domingo, 2 de maio de 2010

Pensamentos de domingo

«Quando tomámos o poder o que mais nos surpreendeu foi o facto de tudo estar precisamente tão mal como tínhamos afirmado durante a campanha eleitoral.»
John F. Kennedy

«Quanto mais estudo História mais claro me parece o jogo do engano que caracteriza toda a actividade humana.»
Tácito

«Senhora cheia de defeitos procura cinquentão, livre, culto e corajoso que lhe descubra algumas qualidades.»
Anúncio de jornal
In José Manuel Veiga, Manual para Cínicos

Carlos Bica & Matéria Prima

sábado, 1 de maio de 2010

Ao sábado: momento quase filosófico


A propósito de Montesquieu

«Montesquieu foi dos grandes filósofos do Iluminismo. Autor das célebres Cartas Persas, que gozavam com a sociedade francesa do início do século XVIII, em que viveu, criticava sobretudo o absolutismo estatal e a intolerância religiosa. De Luis XIV, o monarca francês, dizia que era um mago que conseguia fazer com que as pessoas se matassem umas às outras sem razão; e do papa Clemente XI dizia que era um segundo mago, capaz de fazer com que "as pessoas acreditem que três é o mesmo que um e que o pão que se come não é pão."
Tal não foi obstáculo, contudo, para que, alguns anos mais tarde, ganhasse os favores do papa Bento XIV, que tinha sob o seu mecenato alguns artistas e escritores. Acontece que, depois de conhecer pessoalmente Montesquieu, o papa decidiu oferecer-lhe uma bula pela qual tanto ele como a sua família ficavam dispensados de obedecer à Quaresma durante o resto das suas vidas. Mas para isso era preciso cumprir um pequeno trâmite, mediante o qual se expedia o respectivo documento, em troca de uma boa soma de dinheiro pelos emolumentos. Tal era algo que Montesquieu desconhecia e não estava preparado no momento em que, ao solicitar o documento, o funcionário o informou. Montesquieu recusou então, dando mostras do seu engenho:
- Pensando bem - disse ao funcionário -, não preciso do documento. De certeza que a palavra do papa é suficiente para me dispensar perante Deus.»
Pedro González Calero, A Filosofia com Humor.

O calendário marca: 1 de Maio

Hoje é único dia do ano em que o trabalhador é o centro das atenções, ainda que essa atenção seja mais ritualizada que substantiva. Nos restantes dias, o trabalhador ou é ignorado ou é sentido como uma causa de perturbação social ou como um factor de despesa, quer na empresa quer no Estado, que é preciso anular. Este continuum é interrompido apenas hoje e nos períodos eleitorais.
O trabalhador é um mal necessário, algo de que o sistema, infelizmente, não pode prescindir. É visto como um preguiçoso compulsivo que, sempre que pode, engana o patrão. É aquele que, em tempo de crise, é imediatamente despedido ou a quem se reduz o salário. O trabalhador, pelas suas naturais limitações, não compreende a complexidade da Economia e, por isso, persiste, levianamente, em fazer greves e em pedir, levianamente, aumentos salariais. O trabalhador é estruturalmente inconsciente e teima em atrapalhar a resolução das crises económicas fazendo, por sistema, exigências insustentáveis — crises económicas que, como se sabe, não foram geradas pela irresponsável engenharia financeira de instituições bancárias, nem pela incompetência das agências de rating, nem pela selvática especulação, nem pela corrupção, nem pelos crimes financeiros, nem por nada disto, foram geradas, sim, pelo consumismo inconsciente dos trabalhadores que irresponsavelmente se sobreendividaram.
O trabalhador é, pois, um mal que o sistema despreza, mas que tem de tolerar, porque é à custa dele que o sistema subsiste.
Celebre-se, pois, o Dia Mundial do Trabalhador.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Fragmenti veneris diei

Aí, do púlpito, Seaman falou da sua vida. Foi apresentado pelo reverendo Ronald K. Foster, se bem que pela maneira de o fazer se notasse que Seaman já ali havia estado antes. Vou falar de cinco temas, disse Seaman, nem um mais nem um menos. O primeiro tema é PERIGO. O segundo, DINHEIRO. O terceiro, COMIDA. O quarto, ESTRELAS. O quinto e último, UTILIDADE. As pessoas sorriram e alguns inclinaram a cabeça em sinal de aprovação, como se dissessem ao conferencista que concordavam, que não tinham nada melhor para fazer senão ouvi-lo. Num canto viu cinco rapazes, nenhum deles com mais de vinte anos, vestidos com casacos pretos, boinas pretas e óculos escuros que olhavam para Seaman com expressão aparvalhada e que tanto podiam estar ali para o aplaudir como para o insultar. No palco, o velho movia-se com as costas encurvadas de um lado para o outro, como se de repente tivesse esquecido o seu discurso. De improviso, a uma ordem do pastor, o coro cantou um gospel. A letra da canção falava de Moisés e do cativeiro do povo de Israel no Egipto. O próprio pastor acompanhava-os ao piano. Então Seaman voltou ao centro e levantou a mão (tinha os olhos fechados) e dali a poucos segundos cessaram as notas do coro e a igreja ficou em silêncio.»
Roberto Bolaño, 2666, p. 287.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Petição pela redução do número de alunos por turma

O Movimento Escola Pública promove o lançamento da Petição Pública pela redução do número máximo de alunos por turma, esta quinta-feira, 29 de Abril, pelas 16h, na Livraria Ler Devagar (LXFactory - Rua Rodrigues de Faria, 103, Lisboa).

A Petição contém uma lista de primeiros subscritores de várias áreas da educação e será apresentada, em conferência de imprensa, por Miguel Reis (Professor, Movimento Escola Pública), Helena Dias (ex-Presidente da Federação Regional de Lisboa das Associações de Pais, Movimento Escola Pública) e Paulo Guinote (Professor, Autor do blogue “A Educação do Meu Umbigo”).

Com turmas mais pequenas é possível melhorar o combate ao insucesso escolar, ajudando igualmente a prevenir fenómenos de indisciplina. Trata-se de uma medida que reúne um consenso social alargado e que urge pôr em prática.

Às quartas

O Mar na Cidade

É este o mar que se arrasta pelos campos,
que rodeia os muros e as torres,
que levanta mãos como ondas
para avistar de longe sua presa ou sua deusa?

É este o mar que tímida, amorosamente
se perde por vielas e pracetas,
que invade jardins e lambe pés,
e lábios de estátuas quebradas e caídas?

Não se ouve outro rumor que o borbotar
da água pelas caves deslizando,
e esgotos, levando levemente
em peso folhas, pétalas, insectos.

Que busca o mar na cidade deserta,
abandonada até por cães e gatos,
mandadas calar as suas fontes todas,
mudos os ténues campanários?

A ronda inesgotável continua,
o mar arqueia o lombo e repete
sua canção, emissário da vida
devorando tudo o que é morto e putrefacto.

O mar, o terno mar, o mar das origens,
recomeça o velho trabalho:
limpar os estragos do mundo,
cobrir tudo com uma rosa dura e viva.

Emilio Adolfo Westphallen
(Trad.: José Bento)

terça-feira, 27 de abril de 2010

Sempre a mesma política do facilitismo

Um texto de Henrique Raposo, no sítio do Expresso.


O PS matou os professores

«I. Já não há palavras para descrever a podridão politicamente correcta que é o Ministério da Educação, e, por arrastamento, a escola pública. Os professores já estavam proibidos de chumbar aluno mesmo quando estes ignoram as matérias básicas. Agora, ficámos a saber que os professores deixam de ter a possibilidade de chumbar um aluno por faltas. É uma alegria, a escola pública. "Não tens de aprender, e nem sequer tens de ir às aulas", eis a herança que o facilitismo do PS deixa no ensino.


II. O socratismo destruiu a figura do professor. Fica a impressão de que o professor passou a ser um mero babysitter dos monstrinhos que os pais deixam na escola. O professor não tem a autoridade pedagógica para instruir, e também não tem autoridade moral para educar. O professor não pode instruir os alunos, porque o facilitismo impede rigor e exigência. Todos têm de passar, porque o ministério quer boas estatísticas. Resultado: milhares de pessoas chegam à faculdade sem saber escrever em condições. Depois, o professor não tem autoridade moral sobre os alunos. A falta de educação campeia pelas escolas. O fim do chumbo por faltas é só mais um prego no caixão da autoridade moral do professor. Nem por acaso, o i, há dias, trazia este desabafo de uma professora: "A partir do momento que,por exemplo, uma suspensão de uma aluno não conta como falta para acumular e para reprovar de ano, que efeito é que uma sanção destas pode ter?".»

Terças da MP - Ricardo Ribeiro e Rabih Abou-Khalil

Vale a pena ler

Um texto de Clara Ferreira Alves:
Strawberry fields forever
«O homens europeus descem sobre Marrocos com a missão de recrutar mulheres.
Nas cidades, vilas e aldeias é afixado o convite e as mulheres apresentam-seno local da selecção.
Inscrevem-se, são chamadas e inspeccionadas como cavalos ou gado nas feiras. Peso, altura, medidas, dentes e cabelo, e qualidades genéricas como força, balanço, resistência. São escolhidas a dedo, porque são muitas concorrentes para poucas vagas. Mais ou menos cinco mil são apuradas em vinte e cinco mil. A selecção é impiedosa e enquanto as escolhidas respiram de alívio, as recusadas choram e arrepelam-se e queixam-se da vida. Uma foi recusada porque era muito alta e muito larga.
São todas jovens, com menos de 40 anos e com filhos pequenos. Se tiverem mais de 50 anos são demasiado velhas e se não tiverem filhos são demasiado perigosas. As mulheres escolhidas são embarcadas e descem por sua vez sobre o Sul de Espanha, para a apanha de morangos. É uma actividade pesada, muitas horas de labuta para um salário diário de 35 euros. As mulheres têm casa e comida, e trabalham de sol a sol.
É assim durante meses, seis meses máximo, ao abrigo do que a Europa farta e saciada que vimos
reunida em Lisboa chama Programa de Trabalhadores Convidados. São convidadas apenas as mulheres novas com filhos pequenos, porque essas, por causa dos filhos, não fugirão nem tentarão ficar na Europa. As estufas de morangos de Huelva e Almería, em Espanha, escolheram-nas porque elas são prisioneiras e reféns da família que deixaram para trás. Na Espanha socialista, este programa de recrutamento tão imaginativo, que faz lembrar as pesagens e apreciações a olho dos atributos físicos dos escravos africanos no tempo da escravatura, olhos, cabelos, dentes, unhas, toca a trabalhar, quem dá mais, é considerado pioneiro e chamam-lhe programa de "emigração ética".
Os nomes que os europeus arranjam para as suas patifarias e para sossegar as consciências são um modelo. Emigração ética, dizem eles.
Os homens são os empregadores. Dantes, os homens eram contratados para este trabalho. Eram tão poucos os que regressavam a África e tantos os que ficavam sem papéis na Europa que alguém se lembrou deste truque de recrutar mulheres para a apanha do morango. Com menos de 40 anos e filhos pequenos.
As que partem ficam tristes de deixar o marido e os filhos, as que ficam tristes ficam por terem sido recusadas. A culpa de não poderem ganhar o sustento pesa-lhes sobre a cabeça. Nas famílias alargadas dos marroquinos, a sogra e a mãe e as irmãs substituem a mãe mas, para os filhos, a separação constitui uma crueldade. E para as mães também. O recrutamento fez deslizar a responsabilidade de ganhar a vida e o pão dos ombros dos homens, desempregados perenes, para os das mulheres, impondo-lhes uma humilhação e uma privação.
Para os marroquinos, árabes ou berberes, a selecção e a separação são ofensivas, e engolem a raiva em silêncio. Da Europa, e de Espanha, nem bom vento nem bom casamento. A separação faz com que muitas mulheres encontrem no regresso uma rival nos amores do marido.
Que esta história se passe no século XXI e que achemos isto normal, nós europeus, é que parece pouco saudável. A Europa, ou os burocratas europeus que vimos nos Jerónimos tratados como animais de luxo, com os seus carrões de vidros fumados, os seus motoristas, as suas secretárias, os seus conselheiros e assessores, as suas legiões de servos, mais os banquetes e concertos, interlúdios e viagens, cartões de crédito e milhas de passageiros frequentes, perdeu, perderam, a vergonha e a ética. Quem trata assim as mulheres dos outros jamais trataria assim as suas.
Os construtores da Europa, com as canetas de prata que assinam tratados e declarações em cenários de ouro, com a prosápia de vencedores, chamam à nova escravatura das mulheres do Magreb "emigração ética". Damos às mulheres "uma oportunidade", dizem eles. E quem se preocupa com os filhos?
Gostariam os europeus de separar os filhos deles das mães durante seis meses? Recrutariam os europeus mães dinamarquesas ou suecas, alemãs ou inglesas, portuguesas ou espanholas, para irem durante seis meses apanhar morango? Não. O método de recrutamento seria considerado vil, uma infâmia social. Psicólogos e institutos, organizações e ministérios levantar-se-iam contra a prática desumana e vozes e comunicados levantariam a questão da separação das mães dos filhos numa fase crucial da infância. Blá, blá, blá. O processo de selecção seria considerado indigno de uma democracia ocidental. O pior é que as democracias ocidentais tratam muito bem de si mesmas e muito mal dos outros, apesar de querem exportar o modelo e estarem muito preocupadas com os direitos humanos. Como é possível fazermos isto às mulheres? Como é possível instituir uma separação entre trabalhadoras válidas, olhos, dentes, unhas, cabelo, e inválidas?
Alguns dos filhos destas mulheres lembrar-se-ão.
Alguns dos filhos destas mulheres serão recrutados pelo Islão.
Esta Europa que se presume de humana e humanista com o sr. Barroso à frente, às vezes mete nojo.»

O agradecimento ao Miguel Teixeira, pelo envio do texto.

Bonecos de palavra

Para ampliar, clicar na imagem.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Registos do fim-de-semana

Teixeira impõe-se a Sócrates

Estética VIP no Estado
— Figuras da televisão e do espectáculo estão a fazer operações de estética no Hospital Egas Moniz à custa dos dinheiros públicos. O hospital alega que é para treinar os jovens cirurgiões —

Ministros chamados ao Rato

Procurador de Aveiro admite dar escutas à AR
Sol (23/4/10)

Grandes grupos económicos vão ficar isentos das mais-valias

Viagens de Inês de Medeiros custam até 2500 euros por mês

Portugal: Gripe A - taxa de mortalidade foi das mais altas
Público (23/4/10)

Silêncio de Rui Pedro Soares abre crise política

Juros da dívida portuguesa atingem novo recorde negativo

Taguspark queria 70% da TVI. OPA sobre a Media Capital estava em cima da mesa
i (23/4/10)

PT tinha pré-acordo de 115 milhões paara comprar a Media Capital

Mais-valias: admitida isenção fiscal de fundos de investimento
Público (24/4/10)

Rendeiro recebeu €3 milhões no ano em que o BPP faliu

«Há retórica na Constituição que lembra os discursos das Miss Mundo» (Paulo Teixeira Pinto)

Fim das tréguas na Educação

Vodafone corta telefone no Campus da Justiça
Expresso (24/4/10)

Milhares de preservativos serão distribuídos durante a visita do Papa Bento XVI

Professores prometem mais e novas formas de luta
Público (25/4/10)

domingo, 25 de abril de 2010

República de Abril

Estamos na República de Abril. Mas hoje não estamos em festa, pá! Hoje celebramos o passado de há 36 anos, mas não temos razões para celebrar o presente. Há 36 anos foi derrubada a ditadura, hoje é necessário derrubar a mediocridade que domina e governa Portugal. Hoje, quem nos representa não inspira o Mundo, como aconteceu há 36 anos, hoje, quem nos representa envergonha-nos perante o Mundo.
Os valores da Liberdade e da Solidariedade que Abril trouxe foram substituídos pela arrogância, pela prepotência e pelo individualismo. Foi este o ponto a que chegamos.
Agora, vamos ter de recuperar a vontade de novamente querermos ser livres, de novamente querermos ser solidários e de novamente querermos construir uma República melhor.

Uma Revolução que inspirou o Mundo

Foi há 36 anos!

sábado, 24 de abril de 2010

Uma verdadeira revolução tecnológica


O agradecimento ao António Magueija pelo envio deste vídeo.

Curiosidades

Uma ligação em que vale a pena clicar:

http://us.penguingroup.com/static/html/blogs/end-publishing

O agradecimento ao Miguel Teixeira pelo envio deste link.

Ao sábado: momento quase filosófico


Acerca do rigor da dúvida cartesiana

«Descartes propôs-se duvidar de tudo aquilo acerca do qual fosse possível duvidar, com a intenção de encontrar uma verdade que fosse inquestionável. E, assim, imaginou que seria possível duvidar da existência de um mundo exterior aos nossos pensamentos e, inclusivamente, das verdades matemáticas. Mas chegou também à conclusão de que, por muito exaustiva e metódica que seja a nossa dúvida, nunca poderemos duvidar de que estamos a duvidar. Uma vez que duvidemos, portanto, podemos duvidar de tudo menos da própria dúvida.
Como duvidar é uma forma de pensar, Descartes afirmou o tal "Penso, logo existo". E, a partir desta primeira evidência, acreditou que poderia demonstrar a existência de Deus, de onde deduzia em seguida a existência do mundo extramental. Assim, Deus converteu-se, para Descartes, na garantia do nosso conhecimento do mundo.
Não é de estranhar que Borges dissesse acerca disto: "Creio que o rigor de Descartes é aparente ou fictício. Tal vê-se no facto de que parte de um pensamento rigoroso e, no final, chega a algo tão extraordinário como a fé católica. Parte do rigor para chegar ao Vaticano."»
Pedro González Calero, A Filosofia com Humor.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Subscrevo, na íntegra

A propósito de um recente comunicado do Secretariado Nacional da FENPROF que, no nosso entender, apenas revela o estado de desnorte e desorientação causada pelos gravíssimos acontecimentos dos últimos dias, a APEDE destaca e comenta algumas passagens do referido comunicado, não deixando de apresentar, no final, algumas questões que considera relevantes:

A FENPROF considera que não há aqui ingenuidade de ninguém; o que há, de facto, é uma estratégia bem definida que, objectivamente, converge com a do poder no sentido de fragilizar o movimento sindical docente e, em particular, a sua organização mais forte, mais representativa e mais combativa.”

Comentário da APEDE: A FENPROF não precisa de ninguém que a fragilize externamente, pois já o tem conseguido fazer por si mesma, como os acontecimentos dos últimos tempos bem demonstram.

Se existirem dúvidas sobre isto, deixamos uma sugestão “tira-teimas”: realizem reuniões nas escolas e entreguem aos professores um inquérito de “satisfação e qualidade de serviço”. No final, não se esqueçam de anunciar os resultados, algo que não fizeram depois da última consulta, aos professores, sobre as formas de luta a adoptar no 3º período do ano lectivo transacto.

Em último lugar, cremos que esta consideração sobre estratégias visando fragilizar a FENPROF não se aplicará à APEDE pois não passamos de uma organização “sem grande influência” junto dos colegas, como a FENPROF defende e escreveu na sua moção principal ao Congresso.

Escreve ainda a FENPROF no seu comunicado: “Traidores serão quantos, em momentos em que a unidade dos professores se torna mais importante, tudo fazem para a quebrar!”

Comentário da APEDE: Até poderíamos concordar. Assim de repente, lembramo-nos de algumas situações paradigmáticas, quanto à quebra da unidade dos professores:

- o Memorando de Entendimento,

- o anúncio de uma greve de um dia, para Janeiro, perante 120 mil professores, no dia 8 de Novembro,

- a falta de presença no 15 de Novembro e a recusa peremptória em denunciar o Memorando de Entendimento, uns 15 dias antes, em reunião conjunta com os movimentos,

- a falta de presença no 24 de Janeiro mesmo perante a abertura e decisão dos movimentos em adiar por uma semana a manifestação, com vista a uma convergência na luta, e escondendo a votação maioritária de apoio a essa manifestação realizada na Frente de Professores Contratados e Desempregados do SPGL,

- a entrega de OI por parte de sindicalistas,

- a greve de duas horas convocada, nas costas dos professores, no último período de grande mobilização da classe que ainda permitiu, no final de Maio, uma manifestação significativa, amplamente apoiada pelos movimentos,

- a falta de presença no 19 de Setembro com uma proposta (nunca desmentida) de um dirigente sindical do SPGL para o levantamento de processos disciplinares a quem agitasse bandeiras do sindicato nessa manifestação,

- o “Acordo de Princípios”,

- a estratégia negocial dos últimos meses, que redundou, para já, “numa mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma”, a não ser o desastre agora ocorrido com os concursos.

A APEDE já afirmou e demonstrou, por diversas vezes, que nunca sustentou ou orientou a sua acção numa perspectiva e postura anti-sindical. Mesmo porque os sindicatos têm um papel fundamental, um histórico de luta que nunca negámos e são, de acordo com a lei, os representantes dos professores nas negociações com o ME. O que nunca aceitaremos é que se confundam críticas à actuação das direcções sindicais, perfeitamente legítimas, embora incómodas, bem o sabemos (até por serem difíceis de controlar e conter), com acusações infundadas de traição à unidade na luta. Lembramos que a APEDE surgiu no contexto da grande contestação e revolta dos professores face às políticas educativas de José Sócrates e é nesse caminho que nos manteremos, firmes, determinados e conservando, como sempre, a nossa independência, recusando qualquer tipo de instrumentalização e enfrentando sem receios ou tibiezas qualquer tentativa de condicionamento ou menosprezo do trabalho que vamos desenvolvendo.

Continuar a ler aqui.

O agradecimento ao Ricardo Silva, da APEDE, pelo envio deste comunicado.