quarta-feira, 22 de julho de 2009

Às quartas

Casa

A luz de carbureto
que ferve no gasómetro do pátio
e envolve este soneto
num cheiro de laranjas com sulfato
(as asas pantanosas dos insectos
reflectidas nos olhos, no olfacto,
a febre a consumir o meu retrato,
a ameaçar os tectos
da casa que também adoecia
ao contágio da lama
e enfim morria
nos alicerces como numa cama)
a pedregosa luz da poesia
que reconstrói a casa, chama a chama.

Carlos de Oliveira

terça-feira, 21 de julho de 2009

Relatório da OCDE - 3

A segunda conclusão do relatório da OCDE é a seguinte: Uma série de factores explicam a resistência à sua concretização [do modelo de avaliação do Governo].
Para fundamentar esta conclusão, o relatório diz: «A implementação do modelo tem constituído um desafio. Em parte, devido a uma natural resistência à mudança mas também graças à introdução de uma nova cultura de avaliação nas escolas». Afirmar que a implementação do modelo tem constituído um desafio é, com benevolência, um eufemismo, ou é sinal de que não se sabe do que se fala. Na realidade, não há desafio algum, há, sim, incompetência, arrogância, teimosia, cegueira e há uma quase infinita paciência e excessiva tolerância por parte de muitos professores para com quem, malevolamente, os afronta e vilipendia.
Para tentar fundamentar que a implementação do modelo tem sido um desafio, o texto adianta, aparentemente, duas razões: a primeira, a «natural resistência à mudança» e, a segunda, a «introdução de uma nova cultura de avaliação».
A publicidade tornou famosa a expressão «dois em um», a OCDE tenta fazer o inverso, tenta fazer «um em dois». Isto é, de uma razão tenta fazer duas. Ou, para se ser mais exacto, de razão nenhuma tenta encontrar duas falsas razões para a resistência dos professores.
São duas falsas razões porque:
1. Não há resistência à mudança, em abstracto. É uma falácia tentar fazer passar por uma verdade universal aquilo que não o é, para, depois, ser possível chegar a conclusões falsas. Parte-se do princípio (falso) de que o ser humano é avesso à mudança, e os professores, como seres humanos que são, também reagem negativamente à mudança, a qualquer mudança. Ora se há coisa que o ser humano procura, desde que existe, é a mudança: do conhecimento às condições materiais de vida; das conquistas da humanidade aos desafios individuais que cada um de nós assume. A verdade é, então, outra: há mudanças que o ser humano quer e há mudanças que o ser humano não quer. Não existe nenhuma natural resistência à mudança. E, por consequência, nos professores também não existe nenhuma natural resistência à mudança. Por exemplo: mudem as vergonhosas condições de trabalho nas escolas e veja-se se isso conduz a alguma resistência dos professores. A resistência à mudança existe, por exemplo, quando se muda para pior, não para melhor. A resistência à mudança existe quando essa mudança assenta na injustiça e na indignidade.
2. Não foi introduzida nenhuma nova cultura de avaliação. Não é sério classificar de nova cultura de avaliação aquilo que é um simulacro de avaliação, aquilo que diz que avalia e não avalia, aquilo que não passa de um gigantesco faz-de-conta, aquilo que assenta em pretensos princípios que inicialmente são ditos como incontornáveis, absolutos e peremptórios e, meses depois, já são ditos, pelas mesmas vozes, como questionáveis, reformuláveis, imprecisos, prematuros, impraticáveis, etc., etc.
Não se pode classificar de nova cultura de avaliação um sistema que assenta na iniquidade e no desrespeito pela dignidade profissional de muitos dos seus melhores profissionais.
E enquanto a OCDE não perceber isto, nunca perceberá nada.

Ainda dentro da fundamentação da segunda conclusão, o relatório acrescenta: «[...] qualquer reforma dirigida à classe docente está inevitavelmente ligada e condicionada pelas reformas feitas no sector público em geral. A necessidade de alinhar as medidas destinadas à classe docente com as já anteriormente tomadas para a generalidade dos trabalhadores da administração pública [...]».
Mais uma falácia: o relatório procura dar como verdade adquirida e consensual aquilo que não o é, e procura estabelecer, entre diferentes sectores profissionais, relações que não existem.
A generalidade dos trabalhadores da função pública, os juízes e magistrados, os professores e os médicos do serviço nacional de saúde constituem quatro corpos da administração pública que não têm nada de comparável, quanto à especificidade das funções que exercem. E, desse modo, os seus sistemas de avaliação têm de ser completamente diferentes (e se o Governo tivesse a seriedade que apregoa ter, mas que não tem, já deveria ter assumido que o famoso SIADAP é um pântano de inenarráveis injustiças e de vergonhosos episódios). Ou seja, não existe, no contexto da avaliação, e ao contrário do que afirma a OCDE, nenhuma necessidade, nem obrigatoriedade, nem admissibilidade para fazer «alinhar as medidas destinadas à classe docente com as já anteriormente tomadas para a generalidade dos trabalhadores da administração pública».

A encerrar a segunda conclusão, o relatório acrescenta: «A resistência por parte dos professores reflecte ainda as dificuldades criadas pela operacionalização de um modelo tão abrangente num curto espaço de tempo, aliadas a algumas consequências inesperadas do modelo.»
Inesperadas consequências do modelo?! Inesperadas?! O decreto regulamentar da avaliação saiu em Janeiro de 2008, dois meses depois, a 8 de Março, 100 mil professores vieram para a rua protestar contra o óbvio, contra as enormidades do modelo de avaliação. Toda a gente viu no que aquilo ia dar, e deu. Toda a gente.
Então: inesperado para quem? Só se foi para o Governo e, pelos vistos, também para a OCDE. Mas isso não abona nada a favor de ambos.
(Continua)

Bonecos de palavra

Para ampliar, clicar na imagem.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Registos do fim-de-semana

Acesso à Internet 20 por cento mais caro em Portugal
do que na Europa


PS em Paredes associado a uma marca comercial
(Proibido por lei)


Versão «simplex» da avaliação de novo prolongada

Polémica na primeira escola do país a concluir avaliação

Críticos do novo modelo de gestão das escolas com nova vitória

Falhas de controlo das entidades públicas abrem porta à corrupção
Público (17/07/09)

Relatório europeu alerta para fraca autonomia das escolas
i (17/07/09)

Foi um negócio ruinoso para o Estado português
— TC arrasa terminal de contentores —

Elisa Ferreira só fica no Porto se ganhar
— «Não me vejo vereadora»
Sol (17/07/09)

Professores começam a ser penalizados

Auditoria aponta falhas graves nas pousadas da juventude

Decisão do Tribunal Constitucional pode confirmar acórdão de juízes da Relação e afogar ASAE em processos
Expresso (18/07/09)

Negócio dos contentores sob investigação

Refer vai gastar 14 milhões em linha que irá encerrar
daqui a 4 anos

Público (18/07/09)

PSP triplicou empréstimos a agentes desde Janeiro

Estatuto dos Açores deverá ser chumbado no TC
Diário de Notícias (19/07/09)

domingo, 19 de julho de 2009

Pensamentos de domingo

«Os preguiçosos têm sempre vontade de fazer qualquer coisa.»
Luc de Vauvenargues

«O trabalho sujo nas reuniões políticas é feito quase sempre durante as horas da madrugada, entre a meia-noite e a manhã. Os carrascos e os políticos trabalham melhor quando o espírito humano se encontra ao seu mais baixo nível.»
Russel Baker

«Os portugueses não são um povo muito inteligente.»
Oliveira Salazar
In José Manuel Veiga, Manual para Cínicos.

Keith Jarret Standards Trio

sábado, 18 de julho de 2009

Ao sábado: momento quase filosófico

Acerca do impacte dos psicanalistas na ética filosófica
«Apesar de não ser um filósofo, Sigmund Freud teve um impacte dramático na filosofia ética com a sua asserção de que, no fundo, são os impulsos biológicos inconscientes que determinam o comportamento humano e não as distinções filosóficas agradáveis e racionais. Por muito que tentemos controlar racionalmente as nossas vidas, como os filósofos morais querem que façamos, o nosso inconsciente está sempre a intrometer-se.
O deslize freudiano, por exemplo, ocorre quando dizemos "por engano" algo que expressa os nossos desejos inconscientes, como quando o vereador da câmara apresenta a sua linda presidente como uma "grande funcionária púbica".»
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar...

Relatório da OCDE - 2

A primeira conclusão do relatório da OCDE é esta: «O modelo actual de avaliação de professores em Portugal tem sido polémico mas é necessário
Em todo o relatório não há nada que fundamente esta conclusão. Pelo contrário, tudo o que de substantivo é dito ou proposto no relatório, se for concretizado, implica, necessariamente, um modelo de avaliação completamente diferente, repito: completamente diferente. Desta forma, não se compreende que inconsequentemente se faça a afirmação de que o modelo actual de avaliação é necessário. É, objectivamente, um frete político que a OCDE faz ao Governo. A única afirmação coerente com o conteúdo do relatório seria: a avaliação dos professores em Portugal tem sido polémica, mas é necessária. Esta seria uma conclusão rigorosa e congruente com a substância do que lá está escrito.
No início do desenvolvimento, o relatório afirma: «Nas escolas [portuguesas] não há uma cultura de observação de aulas nem uma tradição de avaliação por pares, nem de prestação de feedback do trabalho realizado nem tão pouco de partilha de boas práticas. Para além disso, uma grande parte da formação profissional ainda privilegia a frequência de acções de formação externas em detrimento de um apoio e de uma tutoria contínuos e centrados na escola.» Ainda que existam honrosas excepções, esta é uma realidade evidente para todos. Agora, a partir desta constatação, a questão obrigatória que se deve colocar é a seguinte: no contexto acima descrito, isto é, sabendo toda a gente que não existia, nem existe, uma cultura de auto e hetero-avaliação, nem de observação de aulas, nem de partilha de experiências, é admíssivel, é minimamente aceitável, que haja alguém que possa ter pretendido, e pretenda, instituir, de um momento para o outro, por simples decreto ministerial, sem um mínimo de preparação, sem qualquer experimentação, sem nenhuma formação, aquilo que exigia, e exige, um alargado período de preparação, aos mais diferentes níveis? É, sequer, tolerável que isso possa ter acontecido? Obviamente que ninguém responsável, que ninguém sério poderia pretender que isso acontecesse ou aconteça.
Mas houve, e há, uma ministra da Educação, com a leviana cobertura do seu primeiro-ministro, que, apesar de saber não existir nem preparação nem consensualização, decidiu avançar atabalhoada e grotescamente, e com absoluta irresponsabilidade, para o que, inevitavelmente, redundaria num enorme descalabro.
É pena que o relatório da OCDE não faça a mínima referência a estes factos. Um relatório que enuncia juízos políticos em algumas das suas passagens deveria, para ser sério e rigoroso, em toda a extensão, sentir-se obrigado a evidenciar uma das principais causas políticas que originaram a situação desastrosa a que se chegou.
Mas não o faz.
(continua)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Fragmenti veneris diei

«Um dia, ao voltar da escola, dei com uma obra protegida por uma cerca de ferro. Os pedreiros, antes de se irem embora, haviam pendurado um farolim de carboneto para avisar os transeuntes do perigo. Não estava mais ninguém na rua naquele momento, de modo que apanhei uma pedra e atirei-a contra o candeeiro de carboneto, que caiu ao chão partindo-se com singular estrépito. Nesse instante, materializou-se à minha frente um senhor que me perguntou por que razão fizera tal coisa. Fiquei a olhar para ele sem responder. Durante uns terríveis instantes o senhor e eu olhámo-nos sem dizer nada. Por fim, ele fez um gesto de censura e desapareceu.
Por que razão fiz aquilo? Talvez porque os meus pais passavam a vida a discutir. Talvez porque era o pior da turma. Talvez porque éramos pobres como ratazanas. Talvez porque jantávamos sempre acelgas. Talvez porque não tínhamos umas luvas com que evitar as frieiras. Talvez porque nunca, durante anos, estreei uma camisa, umas calças, um casaco, nem sequer, acho eu, uns sapatos. Talvez porque Deus não me aparecia. Poderia encher uma página de talvezes. Actualmente passeio todas as manhãs por um parque próximo da minha casa. À entrada do parque há um resguardo de vidro para esperar o autocarro, que às segundas-feiras, infalivelmente, aparece partido à pedrada. Partem-no durante o fim-de-semana os jovens que regressam dos seus divertimentos. É o seu último acto de afirmação antes de se enfiarem na cama. Por que razão o fazem? O que destroem ao destruir o resguardo? O que partiria eu aao partir o farol de carboneto?
Quando cheguei a casa tinha as pernas a tremer, pois, se o senhor que me surpreendera me tivesse levado à esquadra, teria acabado na prisão, coisa que era, por outro lado, o meu destino. Baptizei aquele indivíduo como o senhor Tálvez por razões óbvias, acentuando o «a» porque a palavra soava melhor sendo grave do que aguda. Tálvez. Durante uns exercícios espirituais, naquela época, um sacerdote disse-nos que Deus se manifestava sobretudo nas questões aparentemente pequenas da vida quotidiana. Assim que ouvi aquilo senti um calafrio. Compreendi que o senhor Tálvez era Deus. Quer fosse, quer não, o seu curioso comportamento mudou a minha vida. Nunca voltei a cometer um acto de falta de civismo, não tanto por medo de que me aparecesse, mas por temer decepcioná-lo. Um bom educador (também um bom pai) deveria ser capaz de levar a cabo intervenções deste tipo, tão indolores, mas tão eficazes, tão oportunas e exactas.»
Juan José Millás, O Mundo, Planeta Manuscrito, pp. 94-95.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Mais uma entrevista da ministra da Educação

Já não há nada a dizer que já não tenha sido dito e redito acerca da ministra da Educação, e sobre ela só se podem dizer coisas más, péssimas.
A entrevista que, há duas horas, Maria de Lurdes Rodrigues deu à RTPN foi mais um momento pungente.
Penso não ser excessivo pedir para não colocarem mais Maria de Lurdes Rodrigues à frente das câmaras de televisão ou dos microfones da rádio. Nem imagem, nem voz, nada! É uma violência desumana fazerem entrar nas nossas casas esta caricata figura pública. A falta de seriedade política e intelectual da ministra da Educação ultrapassa tudo aquilo que alguma vez imaginei ser possível alguém personificar.
Com esta ministra já não há nada a dialogar, acerca desta ministra já não há nada a comentar. Politicamente, Maria de Lurdes Rodrigues já está ligada à máquina há demasiado tempo.
Por favor, desliguem essa máquina!

Quinta da Clássica - G. F. Häendel

Manifestação

16 DE JULHO – 14,30h – FRENTE AO M.E.
PROTESTO DOS PROFESSORES SEM COLOCAÇÃO EM QUADRO PARA 2009/2013, PROFESSORES DOS QZP (SEM QUADRO DE AGRUPAMENTO) E DESEMPREGADOS/CONTRATADOS

Relatório da OCDE - 1

O relatório da OCDE, sobre o modelo de avaliação do desempenho docente, merece ser analisado com atenção, e tentarei fazê-lo nos próximos dias. Todavia, uma primeira leitura permite fazer os seguintes comentários breves:

1. Ao ler o relatório, veio-me à memória o célebre Discurso do Método, de Descartes. A analogia é esta: Descartes dizia, muito cautelosamente, que aquele livrinho que tinha escrito não pretendia, de nenhum modo, pôr em causa fosse o que fosse, nem contestar nada, e, contudo, como se sabe, aquele livro foi dos mais revolucionários da história da Filosofia: pôs em dúvida todas as verdades estabelecidas e, relativamente à construção escolástica do saber, não deixou pedra sobre pedra.
O relatório da OCDE procede exactamente da mesma forma: diz que o actual modelo é uma boa base de trabalho e até elogia a iniciativa da ministra e, depois, enuncia tantas deficiências e tantas insuficiências, que não se vislumbra o que pode restar do modelo.
Mas se relativamente a Descartes se percebem as razões da sua extrema prudência (a Inquisição já tinha mostrado do que era capaz), o mesmo já não se pode dizer acerca da OCDE: tem receio de quê?

2. O relatório da OCDE formula muitas críticas óbvias, que já muita gente, há muito tempo, havia formulado, e apresenta várias propostas. Algumas dessas propostas vêm ao encontro de alguns aspectos considerados fundamentais por muitos professores, para que haja uma avaliação minimamente credível; todavia, outras propostas, para além de me parecerem insuficientemente fundamentadas, são contraditórias com as críticas formuladas no documento. Todas elas, porém, merecem ser devidamente escrutinadas.

3. Mas há dois erros de fundo de que o relatório enferma. Primeiro: passa irresponsavelmente ao lado do problema dos professores titulares, fazendo de conta que não percebe que esse problema inquina todo e qualquer modelo de avaliação que continue a assentar e a validar o acto de barbárie política que se denominou: concurso para professor titular. Dá por adquirido esse processo, e isso é absolutamente impossível de poder ser aceite. Segundo: defende, ainda que transitoriamente, a existência de quotas, o que é igualmente inaceitável.

Como disse, espero, nos próximos dias, poder fazer algumas observações mais específicas, relativamente ao conteúdo deste relatório, mas não posso, neste momento, deixar de insistir nesta nota: tratando-se de um relatório técnico, por que razão revela tantos cuidados políticos? Existe uma objectiva discrepância entre as considerações técnicas e as (dispensáveis, inadequadas e descontextualizadas) considerações políticas.
É lamentável e incompreensível que isto aconteça.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

OCDE defende alteração do sistema de avaliação de professores

Para ouvir a notícia da TSF, clicar aqui.

Triplica, duplica, é o dobro mais um, é três vezes...

O excerto, que a seguir se transcreve, é de uma conferência de imprensa dada, ontem, por Sócrates, Lurdes Rodrigues e Valter Lemos, e constitui o retrato fiel do Governo que temos. Quando um jornalista perguntou qual era o valor da bolsa, para os alunos do 10.º ano, as respostas foram estas:

José Sócrates: O valor da bolsa é igual ao dobro... É igual ao dobro, não...
Maria de Lurdes Rodrigues (baixinho): É duas vezes...
José Sócrates: ... Duplica...
Maria de Lurdes Rodrigues (baixinho): Triplica...
José Sócrates: Triplica o abono de família... quer dizer... havendo - virando-se para Valter Lemos - ... não é assim?
Valter Lemos (baixinho): É o abono de família mais o dobro.
José Sócrates: É o abono de família mais o dobro. A bolsa é igual ao dobro do abono de família. E a família receberá...
Maria de Lurdes Rodrigues (baixinho): E mais um. - Em voz alta - O abono de família no escalão máximo é à volta de 50 euros. A bolsa será três vezes este valor... Exactamente...
Sócrates e Valter Lemos: Não é bem assim...
Maria de Lurdes Rodrigues: Não é bem... É três vezes. É o abono mais duas... A bolsa duplica no sentido em que é duas vezes o valor do abono de família, mas como também tem o abono de família, que não é retirado nem reduzido, ele fica com três abonos de família, digamos assim...
José Sócrates: O importante é que se perceba o seguinte: a bolsa será — fazendo, com o dedo, um círculo no ar — de 150 euros neste caso...

É só mais uma trapalhada a juntar a dezenas de outras. Nem Santana Lopes conseguiu fazer pior.

Às quartas

Canção da Verdade Jovem

A verdade cantava no escuro
No cimo da tília sobre o coração

O sol há-de amadurecer dizia
No cimo da tília sobre o coração
Se os olhos o iluminarem

Troçámos da canção
Agarrámos prendemos a verdade
Cortámos-lhe a cabeça debaixo da tília

Os olhos estavam noutro sítio
Ocupados com outra obscuridade
E nada viram

Vasko Popa
(Trad.: Eugénio de Andrade)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Registos do fim-de-semana

Linha Saúde 24 recebe seis mil chamadas por dia e não consegue dar resposta

Ministério Público pede prisão efectiva para Isaltino

PS não acompanha Elisa Ferreira em acção de campanha no Porto
Público (10/07/09)

Portugal vai estar mal preparado para o novo choque petrolífero
i (10/07/09)

Pinho foi mesmo a Aljustrel dar patrocínio

Parlamento encerra com 1/3 de deputados não eleitos

Sete pontes ameaçadas em estradas de Coimbra e Viseu

Alegre quer o PS, mas não o líder

Plano de urgência para a Física não saiu do papel

Grupo contratado não avaliou rigor do Novas Oportunidades
Expresso (11/07/09)

Professores sem formação para implementar o programa Educação para a Saúde
i (11/07/09)

Sócrates tenta travar desmobilização do PS

Elisa Ferreira com voto de confiança de Sócrates
Diário de Notícias (12/07/09)

Um barco à deriva

Neste momento, o Partido Socialista tem parecenças com um barco à deriva, cuja tripulação está prestes a amotinar-se.
No fim-de-semana, surgiu o ressuscitado Manuel Alegre a reclamar uma nova política e novas caras para o PS; surgiu António Costa, número dois do partido, a reclamar contra alguns maus ministros do Governo; surgiu o líder concelhio dos socialistas do Porto a exigir que Elisa Ferreira optasse pela Câmara ou pelo Parlamento Europeu; surgiu a dupla candidata a dizer que não, que não opta nada, e acrescentou que tem o apoio do Sócrates, que, por sua vez, dois dias antes tinha proibido a duplas candidaturas, mas que já veio explicar que esse critério não se aplicava a todos; e surgiu o próprio secretário-geral do PS a passar um ralhete ao presidente da concelhia portuense. Se optarmos por recuar uns dias, tropeçamos nas cenas tristes de um ministro no Parlamento, nas cenas tristes do primeiro-ministro no diz que sabe e no diz que não sabe do negócio da PT, e em outras trapalhadas que se seguiram a trapalhadas outras.
É curioso verificar isto. É curioso verificar como os resultados de umas eleições viram de pernas para o ar a realidade, ou o que aparentava ser a realidade. Até há pouco tempo, Sócrates era incontestado e incontestável, era reconhecido como o líder invencível, era o timoneiro determinado que sabia qual era o rumo certo para o partido e para o país. Era lisonjeado, era bajulado, era adorado por todos os que usufruíam das benesses do poder. Mas hoje é claro que tudo não passava de aparência, de encenação, porque ao primeiro sinal de possibilidade de perda desse poder, a rebelião instala-se, o líder desorienta-se, o rumo esfuma-se. O que ontem era verdade, hoje, é mentira e amanhã não sabemos o que será. Ora isto torna claro como é espantosamente fácil contruir uma artificialidade mascarada de realidade, como se da realidade se tratasse.
E é curioso verificar como o futuro de um país pode estar dependente de acontecimentos tão aleatórios e tão inusitados e, desse modo, ficar sujeito a ser governado por um amontoado de impreparados: Sócrates viu cair-lhe o poder no colo sem ter feito nada para o merecer e sem ter qualquer preparação para o cargo. Beneficiando de um conjunto aleatório de circunstâncias - fuga de Durão Barroso e manifesta incompetência de Santana Lopes e de Paulo Portas - obteve uma maioria absoluta por via de uma conjuntural «coligação» negativa dos eleitores, que entre dois males, escolheram o que pensavam ser o menor.
Com o grande prémio no bolso, com uma oposição esfrangalhada e seguro pelo confortável apoio parlamentar, o impreparado Sócrates, munido de um pensamento primário e de uma ilimitada arrogância, começou a governar com a presunção, própria dos medíocres, de que era o salvador da pátria, de que era o finalmente regressado D. Sebastião. Armado dos verbos «mudar» e «reformar», que repetiu a despropósito de tudo, e auto-proclamando-se «justiceiro» da República, com a coragem característica de quem tem as costas devidamente resguardadas, começou a mudar tudo e a tudo reformar. Não interessava se as mudanças eram para melhor ou se eram para pior; cego e surdo, teimoso e prepotente o que o preocupava era poder dizer que estava a reformar o país como nenhum outro fizera. Com tiques e pensamentos de tiranete, pensou, como qualquer medíocre pensa, que o mundo estava todo errado e só ele estava no estreitíssimo caminho da verdade. Pensou, como qualquer medíocre pensa, que podia introduzir alterações na vida das pessoas com o mesmo à-vontade de quem altera os detergentes da casa. Pensou que podia brincar com a dignidade profissional, pensou que podia maltratar, pontapear quem lhe apetecesse, desde que montasse uma enorme rede de interesses, como contrapartida de garantia de longevidade política.
Todavia, um pormenor aborrecido acabou por perturbar o que parecia ser um imenso mar tranquilo de cumplicidades: a democracia, a malfadada democracia que, por vezes, tem a capacidade de dizer que o rei vai nu.
Sem princípios, que são alterados consoante o lado de que o vento sopra, e alarmados pela iminência da perda de milhares de empregos políticos, os actuais dirigentes socialistas mostram que o transatlântico em que julgavam navegar não passa, afinal, de um navio de casco esburacado comandado por um homem de cabeça perdida.

domingo, 12 de julho de 2009

Pensamentos de domingo

«Um actor é um homem com uma capacidade ilimitada de receber elogios.»
Michael Redgrave

«Eu não quero um advogado que me diga o que não posso fazer; eu pago-lhe para me dizer como fazer aquilo que eu quero fazer.»
J. P. Morgan

«Os críticos são como os eunucos num harém. Eles sabem como se faz, vêem isso todos os dias, mas não conseguem.»
Brenda Behan
In José Manuel Veiga, Manual para Cínicos.