domingo, 17 de fevereiro de 2013
sábado, 16 de fevereiro de 2013
A responsabilização das nossas elites
É interessante observar as reacções às crescentes críticas dirigidas às elites do nosso país. Membros da elite política, da elite financeira e da elite empresarial vêm a público revelar incomodidade e receio pelas acusações de que são alvo, no que diz respeito à atribuição de responsabilidades da crise em que vivemos. Consideram essas acusações injustas, injustificadas e oportunistas. Mas, na realidade, essas acusações não são injustas, não são injustificadas nem são oportunistas.
A verdade é que foi a elite política, concretamente as elites políticas do PS, do PSD e do CDS, que ao longo das últimas décadas nos têm governado, quem conduziu e mantém o país na situação de catástrofe económica e social. Sobre isto, não parece razoável levantar dúvidas. Há mais de três décadas que os líderes políticos com responsabilidades governativas foram e são destes três partidos; há mais de três décadas que as elites políticas que ocuparam e ocupam as cadeiras do poder foram e são destes três partidos; e há mais de três décadas que as elites que gravitam em torno dos gabinetes executivos e dos gabinetes legislativos, influenciando as decisões e as opções políticas, pertencem as estes três partidos.
As acusações dirigidas às elites políticas que nos têm governado são, pois, justas, justificadas e legítimas.
A elite financeira portuguesa usufruiu durante alguns anos da fama, e do correspondente proveito, de ser constituída por pessoas competentes e sérias, exemplos de excelência na gestão e de sobriedade social. Hoje verificamos, sem margem para dúvida razoável, que a fama e o proveito não tinham razão de ser.
O véu que cobria a incompetência, a desonestidade e a mediocridade desta elite financeira começou a romper-se com a revelação pública de tudo o que se passou no BCP. Hoje, o seu primeiro presidente do Conselho de Administração, Jardim Gonçalves, o seu sucessor e vários membros do conselho de administração estão impedidos de exercer funções de administração bancária e estão a responder em tribunal a diversas acusações. Por sua vez, a elite que geria o BPN é, no nosso país, pelos menos até agora, o exemplo do que de mais desonesto é possível imaginar na falcatrua financeira. A outra elite que geria o BPP conduziu o banco à ruína e está, neste momento, sob a alçada da Justiça. O presidente do conselho de administração do BES foi apanhado numa tentativa de fuga ao fisco. O presidente do BPI é um exemplo de desequilíbrio psicológico e de arrogância descontrolada.
Transversalmente todos são exemplos de incompetência: todos, aos quais se junta o Banif, tiveram de se recapitalizar, e quase todos com o dinheiro dos contribuintes; todos alimentaram sofregamente o endividamento público e privado, para acabarem hipocritamente a afirmar que os portugueses viveram acima das suas possibilidades.
Transversalmente todos são exemplos de incompetência: todos, aos quais se junta o Banif, tiveram de se recapitalizar, e quase todos com o dinheiro dos contribuintes; todos alimentaram sofregamente o endividamento público e privado, para acabarem hipocritamente a afirmar que os portugueses viveram acima das suas possibilidades.
As acusações dirigidas à elite financeira são, pois, justas, justificadas e legítimas.
A nossa elite empresarial é, numa percentagem muito significativa, ignorante, semi-analfabeta e carroceira. Durante anos, apenas pensou em duas coisas: como enriquecer rapidamente e como esbanjar rapidamente o que ganhou. Sobre isto também não parece haver lugar para dúvida razoável. Só uma percentagem quase ridícula da elite empresarial reinvestiu na modernização das empresas e na criação de condições dignas para os seus profissionais. Quando a crise chegou, estavam descapitalizadas e sem qualquer capacidade de reacção, quer financeira, quer competitiva. Agora declaram falência, despedem trabalhadores, vendem os Ferraris, os Mercedes, os montes e as casas. Todavia, isto significa que ainda têm algo para vender... Os desempregados não — porque grande parte da nossa elite empresarial sempre teve como critério de boa gestão o pagamento de salários miseráveis.
As acusações dirigidas à elite empresarial são, pois, justas, justificadas e legítimas.
Sobre a mediocridade das nossa elites, não parece razoável haver qualquer dúvida. Sobre a necessidade de retirarmos estas elites dos lugares que ocupam, parece já não haver a mínima dúvida.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Poemas
ALEGORIA DO MUNDO NA PASSAGEM DE ARNALDO DE VILLANOVA
Ouro trigo leão e prata e crina
te esperam sob o vaso menstrual
Separarás primeiro a água e a mina
porque a Água não é um mineral
No coágulo te espera areia fina
e sob a areia planta sideral
que ao manto do Rei Verde se combina
porque a Planta não é um vegetal
Ao homem cabe o Ouro de buscá-lo
E a sua cria morta ou imortal
tirá-la-ás do ventre de cavalo
porque o Homem não é um animal
E se o espelho de cobre te fascina
se te aparece o Monstro do Umbral
que a ígnea terra o astro abismo ensina
e nas trevas afunda o Bem e o Mal
Reduz expurga fende e ilumina
e com espada de fogo talha e inclina
porque o Fogo não é o seu sinal
Mário Cesariny
Ouro trigo leão e prata e crina
te esperam sob o vaso menstrual
Separarás primeiro a água e a mina
porque a Água não é um mineral
No coágulo te espera areia fina
e sob a areia planta sideral
que ao manto do Rei Verde se combina
porque a Planta não é um vegetal
Ao homem cabe o Ouro de buscá-lo
E a sua cria morta ou imortal
tirá-la-ás do ventre de cavalo
porque o Homem não é um animal
E se o espelho de cobre te fascina
se te aparece o Monstro do Umbral
que a ígnea terra o astro abismo ensina
e nas trevas afunda o Bem e o Mal
Reduz expurga fende e ilumina
e com espada de fogo talha e inclina
porque o Fogo não é o seu sinal
Mário Cesariny
sábado, 9 de fevereiro de 2013
As horas de trabalho do professor
O horário de trabalho dos professores volta a ser objecto de discussão, e agora com a ameaça de aumento de cinco horas semanais.
Como é recorrente, com os governos que temos tido, essa discussão nunca é feita por bons motivos e nunca é feita de modo sério. Ou seja, não é com o objectivo de melhorar os resultados das aprendizagens dos alunos que se discute o horário dos professores, pelo contrário, esse objectivo, que deveria ser o primeiro de todos, nunca está presente nesse debate. Actualmente, o objectivo é um só: arranjar modo de despedir professores. As consequências desses despedimentos para a qualidade do nosso ensino e para a vida pessoal e profissional dos despedidos são minudências para o actual governo.
Como é recorrente, com os governos que temos tido, essa discussão nunca é feita por bons motivos e nunca é feita de modo sério. Ou seja, não é com o objectivo de melhorar os resultados das aprendizagens dos alunos que se discute o horário dos professores, pelo contrário, esse objectivo, que deveria ser o primeiro de todos, nunca está presente nesse debate. Actualmente, o objectivo é um só: arranjar modo de despedir professores. As consequências desses despedimentos para a qualidade do nosso ensino e para a vida pessoal e profissional dos despedidos são minudências para o actual governo.
Em Setembro de 2008, em resposta a um comentário de um leitor anónimo, que acusava os professores de trabalharem poucas horas, fiz um texto onde rebati essa afirmação mentirosa, utilizando dados que, apesar de tudo, ainda ficavam aquém da realidade. Agora que o assunto dos horários dos docentes volta à ordem do dia, vou actualizar e completar o que então escrevi e procurar apurar qual é o horário real de um professor.
O horário semanal de trabalho de um docente é de 35 horas. Por ignorância ou por desonestidade, há quem afirme que os docentes trabalham menos do que 35 horas semanais. Vejamos quantas horas, de facto, um professor trabalha.
Vou tomar como exemplo o horário de um colega meu, que está a meio da carreira e que lecciona 6 turmas: uma do 7.º ano (2 tempos), uma do 8.º (3 tempos), três do 9.º (3 tempos cada) e uma turma do 11.º (6 tempos). Este docente lecciona, portanto, 4 níveis. Vamos considerar que, em média, cada turma tem 28 alunos (como se sabe, há muitas turmas com 32 alunos).
Passemos às contas.
1. Preparação de aulas. Semanalmente, este professor precisa de preparar aulas para 4 níveis. Vou considerar que, em média, a preparação semanal das aulas, para cada um dos níveis, consome uma hora e meia (para as turmas do ensino secundário consome-se bastante mais, mas adiante). Significa que, por semana, despende 6 horas para esse trabalho. Se o período tiver 13 semanas (como foi o caso do 1.º período do presente ano lectivo) o professor gasta (gastou) um total de 78 horas, nesta tarefa.
2. Elaboração de testes. Imaginemos que este professor realiza, em média, por período, 4 testes (entre testes de diagnóstico, formativos e sumativos) em cada turma. Significa que tem de elaborar 20 testes (suponhamos: 12 testes sumativos, mais 4 testes de diagnóstico e mais 4 testes formativos — considerando que dá o mesmo teste diagnóstico e o mesmo teste formativo às três turmas do 9.º ano...). Vamos imaginar agora que ele gasta, em média, uma hora para conceber e redigir cada teste. Quer dizer que consome, num período lectivo, 20 horas, neste trabalho.
3. Correcção de testes. Este professor tem 168 alunos. Isto implica que ele corrige, num período, 672 testes (entre testes de diagnóstico, formativos e sumativos). Os tempos de correcção destes testes variam muitíssimo (em função do tipo de teste e do nível de ensino), mas vamos supor que ele consome, em média, 15 minutos para corrigir cada prova (o que, em algumas disciplinas, seria um autêntico milagre, mas vamos aceitar que sim, que é este o tempo médio, admitindo que os testes de diagnóstico são bastante mais rápidos de corrigir e os restantes mais demorados, em particular, os sumativos), no total gastará 168 horas, para a correcção de todos os testes, durante um período lectivo (672 testes x 15 minutos = 10080 minutos = 168 horas).
4. Correcção de trabalhos de casa. Consideremos que este professor manda realizar trabalhos para casa, em média, duas vezes por mês, e que demora, em média, 5 minutos, a corrigir cada trabalho. Num período com 13 semanas, corrigirá seis trabalhos de cada aluno. No total, consumirá 84 horas nessa correcção (168 trabalhos x 6 x 5 minutos = 5040 minutos = 84 horas).
5. Correcção de trabalhos individuais e/ou de grupo. Vamos supor que este professor manda realizar, em média, um trabalho de grupo, por período, e que cada grupo é composto por 4 alunos, o professor terá de corrigir 42 trabalhos. Vamos imaginar que demora cerca de 30 minutos a corrigir cada um deles, teremos então um total de 21 horas.
6. Investigação. Consideremos que o professor dedica, em média, 2 horas por semana a investigar. Dá, no período, 26 horas (2h x 13 semanas).
7. Acções de formação contínua. Todos os professores têm a obrigatoriedade de frequentar acções de formação. Isto significa que, no mínimo, cada professor consome, por ano lectivo, 25 horas mais as horas de elaboração do trabalho para essa formação (vou considerar 5 horas para esse efeito). Estas 30 horas distribuídas pelo ano, significam, em média, 10 horas de trabalho, por período lectivo.
Vamos agora somar: 78h+20h+168h+84h+21h+26h+10h = 407 horas.
A estas 407 horas têm de ser somadas as horas lectivas mais as horas de estabelecimento. No caso concreto deste professor, significa 20 horas lectivas mais 5 horas de estabelecimento (sala de estudo, apoio pedagógico, etc.), o que corresponde a 22 horas (de 60 minutos), por semana. No total do período (13 semanas), perfaz 286 horas.
Somando 407+286h, obtemos o total de 693 horas.
No final de cada período, realizam-se conselhos de turma de avaliação. No mínimo, este professor, que temos estado a seguir, consumiu, em reuniões, onze horas e meia (duas horas em cada conselho de turma do ensino básico e uma hora e meia no conselho turma do ensino secundário). Como também esteve na equipa de conferência dos documentos de avaliação, trabalhou ainda mais quatro horas.
Temos pois de adicionar às 693 horas mais 15 horas — o resultado é de 708 horas.
A estas 708 horas têm de ser acrescentadas, no mínimo, 6 horas relativas a conselhos de turma intermédios (realizados entre Outubro e Novembro) e, no mínimo, cerca de 16 horas relativas a conselhos de turma iniciais e/ou extraordinários, a reuniões de directores de turma e/ou reuniões de grupo disciplinar, realizadas no início do ano escolar e durante o período, e a trabalhos de planificação de médio e longo prazo.
Para ficarmos com um número redondo, vou considerar que este professor trabalhou 730 horas no período passado, isto é, de 1 de Setembro a 31 de Dezembro.
Ora este período de tempo corresponde a 17 semanas de trabalho, que é o equivalente a 595 horas (35 horas x 17 semanas).
595 horas é portanto o número de horas que um professor teria de trabalhar desde o dia 1 de Setembro até ao dia 31 de Dezembro, todavia, um professor, em média, trabalha/trabalhou, no mínimo, cerca de 730 horas!!
A diferença é de 135 horas a mais, o que significa quase 4 semanas de trabalho suplementar, num só período lectivo!
A diferença é de 135 horas a mais, o que significa quase 4 semanas de trabalho suplementar, num só período lectivo!
Contudo, nestas contas, que foram trabalhadas com tempos muito reduzidos, não entraram as horas suplementares que um professor trabalha quando realiza um visita de estudo, nem as aulas suplementares que voluntariamente lecciona de preparação dos alunos para exame, nem o apoio que voluntariamente presta a alunos e pais, nem os intervalos que deixa de ter para falar com os alunos, nem actividades extracurriculares que desenvolve, nem...
Evidentemente que estes são resultados médios. Evidentemente que há professores que têm um horário ainda mais sobrecarregado (os que estão no início da carreira) e professores que não têm um horário tão sobrecarregado (os que estão no fim da carreira). Contudo, seja qual for a situação, qualquer professor, para cumprir com competência os seus deveres profissionais, trabalha muitas mais horas do que aquelas a que está obrigado e em função das quais recebe o seu vencimento. Os professores são credores de muitos horas de trabalho ao Estado. O Estado tem uma colossal dívida para com os professores.
Pretender acrescentar mais cinco horas semanais de trabalho ao horário dos docentes é, por parte de quem governa, irresponsabilidade e barbárie.
Evidentemente que estes são resultados médios. Evidentemente que há professores que têm um horário ainda mais sobrecarregado (os que estão no início da carreira) e professores que não têm um horário tão sobrecarregado (os que estão no fim da carreira). Contudo, seja qual for a situação, qualquer professor, para cumprir com competência os seus deveres profissionais, trabalha muitas mais horas do que aquelas a que está obrigado e em função das quais recebe o seu vencimento. Os professores são credores de muitos horas de trabalho ao Estado. O Estado tem uma colossal dívida para com os professores.
Pretender acrescentar mais cinco horas semanais de trabalho ao horário dos docentes é, por parte de quem governa, irresponsabilidade e barbárie.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
«Bullying» e quadros de honra
Há dias tive o prazer de assistir à apresentação do livro Plano Bullying, de Luís Fernandes e Sónia Seixas, Plátano Editora. Foi um prazer porque o livro resulta de um trabalho muito importante realizado nas escolas, junto de agressores e vítimas de bullying, e também porque o psicólogo Luís Fernandes é um meu ex-aluno, e nós, professores, ficamos particularmente satisfeitos quando vemos os nossos ex-alunos desenvolverem trabalho sério e competente.
Das múltiplas informações transmitidas acerca do fenómeno bullying e dos complexos problemas que o envolvem, retenho uma história narrada pelo Luís Fernandes, cujo essencial pode ser assim descrito: na sua função de psicólogo, fazendo ele o acompanhamento de alunos-vítimas e de alunos-agressores, perguntou a um destes como é que procedia para escolher as vítimas: se tinha algum critério, se seguia alguma estratégia, enfim, se delineava algum plano para a selecção dos «candidatos» a mártires. A resposta que o aluno-agressor deu foi: «Não tenho nenhuma estratégia, vou à ementa». Surpreendido, o Luís Fernandes perguntou-lhe: «À ementa?! E o que é a ementa?». O aluno teve então a oportunidade de explicar que a ementa era o quadro de honra da escola: «É uma autêntica ementa, é chegar lá, ver e escolher.»
Ou seja, aquilo que, para alguns políticos, para alguns professores e para alguns pais, é o superlativo modo de premiar o mérito, para alguns alunos-agressores, é o superlativo instrumento ao serviço do bullying.
Os quadros de honra não são fruto de um pensamento pedagógico, são fruto de uma ideologia. Da ideologia que vê e que pretende que todos vejam o mundo como uma natural e permanente corrida, em que diariamente todos competem com todos, mas que, contraditoriamente, também considera que é necessário acenar com prémios, pódios, medalhas e honrarias, para não fazer perigar a existência da dita corrida — e para que, acrescentam, se faça justiça aos corredores. Para esta ideologia, sendo a vida naturalmente uma correria, todos somos corredores: as empresas correm/concorrem/competem entre si, os profissionais, dentro das empresas, correm/concorrem/competem entre si, os cientistas correm/concorrem/competem entre si, os artistas correm/concorrem/competem entre si, as escolas correm/concorrem/competem entre si, os docentes correm/concorrem/competem entre si, os alunos correm/concorrem/ competem entre si, etc., etc.
A partir daqui, alguns políticos e alguns professores ideologicamente convictos de que a vida é isto, consideraram-se no direito de impor aos alunos os quadros de honra.
O que é muito difícil compreender é que, por um lado, se diga que faz parte da natureza humana competir e, em simultâneo, se considere ser necessário premiar para que os seres humanos não deixem de competir... Também é muito difícil compreender que, sendo, do ponto de vista desta ideologia, a vida naturalmente uma corrida, se deva entregar prémios a quem afinal mais não faz do que realizar aquilo que supostamente está na sua natureza.
Não há indicadores de que um excelente aluno necessite do incentivo do quadro de honra para ser um excelente aluno, mas de que os quadros de honra podem funcionar como um incentivo para o bullying disso já temos indicadores.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Nacos
«Mas, ao olhar para o rosto do outro, apercebeu-se de como aquele embusteiro era velho. Oitenta e cinco anos, pelo menos, com manchas de fígado cor de sépia, desde a testa que mais parecia um pergaminho até ao pescoço franzido, um ar de inanidade no maxilar frouxo e um lábio inferior pendente e molhado, ligeiramente trémulo. Claro que os velhos tinham de passar à frente. Tinham menos tempo. Estavam quase mortos. Tinham mais pressa do que ele e impunha-se o perdão, ou mesmo um pedido de desculpa. Mas o velho desvanecera-se, ficara para trás, fora do alcance da vista, numa situação desfavorável. Era tarde de mais para lhe oferecer um lugar favorável na fila.E foi assim que Beard, o implacável flagelo dos fracos, apareceu perante uma funcionária da imigração, um tanto ou quanto humilhado, com um pouco de aversão por si mesmo e, por conseguinte, não tão surpreendido por a sua fotografia ou a sua altura, a sua data de nascimento ou a sua parentela poderem ser uma fonte de suspeita e suscitarem um certo franzir de sobrolho por parte de alguém entendido na matéria. A funcionária passou as folhas do passaporte numa sequência rápida, olhou de relance para Beard, voltou a passá-las para trás e, em seguida, após um momento de reflexão, colocou o documento virado para baixo sobre um scanner. Teria vinte e muitos anos, possivelmente menos do que metade da idade dele. Beard suspeitou que o país de origem dos pais dela devia ser a Etiópia. Se agora ela deslizasse do banco alto, saísse do lugar e se desembaraçasse dos sapatos de salto alto, mesmo assim devia ter quase mais vinte centímetros do que ele.Beard era rotundo, tinha movimentos lentos e estava afogueado — e atrasado. Ela estava harmoniosamente sintonizada com a sua tarefa do momento: guardiã das portas da nação contra os indesejáveis. Observou-a a olhar fixamente para os pormenores a seu respeito no ecrã, enquanto a mão direita, ligeiramente arroxeada na palma, adejava despreocupada sobre o teclado em busca de qualquer outro ângulo sobre ele, de uma perspectiva mais profunda, como Beard de súbito ficou esperançado. Das altas traves internas do átrio da imigração pareceu abater-se um silêncio semelhante a neve espessa, uma frialdade deliciosa, e toda a sensação de pressa o abandonou. Aquela pele de textura fina, absorvente da luz, amante da luz, aquelas maçãs do rosto elevadas (ele via apenas uma) com uma depressão ligeira e uma curva bem delineada, aqueles olhos castanhos a repousarem com gravidade no seu processo, aquela união feliz, ou assim lhe pareceu, de graça e inteligência. Havia milénios, sob frescos dosséis, em qualquer reduto deserto e recôndito, os genes de uma gazela haviam penetrado no património genético humano local. Essa fantasia de miscigenação podia ser uma forma de racismo ou de simples adoração, mas, de qualquer forma, ele não estava com disposição para a eliminar.»Ian McEwan, Solar, Gradiva.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Os bem-sucedidos
Há um conceito particularmente querido por aqueles que defendem o liberalismo económico. Esse conceito é: «os bem-sucedidos».
Com a designação «os bem-sucedidos», os defensores do liberalismo económico querem dizer várias coisas de uma só vez: 1. na vida há os que têm sucesso e os que não têm sucesso; 2. aqueles que têm sucesso têm-no por alguma razão; 3. essa razão é porque o merecem, porque têm mérito; 4. o sistema que garante a premiação do mérito é o liberalismo; 5. é o liberalismo porque é um sistema que fomenta a livre concorrência, e os vencedores da livre concorrência são naturalmente os melhores, são os que têm mérito, isto é, são os «bem-sucedidos».
Com a designação «os bem-sucedidos», os defensores do liberalismo económico querem dizer várias coisas de uma só vez: 1. na vida há os que têm sucesso e os que não têm sucesso; 2. aqueles que têm sucesso têm-no por alguma razão; 3. essa razão é porque o merecem, porque têm mérito; 4. o sistema que garante a premiação do mérito é o liberalismo; 5. é o liberalismo porque é um sistema que fomenta a livre concorrência, e os vencedores da livre concorrência são naturalmente os melhores, são os que têm mérito, isto é, são os «bem-sucedidos».
Desta forma, o liberalismo económico conjugaria e asseguraria o melhor de diferentes mundos: a Liberdade (através do livre jogo da concorrência), o Progresso (gerado pela competitividade) e a Justiça (por premiar quem o merece, isto é, os «bem-sucedidos»).
Um dos problemas do liberalismo económico é o da realidade teimar em não confirmar estas ideias.
De forma breve:
i) No designado jogo da livre concorrência não existe realmente uma verdadeira nem uma justa concorrência. Uma justa concorrência exige que todos os concorrentes concorram em igualdade de circunstâncias. Não é pelo facto de todos estarem na mesma linha de partida que fica assegurada a igualdade de oportunidades e de circunstâncias a todos os concorrentes. Se na linha de partida estiverem uns que correm com as duas pernas, outros com uma perna, outros que correm coxeando, outros que correm em cadeira de rodas e outros de bengala, apesar de partirem ao mesmo tempo e do mesmo local, não parece ser razoável afirmar que estejamos perante uma justa e livre concorrência;
ii) É de muito duvidosa veracidade dizer que o Progresso resulta da competividade. Teríamos de começar por conversar com calma sobre o que se entende por «Progresso» e depois teríamos de examinar bem se, ao longo da História, aquilo que está na base do designado Progresso não é mais a necessidade do que a competitividade, se não é mais a criatividade não condicionada do que a inovação condicionada pela competitividade;
iii) É ainda de mais duvidosa veracidade afirmar que os chamados «bem-sucedidos» são-no como justo prémio do mérito evidenciado. Na verdade, quase sempre que se levanta um pouco do pesado manto que encobre os processos e as práticas dos supostamente «bem-sucedidos», aquilo que normalmente se vê é uma panóplia sem fim de truques e de «malabarices» na sustentação de tão «bons sucessos». O caso do banqueiro que há semanas foi apanhado em flagrante fuga de milhões de euros ao Fisco, e que continua juridicamente impune e socialmente impante, é um exemplo disso. Curiosamente é alguém que sempre foi apresentado como um modelo dos «bem-sucedidos» na sociedade portuguesa.
Na realidade, a defesa do liberalismo económico constitui um excelente branqueamento e uma excelente promoção dos processos que geram grande parte dos designados «bem-sucedidos».
De forma breve:
i) No designado jogo da livre concorrência não existe realmente uma verdadeira nem uma justa concorrência. Uma justa concorrência exige que todos os concorrentes concorram em igualdade de circunstâncias. Não é pelo facto de todos estarem na mesma linha de partida que fica assegurada a igualdade de oportunidades e de circunstâncias a todos os concorrentes. Se na linha de partida estiverem uns que correm com as duas pernas, outros com uma perna, outros que correm coxeando, outros que correm em cadeira de rodas e outros de bengala, apesar de partirem ao mesmo tempo e do mesmo local, não parece ser razoável afirmar que estejamos perante uma justa e livre concorrência;
ii) É de muito duvidosa veracidade dizer que o Progresso resulta da competividade. Teríamos de começar por conversar com calma sobre o que se entende por «Progresso» e depois teríamos de examinar bem se, ao longo da História, aquilo que está na base do designado Progresso não é mais a necessidade do que a competitividade, se não é mais a criatividade não condicionada do que a inovação condicionada pela competitividade;
iii) É ainda de mais duvidosa veracidade afirmar que os chamados «bem-sucedidos» são-no como justo prémio do mérito evidenciado. Na verdade, quase sempre que se levanta um pouco do pesado manto que encobre os processos e as práticas dos supostamente «bem-sucedidos», aquilo que normalmente se vê é uma panóplia sem fim de truques e de «malabarices» na sustentação de tão «bons sucessos». O caso do banqueiro que há semanas foi apanhado em flagrante fuga de milhões de euros ao Fisco, e que continua juridicamente impune e socialmente impante, é um exemplo disso. Curiosamente é alguém que sempre foi apresentado como um modelo dos «bem-sucedidos» na sociedade portuguesa.
Na realidade, a defesa do liberalismo económico constitui um excelente branqueamento e uma excelente promoção dos processos que geram grande parte dos designados «bem-sucedidos».
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Poemas
O NAVIO DE ESPELHOS
O navio de espelhos
não navega cavalga
Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível
Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos
Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele
Os armadores não amam
a sua rota clara
(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)
Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga
O seu porão traz nada
nada leva à partida
Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta
(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)
Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto
A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto
Quando um se revolta
há dez mil insurrectos
(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)
E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo
Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)
Do princípio do mundo
até ao fim do mundo
Mário Cesariny
O navio de espelhos
não navega cavalga
Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível
Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos
Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele
Os armadores não amam
a sua rota clara
(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)
Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga
O seu porão traz nada
nada leva à partida
Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta
(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)
Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto
A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto
Quando um se revolta
há dez mil insurrectos
(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)
E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo
Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)
Do princípio do mundo
até ao fim do mundo
Mário Cesariny
domingo, 27 de janeiro de 2013
Manifestação
![]() |
| Ontem, a manifestação a descer a Avenida da Liberdade. |
![]() |
| A manifestação concentrada no Rossio. |
Há sete anos consecutivos que as condições profissionais dos professores têm vindo a degradar-se: o respeito e a dignidade que a natureza das suas funções deveria exigir começaram a ser grosseiramente atacados por Sóctares e Rodrigues; a brutal degradação das condições e do ambiente de trabalho iniciou-se com Sócrates e Rodrigues e prosseguiu com Coelho e Crato; o corte nos salários, a precariedade e o desemprego docente iniciaram-se com Sócrates e Rodrigues e aprofundaram-se tragicamente com Coelho e Crato.
Os avisos de que a agressão à Escola Pública vai continuar chegam a todo o momento e provêm de diversas fontes. O mais recente desses avisos chegou em forma de número redondo: 50 mil professores devem ser despedidos.
A reacção das políticas sindicais a tanta selvajaria tem sido espantosamente fraca. Mesmo em situações em que se realizaram marchas nacionais suportadas por mais de cem mil professores, a opção dos sindicatos foi repetidamente a de gerir as perdas e de minimizar os danos. Sempre que há grandes embates entre o governo e os docentes, há sempre também um grande fosso entre o discurso sindical, pretensamente agressivo, e a acção sindical, objectivamente comedida.
Agora que se avizinham embates ainda maiores, será certamente altura de mudar de políticas e de direcções sindicais.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
O problema de não haver pudor na política
É impressionante a desfaçatez que o comportamento de alguns dos nossos políticos revela.
A página electrónica do Expresso refere hoje que Silva Pereira, antigo braço direito de Sócrates, afirmou, numa entrevista dada à Rádio Renascença: «Acho que o Partido Socialista precisa de fazer mais para se apresentar como uma alternativa credível e creio que a missão de qualquer partido, sobretudo do maior partido da oposição, é estar preparado para oferecer uma alternativa». A afirmação, em si mesma, não tem nada de particular, o que tem de particular é ela ter sido dita por quem foi e é ela confirmar-nos um certo desgraçado modo de fazer política.
Silva Pereira é um dos principais responsáveis pela situação a que Portugal chegou. Esteve pessoal e directamente envolvido em todas as principais decisões políticas dos dois últimos governos do PS — da educação à saúde, das obras públicas às finanças. Foi co-responsável ou cúmplice empenhado nas políticas mentirosas, irresponsáveis, incompetentes e arrogantes com que fomos governados durante seis anos. Conduziu, com Sócrates, o país à bancarrota. Foi co-responsável pelo pedido de resgate e pela assinatura do memorando com a troika. Desde 1974, o país nunca tinha passado por uma situação tão grave como aquela a que se chegou em Abril de 2011, e ele, Silva Pereira, foi co-autor da catástrofe financeira e económica que estava em pleno desenvolvimento naquela data.
Se, para alguns, a política não fosse somente uma actividade diletante ou, no outro extremo, uma obsessão pessoal que tudo justifica, os factos acima enumerados deveriam sobrar para que um político, que tivesse sido co-responsável pelos mesmos, se sentisse na obrigação de, no mínimo, proceder a um longo período de nojo ou de decidir, em definitivo, retirar-se da política — por decoro e pelo respeito que deveria ter por aqueles a quem tão gravemente prejudicou. Se Silva Pereira fosse um político sério, era isso que deveria ter feito. Mas não fez. Pelo contrário, tem o atrevimento de opinar acerca do que deve ser uma alternativa ao actual governo.
Independentemente da evidente incapacidade política de Seguro, a verdade é que Silva Pereira, Santos Silva, Vieira da Silva e todos os outros socratistas nunca poderão ser alternativa a coisa alguma.
Era isso que faltava, que depois do desastre de Sócrates e da catástrofe de Passos se preparasse o regresso da imensa prole do «exilado» de Paris.
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