sábado, 10 de dezembro de 2011

Ao sábado: momento quase filosófico

Os limites do tempo são ultrapassáveis

Uma história judia conta que um homem de certa idade, que se sentia muito cansado, marcou consulta num médico de renome.
O médico mediu-lhe a tensão, examinou-lhe o fundo dos olhos, os pulmões, a garganta. Mandou-o fazer um electrocardiograma, um encefalograma, diferentes testes e análises. Quando foram conhecidos os resultados das análises, o médico chamou o paciente, verificou certos pormenores, escreveu durante um bom quarto de hora e finalmente disse o seguinte:
— Escrevi tudo aqui. A partir de hoje, o senhor vai deixar de fumar e não bebe nem mais uma gota de álcool, sob pretexto nenhum. Vai suprimir o açúcar e todas as gorduras, até o óleo de girassol. Vai eliminar igualmente as batatas, o feijão e todas as féculas em geral. Abster-se-á de fazer amor. Tem aqui o que pode comer: saladas e peras cozidas, sem tempero, nabos cozidos em vapor, maçãs assadas, naturalmente sem açúcar, e duas vezes por semana cem gramas de carne grelhada. Uma vez por semana tem direito a um iogurte natural e um pouco de peixe cozido, sem azeite nem manteiga. Se não seguir as minhas instruções, restam-lhe três meses.
— E se as seguir posso ter esperança de viver mais tempo?
— Por certo que não — disse o médico. — Mas o tempo parecer-lhe-á mais longo.
In Jean-Claude Carrière, Tertúlia de Mentirosos, Teorema

Uma fita assim-assim: «Um Método Perigoso», de David Cronenberg

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Apontamentos sobre um desastroso modelo de gestão -7

Algumas notas mais sobre o órgão unipessoal designado de director.
Conceber o director como mandante e não como líder democraticamente reconhecido é, como vimos na semana passada, um dos principais traços característicos do actual modelo de gestão. Directamente derivada desta concepção, surgiu a ideia de atribuir ao director a competência de designar os coordenadores dos departamentos curriculares.
Nos anteriores modelos de gestão das escolas, os grupos disciplinares elegiam, de entre os seus membros, quem devia assumir as funções de coordenação pedagógica/científica e, simultaneamente, de representação institucional, no conselho pedagógico. Isto é, eram os profissionais de cada domínio curricular que determinavam quem, de entre eles, reunia as melhores condições para o exercício da coordenação e da representação.
O actual modelo de gestão deixou de atribuir esta competência aos professores e passou a atribuí-la ao director. Esta mudança é particularmente significativa e merece, na minha opinião, alguma atenção.

O anterior método de escolha do coordenador/delegado/representante curricular era um método que partia de um pressuposto: os mais capacitados para avaliar quem, em certo momento, possui as melhores condições para o exercício de determinado cargo são aqueles que, trabalhando juntos diariamente, melhor conhecem as qualidades humanas e profissionais dos membros que formam essa equipa de trabalho. Se aquilo que verdadeiramente se pretende é escolher quem, num determinado núcleo, pode cumprir melhor as funções de coordenação, não parece oferecer dúvidas de que a competência dessa escolha não deve recair sobre quem é exterior a esse núcleo.
Adicionalmente, a eleição interpares tem duas importantes virtudes: responsabiliza quem elege e possibilita que a autoridade do escolhido seja reconhecida pelos colegas, através do voto.
Ora, nada disto acontece quando a eleição é substituída por uma nomeação:
i) como acima referi, o director, porque é exterior aos núcleos curriculares, não é quem está nas melhores condições para, através de critérios profissionais sérios, saber quem deve assumir as funções de coordenação;
ii) a nomeação desvincula de qualquer responsabilidade os restantes professores do núcleo curricular;
iii) a autoridade do nomeado só por acaso será reconhecida pelos pares;
iv) os professores ficam sem um porta-voz, sem um representante, porque o nomeado pelo director passa a ser o representante, o porta-voz do director; isto é, o nomeado passa a representar precisamente aquele que, pela natureza do cargo que exerce, não necessita de se fazer representar. Inversamente, os professores sempre tiveram a necessidade de ser representados por alguém que levasse a conselho pedagógico problemas específicos de cada área curricular. Esta prerrogativa, que possibilitava análises e debates fecundos nas reuniões dos conselhos pedagógicos, na prática, findou, quer pela circunstância de terem acabado os representantes disciplinares, naquele órgão, quer pela esdrúxula concentração de cerca de dezena e meia de grupos disciplinares em quatro gigantescos departamentos (assunto sobre o qual darei a minha opinião quando abordar o órgão conselho pedagógico).
Todos estes aspectos configuram, no meu entendimento, erros grosseiros, seja qual for o modelo de gestão escolar em causa. Mas estes e outros erros, alguns dos quais já fiz referência em textos anteriores, têm a mesma origem: o fascínio provinciano pelo dominante modelo de gestão empresarial e a crença ingénua de que aquilo que alegadamente é bom nas empresas também o é nas escolas. Teimosamente, ignora-se que empresas e escolas perseguem fins diferentes e têm funções de natureza muito diversa e, em alguns casos, muito divergente. Teimosamente, persiste-se em prescindir de avaliar, com seriedade, o que a experiência de muitos anos revelou, em termos de gestão escolar, para irresponsavelmente se impor o que arcaísmos ideológicos reprimidos sempre desejaram.

Continua na próxima semana.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Quinta da Música - Peter Tchaikovsky

Trechos - Hervé Juvin

«O número substitui o saber, o número mata o gosto e a aristocracia do julgamento. O exemplo é dado em Google-moi, de Barbara Cassin: a lógica invocada sob os gloriosos auspícios de "cultura e democracia" é uma lógica puramente quantitativa em que o número de cliques dita a qualidade, tanto da amizade como das obras. É a lei da Internet, os motores de busca como enciclopédias; o número dita a verdade, a quantidade assegura o belo, o bom e o verdadeiro. Não estamos longe do realismo socialista soviético: as massas nunca estão erradas, o artista só faz o que é belo e bom quando educa as massas. Chegaremos brevemente ao ponto em que, nos museus, se afixará o preço estimado do quadro para se situar o valor. De resto, nas grandes fundações americanas, publica-se o valor de compra do quadro. Homenagem aos doadores! A arte vale o seu preço. É um primeiro passo, que será seguido. Nas universidades americanas, os grandes e antigos exemplos são-no segundo a sua contribuição financeira. Aquele que paga tem sempre razão. Chegaremos brevemente ao ponto em que, nas universidades, se dirá quanto ganha um professor para saber se vale a pena ouvi-lo ou se se pode satisfazer ao ler a fotocópia. À força de saber bem fazer, mas não fazer bem, é necessário o quantitativo para apreciar o qualitativo. À organista que toca A Arte da Fuga, pergunta-se: "quantos tubos?", como Estaline perguntou ao papa: "quantas divisões?".»
Hervé Juvin
Gilles Lipovetsky, Hervé Juvin, O Ocidente Mundializado, Edições 70.

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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Às quartas

UMA LIÇÃO DE SILÊNCIO

Quando uma borboleta
Batia suas asas
Forte de mais, gritavam-lhe:
Silêncio, por favor!

Se um pássaro assustado
roçava a pluma num
raio de sol, gritavam-lhe:
Silêncio, por favor!

Assim os elefantes
aprenderam a andar
sem som sobre o tambor —
os homens, sobre a terra.

As árvores nos campos
Se erguiam silenciosas
Como os cabelos quando
Se eriçam de terror.

Tymoteusz Karpowicz
(Trad.: Nelson Ascher)

Sob revisão

Li hoje que Sócrates falou numa conferência em Paris (no pólo da Universidade de Poitiers). Há umas semanas,  Teixeira dos Santos já tinha falado numa conferência na Faculdade de Economia do Porto. Ambos falaram de Economia, de Finanças, do que se deve e não deve fazer nestes domínios e que caminho o país deve seguir.
Sou ateu. Não acredito no divino, e, naturalmente, menos acredito em intervenções divinas na vida terrena. Mesmo que fosse teísta teria como excluída a possibilidade desse género de intervenções. Dito isto, sinto a obrigação de acrescentar que, por vezes, ocorrem situações que abalam não só a minha descrença no sobrenatural como também a descrença na possibilidade dele intervir nos nossos mais prosaicos assuntos. A realização destas duas conferências, com os dois citados protagonistas, inscreve-se nesse tipo de ocorrências.
Na realidade, aquelas conferências são acontecimentos de difícil explicação. Mais precisamente: são acontecimentos de dificílima explicação. Não me refiro à circunstância de os dois protagonistas em causa se disponibilizarem para discursar sobre Economia e Finanças, depois de tudo o que fizeram ao país e aos portugueses — há muito que os seus comportamentos já perderam a capacidade de me espantar; refiro-me, e isso é que suscita a possibilidade de eu admitir a intervenção de algo aproximado do género sobrenatural, à circunstância de haver quem os convide para conferenciar e de haver quem se disponha a ouvi-los. A credibilidade que Sócrates e Teixeira dos Santos possuem para conferenciar sobre Economia e Finanças é mais ou menos idêntica à credibilidade que um pai tirano possui para conferenciar sobre tolerância familiar. Não vejo, pois, modo razoável de explicar o fenómeno de haver quem se desloque para os ouvir discursar, se não me socorrer da hipótese de acção do sobrenatural.
Neste momento, coloquei o meu ateísmo sob revisão.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Bonecos de palavra

Quino, Bem, Obrigado. E Você?, Dom Quixote.

Nacos

«Ela cheirava a jasmim, muito ligeiramente. Disse-lho. Estendeu a mão e tocou-me no cabelo, afastando-me um pouco para o lado o caracol da testa, e depois, sempre franzindo o sobrolho, mergulhou a ponta do pincel nos diferentes pigmentos, não apenas num e noutro como seria de esperar, mas movendo-se de um para o seguinte, leve como uma abelha a recolher pólen apoiada nas patas traseiras e descrevendo círculos rápidos. Parecia não conseguir decidir de que cor precisava, mas era uma sensualista moderna que tinha de provar um golinho de cada.
Só posso suspeitar do que aconteceu — as três ou quatro pinceladas rápidas criando uma velatura de azul a fim de permitir que a aragem brincasse em redor do meu cabelo, o fulgor quente e acetinado da minha face, a sombra profunda sob os meus olhos a transbordar, para a qual ela misturou vermelho-acastanhado com ocre-queimado. Juro que senti o verdadeiro pincel passar sob as minhas pálpebras.
Não irei perder tempo com o que aconteceu na tela. O que aconteceu com os meus outros sentidos embriagou-me. Enquanto as horas passavam deliciosamente, as gotas de suor acumulavam-se na testa dela e entre os seus seios. Trabalhava com um brilho misterioso nos olhos, fazendo pequenos movimentos convulsivos e depois acalmando-se, vertendo-se em longas pinceladas lentas e ondulantes.»
Peter Carey, Parrot e Olivier na América, Gradiva.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Vale a pena ler

Comentário de segunda

1. A recente aprovação do Orçamento Geral do Estado para o ano 2012 erigiu em lei a escandalosa depradação de dois meses de salários aos profissionais do Estado e de empresas públicas e dois meses de pensões aos reformados e pensionistas. Para além do generalizado aumento dos impostos de que todos sofrerão as consequências, aqueles trabalhadores e pensionistas serão objecto de uma especial penalização, sem que até hoje se conheça uma justificação plausível para o facto.
Ninguém consegue explicar por que razão o ano de 2012 é, para uns, o ano de todos os sacrifícios e, para outros, o ano em que os rendimentos sobem. Na verdade, quem pertence ao sector privado terá um aumento nos seus rendimentos, porque, em 2012, não só não é abrangido pelo corte de dois salários como ficará isento da taxa que este ano paga (em sede de IRS) sobre o subsídio de Natal. No privado, os rendimentos, em 2012, serão, pois, superiores aos rendimentos de 2011. Enquanto, no sector público, os cortes rondam os 23% dos vencimentos líquidos, de milhares de funcionários.
A responsabilidade desta iniquidade é de quem governa o país com absoluta indiferença em relação às pessoas e com a obsessão ideológica de atacar o sector público.

2. A desonestidade política de Passos Coelho constitui uma outra marca de água da sua governação. A juntar a tantas «malabarices» que já fez, em menos de meio ano de poder, soube-se, agora, durante o fim-de-semana, que surgiram 2 mil milhões de euros a mais, nas contas do Estado. Estes módicos 2 mil milhões vão permitir duas coisas, segundo o primeiro-ministro: alcançar um défice substancialmente abaixo dos 5,9% prometidos à troika e pagar dívidas a fornecedores do Estado.
Deste dinheiro, Passos Coelho nunca falou, apesar de saber que o iria receber, porque já há muito que estava em negociação com os bancos a transferência dos seus fundos de pensões para os cofres do Estado. Deste dinheiro, Passos Coelho nunca falou, mas soube falar de um alegado desvio colossal, desvio colossal cujo montante foi variando consoante os gostos e as necessidades que a desonestidade política exigia. E exigia para quê? Para poder subtrair quase 50% do subsídio de Natal aos portugueses, apesar de saber que iria ter um excedente de milhões, e apesar de ter prometido que nunca mexeria no subsídio de Natal de ninguém.
Passos Coelho engana os portugueses como Sócrates o fazia.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Zakir Hussain & Eric Harland

Pensamentos de domingo

«Nada provoca mais danos num Estado do que homens astutos a quererem passar por sábios.»
Francis Bacon

«Cada idade tem os seus desprazeres.»
Henry Bataille
In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações, Âncora Editores.

«Tenho celulite no rabo e detesto isso.»
Kelly Rowland
In Revista Única (3/12/2011)

sábado, 3 de dezembro de 2011

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Ao sábado: momento quase filosófico

Que responder?

Uma história sufi.
Um dervixe [monge] seguia pensativo ao longo de um rio quando ouviu uma voz humana a cantar um hino sagrado. Mas em vez de pronunciar correctamente as sílabas YA HU, a voz pronunciava U YA HU.
O dervixe achou ser seu dever corrigir esta imperfeição. Alugou um barco e remou até uma ilhota no meio do rio, de onde provinha a voz do cantor. Numa cabana de junco encontrou um homem pobremente vestido que salmodiava as suas orações e se enganava.
O dervixe corrigiu-o com amabilidade. O outro agradeceu-lhe humildemente.
Separaram-se. O dervixe voltou para o seu barco e remou para a margem. Tinha a alma satisfeita, consciente de ter realizado uma boa acção. Com efeito, diz-se que o homem que canta correctamente os textos sagrados pode caminhar sobre as águas. Toda a vida o dervixe ansiou poder realizar tal façanha. Mas em vão.
Quando se encontrava no meio do rio, a voz do cantor, por momentos interrompida, elevou-se de novo na pequena ilha. Mas o homem persistia na pronúncia incorrecta e cantava U YA HU.
Na barca, o dervixe deixou cair os remos, sentindo-se desencorajado, e pôs-se a reflectir sobre a perversidade da natureza humana. Ouviu então uma voz que o chamava. Voltou-se. Viu o cantor solitário que gritava:
— Espera por mim! Espera por mim! Tenho uma pergunta a fazer-te!
O homem saiu da ilhota e lançou-se à água do rio. Para perplexidade do dervixe, o homem caminhava verdadeiramente sobre as águas. Chegou até junto do barco e disse ao outro:
— Meu irmão, perdoa-me. A minha memória está fraca. Já esqueci a pronúncia correcta. Rogo-te, podes tu ensinar-ma outra vez?
In Jean-Claude Carrière, Tertúlia de Mentirosos, Teorema (adaptado).

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Apontamentos sobre um desastroso modelo de gestão -6

Depois de termos visto, nos textos anteriores, alguns dos graves problemas de concepção e operacionalização de que o conselho geral enferma, proponho que dediquemos agora alguma atenção ao órgão que, dentro do organograma do actual modelo de gestão das escolas, surge na segunda posição hierárquica: o director. 
Esta segunda posição na hierarquia é segunda apenas no plano formal, porque, pelas razões já apontadas (composição do conselho geral e ausência de condições para a plena assunção das suas competências), o director ocupa, de facto, a primeiríssima posição na hierarquia. Resulta daqui uma situação particularmente perigosa e inaceitável:
 — devido à incapacidade efectiva do conselho geral exercer as suas funções, as competências de direcção que lhe estão atribuídas são, na prática, exercidas pelo director, acumulando-as, assim, com as competências de administração e gestão que a lei já lhe confere.
Deste modo, uma só pessoa passa a ter o poder efectivo de dirigir, de administrar e de gerir uma escola em todas as áreas: pedagógica, cultural, administrativa, financeira e patrimonial.

Mas comecemos pelo princípio, comecemos pela concepção que sustentou a opção política de se criar um órgão unipessoal (director) em substituição de um órgão colectivo (conselho executivo/directivo).
Quando este modelo foi discutido na Assembleia da República, Sócrates e Rodrigues não se cansaram de dizer, com desmedida ênfase, que a introdução de um órgão unipessoal na gestão das escolas iria permitir criar «lideranças fortes». Assim mesmo: «lideranças fortes». Diziam que, com a institucionalização da figura do director, passaríamos a ter boas lideranças e eficazes lideranças. (É impressionante a facilidade com que o mais grosseiro senso comum sobe à tribuna política, se faz ideologia e se impõe a um país).

A propósito desta noção de liderança forte e de como ela se alcança, é oportuno recordar uma afirmação atribuída a Lao-Tsé: «Quando um verdadeiro líder dá o seu trabalho por terminado, as pessoas dizem que tudo aconteceu naturalmente». Sócrates e Rodrigues não faziam, e certamente continuam a não fazer, a mais pequena ideia do que isto significa. Pensavam, e certamente continuam a pensar, que as lideranças fortes podem ser instituídas por decreto, que basta anunciar «quem manda é só um» para que esse um se transforme em líder. Na verdade, para Sócrates e Rodrigues, líder forte é sinónimo de mandante. Mas esta é a concepção provinciana, medíocre, parola de liderança.
Deste modo, e mais uma vez, a partir de ideias amontoadas e mal pensadas, implementou-se uma solução híbrida: colocar um só homem, um executivo, um CEO a gerir — satisfazendo, assim, a crença naïf e o desígnio ideológico de equiparar a escola a uma empresa — concedendo-se, por outro lado, mas a contragosto, que esse órgão unipessoal (ainda) fosse ocupado por um professor. Contudo, esta concessão foi feita somente porque não existiam condições políticas para levar até ao fim a ideia inicial de criar uma carreira à parte da carreira docente: a carreira de gestor — algo que, curiosamente, está previsto no programa eleitoral do PSD.
Assim, com pressupostos falsos e sem fundamento sério, foram realizadas alterações radicais na natureza do órgão de gestão e administração das escolas.

Na realidade, é falso que, mesmo do ponto de vista formal da assunção de responsabilidades, não existisse, nos anteriores modelos de gestão, um rosto, não existisse um primeiro responsável a quem pedir contas. Esse rosto e esse responsável sempre existiu e sempre foi o presidente do conselho executivo (ou, na versão anterior, o presidente do conselho directivo). Em nenhuma circunstância existiram dúvidas sobre isto, nem da parte dos professores nem da parte do ministério da Educação. Aliás, sempre que foi necessário instaurar processos disciplinares por negligência na gestão, o ministério da Educação nunca teve dúvidas sobre quem deviam recair esses processos: os presidentes dos conselhos executivos/directivos. Sempre que o ministério da Educação quis apurar responsabilidades nunca teve dúvidas sobre a quem as devia pedir: aos presidentes dos conselhos executivos/directivos.
O problema da inexistência de um primeiro responsável é, pois, um problema falso assente numa  proposição mentirosa.

Por outro lado, se o que verdadeiramente se pretendia era a promoção de lideranças fortes, o que deveria ter sido feito era precisamente o oposto: não adulterar a natureza do órgão que geria e administrava as escolas, mas enaltecer e desenvolver as suas potencialidades.
É em contexto de trabalho de equipa que se vê quem é naturalmente líder. Uma liderança, para o ser, de facto, não se impõe de cima para baixo, revela-se e é reconhecida, pela forma como é exercida e pelo projecto que a anima. Liderança quer dizer capacidade de persuasão, capacidade de mobilização de vontades e de coordenação de equipas.
Ninguém é líder porque passou a ter o estatuto de director, esse estatuto, só por si, a única coisa que pode propiciar é a categoria de mandante, mas isso nada tem que ver com liderança.

Continua na próxima semana.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

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Quinta da Música - Reinhold Glière

Trechos - Hervé Juvin

«Quem é que ainda acredita que viajar o expõe à diferença? As viagens multiplicam-se entre lugares sempre idênticos, dramaticamente cada vez mais idênticos. Agitamo-nos freneticamente para ir a qualquer parte que nunca seja outro lugar; já não há outro lugar. Nós somos os primeiros a viver um universo sem exterior; [...]. Nós somos a primeira sociedade que se quer mundial e que já não aceita o exterior; com que arrogância, com que meios e, sobretudo, com que ausência total de dúvida, a religião do desenvolvimento se entrega a liquidar as civilizações, as crenças, as organizações políticas e sociais construídas durante milénios, arruinando à sua passagem um património essencial da humanidade! A cultura já não é o meio de relação com o outro [...]; a cultura-mundo é o meio de ser os mesmos e de reduzir os outros.»
Hervé Juvin
Gilles Lipovetsky, Hervé Juvin, O Ocidente Mundializado, Edições 70