quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Nacos
«A velha maman fingia não reparar nas nossa negociações e estava envolvida num debate profundo consigo mesma, colocando um saco numa divisão e indo buscá-lo de novo, a debater-se com a tela enrolada, a fazer tinir e chocalhar aqueles tachos amolgados e escurecidos que tinha trazido do outro lado do mar como se fossem napoleões de ouro. Com acenos de cabeça e cotoveladas, deu-me a entender que a única coisa que eu tinha a fazer era abraçar a filha desfeita em soluços, e o meu coração ficou a transbordar, em parte de raiva, em parte de prosápia, tudo isso a inundar, gorgolejar e esguichar pelas minhas câmaras interiores.— Acho que lhes vou perguntar onde fica o mercado — anunciou essa velhinha adorável, Deus abençoe o seu rosto de avelã e os seus dedos dos pés deformados. Fechou a porta atrás de si. Deu uma volta à chave. Já as mãos da filha me estavam a puxar a roupa e no seu rosto virado para cima se estampavam a doçura de uma pomba e a cólera de um tigre. A boca dela estava inundada de lágrimas. Comi-a, bebi-a, fervi-a, acariciei-a até ela ficar como um peixe encantador a espadanar, com o cabelo encharcado, e nós, com os olhos fixos e as peles a escorregarem uma na outra, a cheirarmos a animais de quinta, a algas e à fábrica de curtumes a montante do rio.»Peter Carey, Parrot e Olivier na América, Gradiva.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Comentário de segunda
Horta Osório tem sido apresentado como um gestor modelo. Dos melhores do mundo. Como o exemplo a seguir. Como a corporização do que a excelência da gestão pode alcançar. Tem sido venerado pelos iniciados, pelos leigos, pelos jornalistas «económicos», pelas revistas cor-de-rosa e pelo «novo-riquismo» político, que vê sempre em cada gestor um protótipo de uma «liderança forte».
Mas, em Outubro último, Horta Osório teve aquilo que, em terminologia usual, se designa por esgotamento nervoso — em terminologia aplicada a gestores, administradores e homens da finança, a designação é um pouco diferente: teve «alguns problemas de saúde relacionados com a exaustão». Se se preferir uma terminologia ainda mais depurada, Horta Osório falhou «num teste de stresse».
Um anónimo cidadão que sofra de um esgotamento nervoso, é enviado para casa com vários medicamentos que, entre outras coisas, o põem a dormir muitas horas durante vários dias. No caso de gestores, administradores e homens da finança, procede-se a um retiro para repouso. Foi o que o nosso gestor fez. O retiro foi realizado numa clínica especializada em «recuperação do sono».
Esta semana, saiu a notícia de que Horta Osório vai regressar, no próximo dia 9 de Janeiro, ao seu posto de CEO do Lloyds Bank, em Londres.
Pondo de lado o folclore em torno da dicotómica e caricata terminologia jornalística, vale a pena observar agora como em torno da auréola da «excelência», da «eficácia» e de «competência» da classe dos gestores se constrói uma mitologia, de origem ideológica, que o escrutínio da realidade desmente.
Na verdade, a recorrentemente elogiada gestão superlativa de Horta Osório, se for submetida a avaliação segundo os parâmetros do bê-á-bá da gestão, sai reprovada:
i) Horta Osório falhou uma regra elementar de um gestor: ser capaz de se gerir a si próprio;
ii) Horta Osório falhou uma outra regra elementar da gestão: as consequências da acção de um gestor não podem induzir incertezas e/ou imprevistos no sistema — ora, a repentina saída de Horta Osório, em Outubro, trouxe imediata desestabilização interna e externa ao banco;
ii) Horta Osório falhou uma outra regra elementar da gestão: as consequências da acção de um gestor não podem induzir incertezas e/ou imprevistos no sistema — ora, a repentina saída de Horta Osório, em Outubro, trouxe imediata desestabilização interna e externa ao banco;
iii) Horta Osório falhou uma terceira regra básica: o trabalho e o lazer têm de ser equilibrados — mas o gestor-modelo tinha o hábito de marcar reuniões de trabalho para os domingos, porque, no seu entendimento, é o dia em que se tem mais «tempo para pensar nas nossas reais dificuldades».
Agora, depois do «incidente», Horta Osório pensa de outra forma: «O meu estilo de gestão vai ter de mudar. Vai tornar-se menos focado na gestão do dia a dia e terá mais a ver com a liderança». A administração do banco confirma: «Horta Osório vai ter de descentralizar tarefas e de dar mais poder à sua equipa de gestão».
Como se pode ver, os erros cometido por Horta Osório são básicos, são erros de palmatória, mas foram cometidos. E foram cometidos por um dos designados gestores de topo, que, apesar de assim ser considerado, não sabia coisas elementares como: liderar não é gerir os pormenores do dia-a-dia; ou os dias de descanso são tão necessários como os dia de trabalho (mesmo pelo estrito critério dos interesses empresariais). Aquilo que qualquer aprendiz de empregado de escritório sabe, Horta Osório não sabia, ou, pior ainda, se sabia, agiu como se não soubesse. A terceira hipótese, alternativa ou cumulativa, é a de Horta Osório ter sucumbido à voracidade mortífera da necessidade de mostrar «resultados».
Naturalmente, este comentário não visa Horta Osório, visa, sim, a mentira que o «novo-riquismo» político difunde e alimenta: a crença de que o presente e o futuro dependem da classe dos gestores. Horta Osório, sendo um gestor da mais elevada reputação, constitui um exemplo particularmente significativo de três coisas: de que a falibilidade da classe dos gestores é idêntica à de qualquer outra classe profissional; de que a gestão, seja ela qual for, tem de ser partilhada por uma equipa, que deve ser multidisciplinar; e, fundamentalmente, de que a voracidade dos «resultados» colide com o bem-estar humano.
domingo, 18 de dezembro de 2011
Pensamentos de domingo
«Alguns homens vêem as coisas como são e dizem "Porquê?". Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo "Porque não?".
Bernard Shaw
«O cérebro é um órgão maravilhoso. Começa a funcionar assim que você se levanta da cama e não pára até que chegue ao escritório.»
Robert Frost
«Pontual é alguém que resolveu esperar muito.»
Millôr Fernandes
In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações, Âncora Editora.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Ao sábado: momento quase filosófico
O problema da oração certa
Um homem pobre entrou numa mesquita e associou-se à oração colectiva, a que acrescentou uma oração particular, a chamada dua. Pediu a Alá que lhe desse alimento, que levasse para a sua casa vazia fruta, carne, legumes, sêmola e, sobretudo, que não se esquecesse de lhe levar um agarrafa de raki, bebida de que muito gostava.O homem que estava à sua frente ouviu esta oração, voltou-se e disse-lhe:— Em vez de pedires raki a Alá, não farias melhor em pedir-lhe que fortificasse a tua fé para te salvares no dia do juízo final?— Mas não — respondeu o homem. — Pedi a Alá o que me faz falta na vida. E o que me falta não é fé, é comida e raki.In Jean-Claude Carrière, Tertúlia de Mentirosos, Teorema (adaptado).
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Apontamentos sobre um desastroso modelo de gestão -8
Ainda sobre o órgão director.
O director é um órgão unipessoal. Na escola, este órgão unipessoal tem a competência de administrar e de gerir as áreas pedagógica, cultural, administrativa, financeira e patrimonial (Art.º 18.º). Deliberadamente, quis-se sinalizar que o poder era individual, que pertencia a uma só pessoa. Quis-se sinalizar que quem trabalha com o director é somente um auxiliar seu. É essa a sua função: ajudar — técnica e juridicamente a designação consagrada é a de coadjuvante (aquele que ajuda). O director e os seus ajudantes, em conjunto, não constituem qualquer órgão. Na legislação não existe o órgão direcção. Existe apenas o órgão director.
A noção de equipa, a noção de projecto de equipa (projecto como fruto do trabalho de uma equipa, que se constitui e motiva para realizar algo que criou e em que acredita), a noção de vontade colectiva (vontades que se unem e mobilizam para concretizar objectivos partilhados) constituem elementos de um paradigma conceptual estranho ao vocabulário e ao pensamento «novo-rico» dominante (de que de Sócrates e Rodrigues foram porta-vozes, durante os últimos anos).
A ideia de equipa foi substituída pela ideia de indivíduo, a ideia de projecto comum pela ideia de projecto individual, a ideia de vontade colectiva pela ideia de desígnio individual. Pode-se ver como a categoria da personagem providencial ainda mantém, nos nossos dias, um razoável poder de sedução, e como vai sendo adaptada às diferentes escalas da realidade. À escala de uma escola, a figura do director é o resquício ou o descendente menor dessa categoria.
Todavia, é curioso observar que, e de forma paradoxal, os subscritores destas ideias são também os mesmos que a qualquer momento ornamentam o discurso com referências à necessidade de os jovens saberem laborar em equipa e com a necessidade de as escolas os deverem treinar nesse sentido, porque, segundo eles, o presente e futuro assim o exigem. São também os mesmos que teorizam com evidente facilidade sobre as realidades interdependentes e as funções de complementaridade, sobre as organizações sistémicas, sobre a horizontalidade e a transversalidade funcionais, sobre os open spaces, sobre o tratamento por tu, sobre o conceito de colaborador, etc. Mas, chegados ao domínio que diz respeito à posse do poder, este pensamento, aparentemente democrático, aparentemente inter em tudo, torna-se repentinamente hierárquico, fechado, restritivo, impositivo.
É pois este amontoado de ideias contraditórias, em que tudo se mistura sem nexo, sem ligação, que produz inevitavelmente dislates atrás de dislates. Quer a nível da conceptualização quer, depois, a nível da operacionalização.
Vejamos um exemplo, a nível da operacionalização, de como as confusões conceptuais têm consequências excêntricas.
Os candidatos ao cargo de director, quando apresentam as suas candidaturas individuais, têm de elaborar, para além do curriculum vitae, um projecto de intervenção na escola. Neste projecto de intervenção, os candidatos a directores têm de identificar os problemas da escola, de definir objectivos, de apresentar estratégias e de estabelecer a programação das actividades que se propõem realizar durante o tempo do seu mandato (4 anos). Trata-se de um projecto individual de cada candidato, que, após a escolha do conselho geral, se transforma em programa de governação. Por isso, o candidato eleito fica, obviamente, vinculado ao projecto que apresentou.
Após a tomada de posse do director e depois de constituído o conselho pedagógico, este órgão deve elaborar o projecto educativo da escola. Pela sua natureza, o projecto educativo é um documento que deve resultar de uma ampla participação de toda a comunidade educativa. Professores, funcionários, alunos e pais (e, em alguns níveis de ensino, as próprias autarquias) devem envolver-se na elaboração do projecto educativo. Deste movimento de debate e de reflexão deve resultar o documento que vai definir, para um determinado período, as metas fundamentais que a escola assume como suas e nas quais se vai empenhar. O projecto educativo é, legal e substantivamente, o documento mais importante de uma escola e é o documento que consagra uma vontade colectiva.
Ora, chegados aqui, levantam-se alguns problemas acerca da natureza, relação e poder legal dos dois projectos acima referidos: o projecto do director, apresentado aquando da sua candidatura e ao qual ele está vinculado, e o projecto educativo.
Quanto à natureza: um tem uma natureza individual, o outro tem uma natureza colectiva. O projecto do director é o projecto do órgão unipessoal director (nem sequer é o projecto de uma equipa directiva), o projecto educativo é o projecto da comunidade educativa.
Quanto à relação: entre o projecto do director e o projecto educativo pode não haver sintonia. Podem ser projectos consonantes, mas também podem ser dissonantes, podem ser complementares como podem ser conflituantes. Argumentar-se-á, como já ouvi algures: o director é quem preside ao conselho pedagógico e, desse modo, não permitirá que o conselho pedagógico elabore uma proposta contraditória com o seu projecto pessoal. Mas este argumento não resolve o problema, complica-o ainda mais:
i) o conselho pedagógico (ainda) é um órgão colegial. Se a vontade do director se impõe apenas porque é director e anula a vontade do conselho pedagógico, este órgão deixa de ter uma natureza colegial, perdendo autoridade e dignidade;
ii) por outro lado, o projecto do director foi sufragado por um núcleo muito restrito de pessoas (no máximo, vinte e uma, algumas delas total ou parcialmente alheias ao que é uma escola), o projecto educativo pode ser o resultado da participação de dezenas ou de centenas de pessoas.
Quanto ao poder legal dos documentos: o projecto educativo está consagrado na lei como o documento que define a política educativa interna de cada estabelecimento de ensino, ao qual muitas dimensões da vida escolar estão vinculadas (como é o caso, por exemplo, da própria avaliação do desempenho docente); o projecto do director não tem, especificado na lei, nenhum poder formal.
Neste imbróglio acrescem ainda dois elementos:
— a composição do conselho conselho geral que acompanha a acção do director e que aprova o projecto educativo pode não ter nenhum membro em comum com a composição do conselho geral que escolheu o director;
— o projecto educativo saído da vontade colectiva da comunidade pode até ser mais consonante com um projecto apresentado por algum dos outros candidatos derrotados ao cargo de director.
É legislação desta, feita em cima do joelho e com uma impressionante confusão de ideias, que gere a vida das nossas escolas.
Continua na próxima semana
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Trechos - Hervé Juvin
«Nós somos os primeiros homens por toda a parte confrontados com a pequenez do mundo, com o esgotamento da natureza. É a inversão inesperada do totalitarismo do crescimento. [...]Mundo de retorno ao físico e ao real. Os automóveis têm carroçarias de metal, os plásticos são fabricados a partir do petróleo e as casas como os imóveis precisam de pedra, de areia, de madeira e de vidro. E o fogo mata. O regresso dos bens reais está escrito. A questão não é das conexões da Internet e do alto débito, do mundo virtual e dos avatares, é a da água, do arroz, da floresta, do ar. A escassez era o facto económico que a super abundância fez esquecer, ao gerar distribuições aberrantes de lucros e de património. A questão de acesso aos bens vitais vai dominar o mundo que está por vir, com a perspectiva razoável dos bens reais racionados e de uma explosão do preço da vida [...] A penúria alimentar é um dado provável nos próximos dez anos.»Hervé JuvinGilles Lipovetsky, Hervé Juvin, O Ocidente Mundializado, Edições 70.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Às quartas
ABANDONO
No sofá debotado o romance inacabado
Álvaro José Ferreira Gomes
No sofá debotado o romance inacabado
A rima imperfeita de um coração falido
No sofá
Tudo absolutamente tudo furiosamente inquieto
Folhas dispersas à espera do acaso
Parei-te romance para compor a história dum mundo
Não ouso a história do mundo ou dos mundos
Não sou poeta escritor pintor não sou
Essa história parou-me nas veias
Esgotou minhas artérias
Inundou-me de veneno
Talvez cicuta
Trouxe o Gólgota como a aurora desejada
Vi a História no olhar da criança moribunda
Uma lágrima a última lágrima caía
Uma mãe desconhecida agarrava o travesseiro
Aqui no Iraque
Aqui em nósÁlvaro José Ferreira Gomes
Uma revisão inédita (1)
O ministro da Educação apresentou a sua proposta-base de Revisão da Estrutura Curricular do Ensino Básico e Secundário. Nessa proposta, é explicado que se trata apenas da primeira etapa de uma reforma mais profunda. Depois desta, outras duas se seguirão: definição das metas de aprendizagem disciplinares e, posteriormente, reformulação dos programas.
Algumas notas:
1. Não compreendo a racionalidade desta sequência. Não compreendo como se inicia uma reformulação curricular às avessas. Não compreendo como é possível proceder-se, de forma séria e fundamentada, a alterações da estrutura curricular e da carga horária sem primeiramente terem sido definidas as metas de aprendizagem disciplinares e sem terem sido delineados os novos programas. Que critérios científicos e pedagógicos estiveram na base destas alterações, se ainda não se sabe quais irão ser as novas metas de aprendizagem disciplinares e os novos programas? Não vislumbro como é possível apurar o número de horas semanais que uma dada disciplina necessita, para que o seu programa possa ser cumprido e as metas de aprendizagem alcançadas, se nem uma coisa nem outra estão definidas. A não ser que se pense, depois de se efectuar a definição das novas metas e dos novos programas, voltar a alterar tudo o que agora é proposto.
Se assim não for, não nos resta senão concluir que o critério mor desta revisão é o de fazer depender a definição das metas e o conteúdo dos programas do número de horas estipulado. Contudo, se assim é, conviria que existisse um mínimo de seriedade na apresentação da proposta: dever-se-ia assumir, com clareza, que o critério é, afinal, contabilístico e não pedagógico; dever-se-ia assumir que aquilo que está a ser pensado não é a qualidade da educação das gerações futuras, mas somente a quantidade de horas a leccionar; dever-se-ia assumir que é de contabibidade que se está a falar e não de educação.
2. Não é, pois, possível realizar, de forma séria, uma discussão pública de uma proposta, se aquilo que deveria sustentar essa proposta ainda não é conhecido. Uma discussão pública não se faz a partir de meia dúzia de ideias avulsas genericamente alinhavadas, como acontece no documento agora proposto para debate.
Afirma-se, a dado passo do documento, que se trata de concretizar «medidas que ajustam os currículos às necessidades de um ensino moderno e exigente», todavia, não se esclarece minimamente o que se entende por «ensino moderno e exigente». Os termos «moderno» e «exigente» servem genericamente para tudo, e são utilizados, consoante as correntes pedagógicas e/ou os interesses políticos, com sentidos divergentes. Na realidade, estamos a falar de quê? E de que modo a alegada «modernidade e exigência» se reflecte na proposta de distribuição das horas curriculares? Qual é a relação de causa-efeito?
Afirma-se, a dado passo do documento, que se trata de concretizar «medidas que ajustam os currículos às necessidades de um ensino moderno e exigente», todavia, não se esclarece minimamente o que se entende por «ensino moderno e exigente». Os termos «moderno» e «exigente» servem genericamente para tudo, e são utilizados, consoante as correntes pedagógicas e/ou os interesses políticos, com sentidos divergentes. Na realidade, estamos a falar de quê? E de que modo a alegada «modernidade e exigência» se reflecte na proposta de distribuição das horas curriculares? Qual é a relação de causa-efeito?
Diz-se que «os pressupostos que orientam as medidas propostas assentam na definição de objectivos claros, rigorosos, mensuráveis e avaliáveis, reorientando o ensino para os conteúdos disciplinares centrais». Quais são os pressupostos? Onde estão definidos os «objectivos claros, rigorosos, mensuráveis e avaliáveis» em que assentam as medidas propostas? Não se pode discutir, concordar ou discordar de algo que se ignora.
Anuncia-se a «substituição da disciplina de Educação Visual e Tecnológica pelas disciplinas de Educação Visual e de Educação Tecnológica, no 2.º ciclo, cada uma com programa próprio e cada uma com um só professor». É explicado o fundamento pedagógico desta substituição? Não. Ficamos sem saber das boas ou más razões porque se procede a esta substituição. Como se discute algo de que se ignora o fundamento? Como se concorda ou discorda?
Procede-se à «antecipação da aprendizagem das tecnologias de informação e comunicação». Porquê? Esta antecipação é aconselhável porquê? São apresentados os fundamentos desta opção? Não são. Como se discute então algo de que se ignora o fundamento? Como se concorda ou discorda?
Anuncia-se... procede-se... altera-se... mas sempre sem fundamentação minimamente rigorosa. Acrescentam-se e retiram-se horas sem se conhecer as novas metas e os novos programas. O critério é o palpite?
Nestas condições, como é que se faz um debate sério e profícuo?
Nestas condições, como é que se faz um debate sério e profícuo?
Continua na próxima semana.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Nacos
«Mais tarde, nessa noite, fui acordado no meu beliche e não tive alternativa senão fazer de público para a conversa de Mr. Peek com Lorde Enxaqueca no camarote do comandante, o que era o mesmo que passar-se dentro da minha cabeça.PEEK: Mas, senhor, é costume no seu país permitirem que um criado fique a par dos vossos assuntos privados?ENXAQUECA: Sim, depende do criado e dos assuntos. De uma forma geral, uma pessoa não deve ter vergonha da sua conduta. Qual a qualidade dos criados na América? Em comparação com os franceses?Era de mim que falavam, uma coisa involuntária, soprada como uma semente ou uma pena dos palácios de Paris para as regiões selváticas da Terra.PEEK: Oh, em geral muito fraca, diria, mas, pela parte que me toca, hesitaria em partilhar os meus sentimentos mais profundos com um dependente de qualquer tipo.ENXAQUECA: Para nós isso não é diferente de sermos vestidos por um deles.PEEK: Vestidos, senhor?ENXAQUECA: Não é um costume vosso?PEEK: Ficar nu? Senhor, eu nem me apresentaria nu à minha mulher.ENXAQUECA: Com um criado não lhe chamamos estar nu.PEEK: Então como lhe chamam?ENXAQUECA: Chamamos-lhe vestirmo-nos.»Peter Carey, Parrot e Olivier na América, Gradiva.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Comentário de segunda
1. No domingo à noite, tive o privilégio de assistir à entrevista(?) dada pelo escritor Gonçalo M. Tavares a Rebelo de Sousa, na TVI. Infelizmente foram poucos minutos, mas foram saborosos minutos. Entre outras observações, Tavares falou sobre o poder mágico da palavra e sobre o actual domínio da quantidade sobre a qualidade. E fê-lo de forma magnífica. Fiquei impressionado.
2. Na sexta-feira, ouvi as conclusões da Cimeira dos chefes de Estado e de Governo da União Europeia. Também fiquei impressionado. Desta vez, com a mediocridade. Com a mediocridade de Merckel, de Sarkozy. Com a mediocridade de todos os outros chefes de Governo que não sabem ter voz própria e, menos ainda, pensamento próprio. Com a mediocridade de Cameron que tem voz própria, mas é a voz da insularidade política, a voz de quem não está nem nunca esteve interessado em uniões, menos ainda se forem europeias. A Europa caminha mesmo para o desastre. E com ela vamos todos.
3. No sábado, reparei na página 3 do Expresso. Numa altura em que a Europa está à beira do desmembramento e, potencialmente, à beira do regresso à barbárie; numa altura em que o país está desnorteado e o mundo também não anda lá muito bom; aquele jornal achou por bem colocar na sua página interior mais importante, com letras garrafais e ocupando mais de metade do espaço, a notícia de que Passos Coelho se tinha esquecido do iPad no avião, quando se deslocou a Angola.
Voltei a ficar impressionado, desta feita, com os sempre misteriosos mas alegadamente sempre muito rigorosos «critérios jornalísticos».
domingo, 11 de dezembro de 2011
Pensamentos de domingo
«Fomos os últimos a entrar em crise e fomos os primeiros a sair dela.»
José Sócrates (Janeiro de 2010)
José Sócrates (Janeiro de 2010)
«Se formos Governo, posso garantir que não será necessário despedir pessoas nem cortar mais salários para sanear o sistema português.»
Passos Coelho (Maio de 2011)
Passos Coelho (Maio de 2011)
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