: Passos Coelho terá mesmo pedido desculpa? E Teixeira dos Santos e Francisco Assis não pediram desculpa? Teixeira e Assis tiveram mesmo o topete de não pedir desculpa? Mas não pediram desculpa porquê? Ou foi Passos Coelho que pediu compreensão e Teixeira dos Santos e Assis é que pediram desculpa? E o Papa rezou? Ou foi ele que pediu desculpa e compreensão enquanto os outros rezavam? E Sócrates não devia rezar? Não era ele que devia estar em Fátima? Não era ele que deveria ter ido a Fátima, a pé, ou melhor, de joelhos?
Eu, que sou ateu, começo a ter dúvidas se 13 de Maio não está destinado a ser, em Portugal, um dia de milagres...