domingo, 4 de maio de 2008

Por falar em tigres

O OUTRO TIGRE

“And the craft that createth a semblance.”
MORRIS, Sigurd tbe volsung, 1876

Penso num tigre. Esta penumbra exalta
A vasta biblioteca laboriosa
E parece afastar as prateleiras;
Forte, inocente, ensanguentado e novo,
Irá pela sua selva e pela manhã
E marcará seu rasto na lodosa
Margem de um rio cujo nome ignora
(Não há passado nem porvir, nem nomes
No seu mundo, só um instante certo)
E salvará as bárbaras distâncias,
Farejando no entranhado labirinto
Entre os odores o odor da alba
E o odor deleitoso do veado.
Por entre as riscas do bambu decifro
Suas riscas, pressinto a ossatura
Debaixo da pele esplêndida que vibra.
Interpõem-se em vão todos os mares
Convexos e os desertos do planeta;
Desta casa de um tão remoto porto
Da América do Sul, te sigo e sonho,
Ó tigre que és das margens do rio Ganges.

Na minha alma escorre a tarde e penso
Que o tigre vocativo do meu verso
É um tigre de símbolos e sombras,
Uma série de tropos literários
E de memórias da enciclopédia,
Não o tigre fatal, a aziaga jóia
Que, sob o sol ou a diversa lua,
Vai cumprindo em Samatra ou em Bengala
A rotina de amor, de ócio, de morte.
Ao simbólico tigre eu quis opor
O verdadeiro, o de cálido sangue,
O que dizima a multidão dos búfalos
E hoje, 3 de Agosto de 59,
Alarga na planície uma pausada
Sombra, mas já o facto de o dizer
E de conjecturar-lhe a circunstância
Fá-lo ficção da arte e não criatura
Vivente dessas que andam pela terra.

Procuraremos um terceiro tigre.
Será, tal como os outros, uma forma
Do meu sonho, um sistema de palavras
Humanas, não o tigre vertebrado
Que, para além das vãs mitologias,
Pisa a terra. Bem sei, mas qualquer coisa
Me impõe esta aventura indefinida,
Insensata e antiga, e persevero
Em buscar pelo tempo desta tarde
O outro tigre, o que não está no verso.

Jorge Luís Borges
O fazedor (1960)

Pensamentos de domingo

«Ser deputado está a ser bom. Muito trabalho? Quem quiser fá-lo, mas quem não quiser fazer nada passa despercebido, sem problema.»
Nuno da Câmara Pereira

«Ando há anos a educar este povo.»
Clara Ferreira Alves

«Não preciso de conselhos. E não mos dêem, porque me irritam.»
José Saramago

In Sábado (30/4/08)

sábado, 3 de maio de 2008

O Pintor de Batalhas

«— Está aqui, sob a pele — acabou por dizer. — Nos nossos genes... Só as regras artificiais, a cultura, o verniz das sucessivas civilizações mantêm o homem afastado de si próprio. Convenções sociais, leis. Medo do castigo.
O outro ouvia atento, com o cigarro fumegante pendendo dos lábios. Semicerrou novamente as pálpebras.
— E Deus?... Você é crente, senhor Faulques?
— Não me aborreça, homem.
Voltou-se ligeiramente. O seu gesto abarcava as pessoas sentadas nas esplanadas ou que se passeavam junto ao cais, com o seu bronzeado e os seus calções, com as suas crianças e os seus cães.
— Olhe para eles. Tão civilizados dentro do possível, desde que o esforço não seja muito. Pedindo as coisas por favor, aqueles que ainda o fazem... Meta-os num quarto fechado, prive-os do imprescindível e vê-los-á destruírem-se entre si.
Markovic olhava-os também. Convencido.
— Já o vi — concordou. Por um bocado de pão ou por um cigarro. Não falando já para continuarem vivos.
— Por isso sabe, tal como eu, que quando o desastre devolve o homem ao caos do qual provém, todo esse verniz civilizado estala e solta-se e ele torna-se novamente no que era, no que sempre foi: um rematado filho da puta.
O outro olhou com atenção para a beata que segurava entre o polegar e o indicador. Depois atirou-a para longe, tal como a anterior. Caiu no mesmo sítio.
— Você não é um homem compassivo, senhor Faulques.
— Não sou. Mas é estranho que diga isso.
— E, na sua opinião, o que nos protege?... A cultura, como insinuou antes?... A arte?
— Não sei. Não creio.
Markovic parecia decepcionado, de modo que Faulques pensou nisso um pouco.
— Desconfio — acrescentou — que nada consegue mudar a natureza humana. Ou mantê-la sempre à distância. [...] A memória, talvez. De certa maneira, é uma forma de dignidade estóica. A lucidez na hora de examinar as linhas mestras do assunto. Assumir as regras do jogo.
Viu Markovic sorrir, como se desta vez tivesse sido capaz de compreender as alusões do seu interlocutor.
— As simetrias — insinuou o croata, satisfeito.
— É isso. Um poeta inglês escreveu terrível simetria, referindo-se às riscas do tigre.
— Não me diga. Um poeta?
— Sim. Qualquer simetria encerra crueldade, acabou por dizer.
Markovic franziu o sobrolho.
— E como é possível assumir simetrias?
— Através da geometria que permite observá-las. E da pintura que a expressa.
Perdi-me novamente, tornava a dizer o sobrolho franzido do outro.
— Onde aprendeu tudo isso?
Faulques fez com as mãos um gesto de passar páginas. Lendo, disse. Tirando fotografias. Olhando, suponho. Perguntando. Está tudo aí, acrescentou. A diferença é que alguns reparam e outros não.»

In Arturo Perez-Reverte, O Pintor de Batalhas, pp. 81-83.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Bjorg

Meredith Monk

Bobby Mc Ferrin

E, agora, não sei se voltarei a encontrar o aluno...

1ª parte
Esta semana, ouvi, no parlamento, o primeiro-ministro repetir por diversas vezes que estava preocupado com a «precaridade» do emprego e que ele e o seu governo estavam firmemente empenhados em lutar contra essa «precaridade». Durante o discurso e durante as respostas que dava aos deputados, era «precaridade» para a frente, «precaridade» para trás, «precaridade» para os lados. Entusiasmado, cheio de si, como sempre, o primeiro-ministro proclamava-se (apesar do Estado continuar a ser um péssimo exemplo, neste domínio) o campeão do combate à «precaridade». E, por vezes, até quase soletrava: «pre-ca-ri-da-de».


2ª parte
Uma vez, durante uma aula, um aluno (dos cursos nocturnos) referiu, já não me recordo a que propósito, que em Portugal havia muita «precaridade» no trabalho.
A brincar, disse-lhe:
— Olhe que não, olhe que não há «precaridade» no trabalho.
Espantado, o aluno insistiu:
— O professor acha que não há «precaridade» no trabalho?!
Respondi-lhe:
— Não acho, tenho a certeza: não há «precaridade» no trabalho.
O aluno não acreditava no que ouvia:
— Ó professor e, então, os recibos verdes e os contratos a prazo não são exemplos de «precaridade»?! E não sou eu que o digo, são os políticos, são os sindicalistas, é toda a gente!
Já quase a arrepender-me do distúrbio que estava a causar, esclareci-o:
— Sabe porque é que não há «precaridade» no trabalho? Não há, porque «precaridade» não existe. E não é só no trabalho que não existe, «precaridade» não existe no trabalho nem existe no dicionário. O que há, de facto, é precariedade. A precariedade, essa sim, existe no trabalho e existe no dicionário.
E rematei:
— Portanto, já sabe, sempre que ouvir um político dizer que luta contra a «precaridade», das duas uma: ele diz isso porque não está a falar verdade (já que não se pode lutar contra uma coisa que não existe) ou diz isso por ignorância.

3ª parte
Hoje, não estou certo de ter concluído bem aquele esclarecimento. Não sei se em lugar da conjunção adversativa ou não deveria ter usado a conjunção copulativa e.

E, agora, não sei se voltarei a encontrar o aluno...

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Construção

«Protestos contra políticas educativas juntam uma centena de professores em Lisboa»

Foi este o título do Público, de terça-feira, para noticiar a concentração de professores em frente ao Ministério da Educação. Mas, segundo conta o jornal, «o cenário não preocupava Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof: "É normal. Tem a ver com o facto de aquilo que mais preocupava os professores no imediato - as consequências da aplicação da avaliação a mês e meio do final das aulas - estar resolvido".»
Ao estado a que isto chegou: cem professores na manifestação é considerado normal, para o secretário-geral da Fenprof.
A justificação dada, essa, nem merece comentários.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Pensamentos de quarta-feira

«Não compliques as coisas vindo para aqui com os factos.»
Groucho Marx

«Eu não sei como é a consciência de um canalha, mas sei como é a consciência de um homem honesto: é assustadora.»
Abel Hermant

In José Manuel Veiga, Manual para Cínicos.

Gotan Project

terça-feira, 29 de abril de 2008

Estive mesmo para comprar o Correio da Manhã (5)

No já referido ambiente de objectiva promiscuidade entre jornalismo e política, aquela espécie de entrevista foi tocando nos aspectos sobre os quais à ministra mais convinha perorar, até porque não tinha pela frente qualquer esboço de contraditório.
Sem constrangimentos, a ministra sentiu que tudo o que dissesse era aceite e a mensagem para a opinião pública seria transmitida. Por isso, foi dito tudo e de tudo, como temos vindo a observar.
Continuamos o périplo. As afirmações da ministra seguem a azul.
A certa altura, o jornalista Ferreira pretende que a ministra confirme se o seu sistema de avaliação pode ser considerado um novo paradigma. A ministra confirma:
«É um novo paradigma seguramente. Repare. A divisão da carreira em duas categorias é uma situação que é muita estranha para os professores. Porque durante trinta anos as associações sindicais construíram um grupo homogéneo, acabaram com todas as diferenças».
Portanto, segundo a ministra, durante trinta anos, os sindicatos detiveram o poder político, de tal modo que foram eles que «construíram um grupo homogéneo» e que «acabaram com as diferenças» na carreira docente. Ficámos foi sem saber como obtiveram eles esse poder: se porque os ministros da Educação, nos últimos trinta anos, eram todos sindicalistas ou se porque, não o sendo, estavam, por alguma razão oculta, mas que conviria esclarecer, reféns dos sindicatos. Assim, de repente, recordo-me de alguns nomes de ministros que tiveram a pasta da Educação nos últimos trinta anos: Mário Sottomayor Cardia, Vítor Crespo, João de Deus Pinheiro, Roberto Carneiro, Manuela Ferreira Leite, Marçal Grilo, Guilherme de Oliveira Martins, David Justino, isto é, tudo pessoal sindicalista ou, então, gente manietada pelo poder sindical, apesar de parte significativa destes ministros ter pertencido a governos de maioria absoluta.
A análise histórica da ministra impressiona pelo rigor, e a leitura política pela perspicácia. É lamentável que uma ministra se limite a ser o eco do que alguns comentaristas, por exemplo, Miguel Sousa Tavares ou José Manuel Fernandes, que sabem tanto de educação como eu de nanofísica, começaram a propalar há já algum tempo. Um membro de governo não deveria ter pensamento próprio? Deveria, mas, neste caso, não tem.
É por isso que, uma meia dúzia de perguntas depois, a ministra desdiz o que tinha dito com o mesmo à-vontade com que, provavelmente, ia saboreando as bolachas. À pergunta, inteligente como todas as outras, do jornalista Ferreira: «Não foram os sindicatos que determinaram durante anos toda a legislação produzida neste Ministério?»
A ministra responde como se cinco minutos antes não tivesse afirmado exactamente o inverso: «Ouço dizer isso muitas vezes mas eu na realidade não sei, não conheço o suficiente para poder dizer que foi ou não assim.»
Não sabe, não conhece, nada pode dizer; meia dúzia de perguntas atrás, sabia, conhecia, dizia e disse que durante trinta anos tinham sido os sindicatos que tinham acabado com as diferenças e tinham construído uma carreira homogénea.
Em que momento está a ministra a falar verdade? Não sabemos, mas também já pouco interessa.
O que interessa é a sucessiva reconfirmação de um retrato cujos contornos prescindo de qualificar.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

J.J. Johnson

Guerra Junqueiro

«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas.»
Guerra Junqueiro (escrito em 1886)
Texto enviado por Paula Rodrigues

«Ele há dias em que me sinto nababo»

Oportuna esta crónica de Ferreira Fernandes, no Diário de Notícias, de 23 de Abril.

«A França quer ser a anfitriã do Euro 2016, mas isso já se sabe há muito. A novidade é que, há dias, o secretário de Estado dos Desportos Bernard Laporte declarou não querer a França a organizar sozinha, mas junto com a Itália. Um Euro exige estádios novos e estes são cada vez mais revolucionários e caros. Daí, a repartição das despesas: quatro estádios franceses, quatro italianos. Afinal, o mesmo que se vai passar daqui a um mês, no Euro 2008, na Suíça e na Áustria. E também no seguinte, Euro 2012, dividido entre a Polónia e a Ucrânia. Como, aliás, já se passara no Euro 2000, na Bélgica e na Holanda. Quer dizer, o governante francês quer prolongar o que todo o futebol europeu fez neste milénio: poupar. Todo?!!! Todo, vírgula, fala-se aí só da Europa forreta. Porque entre esses países tacanhos e os seus Euros transfronteiriços, houve uma Europa de mãos largas: Portugal, 2004! Ele há dias em que me sinto nababo: só a minha 2.ª Circular (dois estádios) vale metade de França.»

Portugal não só não partilhou a realização do Europeu de futebol como não construiu, apenas, oito estádios, construiu dez estádios! Esbanjou, desbaratou dinheiro. Alguns desses estádios, neste momento, estão praticamente ao abandono, como é o caso flagrante do estádio do Algarve.
Quem era o ministro da pasta que, na altura, rejubilou com o anúncio da vitória da nossa candidatura à organização do Euro 2004? José Sócrates, actual primeiro-ministro. Exactamente aquele que exibe uma desmedida arrogância e proclama permanentemente rigor e exigência para com os outros, mas nunca para consigo mesmo. É verdade que a exigência e o rigor devem fazer parte da cultura de um povo, mas quem o proclama tem de ser sempre o primeiro exemplo disso mesmo. Contudo, o actual primeiro-ministro nem no passado preencheu nem no presente preenche esse requisito.
Mas este caso foi, apenas, mais um «momento histórico» para o seu já famoso currículo de «momentos históricos».

Ao estado a que eu espero que isto nunca chegue

Se se concretizasse a hipótese absurda, que tem estado a ser alvitrada e incentivada por alguns, de uma certa personagem madeirense ser candidata a primeiro-ministro de Portugal, e se essa personagem vencesse as eleições, nesse dia, e em todos os outros que durasse o seu mandato, eu teria uma profunda vergonha de ser português.

sábado, 26 de abril de 2008

Pensamentos de sábado

«Sou inteligente, mas não intelectual. Não tenho espírito analítico. Leio filosofia porque às vezes me parece bonito. Mas seria incapaz de vos dizer do que se trata.»
Patti Smith (cantora americana), Financial Times.

A sua filosofia de vida: «Coçar onde doer.»
Werner Herzoc (cinesta alemão), The Independente on Sunday.
«Um filme é uma orgia. Um livro é masturbação.»
Oscar Albar (escritor e realizador espanhol), Público.
In Courrier Internacional (Maio 2008).