segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Registos do fim-de-semana

Refer deixou prescrever acção contra empresário
do Face Oculta

— E Manuel Godinho fez saber a Armando Vara que tinha sido ilibado quatro dias antes do acórdão do tribunal ser conhecido —

Casamentos entre homossexuais avançam

Pais querem escolas a decidir sobre crucifixos

Estudantes do superior de novo nas ruas

Jardim encaixa 150 milhões mas Estado pagará 450 milhões

Metade das empresas portuguesas admite cortar salários dos executivos de topo

Refer engana CP nas obras da linha de Évora

Contas da Câmara de Braga omitem dívidas de 55 milhões
Público (6/11/09)

Gripe A — Ninguém sabe onde param as vacinas
i (6/11/09)

Sócrates escutado em conversas com Gama
— Um dos assuntos tratados foi o negócio da TVI —

BCP emprestou 15 milhões a Manuel Godinho
As provas contra Vara e Penedos
Concursos eram manipulados
— Gestores da EDP e da Galp favoreceram líder do grupo empresarial O2
Pagamento de 'luvas' chega ao Fisco e à GNR

Bancada socialista tem dúvidas sobre escolhas de Sócrates

«O PS não perdoa a Manuel Alegre» (Correia de Campos)

Razia anunciada no PS Porto
— Militantes expulsos podem chegar a 150. Presidente da distrital não considera excessivo —

Médico suspenso por assédio sexual
Sol (6/11/09)

Governo deixa cair data do aeroporto...


Auto-estradas a construir já derraparam 111o milhões de euros

Sindicatos acreditam em acordo com Isabel Alçada

Cavaco é o Presidente com menor popularidade de sempre

PGR está analisar conversa de Vara com Sócrates

PJ vai ouvir primo de Sócrates

PS prepara expulsão inédita de perto de 200 militantes

PCP força CGTP a rejeitar convite para conferência

Angolanos são já 30% do mercado de luxo português

Ex-MNE criticam Tratado de Lisboa
Expresso (7/11/09)


Juíz considera empresário de Ovar líder de associação criminosa

Debate no Parlamento — Governo tenta lançar a ponte a Paulo Portas

Ministra da Educação começa negociações com Paulo Portas

Primo de Sócrates vai ser ouvido no caso Freeport

Popularidade de Cavaco Silva abaixo de Portas

Indústrias culturais querem mais protecção, ministério ainda não pensou no assunto

Portugal com menos capacidade para atrair investimento directo estrangeiro
Público (7/11/09)

Armando Vara e José Sócrates: história de uma amizade que ficou demasiado incómoda
— Escutas a Armando Vara e José Sócrates consideradas criminalmente relevantes

Caso Freeport: procuradores do Ministério Público chamam primo direito de José Sócrates a depor
i (7/11/09)

Certidões do Face Oculta estiveram quatro meses paradas na PGR

Estado usa carros apreendidos e cobra despesas de manutenção quando os devolve


PSD, PCP e BE querem impedir instalação obrigatória de chips nas matrículas

CDS-PP alerta para subida de impostos
Público (8/11/09)

domingo, 8 de Novembro de 2009

Pensamentos de domingo

«Sócrates, o negociador? Isso seria como pedir ao Conde Drácula: "A partir de agora, só sumos naturais, se faz favor"».
João Miguel Tavares, Diário de Notícias, in Sábado (8/10/09).

«Para saber como funciona um televisor, temos praticamente de fazer amor com ele.»
Filipe de Edimburgo (aos 88 anos tem dificuldade em manejar um comando a distância), The Times, in Courrier Internacional (Novembro/2009)

«Eu não sou uma cantora pimba.»
Ágata, TV Mais, in Sábado (8/10/09).

Bill Evans

sábado, 7 de Novembro de 2009

Mais uma campanha negra

Depois da campanha negra contra o PS, no processo «Casa Pia», depois da campanha negra contra o PS e contra Sócrates, no caso «Cova da Beira»; depois da campanha negra contra Sócrates, no caso da heterodoxa licenciatura em engenharia; depois da campanha negra contra Sócrates, no caso das assinaturas de projectos de engenharia; depois da campanha negra contra Sócrates, no caso da compra do apartamento no prédio de luxo "Heron Castilho"; depois da campanha negra contra o PS e contra Sócrates, no caso «Freeport»; surge, agora, mais uma campanha negra, que dá pelo nome de «Operação Face Oculta».
Desta vez, e para já, as vítimas da mais recente campanha negra são: António Paulo Costa (director de Relações Institucionais da GALP, gestor, da área do PS); José Contradanças (Administrador da IDD - Indústria de Desmilitarização e Defesa, ex-administrador do Porto de Sines, ligado ao PS); Domingos Paiva Nunes (primo de José Sócrates, administrador da EDP Imobiliário, ex-vereador do urbanismo da Câmara de Sintra, do executivo de Edite Estrela); Lopes Barreira (empresário, fundador da Fundação para a Prevenção da Segurança Rodoviária, criada por Armando Vara, nos anos 90); Paulo Penedos (filho de José Penedos, assessor jurídico de Rui Pedro Soares — membro da Comissão Executiva da PT, por indicação de José Sócrates — e ex-dirigente do PS); José Penedos (presidente da REN, ex-secretário de Estado, ex-administrador da EDP e da GALP); e Armando Vara (vice-presidente do BCP, ex-administrador da CGD, ex-dirigente do PS, ex-secretário de Estado e ministro de António Guterres, amigo pessoal de Sócrates).
Todavia, insatisfeitos com a selecção que fizeram de toda esta gente ligada ao PS, ainda sentiram necessidade de arranjar modo de incluir neste processo o nome daquele que tem sido o mártir-mor de todas as campanhas negras: o secretário-geral do PS, o recém-nomeado primeiro-ministro, José Sócrates.
Penso ter chegado o momento de alguém perguntar à Polícia Judiciária, ao Ministério Público e à Procuradoria-Geral da República se nada mais têm para fazer que não seja andarem a brincar às campanhas negras, e, o que ainda é mais grave, sempre contra os mesmos.

Ao sábado: momento quase filosófico

Acerca do Existencialismo (2)
«Para os filósofos existencialistas, a ansiedade genuína — aquela a que chamam "angústia existencial" porque tem um tom amargo quando se diz — não é um sintoma de patologia para ser tratado com terapia. Não, é uma reacção humana básica às próprias condições da existência humana: a nossa mortalidade, a nossa incapacidade para realizar plenamente o nosso potencial e a ameaça de ausência de significado. [...]
Os existencialistas estão ansiosos para diferenciar entre "ansiedade existencial", como a ansiedade da morte, que sentem que provém da condição humana, e ansiedade neurótica comum, como a ansiedade de Norman:
Norman começou a hiperventilar quando viu o médico.
— Tenho a certeza de que tenho uma doença de fígado.
— Isso é ridículo — disse o médico. — Nunca saberia se tivesse uma doença de fígado. Essa doença não tem quaisquer sintomas.
— Exactamente! — replicou Norman. São precisamente esses os meus sintomas.»
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar..., p. 149.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Fragmenti veneris diei

«Bebeu um gole, olhou de novo o vinho — uma substância perfeita, uma cor que se ia confundindo com o suave calor da tarde, com aquela espécie de música que subia do jardim, dos canteiros de camélias, da sebe que se inclinava sobre o rio, até ali, à sala de onde o velho raramente saía. Voltou-se para ele, então:
"A minha família teve ligações com Angola. Foi há muito tempo, nos anos cinquenta, nos sessenta. Uma irmã casou e foi para Luanda. Voltou derrotada mas nós estamos habituados às derrotas, às políticas e às sentimentais, de modo que outro irmão partiu e voltou há trinta anos, mais ou menos, um retornado como tantos outros. Também derrotado, naturalmente. Esta casa acolheu todos os derrotados da nossa história, salvo erro. Há três anos, esse pobre homem, o preto, apareceu aqui e disse que queria comprar a quinta, as duas quintas, aliás, porque são duas. E começámos a falar, a negociar. Compreenda, senhor Ramos. Sou o último exemplar desta genealogia que vem de outro mundo, um mundo onde os pretos não apareciam com malas de dinheiro para comprar quintas no douro. Viu o meu filho? Um adolescente. se fosse no princípio dos anos setenta havia de viver em Luanda e de ter um descapotável branco ou vermelho para passear senhoras loiras e divorciadas na marginal. Eu conheci Luanda, de passagem. O meu irmão morreu. A minha irmã vive longe de tudo isto. Sou um viúvo velho à beira de nova derrota e fui um filho único que suportou a maluquice de dois irmãos. Nasci velho, senhor Ramos, nasci velho, destinado a conservar o que havia para conservar, enquanto houvesse gente que valesse a pena. De modo que agora admiti vender, vender tudo, vender a quinta, o vinho, a vista para o rio. E levaria daqui para o Porto, ou para Lisboa, os retratos da família, os retratos escondidos nas gavetas — ficaria rico, finalmente, perto dos noventa, a viver num apartamento com uma criada que me mudará a roupa quando eu já não puder, ou que me deixe morrer se eu lhe pedir. Tenho oitenta e quatro, não diga que não parece. O Douro prolongou a minha vida útil para lá do aceitável.»
Francisco José Viegas, O Mar em Casablanca, pp. 96-97.

Mais que oportuno







Os intocáveis

O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Pereira - se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.
Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.
O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: "O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (...)". O "Senhor jornalista" provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.
Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no "no comment" a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca.
Jornal de Notícias, 02/11/2009
Enviado por Ana Joaquim e Moisés Nascimento. Obrigado.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Sempre a mesma hipocrisia política

É cansativo ouvir Sócrates falar. É cansativo e é gerador de indignação e de revolta. Não tenho memória de ter conhecido um chefe de Governo tão politicamente hipócrita.
O que hoje, no Parlamento, Sócrates afirmou sobre a avaliação dos professores foi uma sucessão de falsidades. Três exemplos.
Falsidade 1: «Antes deste modelo, não havia avaliação dos professores.» É factualmente falso. Sócrates sabe que é factualmente falso e, contudo, sem pudor, afirma-o. O sistema de avaliação era mau, mas existia um sistema de avaliação. O sistema de avaliação era mau, mas era melhor e mais sério que o actual sistema, ou seja, era melhor e mais sério que o sistema que ele próprio, Sócrates, impôs.
Para além disso, Sócrates acusa, e fá-lo sem nenhum sinal de vergonha, o Governo PSD/CDS de ter pactuado com a pretensa ausência de avaliação dos professores, quando ele, Sócrates, foi membro de dois Governos em que o sistema de avaliação era rigorosamente o mesmo — o tal que ele diz não ter existido.
Falsidade 2:«Seria irresponsável suspender a avaliação em curso, porque já foram avaliados 48 mil professores, 3% dos quais com a classificação de excelente.» Não haverá acto mais responsável, sério e justo do que suspender a vergonhosa avaliação em curso. Mantê-la é que é irresponsável. É irresponsável manter uma avaliação que assenta na escolha arbitrária dos avaliadores, resultante do vergonhoso concurso para professor titular. É irresponsável manter uma avaliação cujos avaliadores não tiveram, nem têm, nenhuma preparação séria para o exercício dessa função. É irresponsável manter uma avaliação cujos objectivos individuais, que deveriam ser entregues no início do ano lectivo, foram entregues a meio ou mesmo no final do ano lectivo. É irresponsável manter uma avaliação que classifica de excelente o desempenho de um professor com base em apenas duas aulas observadas. É irresponsável manter uma avaliação que foi criada com o único objectivo de poupar dinheiro, sem qualquer preocupação de melhorar o desempenho docente.
Que seriedade, que fiabilidade, que justiça tem esta avaliação? Nenhuma. Nem é fiável, nem é séria, nem é justa. Mantê-la é um acto de irresponsabilidade.
Falsidade 3: «É melhor ter uma má avaliação do que não ter nenhuma.» Não, não é melhor. É pior, é muito pior. Avaliar mal é pior que não avaliar. Avaliar mal significa tirar conclusões erradas sobre o trabalho realizado. Ora se a avaliação tem como objectivo primeiro a permanente melhoria do desempenho, esse desempenho nunca poderá melhorar — pelo contrário, piorará — se a avaliação foi mal feita. Não é possível melhorar o que foi feito, se o diagnóstico sobre o que foi feito estiver errado, se for um diagnóstico deficiente. As indicações que resultam dessa avaliação serão, pois, más indicações, que conduzirão o desempenho futuro por caminhos errados.
Para além disto, do ponto de vista humano, uma avaliação incompetente é uma avaliação que ou gera desânimo ou gera revolta, naqueles que são mal avaliados, e gera, inevitavelmente, conflitualidade, atrito e, acima de tudo, irreparáveis injustiças.

Quinta da Clássica - Modest Mussorgski

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Maioria relativa, minoria absoluta

Todos sabemos que o Partido Socialista tem, no Parlamento, uma maioria relativa, mas também todos sabemos que o mesmo Partido Socialista tem, no mesmo Parlamento, uma minoria absoluta. Todos sabemos não é bem, porque o Governo ainda não percebeu isso. O Governo ainda não percebeu que, se obteve um mandato para governar, esse mandato lhe foi conferido por uma minoria absoluta de portugueses. Isto significa, por outras palavras, que uma maioria absoluta de portugueses avaliou negativamente o que o PS fez em quatro anos e meio de governo e aquilo que prometeu fazer nos próximos quatro.
Isto é um facto, por mais voltas que se dêem. E este facto não é um facto aritmético, é um facto político, é um facto que tem um significado político objectivo que não pode ser desrespeitado. Desrespeitar o que o eleitorado manifestou é desrespeitar a própria democracia.
Mas é o que o Governo está a fazer. O líder do PS e do Governo tem uma concepção muito limitada (o que não é novidade) do que é governar em democracia, do que é a substância do regime democrático. Para Sócrates a democracia começa e acaba no acto eleitoral. Após o acto eleitoral, Sócrates olha para o quadro dos resultados e pergunta:«Quem ficou em primeiro lugar? Fui eu? Então sou eu que governo. Assunto encerrado, daqui a quatro anos voltaremos ao falar.» Se acontece o pormenor de não ter maioria absoluta, também pergunta: «Ninguém quer governar comigo, pois não?»
Das imensas leituras filosóficas que insinua já ter feito, Sócrates não conseguiu retirar nada que vá para além desta lógica. Nem dessas leituras, nem do exercício concreto da governação.
É por isso que Sócrates, quando teve a sua maioria absoluta, sempre fez questão de, publicamente, desvalorizar as manifestações, os protestos, as críticas, e arrogava-se o direito de não dialogar sobre nada nem com ninguém. Não precisava: ele tinha uma maioria absoluta de votos que, do seu ponto de vista, lhe dava automaticamente imunidade absoluta para fazer o que bem entendesse. Porque, para ele, a democracia começa e acaba no acto eleitoral. A dialéctica social não existe, ou, se existe, ela tem, do ponto de vista de Sócrates, o circunscrito significado de um ritual sindical, que as regras da democracia obrigam a tolerar.
Só quando o protesto ultrapassa os limites e coloca em risco a sua estabilidade política, é que, a muito custo e com muito pesar, o líder do PS procura contornar o problema, com o mínimo de estragos possível. Mas tudo o que fez ou faça nesse sentido, não o faz convictamente, não o faz porque considere que os outros podem ter fundadas razões para protestar, não o faz porque considere que é seu dever enquanto governante estar permanentemente atento ao que a realidade social lhe manifesta, não o faz porque considere que as pessoas reais e concretas não podem ser tratadas como números, não o faz porque considere a hipótese de estar errado, fá-lo exclusivamente como instrumento de manutenção do poder.
É por tudo isto que Sócrates, que agora não tem a maioria absoluta, quer comportar-se, na substância, como se a tivesse. As afirmações ontem proferidas por Jorge Lacão, sobre a avaliação docente, revelam a postura de sempre: o mundo inteiro diz que o modelo é medíocre e incompetente, mas o Governo, do alto da sua minoria absoluta, considera que não e que construir um novo modelo de avaliação está fora de questão. A maioria absoluta do Parlamento diz que o modelo tem de ser deitado ao lixo e que é preciso fazer outro (já há propostas), todos os sindicatos dizem o mesmo, outra maioria absoluta, a dos professores, não diz outra coisa, mas o Governo autista e arrogante afirma-se irredutível. E ameaça com uma querela jurídico-constitucional, dizendo claramente: podemos perder o jogo no campo, mas queremos ganhá-lo na secretaria.
A política, para Sócrates, é isto: um jogo de birras.
Sócrates não só governa mal como desprestigia a política.

Às quartas

Cidade Branca

Dorme já, plenamente, a cidade!
O silêncio é de ouro e os homens
todos o procuram de mãos dadas.
Os velhos, de olhos semicerrados,
amparam-se ao bordão da memória;
emudeceram, no solar dos senhores,
o chicote, o ódio sem disfarce.

Dorme já, plenamente, a cidade!
Aproxima-se o dia. As mulheres,
amadas e repousadas, cantam
em seu sono. Abre-se, em concha,
a mão da madrugada. Lábios e rosas.
Amanhã, ao acordar, a cidade renovada
será dos meninos o tempo e a casa.

Casimiro de Brito

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Retratos de Sócrates (8)

«Em muitos casos, [Sócrates] parece ter estado no sítio errado à hora certa, tantas são as alegações de envolvimento pouco transparente, de responsabilidades não assumidas, de ligações pessoais estranhas, de negócios em que pontuam os seus amigos e próximos, enfim, uma série de factores a que o tempo conferiria maior consistência e relevância. [...]
No ano anterior à viragem do milénio, terão sido poucos a partilhar as minhas reticências. A ascensão e brilhantismo sobrepunham-se a quaisquer tipo de dúvidas, críticas e escrutínios. Todavia, as investigações relativas a diversas cartas anónimas, que visaram José Sócrates, faziam o seu caminho, um caminho sempre arriscado e feito na sombra de algumas secretárias de inspectores da PJ que não largavam — e não largam! — o 'osso', tendo pago o preço de não distinguirem entre cidadãos e notáveis. Lá chegarei.
Nesses círculos, a curiosidade e as dúvidas foram crescendo à medida que as investigações ganharam contornos mais nítidos. Porém um novo incidente, certamente menos inflamável e seguramente mais intelectual, viria a tornar ainda mais claro o modus operandi da estrela do "guterrismo", cada vez mais envolta por um manto de fumos da corrupção, nepotismo, tráfico de influências e esbanjamento de recursos públicos. Enfim, mais uma tempestade num caminho político fulgurante [...]
A construção de uma biblioteca municipal na 'sua' Covilhã deu origem a um comportamento do então deputado socialista que me atrevo a classificar como digno de inaugurar uma prática que bem poderia ser apelidada de "socrática". Mas o que se passou? Algo de aparentemente inócuo, mas com um significado importante. A Câmara Municipal da Covilhã atribuiu a construção daquela infra-estrutura local à construtora "Abrantina", em 13 de Junho de 1995. A partir daqui é que a 'porca torce o rabo', pois a decisão não terá agradado ao então deputado socialista. E porquê? Pela simples razão de uns amigos não terem gano a obra. [...]
Sobre a adjudicação da biblioteca, isto é sobre o picante da história nada se soube em tempo real. Somente, sete anos mais tarde, repito, sete anos mais tarde, através de uma escuta revelada pelo jornal "Público", se veio a conhecer a façanha. Depois de tomar conhecimento que a autarquia tinha entregue a obra à construtora "Abrantina", José Sócrates terá telefonado ao seu amigo Álvaro Geraldes Pinto (empresário de Belmonte), com ligações à CEOGA — Construção e Ambiente, SA", empresa que tinha sido preterida, apesar de ter apresentado uma proposta mais baixa. A razão do telefonema foi simples: a promessa de interceder junto da autarquia para inverter a decisão, aconselhando o seu amigo a desistir da reclamação que pretendia intentar. Reclamação? Não! Fala-se para o amigo Jorge Pombo, então Presidente da Câmara da Covilhã. Nada mais simples para quem acredita que é nos bastidores que se resolvem este tipo de assuntos. Em abono do rigor, diga-se que a interferência não resultou, pois a decisão manteve-se, mas ficou vincada a marca de um determinado tipo de actuação.
Só foi possível conhecer este episódio porque Álvaro Geraldes Pinto era dirigente do "GITAP", uma sociedade de estudos e projectos com grande aceitação entre as autarquias socialistas, a qual terá estado na origem da investigação das suspeitas de corrupção relacionadas com a actividade de Luís Monterroso»
Rui Costa Pinto, José Sócrates - o Homem e o Líder, Exclusivo Edições, pp. 47-51.

Bonecos de palavra

Para ampliar, clicar na imagem.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Registos do fim-de-semana

CDS-PP e sindicatos de professores encontram «convergências» no que querem para a avaliação

Vara e Penedos faziam parte da «rede tentacular» desmantelada

Um quarto dos portugueses teme perder em breve o emprego

Manifesto apela à CGTP-IN que se afaste de central comunista

Crise abranda mas Portugal arrisca perder comboio europeu
Público (30/10/09)

«Portugal está a definhar — Nunca vi nada assim: esta década foi historicamente esvaziada : sem garra, sem substância e sem verdade, com tentativas de ilusionismo político, vazia e sem horizontes» (Ernâni Lopes)

«Espero que o Governo não dure a legislatura. A política orçamental não vai ter efeitos importantes no combate à crise. Não vale a pena arruinar as finanças públicas para salvar a economia. Não terá esse efeito.» (Campos e Cunha)

Presidente da REN também é arguido. Armando Vara nas mãos de Vítor Constâncio.

Portas favoreceu alemães
— O contrato dos submarinos ainda não entrara em vigor e o GSC já recebera 197 milhões —

Cada vez mais desiguais

— Queixas por discriminação das mulheres no acesso ao emprego mais do que triplicaram em relação ao ano passado —

Padre de Boticas era igualmente usurário
Sol (30/10/09)

EDP com lucros de 748 milhões

Carvalho da Silva diz que escolha de Valter Lemos é «provocação»

Taxa de desemprego sobe para 9,2 por cento

Perdem-se por dia 100 postos de trabalho no sector da construção

Capucho critica atraso nas transferências para autarquias

Alunos de escola na Graça temem pela segurança devido a obras

Expulsões avançam no PS-Porto

Margarida Moreira deixa a DREN
Público (31/10/09)

Deserto. Há mais de 100 mil casas que não se vendem
i (31/10/09)

Escolas voltam a recusar avaliação

Governo arrisca derrota total na Educação

Banco de Portugal abre inquérito a Armando Vara

PS quer distância de caso que envolve amigo de Sócrates

CMVM investiga 27 crimes de mercado

Ricardo Jorge 'entupido' com testes da gripe A

Grávidas e profissionais de saúde faltam à vacinação

Terroristas irlandeses tinham base no Algarve

Grandes prédios de Lisboa construídos fora da Lei

Auto-estradas: concessões sem visto do TC
Expresso (31/10/09)

Empresas estão a dar menos ao apoio social

PSD organiza audição pública de professores

Suspenso engenheiro da Câmara do Porto suspeito de corrupção
Público (1/11/09)

domingo, 1 de Novembro de 2009

Pensamentos de domingo

«Intuição: o estranho instinto que diz a uma mulher que ela tem razão, tenha ou não tenha razão.»
Anónimo

«A única razão porque as pessoas se perdem nos pensamentos é porque é território desconhecido.»
Paul Fix

«Um povo instruído é um povo infeliz.»
Oliveira Salazar
In José Manuel Veiga, Manual para Cínicos.

McCoy Tyner

sábado, 31 de Outubro de 2009

Ao sábado: momento quase filosófico

Acerca do Existencialismo
Para compreendermos o existencialismo, precisamos de ter alguma noção do que foi o Absolutismo Hegeliano do século XIX, o ponto de vista filosófico segundo o qual a única verdadeira imagem da vida é do exterior a olhar para o interior. [...]
George Wilhelm Friedrich Hegel defendeu que a história é p desenrolar no tempo do "Espírito Absoluto". O espírito de uma era (por exemplo, o conformismo reprimido da década de 50 do século XX) gera a sua própria antítese (o movimento hippie da década de 60) e o choque dos dois cria uma nova síntese (os "hippies plásticos" da década de 70, como os banqueiros de Wall Street com os seus cortes de cabelo à Beatles).
E assim continua indefinidamente, uma dialéctica de tese/antítese/síntese (que se torna nova tese), etc.
Hegel estava convencido de que tinha saído da história e estava a observar "Tudo" de um ponto de vista transcendente. Denominou o seu ponto de vista de Absoluto. E do ponto superior em que se encontrava as coisas paraeciam bastante bem. Guerras? Apenas um movimento da dialéctica. Pestilência? Simplesmente outro movimento. Ansiedade? Não era motivo para preocupação. A dialéctica está em movimento e não se pode fazer nada quanto a isso. [...]
Surge em cena Søren Kierkegaard, o contemporâneo de Hegel, e fica indignado. "Que diferença faz que tudo esteja bem do ponto de vista do Absoluto?", pergunta Søren. Esse não é — nem pode ser — o ponto de vista dos indivíduos existentes. Nessa declaração, nasceu o existencialismo. "Eu não sou Deus", afirmou Søren. "Eu sou um indivíduo. Que importa que tudo seja pacífico visto do alto? Eu estou aqui na ponta finita e estou ansioso. Estou em risco de entrar em desespero. Eu. E que interessa que o universo esteja a avançar inevitavelmente — está a ameaçar passar por cima de mim!"[...]
O filósofo francês do século XX, Jean-Paul Sartre, corrigiu a ideia de Kierkegaard do isolamento assustador de um indivíduo e estendeu as implicações para a liberdade e responsabilidade humanas. Na interpretação de Jean-Paul, "a existência precede a essência», querendo com isto dizer que os seres humanos não têm essência predeterminada da mesma forma que, por exemplo, um cabide tem. Nós somos indeterminados, sempre livres para nos reinventarmos.
Jean-Paul Sartre tinha estrabismo divergente e não era um fulano muito atraente. Portanto, pode ter sido apanhado de surpresa quando o seu colega existencialista, Albert Camus, expandiu a noção de Sartre da liberdade humana ao dizer: "Lamentavelmente, após uma certa idade todos os homens são responsáveis pelo rosto que têm." Curiosamente, Camus era muito parecido com Humphrey Bogart.»
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar..., pp. 143-146.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

A incompetência levada ao limite do inimaginável

O Diário da República publicou, há nove dias (21 de Outubro), uma portaria que é mais um exemplo da inimaginável incompetência do Governo cessante (e, por extensão, do actual, pois o primeiro-ministro é o mesmo e os principais ministros também). Essa portaria, n.º 1317/2009, vem assinada pelo ministro de Estado e das Finanças, Teixeira dos Santos, e pelo secretário de Estado da Educação, Valter Lemos. O primeiro tem a injustificada auréola de muito competente, o segundo tem a justificada auréola de muito incompetente. Ao assinarem o que assinaram, ambos fizeram jus, respectivamente, à injustificação e à justificação das suas auréolas.
Esta portaria veio estabelecer o regime (transitório) de avaliação de desempenho dos professores que, no ano lectivo 2008-2009, exerceram funções nos conselhos executivos, ou nas comissões executivas, ou nas novas direcções das escolas, assim como dos professores que exerceram as funções de director de centro de formação.
O conteúdo desta portaria raia o absurdo. O conteúdo desta portaria revela, pela enésima vez, como somos governados por pessoas que não estão minimamente qualificadas para as funções que exercem.
Vamos por partes.
1. Esta portaria dita as regras para a avaliação do desempenho daqueles professores num ano lectivo específico: 2008-2009. É o desempenho desse ano lectivo que é objecto de avaliação e nada mais. Convém não esquecer isto, na análise que se segue.

2. O sistema de avaliação estabelecido na portaria assenta, exclusivamente, na classificação do que a portaria apelida de elementos curriculares. São eles: habilitações académicas (10%), habilitações profissionais (25%), formação profissional (25%) e experiência profissional (40%).

3. Nas habilitações académicas atribui-se 5 pontos a quem é doutor ou mestre, 4 pontos a quem é licenciado e 3 pontos a quem é bacharel.
a. Primeira aberração: se o que vai ser avaliado é o desempenho de alguém no ano lectivo 2008-2009, que tem isso que ver com a habilitação académica que esse alguém possui? Está a ser avaliado o seu desempenho ou o seu currículo?
b. E mesmo que fosse o currículo a ser avaliado, com que fundamento se pontua do mesmo modo um doutoramento e um mestrado? Têm o mesmo valor académico? Desde quando e para quem? Mais: que fundamento, que seriedade tem diferenciar com um ponto o doutoramento da licenciatura? Para o ministro Teixeira dos Santos e para o ex-secretário de Estado Valter Lemos, doutoramento, mestrado e licenciatura é o tudo o mesmo ou quase o mesmo?

4. Segunda aberração. A segunda aberração é sequência da primeira. Repete o mesmo inconcebível critério de, nas habilitações profissionais, atribuir a mesma pontuação ao doutoramento e ao mestrado em administração escolar ou administração educacional. E continua a diferenciar com um ponto o doutoramento de uma pós-graduação, naquelas áreas. E a diferenciar com dois pontos um doutoramento de qualquer outra formação em administração e gestão.

5. Terceira aberração: para avaliar o desempenho do ano lectivo 2008-2009, o ministro Teixeira dos Santos e o ex-secretário de Estado Valter Lemos consideram justo, adequado e pertinente atribuir 5 pontos a quem tenha mais de seis anos de exercício de funções como membro do órgão de gestão e administração, seguidos ou interpolados; 4 pontos a quem tenha mais de três e até seis anos; e por aí fora. O conceito que o Governo tem de avaliação é isto, é esta aberração: avalia-se o desempenho de um ano lectivo pelo número de anos em que alguém já exerceu essas funções!!! E até pode ter desempenhado essas funções há vinte anos, que não interessa, desde que atinja o número mágico de seis anos, tem a pontuação máxima. Como não interessa igualmente se nesses seis anos desempenhou bem ou mal essas funções, tem na mesma a pontuação máxima.
Estamos a ser governados por pessoas que não só não têm qualificação para o que estão a fazer como não tem pudor em legislar enormidades destas.

6. Quarta aberração. Um outro critério para a atribuição de 5 pontos (pontuação máxima em tudo) é a escola ter tido uma classificação igual ou superior a Bom, no domínio da liderança, na avaliação externa a que tenha sido sujeita. Ora, como, em alguns casos, a avaliação externa recaiu sobre o ano lectivo anterior ao que estava a ser realizada, e no ano lectivo anterior era outro o conselho executivo, quem vai apanhar com os bons ou os maus resultados é quem pode não ter nada que ver com o objecto dessa avaliação, porque, simplesmente, não exercia funções no tempo sobre o qual recaiu a avaliação. Este é o rigor, é a objectividade e a fiabilidade da avaliação que o Governo pratica.

7. Aberração final. Para não ser demasiado longo, há uma última pergunta que é anterior a tudo o que acima foi exposto: é aceitável, é possível, ou é sequer imaginável realizar-se um jogo e depois do jogo concluído serem elaboradas as regras desse jogo?
Isto é possível, isto é imaginável? Esta portaria saiu em 21 de Outubro e estabelece as regras para avaliar o desempenho de um mandato que, na maioria dos casos, terminou no mês de Junho do ano lectivo anterior, isto é, há quatro meses.
Por exemplo, estipula-se, agora, depois do jogo finalizado e depois dos jogadores terem recolhido ao balneário, de terem tomado banho e de terem regressado a suas casas, que se dá 5 pontos a quem frequentou acções de formação com mais de 25 horas, e 4 pontos a quem frequentou acções de formação entre 10 e 25 horas, e por aí fora. Estipula-se, agora, depois do jogo finalizado, que se dá 5 pontos a quem criou cursos profissionais ou CEF e cursos EFA, e 4 pontos a quem criou apenas cursos profissionais ou CEF, e por aí fora. A posteriori informa-se que são estes os itens avaliativos.

Como é possível que nem nas coisas mais elementares haja uma réstia de seriedade? Onde chegámos nós, como país?
Mesmo no Terceiro Mundo, não deve ser fácil encontrar situações destas.

Fragmenti veneris diei

«Eucaliptos e zimbros, cedros, ciprestes, vinhas decepadas ou apenas aguardando a grande nudez do Inverno, giestas adormecidas, e a imagem do rio como um espelho luminoso — havia uma recordação infiel nestas coisas e Jaime Ramos não gostava de sentir pena de si mesmo, não gostava da melancolia. Acendeu uma cigarrilha e abriu um pouco a janela do carro para que o fumo iniciasse a fuga depois da primeira baforada. Muitos anos atrás, vinte talvez, ele percorrera aquelas estradas em busca de um assassino invisível que que matara à beira do rio e abandonara o corpo à podridão do porta-bagagens de um carro. Matar por amor, matar por desfastio, matar para mudar o destino. O seu sentido de justiça tinha-se alterado ao longo da vida e, sobretudo, ao longo da sua vida como polícia — houve assassinos misericordiosos, assassinos justos, por muito que um assassino fosse sempre um assassino, e tivesse de conservar um módico de moral e de disciplina. Os seus casos preferidos terminavam muito antes de desmontar o puzzle desenhado de um homicídio. Sou um biógrafo incompreendido, Isaltino. Interessam-me os desaparecidos que não deixam rasto e que nunca mais saem da lista de desaparecidos. De vez em quando vou lá, a essas listas, escolho um caso, imagino os primeiros passos do inquérito. Imagino as falhas. As peças que não encaixam. Sobretudo o lado de lá. Sou um biógrafo sem sorte. A ironia matou o resto de entusiasmo que havia em mim. Interessam-me as pessoas que não querem ser vistas, as pessoas que preferem a sombra, as que atravessam a noite pelas estradas secundárias. Onde se escondem as pessoas que não querem ser vistas? Interessam-me as pessoas que têm recordações dolorosas e passam em frente e não sucumbem, não choram, não se lamentam, não sofrem à vista dos outros. Interessam-me cada vez mais as pessoas de antigamente, quando havia um sentido de justiça que se resolvia na sombra. Sou um biógrafo preguiçoso, Isaltino.»
Francisco José Viegas, O Mar em Casablanca, pp. 86-87.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Quinta da Clássica - Johannes Brahms

Uma possível celebração e uma enorme improbabilidade

Parece adquirido que o modelo de avaliação de Maria de Lurdes Rodrigues e de José Sócrates vai deixar de existir. Esse facto, só por si, merecerá, da minha parte, uma comemoração especial, independentemente do modelo que venha substituí-lo. E digo independentemente do modelo que aí venha, porque é objectivamente impossível fazer pior.
O dia em que o modelo de avaliação de Maria de Lurdes Rodrigues e de José Sócrates for destruído deve ser celebrado, porque isso significará a destruição do maior monumento à incompetência que, no domínio da Educação, alguma vez foi produzido em Portugal.
O dia em que for anulado o concurso para professor titular e em que se dê por finda a divisão da carreira também deve ser efusivamente celebrado, porque isso significa o fim da arbitrariedade legalizada por Maria de Lurdes Rodrigues e por José Sócrates, e significa que, finalmente, a justiça será reposta.
Quanto ao que virá de novo, nada sei, e penso que, neste momento, ainda ninguém sabe. Desenham-se várias hipóteses, mas falta saber um dado fundamental: o que pretende o Governo fazer. Há sinais contraditórios: o líder parlamentar do PS, Francisco Assis, já afirmou, sem subterfúgios, que o modelo terá que ser substituído, mas não adiantou mais nada — também não podia; por outro lado, as «fugas de informação» para os jornais dão a entender que não será bem assim. Logo veremos.
Há, contudo, dois aspectos que me parecem merecer relevo.
1. Ainda que me custe fazê-lo, porque tenho uma péssima opinião acerca dele, devo reconhecer que Paulo Portas está a defender e a executar uma metodologia de trabalho que acho correcta: «Primeiro ouvir os agentes educativos, depois apresentar os nossos projectos, a seguir conversar com todos os partidos. Parece-nos que há no Parlamento e no país uma maioria a favor de mudar, corrigir e rectificar quer a questão da avaliação, quer o Estatuto da Carreira Docente.»
São palavras avisadas e que revelam sensatez. Sejam os actos à altura das palavras.
Paulo Portas acrescenta: «É possível o Parlamento balizar o que tem de mudar, respeitando a indispensável negociação que terá de se seguir entre o Governo e os representantes dos professores. Se todos estes passos forem seguidos com método e bom espírito, creio que será possível obter a paz no sector».
Quanto à paz no sector, referir-me-ei no ponto a seguir, quanto ao resto, continuo a subscrever.

2. A paz no sector. Se queremos a paz no sector? Queremos. Não queremos outra coisa. Estamos todos mais que fartos destes anos de combate à incompetência, à prepotência e à arrogância de Maria de Lurdes Rodrigues e de José Sócrates. É provável que isto aconteça? Infelizmente, não é provável.
Não é provável por diversas razões. Algumas delas são:
a) o primeiro-ministro é o mesmo;
b) a inexistência de um currículo com um mínimo de garantias, ou, mais especificamente, de uma bibliografia mínima sobre Educação, que a nova ministra tivesse produzido ao longo dos seus 58 anos de idade — compreende-se a omissão, porque, no fundo, Isabel Alçada consumiu o seu tempo a escrever ficção para crianças, mas isso não abona nada acerca das suas competências para as funções que considerou estar capacitada a desempenhar (recordo que o mesmo sucedeu com Maria de Lurdes Rodrigues: nem uma linha tinha escrito sobre Educação, e deu o que deu);
c) os rasgados elogios que a nova ministra da Educação tem feito à política da sua antecessora e às Novas Oportunidades;
d) a, no mínimo, caricata situação que a nova ministra protagonizou: de manhã, declarou não ter sido convidada para nenhum cargo e, à tarde, o seu nome já vigorava na lista de ministros entregue ao presidente da República (ou a senhora faltou à verdade, ou os convites são feitos à pressa e em cima do joelho, e a aceitação dos mesmos também — não sei o que preferir);
d) e o ter aceitado trabalhar com José Sócrates.
Tudo isto não augura nada de bom.
É, então, um dado certo ser impossível haver paz no sector? Não é impossível, mas é muito improvável, pois só existe uma possibilidade.
Essa possibilidade assenta no facto de termos um primeiro-ministro que só na aparência tem convicções, pois que, sempre que a situação se propicia, é capaz de trocar as suas mais inabaláveis convicções por algo que lhe seja mais conveniente, desde que fique assegurado que publicamente não vai ser essa a imagem que prevalecerá (há quatro anos era sua inabalável convicção não subir os impostos, há três anos era sua inabalável convicção de que o novo aeroporto teria de ser na OTA, há quatro anos era sua inabalável convicção fazer um referendo sobre o futuro da União Europeia, há dois anos era sua inabalável convicção de que os resultados dos alunos tinham de contar para a avaliação dos professores, etc.).
Portanto, a paz no sector só será possível se estes dois elementos se aglutinarem: Sócrates considerar, por alguma razão, que isso lhe convém, e se estiver convencido de que, publicamente, a sua imagem não sairá prejudicada.
Mesmo que a improbabilidade aconteça, nunca será, pois, por uma boa razão. Isto significa dizer que, certamente, só existirá paz no sector quando Sócrates for despedido, como Maria de Lurdes Rodrigues já foi.

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Retratos de Sócrates (7)

«Apesar de o processo ainda não ter chegado ao fim, a cereja em cima do bolo viria a ser revelada, obviamente, por José António Cerejo: nem mais nem menos do que a destruição dos arquivos do Ministério do Ambiente em relação a um dos mais espectaculares investimentos públicos no concelho do Fundão.
Este processo teve todos os ingredientes para fazer o mais crédulo dos cidadãos descrer no Estado de direito. E mais: colocou a imagem externa de Portugal nas ruas da amargura. Uma diligência de última hora, em 2003, que consistiu no envio de uma carta rogatória para o Reino Unido, teve um desenvolvimento humilhante para o magistrado titular do processo e para o MP. As autoridades britânicas recusaram um pedido de buscas à HLC Environmental Projects, de Horácio Luís de Carvalho, com sede em Londres. A justificação terá sido a mais óbvia: seis anos depois dos factoss não fazia qualquer sentido desencadear tal diligência. Aliás, toda a informação bancária também já tinha sido destruída, de acordo com os prazos legais. Alguém acredita que um qualquer corruptor continue a ter na sua posse informação comprometedora seis anos depois do início de investigações judiciais?
Os amigos beirões foram, eventualmente, salvos in extremis pela incúria da investigação portuguesa e pela compreensível recusa das autoridades inglesas, porventura pouco habituadas a este tipo de iniciativas que se arrastam no tempo e que mais parecem farsas. [...]
Numa das diversas conversas informais com José Sócrates, sempre disponível para tentar iluminar com a sua opinião uma qualquer conversa, das profissionais às de 'salão', fui surpreendido por uma afirmação que me deixou atónito e curioso. A propósito das relações entre o Estado e os privados, desvalorizou o interesse da investigação jornalística sobre o acordo 'secreto' entre o Estado e António Champalimaud. Foi como uma espécie de aviso, admito que até com contornos de um conselho fraterno. Face à minha determinação, o feedback foi qualquer coisa do tipo:
— "E depois? Está feito, está feito!".
Fiquei desconcertado! Sempre considerei que o tal 'acordo' esteve associado a um dos maiores escândalos do processo de reprivatizações do pós-25 de Abril. Não foi por acaso que esta investigação deu origem ao maior processo judicial de sempre contra jornalistas e órgãos de comunicação social, à época, bem como a constituição de duas comissões parlamentares de inquérito.
A observação ficou gravada na minha memória por representar uma perspectiva muito peculiar dos limites da governação, em particular da gestão dos bens públicos. Ainda que mais tarde tenha vindo a confirmar a amizade entre o governante e dois dos mais próximos do falecido banqueiro, Leonor Beleza e Daniel Proença de Carvalho, o episódio permitiu descortinar uma determinada visão do governante, muito antes dela vir à tona em todo o seu esplendor.»
Rui Costa Pinto, José Sócrates - o Homem e o Líder, Exclusivo Edições, pp. 34-40.

Às quartas

O Carteiro

que queres tu carteiro?
estou longe do mundo
sem dúvida estás equivocado...
já que nada de novo há
que o mundo possa trazer a este fugitivo.
o que era
é ainda o que é costume:
sonhar
ou enterrar
ou evocar
enquanto a gente tem ainda seus festejos
e seus funerais juntando festa com festa
seus olhos desenterrados em suas mentes
outro osso para uma nova fome.
a China ainda tem sua muralha
um mito apagado e um destino em repetição
a Terra tem ainda o seu Sísifo
e uma pedra que não sabe o que quer.

carteiro
sem dúvida estás equivocado...
já que nada é novidade
volta à estrada
já que a estrada tanta vez te trouxe.
e que queremos nós?

Buland al-Haydari
(Trad.: Adalberto Alves)

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Um debate

Em 2 de Outubro, escrevi, neste blogue, um texto intitulado "Movimentos independentes de professores - sempre eles!". Esse texto suscitou 52 comentários e um debate em que intervieram vários leitores. No passado dia 19, publiquei um texto, retirado do blogue de Octávio Gonçalves e da autoria do mesmo, a que dei o título "Gostei de Ler". Este post deu origem, até há pouco, a 54 comentários e à intervenção de mais alguns leitores. No total, intervieram cerca de quinze leitores. Apesar dos textos serem de conteúdos diferentes, o debate que suscitaram foi o mesmo, teve o mesmo pano de fundo: os sindicatos, os movimentos independentes, a crítica aos sindicatos, o Memorando, que política sindical, e aspectos adjacentes.
Já tive oportunidade de agradecer a todos os que participaram nesta prolongada troca de ideias. Volto a fazê-lo, agora na página principal do blogue, não só para realçar a disponibilidade que manifestaram mas também o cuidado que tiveram na procura de um discurso dialogante e não acintoso. Houve, quase sempre, procura de seriedade na argumentação e discutiram-se questões substantivas.
Sou de opinião, já o manifestei várias vezes, que o debate público, por mais crítico que seja, sobre a política sindical não enfraquece os sindicatos. A ausência dessa discussão é que leva ao seu fechamento e à dogmatização.
Julgo, pois, que todos nós, os que participámos neste debate, demos um contributo, ainda que modesto, para que os sindicatos sejam um poucachinho melhores, porque, esse desejo, eu sei que é partilhado por todos.
Penso que a troca de opiniões chegou ao fim ou estará a chegar. Pela minha parte dou-a por concluída — é tempo de tratar do que aí vem e que é, agora, o mais importante.
A todos os que participaram (pela ordem das intervenções), Mário Amoreira, Ana Joaquim, fb, Marrod, Ferreira Monteiro, Luísa Félix, Luís Pedro, Carlos Ribeiro, Virgínia Sá, Moisés Nascimento, Ana Rosa, P. Santos e alguns leitores anónimos, deixo o meu abraço.

Bonecos de palavra

Para ampliar, clicar na imagem.

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Registos do fim-de-semana

Número de multas caiu para metade com a extinção da BT

Director do Colégio Militar garante que punições diminuíram e que há sensibilização

Fernando Ulrich diz que aquilo que se passa na PT "não é bonito"

Autarquia oferece tratamento dentário à população necessitada
Público (23/10/09)

Sócrates aposta tudo na Obras Públicas e pacifica Justiça e Educação

Compra de casas com crédito cai para metade por causa da crise

Jurados estão à espera de receber 16 mil euros
— A decisão do tribunal só pode seguir para recurso depois de se saldar a dívida com os membros do júri —
i (23/10/09)

Arguido do Freeport declara que um responsável político recebeu 750 mil euros

Eleições passadas não há propaganda que resista ao estado comatoso do país
— A culpa é do Governo que iludiu, e também da oposição que desiludiu —

«Espero que o próximo Governo reforce a componente política. A tecnocracia é uma reminiscência do antigo regime» (Francisco Assis)

Costa alarga apoio
— PCP vai ter vice-presidência na Assembleia Municipal —

Professores na expectativa
— Processo de avaliação segue a ritmo lento, à espera das alterações prometidas pelos partidos —
— Oposição quer suspensão da avaliação e fim dos titulares —

Portugal menos livre
— Relatório mostra queda da liberdade de expressão —
Sol (23/10/09)

Novo governo dá prioridade total à avaliação dos profs

Colégio Militar sabia dos maus tratos

Espanha tira água a Portugal

Os maiores problemas que tive foram com a bancada do PS (Franscisco Assis)

Representante da República está farto da Madeira

«O país ficou menos livre com este Governo» (José Manuel Fernandes)

PS e PCP têm acordo em Lisboa
Expresso (24/10/09)

Desemprego disparou depois das férias e atinge 510 mil pessoas

Suicidaram-se 1038 pessoas no ano passado

Novo Governo: sensibilidades do PS foram esquecidas

Narciso desafia Sócrates a pronunciar-se sobre expulsão

Portugal fez muito pouco no combate à corrupção
Público (24/10/09)

domingo, 25 de Outubro de 2009

Pensamentos de domingo

«Ser actor é uma arte que consiste essencialmente em impedir as pessoas de tossir.»
Ralph Richardson

«Mais uma bebida e acabo por ir parar debaixo do anfitrião.»
Dorothy Parker

«Estava tão frio que quase me casei.»
Shelley Winters
In José Manuel Veiga, Manual para Cínicos

John Coltrane

sábado, 24 de Outubro de 2009

Ao sábado: momento quase filosófico

«Já foi dito que o filósofo alemão do século XIX, Arthur Schopenhauer, decobriu o budismo filosoficamente. Como Gautama, o Buda, dois milénios antes, Schopenhauer pensava que toda a vida é sofrimento, luta e frustração e que a única saída é a resignação — a rejeição do desejo e a negação da vontade de viver. O lado positivo é que ambos pensavam que a resignação conduziria à compaixão por todos os seres e à santidade. Como se fosse uma troca. [...]
[Para ambos] a vida é um ciclo constante de frustração e tédio. Quando não temos o que queremos, ficamos frustrados. Quando temos o que queremos, ficamos entediados. E, tanto para Artie como Gautama, a pior frustração ocorre precisamente quando o alívio parece estar ao alcance da pessoa.
Era uma vez um príncipe que, apesar de não ter feito mal, foi enfeitiçado por uma bruxa malvada. A maldição ditou que o príncipe só podia dizer uama palavra por ano. Porém, podia ficar com créditos, por isso, se não falasse num ano, no ano seguinte poderia dizer duas palavras.
Um dia, conheceu uma bela princesa e apaixonou-se loucamente por ela. Decidiu não falar durante dois anos para poder olhá-la e dizer: "Minha querida."
Todavia, no fim dos dois anos também queria dizer-lhe que a amava, por isso decidiu esperar mais três anos, num total de cinco anos de silêncio. No entanto, passados os cinco anos soube que teria de a pedir em casamento, por isso precisaria de esperar mais três anos.
Por fim, quando o oitavo ano de silêncio chegou ao fim, ele ficou compreensivelmente exultante. Levou a princesa para o sítio mais romântico do jardim real, ajoelhou-se diante dela e disse:
— Minha querida, eu amo-te muito. Aceitas casar comigo?
— Desculpe? — replicou a princesa.
É precisamente o tipo de reacção que Schopenhauer teria esperado.»
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar...

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Fragmenti veneris diei

«"Eu sei, chefe. Se as coisas fossem feitas à sua vontade, o mundo estava melhor. Mas as coisas são como são", disse ainda Isaltino, voltando-se para o lago de onde fora retirado o corpo e sobre o qual uma estranha paz tinha descido, como uma neblina arrastada pela tarde. As lareiras acesas. O ruído das árvores. Cães que ladram entre as vinhas, rodeadas de muros em ruínas. Jaime Ramos não gostava do campo. Luzes acesas subitamente nas colinas, entre aldeias escondidas na serra — o bosque do Vidago era o último refúgio para quem queria refugiar-se. A última oportunidade. Reis, príncipes, actores de cinema, jornalistas, políticos transportados em carros negros, antigos, volumosos. Folheara o álbum do hotel, vira os rostos, as cores de fotos que perdiam a cor, alguém saltando para a piscina, uma família vestida para jantar, aguardando que o criado os acompanhe a uma mesa no terraço. Há velas acesas na mesa, uma jarra de flores, outras famílias sentadas a mesas iguais, um criado serve o vinho, Jaime Ramos imagina os ruídos da hora de jantar, uma espécie de murmúrio que não cessa enquanto não passar a hora de jantar, pessoas que se cumprimentam apesar de se conhecerem há pouco. Mas participam todos desse espectáculo, da grandiosidade do hotel, um monumento recuperado dos anos de ouro da velha burguesia do Porto, que gostava de termas, de médicos compreensivos e de bom serviço de piscina. Ou ingleses que reviviam o seu tempo, a memória dos grandes hotéis do passado, escondidos entre bosques, com salas de jogo, sofás, mesas de leitura, conhaque servido todas as noites a uma mesma hora, juntamente com uma caixa de charutos. Casais em lua-de-mel, tomando chá, vestidos para passeios pelos pinhais, a pé ou de bicicleta. Ou casais de idade avançada, a quem o porteiro ajuda a escolher uma mesa voltada para o lago e a quem chama o criado — pedem água mineral, café com leite, informações sobre o tempo de amanhã. Sol todo o dia, diz o criado, com um sorriso amável, o de quem conhece todos os clientes do ano, todos os hóspedes do Verão. E há crianças ruidosas que atravessam o pequeno campo relvado nas traseiras, ou brincam às escondidas entre os cedros à beira do lago.»
Francisco José Viegas, O Mar em Casablanca, p 37.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Retratos de Sócrates (6)

«As inúmeras adjudicações públicas entregues a empresas e empresários amigos ou próximos de José Sócrates — em que até o seu pai, Fernando Pinto de Sousa, foi chamado a intervir profissionalmente — impressionaram pelos montantes envolvidos. Aliás, certamente por uma nova coincidência, António Morais viria ainda mais tarde, em 2005, a ser nomeado por Alberto Costa (Foi ministro da Administração Interna no governo de António Guterres. Esteve envolvido num escândalo de pressões sobre um juiz, em Macau, em 1988), ministro da Justiça, para presidente do Instituto de Gestão Financeira e Patrimonial da Justiça.
Em termos substantivos, António Morais, Ana Morais e Horácio Luís de Carvalho foram acusados dos crimes de corrupção e branqueamento de capitais, mas o processo ainda tem muita 'estrada' para percorrer. [...]
A estratégia de defesa não saiu vencedora, pois em Maio de 2009 os acusados foram pronunciados. Sobrou — e certamente não é despiciendo! — a marcação da primeira audiência de julgamento para 14 de Outubro de 2009, isto é, para depois das eleições legislativas, sendo que o primeiro-ministro é uma das testemunhas chamadas a depor.
A actual situação processual da "Cova da Beira" não evitou o acumular de dúvidas. José António Cerejo, o jornalista que mais investigou o caso, deixou perguntas capitais [cf. "Investigação da Cova da Beira durou 10 anos e deixou muito por explicar", Público, 14/3/09] que ainda ninguém quis ou conseguiu esclarecer:
"Por que razão é que a investigação demorou dez anos?;
Por que é que o antigo motorista Jorge Pombo nunca foi inquirido, apesar de na Averiguação Preventiva ter relatado informalmente à Polícia Judiciária (PJ) factos relevantes, nomeadamente as idas e vindas de várias pessoas envolvidas no caso e conduzidas por ele ao gabinete de José Sócrates e aos escritórios da HLC e de António Morais, todos em Lisboa?;
Por que é que Augusto Teixeira, antigo director delegado da Associação de Municípios da Cova da Beira, que foi o único a votar contra a intenção de adjudicar o aterro à HLC, e que foi presidente da Câmara da Covilhã pelo PS, só foi inquirido formalmente em 2007, já com 85 anos e depois de ser acometido pela doença de Parkinson?;
Por que é que João José Cristóvão, ex-assessor de Pombo, nunca foi inquirido, apesar de ser amplamente referido no decurso da Averiguação Preventiva e ser autor de um documento, datado de Março de 1998 e apreendido no gabinete de Horácio de Carvalho, em que diz que vai ter uma 'reunião com o Sócrates'?;
Foi encontrada alguma explicação para o convite feito à empresa de Morais e às duas empresas de Silvino Alves, todas de Lisboa, para assessorar o concurso?;
Uma peritagem da PJ concluiu, em 2002, que as mudanças de localização do aterro, em 1998, implicaram elevados custos adicionais e beneficiaram sobretudo a HLC. Esses custos foram suportados pela Associação de Municípios da Cova da Beira por decisão do coordenador do projecto escolhido por Sócrates. O assunto foi investigado?
José Sócrates alguma vez foi ouvido no âmbito do processo?;
Foram feitas escutas telefónicas no decurso da investigação?;
Houve pagamentos adiantados à HLC com base em autos de medição de obra falsos?;
A investigação seguiu a pista das numerosas adjudicações do Gabinete de Estudos e Planeamento de Instalações do Ministério da Administração Interna (GEPI), dirigido por Morais, à Conegil e a empresas ligadas a Armando Trindade e Silvino Alves?".
A transcrição do rol de questões impressiona, sobretudo quando ficamos a saber que o governante nem sequer chegou a ser ouvido em sede do processo... E releva uma nova questão: é possível ter alguma confiança num MP que remata assim um processo para as calendas da sua autonomia imperial? A confirmar-se que o procurador-geral da República, Fernando Pinto Monteiro, à data da publicação daquele artigo, não tomou qualquer medida no âmbito processual e/ou disciplinar para apurar responsabilidades internas, a resposta só pode ser não!
José Sócrates saiu ileso de toda esta extraordinária investigação, depois do arquivamento pelo MP de todos os indícios que lhe diziam respeito, mas não se livrou — e não se livra! — do ónus de ter tutelado áreas de actividade — o Ambiente e o Ordenamento do Território — em que se multiplicaram suspeições. E ainda a 'procissão' ia no adro, como se verá a propósito de inúmeros negócios públicos nos últimos quinze anos, magistralmente observados por Helena Matos, em "Os áugures num país de primos" [cf. Público, 5/2/09].»
Rui Costa Pinto, José Sócrates - o Homem e o Líder, Exclusivo Edições, pp. 34-36.

Quinta da Clássica - Joseph Haydn

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

O Manifesto noticiado no sítio do jornal Público


Avaliação tem que ser suspensa já, apelam blogues e movimentos de professores

21.10.2009 - 10:58 Por Clara Viana, C.V.

“Não podemos esperar mais”. O alerta partiu hoje de seis blogues animados por docentes e quatro movimentos independentes de professores, que subscrevem um manifesto em prol da suspensão urgente do modelo de avaliação.
O "ambiente crispado promete agudizar-se" nas escolas
“Independentemente das alternativas que importa construir de forma ponderada, é urgente que a Assembleia da República decida sem demoras parar já com as principais medidas que desestabilizaram a educação, sob pena de arrastar o conflito em cada escola e nas ruas”. No manifesto recorda-se que, “se até lá nada for feito”, as escolas terão, por lei, de fixar o calendário de avaliação docente até ao próximo dia 31. Um cenário que está a agudizar o “ambiente crispado e negativo” nas escolas.
O PCP, o Bloco de Esquerda e os Verdes já entregaram no Parlamento novas propostas com vista à suspensão do modelo de avaliação e ao fim da divisão da carreira entre titulares e não titulares. Conforme o PÚBLICO noticia na sua edição de hoje, a oposição no conjunto deverá apoiar estes objectivos, votando a suspensão num primeiro momento e deixando para depois a apresentação de alternativas tanto ao modelo de avaliação, como ao Estatuto da Carreira Docente, que consignou a divisão entre titulares e não titulares.
Estas medidas "criaram o caos na escola", frisam os subscritores do manifesto, que acrescentam: "A burocracia, a desconfiança e o autoritarismo jogam contra a melhoria das aprendizagens. Quem perde é a escola pública".
O documento é subscrito pelos blogues A Educação do Meu Umbigo, ProfAvaliação, Correntes, (Re)flexões, Outròlhar, O Estado da Educação; e pelos movimentos APEDE, MUP, Promova e MEP. O Promova apelou também hoje às escolas e professores para enviarem emails aos grupos parlamentares do PSD, CDS/PP, BE e PCP, manifestando a sua “expectativa e o empenho em verem revogadas aquelas medidas, com a maior urgência possível”.

MANIFESTO

A escola não pode esperar mais

O actual modelo de avaliação de professores e a divisão arbitrária da carreira em duas categorias criaram o caos nas escolas. A burocracia, a desconfiança e o autoritarismo jogam contra a melhoria das aprendizagens e contra a dedicação total dos professores aos seus alunos. Quem perde é a escola pública de qualidade.

Este ambiente crispado e negativo promete agudizar-se nas próximas semanas. Com efeito, até ao dia 31 de Outubro, se até lá nada for feito, as escolas estão obrigadas por lei a fixar o calendário da avaliação docente para o ano lectivo que agora começou. Pior ainda, sucedem-se os Directores que teimam em recusar avaliar os docentes que não entregaram os objectivos individuais, aumentando a instabilidade e a revolta.

Independentemente das alternativas que importa construir de forma ponderada, é urgente que a Assembleia da República decida sem demoras parar já com as principais medidas que desestabilizaram a Educação, sob pena de arrastar o conflito em cada escola e nas ruas.

Porque a escola não pode esperar mais, os subscritores deste manifesto apelam à Assembleia da República que assuma como uma prioridade pública a suspensão imediata do actual modelo de avaliação de professores, a revogação de todas as penalizações para os que não entregaram os objectivos individuais e o fim da divisão da carreira docente. Sem perder mais tempo.

Não podemos esperar mais. A Educação também não.


Subscrevem

Os blogues: A Educação do Meu Umbigo (Paulo Guinote), ProfAvaliação (Ramiro Marques), Correntes (Paulo Prudêncio), (Re)Flexões (Francisco Santos), Outròólhar (Miguel Pinto), O Estado da Educação e do Resto (Mário Carneiro), O Cartel (Goretti Moreira), Octávio V Gonçalves (Octávio Gonçalves), Educação S. A. (Reitor), Escola do Presente (Safira), Pérola de Cultura (Lelé Batita).

Os movimentos: APEDE (Associação de Professores em Defesa do Ensino), MUP (Movimento Mobilização e Unidade dos Professores), Promova (Movimento de Valorização dos Professores), MEP (Movimento Escola Pública).

Às quartas

Oriente

Este lugar amou perdidamente
Quem o cabo rondou do extremo Sul
E a costa indo seguindo para Oriente
Viu as ilhas azuis do mar azul
............................................................

Viu pérolas safiras e corais
E a grande noite parada e transparente
Viu cidades nações viu passar gente
De leve passo e gestos musicais

Perfumes e tempero descobriu
E danças moduladas por vestidos
Sedosos flutuantes e compridos
E outro nasceu de tudo quanto viu
..........................................................

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Retratos de Sócrates (5)

«A passagem de José Sócrates pela secretaria de Estado do Ambiente, no primeiro governo de António Guterres, ficou marcada por este dossiê polémico ["Caso da Cova da Beira"]. Um processo de adjudicação, dinheiros públicos e comunitários, vários amigos, entre os quais um de "há mais de vinte anos", e uma autarquia socialista estiveram na origem do embaraço, o primeiro de muitos outros.
A investigação do processo arrastou-se ao longo de mais de sete anos. Repito, sete ano e seis meses, para ser mais preciso, pois as investigações só foram concluídas em meados de Outubro de 2006! E por uma razão exógena ao processo. Os desenvolvimentos da investigação só foram conhecidos, publicamente, depois de ter rebentado o escândalo da licenciatura de José Sócrates na "Universidade Independente", em 2007, outro dos casos paradigmáticos que entenebreceram o seu percurso político.
A existência de protagonistas comuns aos dois casos, nomeadamente António Morais (professor universitário que aderiu ao Partido Socialista, em 1991), veio a ser deslindada através de uma notável e persistente investigação de um jornalista (José António Cerejo do matutino "Público"), obrigando a justiça a acelerar o passo. [...]
Entretanto, o processo seguiu os seus trâmites... ou seja, treze anos depois do concurso e de quatro cartas anónimas cheias de detalhes, a justiça ainda não conseguiu inocentar os acusados ou condenar os culpados [...].
As culpas de tal lentidão couberam à PJ e ao MP? Em parte, sim. Mas é preciso não esquecer que não há milagres. A principal polícia de investigação criminal depende do Ministério da Justiça, isto é, depende do poder político, situação que pode, em tese, facilitar ou influenciar o curso das investigações, como veremos mais à frente, com as sucessivas interferências e demissões na sua cúpula.
A conclusão lógica só pode ser uma: os casos de corrupção em que [José Sócrates] esteve, — e está! —, envolvido, directa ou indirectamente, demoraram sempre muito tempo a ser investigados. Na verdade, permaneceram — e permanecem! — numa espécie de limbo durante anos a fio [...].
Os contactos que [José Sócrates] foi fazendo nos mais diversos departamentos de Estado, calma e paulatinamente, podem não o ter favorecido, mas seguramente que lhe poderiam ter permitido estar, permanentemente, muito bem informado. Não é crime ter amigos na justiça, por isso, e até por causa de outros casos, destaco um: Leones Dantas (Procurador-geral adjunto. Esteve envolvido no processo de Teresa Sousa, funcionária da PGR, detida no âmbito do "Caso Albarran"). O ex-chefe de Gabinete do então procurador-geral da República, José Souto Moura, sempre foi referenciado com um dos seus próximos. Será o único? Não. António Luís Santos (Ex-inspector geral do Ambiente) é outro dos magistrados das relações de José Sócrates, desde o tempo em que se cruzaram no Ministério do Ambiente. Terá este magistrado, ou qualquer outro agente judiciário, sido um trunfo para estar sempre um passo à frente dos acontecimentos? [...]
O "Caso Cova da Beira" serve também para encontrar outra coincidência: a 'estrela' do "guterrismo" esteve — e continua a estar! — sempre no 'olho' do furacão. [...]
Rui Costa Pinto, José Sócrates - o Homem e o Líder, Exclusivo Edições, pp. 29-32.

Bonecos de palavra

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segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Registos do fim-de-semana

Oposição quer rever já avaliação de professores
e cálculo das pensões


Implosão do estádio do Euro gera polémica
Público (16/10/09)

1004 edifícios à espera
— Monumentos acabam por ruir antes de chegarem a património nacional —

Eólicas e amortização de dívidas dos consumidores fazem subir electricidade
Sol (16/10/09)

Estado não cobrou €2,3 mil milhões a fabricantes de armas

Emigram de Portugal uma centena de licenciados por mês

Carvalho da Silva combinou encontro com António Costa

Fisco precisa de cobrar €105 milhões por dia para cumprir défice

[PT] De mão dada com o poder político
Expresso (17/10/09)

Estado falhou na fiscalização do negócio dos submarinos

Helena Roseta pede ao Parlamento que revogue negócio do terminal de Alcântara
Público (17/10/09)

«Os meus animais são mais bem tratados que os pobres deste país» [Victor Hugo Cardinali]
i (17/10/09)

Portugal com boa velocidade, mas na cauda da Europa em banda larga

Relatório coloca Portugal entre os países que menos têm feito para combater a fome no mundo
Público(18/10/09)

Gostei de ler

«O papel que Carvalho da Silva tem jogado nos bastidores da política portuguesa parece-me eticamente duvidoso, envolvido que está em combinações mais ou menos secretas, cuja intencionalidade e objectivos são muito pouco transparentes e tendo em conta que dificilmente interpreta o posicionamento maioritário daqueles que representa e o catapultaram a figura pública (certamente com direito a opinar e a decidir enquanto cidadão, mas devendo fazê-lo às claras, sem dissimulações teatrais e sem recurso a meias verdades).
É que as “negociatas” de bastidores com o PS não se restringiram, pelos vistos, à Câmara de Lisboa, pois não foi desmentida a sua intervenção no famigerado “memorando de entendimento”, cozinhado com o ministro Vieira da Silva, com todas as consequências desastrosas que o mesmo teve na prorrogação para lá do admissível da conflitualidade entre professores e ministério da Educação.
O que vale é que, neste caso específico, está tudo para ir às "Silvas", pois os professores e os seus movimentos independentes (e posteriormente a Fenprof, a FNE e o próprio Mário Nogueira) cavaram o "desentendimento" e entornaram o caldinho da "gente controla a coisa".
Tenho para mim que os professores (a ministra da Educação tinha sido afastada e tudo já estaria resolvido se não fosse o “memorando de entendimento”, que sacrificava incompreensivelmente a substância nefasta das medidas ao tempo e à logística da sua implementação), os lisboetas e muitos dirigentes, militantes e simpatizantes do PCP (amputou-se o crescimento do PCP em Lisboa e o seu papel decisivo na Câmara) mereciam muito mais do que esta política subterrânea e obscura de "toupeira", mesmo que com uma ou outra saída a terreiro, nem que mais não seja para tomar um café na Brasileira.
Celebrem os entendimentos que quiserem e transaccionem os apoios ou influências que achem por bem, mas, por favor, façam-no sob luz diurna e não procurem fazer de nós os "burros" da praxe (ou será da praxis?!).
É tempo de os partidos à esquerda do PS saírem da menoridade e da pequenez que a procura da sombra do PS projecta e calcinarem de vez a “muleta” com que alguns (felizmente, não a maioria) dão a sensação de quererem pautar a sua intervenção política.»

domingo, 18 de Outubro de 2009

Pensamentos de domingo

No Teatro Rada aprendi duas coisas: Uma foi que não tinha talento e a outra que isso não tinha importância.»
Alfred Hyde White

«Na Califórnia o lixo não se deita fora — dele fazem séries de televisão.»
Woody Allen

«Temos de dizer a verdade aos nossos amigos, por mais agradável que ela seja.»
Magnus Von Platen
In José Manuel Veiga, Manual para Cínicos

Wayne Shorter

sábado, 17 de Outubro de 2009

Ao sábado: momento quase filosófico

Acerca das Distinções Teológicas (II)

«O subgénero de piadas de sectarismo preferido por todos é, evidentemente, a piada da Contra-Reforma. A colectânea básica de grandes piadas da Contra~Reforma contém sempre a que se segue:
Um homem está em grandes apuros financeiros e reza a Deus para que o salve, permitindo-lhe ganhar a lotaria.
Passam-se dias, depois semanas, e o homem não consegue ganhar um único prémio. Por fim, na miséria, grita para Deus:
— Tu dizes-nos: "Batei e a porta será aberta. Procurai e encontrareis." Estou a ir por água abaixo e ainda não ganhei a lotaria!
Uma voz do alto responde:
— Tens de te encontrar comigo a meio caminho, meu! Compra um bilhete!
Este homem era claramente um protestante que, como Martin Luther, pensava que somos salvos apenas pela graça; que não podemos fazer nada para obter a salvação. Por outro lado, apesar da utilização apta de palavra "meu", neste caso, Deus está a levar água para a Contra-Reforma católica. Na verdade, esta piada pode muito bem ter tido origem no Concílio de Trento, em 1545, onde os bispos decidiram que a salvação surge através de uma combinação de graça e obras, oração e comprar um bilhete.
Uma crença que todas as comunidades religiosas têm em comum é que apenas a sua própria teologia é o caminho mais rápido para o divino.
Um homem chega às portas do céu e São Pedro pergunta-lhe:
— Religião?
— Metodista — responde o homem.
São Pedro olha a lista e diz:
— Vá para a sala vinte e oito, mas não faça barulho quando passar pela sala oito.
Outro homem chega às portas do céu.
— Religião?
— Baptista.
— Vá para a sala dezoito, mas não faça baruljo quando passar pela sala oito.
Um terceiro homem chega às portas.
— Religião?
— Judeu.
— Vá para a sala onze, mas não faça barulho quando passar pela sala oito.
— Até posso compreender que haja salas diferentes para religiões diferentes — diz o homem —, mas porque é que não posso fazer barulho quando passar pela sala oito?
— As Testemunhas de Jeová estão na sala oito — explica São Pedro — e pensam que são os únicos que estão aqui.»
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar...

Rankings

O relevo que a comunicação social dá aos rankings das escolas evidencia bem o estado de superficialidade em que vivemos e a que moda as elites, que têm poder no nosso país, estão vinculadas. A argumentação a favor da elaboração dos rankings é confrangedoramente pobre e deliberadamente falaciosa: 1. os rankings fazem justiça pois premeiam quem tem mérito; 2. os rankings promovem uma salutar competitividade entre as escolas; 3. os rankings incentivam à melhoria das piores classificadas; 4. os rankings informam os pais da qualidade das escolas. Basicamente é isto.
É isto e tudo isto é falso. Contudo, tudo isto passa para a opinião pública como sendo um conjunto de verdades óbvias. Os publicistas destes argumentículos, quando, nesta altura do ano, colocam ou lêem nos jornais estes rankings, vivem o seu momento único de prazer. Cegos por meia dúzia de dogmas ideológicos, julgam ter encontrado nos rankings o Santo Graal, na versão educativa. Pouco importa se aquilo que defendem tem alguma correspondência com a realidade. Fazer esse teste, proceder a esse escrutínio não é pertinente, nem relevante. O mito da competividade, enquanto sagrado motor da evolução, remédio de todos os males e salvador da humanidade, tem de continuar a ser idolatrado custe o que custar, embuste o que embustear. Os dados estão viciados e compara-se o que não tem comparação? Que importa? Vale tudo. Veja-se.
O Colégio Nossa Sra. do Rosário, do Porto, é, pelo segundo ano consecutivo, a primeira escola, a nível nacional, do ranking de alguns jornais. Este colégio particular situa-se na Avenida da Boavista, numa área dominada por famílias de nível sócio-económico elevado. A maioria dos alunos que frequentam aquele colégio é oriunda dessas famílias.
A Escola Básica e Secundária do Cerco, do Porto, está entre as vinte piores escolas, a nível nacional, no ranking de alguns jornais. Esta escola pública situa-se na zona do bairro do Cerco, junto à Estrada da Circunvalação. É um bairro de habitação social, já famoso pelas piores razões. A maioria dos alunos que frequentam aquela escola é oriunda de famílias de nível sócio-económico muito baixo, muitas delas desestruturadas e outras atingidas pela toxicodependência e pelo crime.
São estas realidades que são comparadas nos famosos rankings das escolas, como se fossem realidades que se pudessem comparar.
Esta comparação ilucida-nos alguma coisa quanto à qualidade de uma e outra escola? Ilucida-nos nada. Ilucida-nos alguma coisa quanto ao mérito do trabalho desenvolvido em cada uma das escolas? Ilucida-nos nada. Esta comparação é credível? Não é. Esta comparação é séria? Não é. Quem faz estes rankings sabe que isto não é credível nem é sério? Sabe.
Sabe e continua a fazê-lo, ano após ano, vergonhosamente.
Vergonhosamente, porque estes rankings mentem acerca das realidades escolares e enganam os pais dos alunos.
As nossas elites sempre foram, salvo raras excepções, medíocres. E as elites que dominam os nossos jornais não fogem à regra. Alimentam e alimentam-se do mito da competitividade e do mito da redução da realidade a números, a fórmulas, a classificações, ou, se se preferir, a folhas de Excel. As cabeças que vêem na folha de Excel a sua máxima realização intelectual são as cabeças da moda. Formatadas na superficialidade querem fazer das suas limitações as limitações do país.

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Fragmenti veneris diei

«Mas ele, Ramos, não era um homem tranquilo. Inquietavam-no as certezas absolutas mas não sabia como contrariá-las. Aos vinte e um anos uma certeza absoluta é a coisa mais invejável que se pode ter, tal como a superioridade moral, uma camisa sem nódoas, o cabelo penteado, os vincos das calças, uma voz grossa, de tenor. Ele não sabia o que era uma voz de tenor, ligeiramente rouca, nunca tinha ouvido ópera, mas seria de um tenor que fumava Kart, os cigarros que dão quilómetros de prazer. Fontoura nunca repetia o prato às refeições, nunca tomava mais de um café, não ficava acordado até tarde. Jaime Ramos invejava essa disciplina, os sapatos engraxados para os domingos de dispensa de serviço, o pente escondido no bolso de trás das calças, os livros arrumados junto da cama, a caneta Bic Laranja no bolso da camisa branca, a escova de dentes limpa, a superioridade de um homem que raramente bebia mais de duas cervejas e que tinha um ascendente desconhecido sobre os milicianos que chegavam à Guiné para visitar uma guerra de que desconfiavam. Fontoura não desconfiava da guerra. Ao contrário de Ramos, que caíra em combate e passara um mês de baixa, primeiro no hospital, depois arrastando-se pelas duas esplanadas do centro de Bissau, Fontoura era um homem determinado com um horário preciso para as suas tarefas do dia-a-dia: escrever cartas, ler, sentar-se ao canto da parada, no quartel, observando como chegava até ali a luz do crepúsculo. Ele via-o, sentado, ao canto da parada — uma estátua, um perfil iluminado pela luz do crepúsculo, silencioso e superior diante dos seus vinte e um anos e daquela surdez prematura de que só despertava aos domingos, para escutar relatos de futebol na rádio.»
Francisco José Viegas, O Mar em Casablanca, pp. 71-72.

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

A publicidade e a realidade

Um estudo, hoje divulgado no jornal i, revela que cerca de 30% dos alunos do 3.º ciclo corre o risco de reprovar.
O mesmo jornal divulga as conclusões do último relatório do Observatório Permanente da Justiça, que, segundo o i, arrasam a justiça portuguesa (da reforma penal à formação dos magistrados).
O jornal Público, por sua vez, titula, na primeira página, que o investimento público ficou longe das metas anunciadas pelo Governo.
São três notícias que revelam uma realidade oposta àquela que é engendrada pelo primeiro-ministro. Entre aquilo que o Governo publicita e aquilo que o país é vai sempre uma distância enorme.
Sempre.

Quinta da Clássica - Gustav Mahler

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Às quartas

Guitarra

Começa o choro
da guitarra.
Partem-se as copas
da madrugada.
Começa o choro
da guitarra.
É inútil calá-la.
É impossível
calá-la.
Chora monótona
como chora a água,
como chora o vento
sobre a nevada.
É impossível
calá-la.
Chora por coisas
distantes.
Areia quente do Sul
pedindo camélias brancas.
Chora a flecha sem alvo,
a tarde sem manhã,
e o primeiro pássaro morto
nas ramadas.
Oh, guitarra!
Coração malferido
por cinco espadas.

Frederico Garcia Lorca
(Trad.: Eugénio de Andrade)

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Bonecos de palavra

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segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Retratos de Sócrates (4)

«Hoje, ainda não sei quem inventou e enviou a carta anónima. Até posso desconfiar, mas não o posso provar. Assim, e para estabelecer um padrão de coincidências, limito-me a descrever duas que me levaram a ter suspeitas, puramente lógicas, em que o papel principal foi desempenhado por Maria Rui Fonseca, então minha amiga pessoal e assessora de José Sócrates.
A primeira coincidência ocorreu a seguir ao incidente telefónico com o então ministro adjunto. Fui convidado para jantar no "Alcântara Café". Considerei o gesto normal, tanto mais que os contactos com a assessora eram regulares. A conversa decorreu calma e agradavelmente, apesar do tema de fundo versar a própria notícia sobre a "Cova da Beira", cuja publicação o 'patrão' tinha evitado no último minuto. [...] O que me espantou, e me colocou de sobreaviso, foi o facto da então assessora ter deixado cair uma frase enigmática: " Quando fores alvo de uma carta anónima é que vais sentir como elas doem». Fiquei atónito, mas desvalorizei o assunto, pois nunca me passou pela cabeça que tal suposição se viesse a revelar tão certeira.
Uns dias depois lá chegou a tal carta anónima. Confesso que fiquei siderado! Não pelas insinuações alarves, mas pela sequência dos acontecimentos.
A segunda coincidência ainda foi mais elucidativa: o gabinete do então ministro adjunto também tinha recebido um exemplar da carta anónima, contudo as pessoas com quem falava regularmente nunca me alertaram.»
Rui Costa Pinto, José Sócrates - o Homem e o Líder, Exclusivo Edições, pp. 25-26.

Registos do fim-de-semana

Educação é primeiro teste à nova maioria

"Ajudei a pagar a hospitalização de Salazar" (José Hermano Saraiva)

Cravinho e Soares lançam Guterres para Belém

Ferro perde recurso na Casa Pia
Sol (9/10/09)

Carvalho da Silva dá passo de afastamento do PCP

Ferreira Leite recusa "ajuda envergonhada" a Sócrates

Médico critica violência verbal usada no combate político
Público (9/10/09)

Parlamento abre com a vingança dos professores

Por que razão continuam a votar em suspeitos?

Eurodeputados gastam mais 30 milhões em despesas
Expresso (9/10/09)

Caso TVI discutido em Bruxelas

PS sem apoios para formar governo
i (9/10/09)


Erro no recenseamento obriga milhares de eleitores a votar fora das suas freguesias

Há alunos que têm aulas em estádios, igrejas e quartéis

Praias algarvias fecham no final do mês,
apesar de se promover sol e praia todo o ano

Público (11/10/09)

domingo, 11 de Outubro de 2009

Pensamentos de domingo

«Os leões não são perigosos pois não têm ideais, nem religião, nem credo político, nem cavalheirismo ou preocupações de linhagem. Em suma, não há motivos para que eles destruam qualquer coisa que não queiram comer.»
Bernard Shaw

«Perguntar a um escritor o que ele pensa dos críticos é o mesmo que perguntar a um poste o que pensa dos cães.»
Cristopher Hampton

«Eu tenho a maior confiança na sua indiscrição.»
Sidney Smith
In José Manuel Veiga, Manual para Cínicos

Joe Henderson

sábado, 10 de Outubro de 2009

Ao sábado: momento quase filosófico

Acerca das Distinções Teológicas
Segundo o filósofo e teólogo do século XX, Paul Tillich, a diferença entre filosofia da religião e teologia [...] [assenta no seguinte:] o filósofo busca a verdade acerca de Deus e das coisas divinas o mais objectivamente possível, ao passo que o teólogo está "agarrado pela fé" e comprometido e empenhado. Dito de outra forma, o filósofo da religião olha para Deus e para a religião do exterior enquanto o teólogo olha para eles do interior.
Na teologia, os cismas surgiram devido a questões tão prementes como "O Espírito procede do Pai ou do Pai e do Filho?". O leigo necessita claramente de um guia simples para as diferenças teológicas e, graças a Deus, os comediantes estão sempre dispostos a fazer-lhe a vontade. Afinal, a chave para determinar a persuasão religiosa de uma pessoa é quem ela reconhece ou não reconhece:
Os judeus não reconhecem Jesus.
Os protestantes não reconhecem o papa.

Os baptistas não se reconhecem uns aos outros numa loja de bebidas alcoólicas.

Este último ponto traduz-se num conselho muito prático. Se forem à pesca, não convidem um baptista; ele beberá a cerveja toda. Porém, se convidarem dois baptistas, terão a cerveja toda para vocês. [...]
Mas falando a sério, amigos, existem diferenças doutrinais importantes entre as comunidades religiosas. Por exemplo, apenas os católicos acreditam na Imaculada Conceição, a doutrina de que, para poder conceber o Senhor, a própria Maria foi concebida sem a mancha do Pecado Original.
Jesus caminhava pelas ruas quando reparou numa multidão que atirava pedras a uma adúltera.
— Quem nunca pecou que atire a primeira pedra — disse Jesus.

De repente, uma pedra voou pelo ar.
Jesus voltou-se e exclamou:

— Mãe?
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar...

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Fragmenti veneris diei

«Toda a gente conhece Larus. Tinham-me dito que, se eu quisesse compreender a criatividade exuberante dos islandeses, tinha de falar com Larus. [...]
Dizer que Larus tem uma educação eclética é como dizer que Roger Federer leva o ténis na brincadeira. Com os seus quarenta e poucos anos, Larus ganhou a vida como jogador de xadrez, mas também como jornalista, gerente de uma empresa de construção, teólogo e, agora, produtor de música.
— Eu sei — pressentindo a minha incredulidade. — Mas este tipo de currículo é perfeitamente normal na Islândia.
Ter múltiplas identidades (mas não múltiplas personalidades) é, está ele convencido, favorável à felicidade. Esta ideia é contrária à crença que prevalece nos Estados Unidos, e noutros países ocidentais, segundo a qual a especialização é considerada o bem mais precioso. Académicos, médicos e outros profissionais dedicam a vida inteira a aprender mais e mais acerca de menos e menos. Na Islândia, as pessoas aprendem mais e mais acerca de mais e mais.
Peço a Larus que me fale sobre a efervescência criativa que se sente no ar de Reiquiavique. De onde provém — e como é que posso arranjar alguma?
Ele empurra os óculos contra o nariz.
— Inveja
— O que é que tem?
— Não há muita na Islândia.
A falta de inveja de que ele está a falar é ligeiramente diferente daquela que vi na Suíça. Os suíços acabam com a inveja, escondendo as coisas. Os islandeses põem fim à inveja partilhando-as. Os músicos islandeses ajudam-se mutuamente, explica Laarus. Se uma banda precisa de um amplificador ou de uma guitarra solo, há sempre uma outra banda disposta a ajudar, e sem fazer perguntas. Também as ideias circulam livremente, sem serem dificultadas pela inveja, o mais tóxico dos sete pecados mortais. [...]
Esta relativa falta de inveja é um sinal inequívoco de uma Idade de Ouro, comenta Peter Hall. Na passagem que se segue, Hall está a descrever a Paris do virar do século, mas poderia, muito bem, estar a descrever a Reiquiavique do século XXI: "Viviam e trabalhavam em conjunto. Qualquer inovação, qualquer nova tendência, era de imediato conhecida, e poderia ser livremente incorporada no trabalho de qualquer outro." Por outras palavras, os artistas parisienses de 1900 acreditavam no software livre. É o que acontece com os islandeses. É claro que também competem entre si, mas no sentido original da palavra. A raiz da palavra "competir" encontra-se no latim competure, que significa "procurar com".
Muito bem, encontrei mais uma peça do puzzle. Inveja mínima. Mas continuo a achar que me está a escapar qualquer coisa. Como é possível que este país minúsculo produza, per capita, mais artista e escritores do que qualquer outro?
— Isso deve-se ao insucesso — explica Larus, empurrando os óculos com força contra a cana do nariz.
— Insucesso?!
— Sim. Na Islândia, o insucesso não acarreta um estigma. Na verdade, nós, em certa medida, até admiramos os insucessos.
— Admiram os insucessos?! Isso parece... absurdo. Ninguém admira o insucesso.
— Deixe-me colocar a questão de outra forma. Gostamos das pessoas que falham quando elas falham com as melhores intenções. Talvez tenham falhado porque não eram suficientemente implacáveis, por exemplo.
Quanto mais pensava nisto, mais sentido me fazia. Porque, se somos livres de falhar, somos livres de tentar.»
Eric Weiner, A Geografia da Felicidade, Lua de Papel, pp. 190-192.

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

A incompetência não é só na Educação também é nas Finanças

O jornal i noticia hoje que o Estado perde entre 50 a 75% das acções movidas pelos contribuintes. É uma cifra inadmissível.
É inadmissível porque ela significa uma de duas coisas (e nenhuma das possibilidades é aceitável): ou a máquina fiscal é incompetente a calcular os impostos, cobrando deliberadamente por excesso e sem o mínimo de respeito pelo contribuinte, seja ele pessoa individual ou colectiva, provocando o litígio e a justa contestação; ou a máquina fiscal não é incompetente a calcular e a cobrar os impostos, mas é incompetente a defender e a fundamentar as cobranças que faz, e perde indevidamente os processos nos tribunais. Nenhuma das alternativas tem atenuantes.
E quem paga toda esta incompetência é, como não poderia deixar de ser, o contribuinte. Exactamente aquele a quem o Ministério das Finanças procura, segundo os tribunais: ilegalmente, sacar dinheiro.
E responsáveis por isto, há? Quem são? São responsáveis técnicos ou são responsáveis políticos? É pouco crível que haja tanta incompetência técnica no Ministério das Finanças. É mais plausível que as directivas políticas sejam de tal modo obsessivas na procura desenfreada de obter receitas que o critério imposto aos serviços tenha passado a ser: «disparar primeiro e perguntar depois».
Entretanto, nos períodos eleitorais, esta sanha de autoritarismo arbitrário (transversal a quase todos os Ministérios: por exemplo, Educação, Administração Interna, Justiça, Finanças, Agricultura) dá lugar a sorrisos complacentes e a discursos repletos de promessas humanistas e de justiça social.
E como a memória é curta, — tudo o que tenha para além de três meses de existência é esquecido —, lá se consegue chegar aos trinta e tal por cento, no dia da votação.

Quinta da Clássica - Gaetano Donizetti

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

PROmova inicia operação «COMPROMISSO EDUCAÇÃO É PRA VALER»

Num momento político único em que todos os partidos da oposição subscreveram o COMPROMISSO EDUCAÇÃO e vêm reafirmando, publicamente, a vontade de concretizarem as principais reivindicações dos professores através de iniciativas legislativas no Parlamento, onde garantiram uma maioria absoluta, é importante que as escolas/agrupamentos e os professores e educadores façam chegar aos Grupos Parlamentares a expectativa e o empenho em verem revogadas, com a maior urgência possível, a divisão da carreira e a implementação do modelo de avaliação do desempenho em vigor.
Para a obtenção deste efeito, o PROmova desencadeia a partir de hoje a operação "COMPROMISSO EDUCAÇÃO É PRA VALER", disponibilizando textos modelos (meras propostas) e incentivando todos os professores/educadores, sindicatos e movimentos a organizarem subscrições colectivas destes textos, escola a escola, de forma a que os mesmos possam ser remetidos aos Grupos Parlamentares dos partidos da oposição, logo que arranquem os trabalhos parlamentares.
Naquelas escolas/agrupamentos em que não seja possível, por medo, acomodação ou falta de organização/liderança, desencadear a dinâmica que permita aos professores e educadores subscreverem o texto colectivo, estes podem sempre remeter a sua própria posição pessoal, utilizando, para o efeito, o texto relativo à "Posição Individual".
É muito importante que à tomada de posição colectiva ou individual se anexe, para envio, o documento do COMPROMISSO EDUCAÇÃO que aqui é, igualmente, disponibilizado.
Os endereços dos grupos parlamentares são os seguintes:
Grupo Parlamentar PSD: gp_psd@psd.parlamento.pt
Grupo Parlamentar CDS/PP: gp_pp@pp.parlamento.pt
Grupo Parlamentar BE: blocoar@ar.parlamento.pt
Grupo Parlamentar PCP: gp_pcp@pcp.parlamento.pt

As subscrições dos textos podem começar a ser desencadeadas desde já, devendo depois aguardar-se pelo início da nova legislatura e pela tomada de posse dos novos deputados para as mesmas serem enviadas.
Por fim, o PROmova agradece que as escolas/agrupamentos e os professores nos dêem conhecimento dos envios efectuados para o e-mail profsmovimento@gmail.com
Valeu e continua a valer a pena a mobilização de todos, porque o objectivo está quase atingido!...
Clicar aqui para ler e copiar os textos.

Às quartas

Meu Túmulo

No topo da serra distendam minha tumba,
Entre uivos de lobo e sons de folhas de chumbo.

Tormentas de verão e a neve da invernada,
Em trilha isolada que em silêncio me aguarde.


Ponham-me bem alto, como a nuvem e o trono,

Para que não chegue o distante som do sino,

Para que não chegue do arrependimento a voz,

Nem mesmo as rezas e o temor do converso.


E que ela verdeça junto ao tronco espinhoso,

Bem intransponível, vergada sobre o abismo.


E que ninguém possa vir, somente os amigos,

E estes, no regresso, que os seus rastos apaguem.


Ivan Goran Kovacic
(Trad.: Aleksandar Jovanovic)

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Retratos de Sócrates (3)

«Depois da nossa última conversa telefónica, a propósito da investigação da PJ sobre o caso da "Cova da Beira", preparei-me, imediatamente, para uma qualquer diatribe da sua parte ou de um qualquer dos seus apaniguados. O que nunca imaginei, nem no maior dos pesadelos, foi passar por situações que vieram a acontecer posteriormente, que a serem coincidências são absolutamente extraordinárias.
No dia 5 de Março de 1999, sexta-feira, fui avisado telefonicamente, que tinha sido alvo de uma carta anónima. Fiquei estupefacto, mas levei a 'coisa' a brincar. Horas mais tarde, quando cheguei ao 'Indy' [jornal O Independente], ao princípio da tarde, depois de mais um fecho de edição esgotante, fui confrontado com o teor da carta, com data de 4 de Fevereiro de 1999, ou seja, sete dias depois da data da minha última conversa com José Sócrates.
[...] Entre outras calúnias, [a carta] acusava-me de "cobrar 70 contos (350 euros) por cada 'encomenda' em 'O Independente'. É seu habitual cliente, entre outros..., o João Soares". [...]
O que mais me espantou foi o envio da carta para um autêntico mailing de Estado: Alta Autoridade para a Comunicação Social, Ministério da Administração Interna, Presidência da República, Serviço de informações e Segurança (SIS), Polícia de Segurança Pública (PSP), Polícia Judiciária (PJ), Sindicato dos Jornalistas, Redacções ("Capital", "Correio da Manhã", "Diário de Notícias", "Expresso", "Jornal de Notícias", "Público", "RTP", "SIC", "Tal e Qual", "TVI" e "Visão"), Gabinetes de membros do Governo, Direcção do Partido Socialista (PS), Partido Social Democrata (PSD), Centro Democrático Social (CDS/PP) e Partido Comunista Português (PCP). Uma lista que seguramente, não está à mão de um qualquer cidadão.
Ainda tentei identificar o canalha ou a canalha, ou ambos, que tinham escrito e enviado a carta, deslocando-me ao posto dos correios de onde tinha sido expedida, mas aquele balcão ainda não tinha as câmaras de vigilância em funcionamento.»
Rui Costa Pinto, José Sócrates - o Homem e o Líder, Exclusivo Edições, pp. 23-24.

Bonecos de palavra

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segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Registos do fim-de-semana

Portugal sai do buraco em 2010 mas voltará a ser o mau aluno do euro

O PSD admite avançar com uma moção de rejeição do programa de governo.
Se todos apoiarem, o governo cai


Dez empresários acusados de burla nas contrapartidas dos submarinos
i (2/10/09)

Estado português foi burlado em 34 milhões [caso dos submarinos]

Sócrates muda 2/3 do Governo

Câmara de Lisboa salva Benfica
Sol (2/10/09)

Alemães souberam da vitória no negócio dos submarinos 21 dias antes de Portas o decidir

Jaime Gama ganha força entre os socialistas [Presidenciais]

Os autarcas são cada vez mais reféns dos construtores

Pinto da Costa elogiou disponibilidade de Elisa

Só dez por cento da população será vacinada este ano

Inquérito feito em 33 países prova que os portugueses têm mesmo uma auto-estima muito baixa

Fenprof exige do Governo sinal de mudança na avaliação
Público (3/10/09)

Ninguém quer transportar suspeitos de gripe A

O PSD prepara-se para dizer "não" ao programa de Governo
i (3/10/09)

Conseguimos entrar na rede informática do Governo

PS quer obrigar PSD a viabilizar Orçamento

Miúdos transportam cadáveres

PGR acusa procurador por 'esquecer' processos

Sócrates já depôs no processo contra antigo professor

TVI justifica fim do Jornal com Freeport e Casa Pia
— Administrador assume à ERC que quis evitar mais "polémicas" na campanha eleitoral

Médicos recusam vacina por dúvidas sobre a sua segurança
— Países com recusas na ordem dos 50% —

Ainda há alunos sem poder ir às aulas

Estado volta a ajudar RTP
Expresso (4/10/09)

PS e apoiantes de Isaltino aos insultos e empurrões

Sócrates diz que não tem nada a ver com o caso de corrupção do aterro da Cova da Beira
Público (4/10/09)

domingo, 4 de Outubro de 2009

Pensamentos de domingo

«Ele pensou que conseguiria o que queria dando-me jóias e conseguiu mesmo.»
Mae West

«"Habituamo-nos a tudo", disse o marujo quando o padre lhe falou no Inferno.»
Anónimo

«Na Suíça tiveram amor fraterno, quinhentos anos de democracia e paz e o que produziram? O relógio de cuco!»
Orson Wells
In José Manuel Veiga, Manual para Cínicos.

Miles Davis e John Coltrane

sábado, 3 de Outubro de 2009

Ao sábado: momento quase filosófico

Acerca do Deísmo e da Religião Histórica

Se não fossem cépticos, os filósofos do século XVIII tendiam a ser deístas, crentes num Deus-dos-filósofos remoto e impessoal - um Criador mais como uma força do que uma pessoa, mais como um relojoeiro do que um confidente. Os judeus e cristãos tradicionais repudiaram a ideia. Diziam que o seu Deus não era um simples relojoeiro. Era o Senhor da história, presente no Êxodo do Egipto, na caminhada pelo deserto e na colonização da Terra Prometida. Numa palavra, estava disponível - era uma "ajuda muito presente quando havia problemas".
Uma avó judia está a ver o neto a brincar na praia quando se forma uma onda enorme que o arrasta para o mar.
- Por favor, Deus, salva o meu único neto. Imploro-te que o tragas de volta.
E uma grande onda vem para a praia e deixa o menino na areia, de perfeita saúde.
A avó olha para cima e diz:
- Ele tinha um chapéu!»
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar...

sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

Fragmenti veneris diei

«Preciso desesperadamente de uma bebida bem forte. Por razões meramente de pesquisa, como é óbvio. Antes da minha viagem, pessoas que conheciam a Islândia tinham-me dito que para chegar ao âmago da alma islandesa, que para se compreender por que razão estes descendentes dos Vikings são como são, era preciso observá-los no seu estado: embriagados.
Por feliz coincidência, chego num sábado, em pleno decadente fim-de-emana islândes, o qual não deve ser confundido com a sóbria semana islandesa. Os islandeses praticam a indulgência, entre aspas. Acreditam que tudo deve ser feito com moderação, inclusivamente a própria moderação. Durante o fim-de-semana, é perfeitamente aceitável embriagarem-se até atingirem um estado comatoso mas se, a uma terça-feira à noite, bebericarem mais do que um copinho de Chardonnay, ficam logo rotulados de alcoólicos. Os islandeses atribuem esta excentricidade, assim como todos os seus pequenos pecados, à sua herança Viking. Segundo reza a teoria: durante os difíceis anos que já lá vão, as pessoas nunca sabiam quando é que chegava a próxima pescaria ou a próxima colheita de vegetais, por isso, quando tal acontecia, devoravam-nas sofregamente. Como é óbvio, actualmente não existe falta de nada na Islândia, excepto luz solar, mas a velha mentalidade das comezainas ainda subsiste, tal como um apêndice ou um cóccix. Apenas mais divertido.
Na verdade, a melhor explicação para estes excessos de vida dos fins-de-semana foi-me dada por um pinguim com uma queimadura solar. Está bem, não foi um pinguim verdadeiro, mas sim um islandês de nome Magnus que vive em Miami Beach. Quando nos encontrámos para almoçar, veio-me instantaneamente à ideia a figura de um pinguim - imagem essa que tentei, sem sucesso, apagar da minha cabeça, durante as duas horas em que estivemos a comer e a beber no café de uma livraria. Magnus acredita que os islandeses bebem muito porque a população é muito pequena. Vêem as mesmas caras familiares, dia após dia. Quando chegam ao fim-de-semana, precisam de fazer uma pausa, mas sair da Islândia não é fácil. Por isso bebem - imenso - e, subitamente, essas caras familiares parecem-lhes um pouco menos familiares. "O mundo parece-nos um pouco diferente, um pouco menos familiar"»
Eric Weiner, A Geografia da Felicidade, Lua de Papel, pp. 172-173

Movimentos independentes de professores — sempre eles!

Mais uma vez quero elogiar os movimentos independentes de professores, particularmente, a APEDE, o MUP e o PROmova.
Refiro-me às iniciativas que já estão a tomar relativamente ao futuro próximo da luta que temos vindo a travar, em prol da Educação e da defesa da dignidade Docente. Isto é, os movimentos estão, neste momento, a fazer duas coisas essenciais: já recolocaram na comunicação social as exigências dos professores, não permitindo que dois difíceis anos de oposição à incompetência e às arbitrariedades do ME caiam num estranho esquecimento; e já anunciaram que vão solicitar audiências a todos os grupos parlamentares dos partidos que se vincularam ao Compromisso Educação, — e foram todos, com a excepção do PS —, para lhes exigir o cumprimento das promessas assumidas: suspensão imediata do actual modelo de avaliação e alteração do Estatuto da Carreira Docente.
Apesar das enormes dúvidas que tenho quanto à seriedade política da esmagadora maioria dos deputados, ou, por outras palavras, quanto à capacidade de honrarem compromissos, este é o único caminho que tem de ser trilhado por todos nós: não parar, persistir, lutar, lutar, lutar.
Sem logística, sem meios financeiros, sem influências nos corredores dos poderes, os movimentos continuam a fazer mais e melhor que os sindicatos. Como, aliás, sempre tem sido.
Agora, cabe a nós, professores, individual e colectivamente, apoiarmos o trabalho dos movimentos e empenharmo-nos na conquista dos objectivos profissionais que definimos.

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

Retratos de Sócrates (2)

«O político que brilhara ao assumir causas tão urgentes como a "defesa do consumidor" e a "descriminalização das drogas", entre outras, afinal era mais prosaico e vulgar do que eu alguma vez imaginara. É no momento da adversidade que se revela o estofo dos políticos. Face a um pedido de declaração, apenas conseguiu mostrar uma reacção primária, a roçar a chantagem emocional. [...]
José Sócrates nunca deixou por mãos alheias a iniciativa de evitar a publicação de uma notícia. Os telefonemas, as ameaças e as pressões multiplicaram-se até altas horas da madrugada seguinte, depois de lhe ter telefonado. Há mais de dez anos, já era assim.
O resultado foi surpreendente: a notícia foi adiada, apesar de ter chegado a estar planeada e paginada para mais uma manchete. Os protestos que eu e o autor da investigação manifestámos não foram suficientes para inverter aquela péssima decisão editorial. Tinha ganho, momentaneamente, adiando a publicação da notícia. Foi assim que descobri um dos lados negros do "homem" e do "líder": a capacidade de influenciar, quiçá intimidar as chefias editoriais. É um caso único? Com certeza que não. Mas o tempo mostrou que o faz de uma forma única. À luz da actualidade, é caso para dizer, sinceramente, que as pressões sobre os jornalistas já vêm de longe, de muito longe, como poderemos, aliás, atestar através dos inúmeros incidentes que fazem parte do seu curriculum nos últimos dez anos de carreira política e governamental. [...]
Alguns políticos, — não todos —, olham os jornalistas como meras correias de transmissão dos seus grandes pensamentos e feitos. É o caso, indiscutivelmente, de José Sócrates. Com uma auto-estima ímpar e um ego do tamanho do universo, o político "mais promissor do Partido Socialista", como cheguei a classificá-lo, baba-se com as prosas favoráveis e enfurece-se com as notícias e as opiniões negativas. [...]
Os amuos da generalidade dos políticos com os jornalistas são comuns e frequentes. José Sócrates é diferente. Tem a fama de implacável e de vingativo — um político que não esquece!»
Rui Costa Pinto, José Sócrates - o Homem e o Líder, Exclusivo Edições, pp. 18-23.

Quinta da Clássica - Mozart

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Um desabafo

Não sou comentador político nem aspiro a sê-lo. Para além de manifesta incapacidade e absoluta falta de vocação, tenho suficiente desconsideração pela grande maioria dos políticos para consumir tempo a comentar o que eles dizem ou fazem só pelo prazer de comentar ou de me entreter com fait-divers que dominam grande parte da actividade política.
Muito do que escrevo neste blogue faz parte do meu empenhamento cívico e do combate profissional em que decidi empenhar-me, ao verificar, há cerca de três anos, que os limites da decência política estavam a ser largamente ultrapassados por este Governo, juntamente com uma inimaginável incompetência técnica. Todavia, este combate está centrado na defesa de ideias e de valores e as críticas que dirijo a personalidades políticas, e outras, derivam exclusivamente das ideias e dos valores que defendo e das práticas políticas a que me oponho. Mesmo quando falo, e falo várias vezes, de características pessoais, como a arrogância, orgulho, vaidade, etc., de um(a) político(a), faço-o pelas objectivas implicações políticas que essas características pessoais têm (seria, aliás, curioso que se desenvolvessem investigações científicas sobre a relação entre perfis psicológicos e opções políticas — julgo que os resultados seriam curiosos). Não me interessam, pois, os jogos florentinos, os golpes baixos, nem os pântanos em que grande parte dos políticos se afundam.
Isto tudo para dizer que, pelo que acima afirmei, a única coisa que se me oferece observar, relativamente à comunicação ao país ontem apresentada pelo Presidente da República, é a seguinte, e digo-a como um desabafo: já tendo nós um primeiro-ministro medíocre que, lamentavelmente, vai continuar a exercer essas funções por mais algum tempo, é lúgubre verificar que temos um outro órgão de soberania ocupado por alguém que se permite ter um comportamento político inaceitável, à luz de qualquer dos pontos de vista possíveis.
Cavaco Silva desceu ao nível das intrigas palacianas em que os políticos medíocres se comprazem. Meteu os pés pelas mãos, enredou-se em histórias burlescas e revelou uma inesperada irresponsabilidade política. Já sabíamos que andou muito pouco atento aos problemas da Educação, mas não sabíamos que se permitia o direito de alimentar — pelo silêncio que manteve durante semanas, e sem qualquer campanha eleitoral a decorrer — boatos e suspeições da maior gravidade. Se o fez conscientemente, é gravíssimo, pelo que ética e politicamente significa; se o fez inconscientemente, gravíssimo é, pelo que denota de incapacidade para o exercício das suas funções.
E nem me vou referir ao grotesco da parte final da sua comunicação, onde diz: «A segunda interrogação que a publicação do referido e-mail me suscitou foi a seguinte: “será possível alguém do exterior entrar no meu computador e conhecer os meus e-mails? Estará a informação confidencial contida nos computadores da Presidência da República suficientemente protegida?”
Foi para esclarecer esta questão que hoje ouvi várias entidades com responsabilidades na área da segurança. Fiquei a saber que existem vulnerabilidades e pedi que se estudasse a forma de as reduzir.»
Comentar isto seria, provavelmente, ainda mais ridículo do que afirmá-lo.
Tenho uma dúvida que me assalta cada vez mais: não sei se este país apenas está doente, ou se é mesmo doente.

Às quartas

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Alphonsus de Guimaraens

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Retratos de Sócrates (1)

O jornalista Rui Costa Pinto publicou o livro José Sócrates — O Homem e o Líder. Para além da seriedade que este trabalho me parece ter e do seu mais que evidente interesse público, ele revela a coragem do seu autor, por ser capaz de relatar factos e de revelar, de forma inequívoca, características perigosas que em nenhuma circunstância deveriam pertencer a um homem que tem o poder de chefiar o Governo de um país.
A partir de hoje, colocarei vários excertos deste livro no blogue.
«- "E tu acreditas?".
Foi a pergunta que José Sócrates me fez, insistentemente, durante uma longa e tardia conversa que se foi revelando tensa, muito tensa.
Na última semana de Janeiro de 1999, mais precisamente no dia 28, uma quinta-feira, fui incumbido de telefonar ao então ministro adjunto do primeiro-ministro para o confrontar com o resultado de um pré-inquérito da Polícia Judiciária (PJ), a propósito de um negócio de resíduos e lixos. [...]
A reacção ao telefone, que não podia ser um 'off', surpreendeu pelos termos destemperados:
-"Isso é uma tentativa de assassinato político com base numa denúncia anónima! E tua acreditas?", repetiu aos gritos, completamente descontrolado.
Nunca tinha falado com um membro do governo tão agitado e exaltado. Tentei manter a calma. [...]
José Sócrates 'cega' quando é confrontado com algo que não lhe agrada, do assunto mais grave ao mais trivial. Qualquer político, certamente mais experiente, teria desvalorizado a informação, pois estava em causa um documento preliminar que, muitas vezes, nem sequer tem consequências em termos criminais. Optou por outro caminho: a ameaça e o confronto com o 'mensageiro'. [...]
Nem o apelo à razão enfraqueceu a ira do então ministro, que, aliás, ainda teve o atrevimento de manifestar surpresa e desagrado pelo facto de eu não o ter alertado da investigação jornalística, insinuando que eu traíra a "nossa amizade". A nossa amizade? Fiquei estupefacto! Apesar de não ter sido eu a fazer a investigação, o que repeti, até à exaustão, o certo é que tal reivindicação me pareceu abusiva. É tolerável confundir um 'bufo' com um jornalista? Ou baralhar a amizade com relações cordiais, determinadas por razões de ordem profissional? Claro que não. A manobra tinha outro alcance, mas deixara transparecer uma determinada visão instrumental das relações profissionais, em que vale tudo. Confundir a lealdade com outros valores primordiais é um dos traços mais marcantes da sua personalidade que, aliás, se revelará prejudicial no decorrer da carreira política e governamental.»
Rui Costa Pinto, José Sócrates - o Homem e o Líder, Exclusivo Edições, pp. 16-18.
(Continua)

Bonecos de palavra

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segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

E agora?

O PS perdeu a maioria absoluta, mas venceu as eleições.
Porque governou mal foi castigado com a perda de milhares de votos e de muitos deputados, mas não foi suficiente nem justamente castigado.
Neste cenário, é anedótico que Sócrates proclame que teve uma «extraordinária vitória eleitoral». A perda de cerca de 500 mil votos, a perda de mais de vinte deputados e a perda da maioria absoluta serem classificadas como uma «extraordinária vitória eleitoral» diz tudo acerca da honestidade intelectual de quem o afirma.
Lamentavelmente, vai ser este homem que irá chefiar o novo Governo.
Neste contexto, não prevejo nada de bom para o país e, em particular, para a Educação, e tenho especial curiosidade em ver até onde irá a seriedade política dos partidos da oposição que se vincularam ao Compromisso Educação. E todos se vincularam.
Registo com satisfação a derrota da maioria absoluta, mas não tenho motivos para festejar. Vejo que a arrogância e a incompetência se mantêm no poder e que o arauto dessa ignorância e dessa incompetência vai ser reconduzido no cargo.
Relativamente à Educação, tenho apenas uma certeza: vamos ter de lutar muito, mas mesmo muito, para que se vislumbre alguma hipótese de serem minoradas as consequências do desastre nacional, que foi a estadia de Maria de Lurdes Rodrigues no ME.
Mas se é isso que se exige, será isso que faremos.

domingo, 27 de Setembro de 2009

Jon Hassell e Ronu Majumbar

É HOJE!

Já não falta nenhum dia para decidirmos o que temos para decidir. É hoje!
Hoje vamos dizer que decisão tomámos relativamente ao futuro da governação do nosso país: se queremos continuar como estamos ou se não queremos.
Um bom domingo para todos.

sábado, 26 de Setembro de 2009

Falta 1 dia

Falta 1 dia para decidirmos o nosso voto.
Do meu ponto de vista, aquilo que amanhã vai estar, em primeiro lugar, em jogo é a manifestação da nossa rejeição ou do nosso apoio à política do actual Governo e aos políticos que a corporizaram. Mais importante, muito mais importante que dizermos o que queremos é, neste momento, dizermos o que não queremos.
Vou tentar explicar porque penso assim.

1. Há quatros anos e meio, o Partido Socialista venceu as eleições com maioria absoluta. Sabemos que essa vitória foi obtida não por mérito próprio, mas por demérito dos outros. Obteve-a devido ao generalizado sentimento de repulsa em relação a dois factos intimamente ligados: a inesperada fuga de Durão Barroso e o pouco ortodoxo Governo de Santana Lopes. A repugnância que estes dois acontecimentos provocaram nos eleitores conduziu-os a votar maciçamente no PS.
Deste modo, José Sócrates, sem ter feito nada para o merecer, viu cair-lhe no colo uma maioria absoluta, e, de imediato, novamente se juntaram dois factos inéditos e também ligados entre si: a necessidade, sentida por todos, de ser evidenciada uma ruptura clara com a forma e o conteúdo da política santanista e, segundo facto, o perfil psicológico do recém-nomeado primeiro-ministro.

2. Um perfil psicológico que tem caracteres como estes: excessiva vaidade pessoal, excessivo orgulho pessoal, excessiva necessidade de protagonismo, arrogância e autoritarismo. Estes traços de personalidade geram nele, Sócrates, um voluntarismo desmedido e desequilibrado sempre focalizado nas acções que possam satisfazer as solicitações daqueles traços de personalidade.
Um perfil assim produz necessariamente um político caracterizado pela obsessiva preocupação de mostrar que faz, de mostrar que o possível e o impossível está a ser realizado por ele, de mostrar que é um executante incansável e de mostrar que faz o que mais ninguém fez. São ilustrativas desta doentia necessidade as repetidas - repetidas até à exaustão - expressões: «é um momento histórico», «é um recorde», «pela primeira vez», «nunca antes tinha sido alcançado», e outras do género.
Esta é também a razão porque o PS tem contratos com diversas agências de comunicação, cuja missão é zelar pela imagem do Governo e, em particular, pela imagem do primeiro-ministro.
Zelar pela imagem é, desde o início, a primeira, a segunda e a terceira prioridades de Sócrates. (Foi esta obsessão pela imagem que, inicialmente, o levou a escrever, na folha do registo biográfico de deputado, que a sua profissão era engenheiro e as habilitações literárias eram engenharia civil. Para, mais tarde, às escondidas, acrescentar que a profissão, afinal, era de engenheiro técnico e que as habilitações literárias eram somente o bacharelato).
Esta é igualmente a razão pela qual dois verbos da nossa língua foram escolhidos como obrigatórios no discurso político deste Governo: «anunciar» e «mudar». Nunca nenhum Governo anunciou tanto em tão pouco tempo: anunciou, fartou-se de anunciar o mesmo acontecimento repetidamente, como se fosse a primeira vez, e anunciou coisas que nunca realizou. Por outro lado, nunca nenhum Governo falou tanto em «mudar», em «reformar»: um político com aquele perfil psicológico sente a necessidade absoluta de dizer que mudou muitas e diversas coisas, independentemente da mudança ser dirigida para melhor ou para pior. Interessa apenas mudar, mesmo que seja à pressa, mesmo que seja sem preparação e sem rumo, mesmo que seja uma péssima mudança.
Avaliar a «mudança», avaliar as «reformas» é secundário e, para Sócrates, será sempre secundário, o que interessa, exclusivamente, é poder dizer que operou uma mudança.

3. Este perfil completa-se com as características comportamentais do autoritarismo e da arrogância. Alcançado o poder, o autoritarismo torna-se um instrumento imprescindível para mais facilmente poder concretizar as suas obsessões e poder ultrapassar os obstáculos à satisfação das mesmas. Tudo o que seja considerado ou um impedimento ou que revele a verdade do seu carácter é combatido por todos os meios até ser anulado (cf.: afastamento de Eduardo Moniz, afastamento de Moura Guedes, recorrente instauração de processos crime a jornalistas, etc.). Quando o processo de liquidação não é possível, a estratégia altera-se e dá lugar a campanhas de vitimização (caso da licenciatura, caso da assinatura de projectos de engenharia que não eram da sua autoria, caso Freeport).
Deste modo, o autoritarismo e a arrogância constituem dois elementos estruturantes da forma de exercício do poder.

4. As evidentes, e até confrangedoras, limitações filosóficas, culturais e políticas de Sócrates (cf., por exemplo, a entrevista, de cariz mais pessoal e intimista, dada à SIC, durante a campanha eleitoral) constituem a outra dimensão que condiciona e explica a sua acção política. Munido de meia dúzia de chavões, simplistas e superficiais - como qualquer chavão - acerca da vida e da sociedade, parte para a governação obcecado com a sua concretização. Alguns desses chavões são: «meritocracia», «competitividade» e «tecnologização». Sócrates está convencido de que a concretização do que estes conceitos representam resolvem os problemas do país, de qualquer país. Por isso legisla sobre o mérito sem saber como se avalia o mérito, fala de competitividade como um valor em si mesmo e supõe que atirando muita tecnologia para cima dos problemas os resolve. Meia dúzia de ideias simplistas são sempre um fascínio para quem tem o perfil acima descrito. Um fascínio para quem com aquela mentalidade governa e um perigo para quem por ela é governado.

Quando um político é limitado filosófica e culturalmente e possui o perfil descrito torna-se politicamente obsessivo, perde discernimento e prejudica o país. Por vezes, de modo irreversível.
É este modelo de político e este modelo de governação que amanhã vai a votos. É isto que, na minha opinião, amanhã, em primeiro lugar, vai ser votado.
Amanhã, em primeiro lugar, iremos dizer se queremos ou não queremos continuar a ser assim governados.

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Fragmenti veneris diei

«De volta a Genebra, Susan apresenta-me a Jalil, um jovem suíço que faz parte de uma banda. Estamos a beber vinho. O inglês dele é um pouco macarrónico, pelo que a namorada, uma americana loura agridoce do Minnesota, faz de tradutora-intérprete. Chama-se Anna. É doce quando está sóbria, mas quando bebe - que me parece ser com alguma frequência -, emerge dela uma mordacidade crua.
- Por que razão são tão felizes os suíços?
- Porque sabemos que temos sempre a possibilidade de nos matarmos -, diz com uma gargalhada, mas não está a brincar. A Suíça tem uma das leis mais liberais sobre a eutanásia. Há pessoas de toda a parte da Europa que aqui vêm morrer.
A singularidade de tudo isto é evidente: na Suíça, é ilegal puxar o autoclismo depois das 22 horas ou cortar a relva ao domingo, mas é perfeitamente legal pormos fim à nossa vida.
[...]
Os suíços têm mais opções do que qualquer outra população do planeta, e não é só no que toca a chocolates. O seu sistema de democracia directa significa que os suíços estão constantemente a votar questões importantes e questões pouco importantes: quer seja a adesão às Nações Unidas, quer seja a proibição do absinto. O suíço médio vota cerca de seis a sete vezes por ano. Os suíços acreditam que qualquer coisa que mereça a pena ser feita deve ser feita com seriedade. E o mesmo se passa com a votação. A determinada altura, os suíços chegaram mesmo a votar o aumento dos seus próprios impostos. Não consigo imaginar os eleitores americanos a fazerem a mesma coisa.»
Eric Weiner, A Geografia da Felicidade, Lua de Papel, pp. 52-60.

Faltam 2 dias

Faltam 2 dias para decidirmos se vamos votar pela continuidade de Sócrates ou pelo seu despedimento com justa causa, sabendo nós que votar em Sócrates é também votar nas Margaridas Moreiras deste país, na iliteracia no cargo de directora-regional, nas buscas policiais às sedes dos sindicatos, na apreensão de carros alegóricos nos desfiles de Carnaval, na confiscação de livros com obras de arte na capa, na cegueira e na brutalidade fiscalizadora da ASAE, e é votar nas centenas de candidatos a tiranetes que nas escolas, nos hospitais, nos tribunais e em toda a administração pública aguardam ansiosamente o sinal verde para assumirem o papel de zelotas do Governo e dos seus desmandos.

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Maioria absoluta?

Os órgãos de comunicação social têm, nos últimos dias, feito eco de sondagens que indicam uma vitória clara do PS, no próximo domingo. A partir daqui, já há até quem comece a falar na possibilidade de nova maioria absoluta.
Três breves comentários:

1.
As empresas de sondagens, se tivessem mais probidade no trabalho que realizam, deveriam, quando anunciam os resultados dos inquéritos que fazem, anexar de modo visível um aviso — do género do que é feito nos maços de tabaco — que dissesse uma coisa semelhante a esta: «Não confie nas sondagens. As sondagens podem enganá-lo, como o enganaram, redondamente, nas eleições europeias.»

2.
Ao mesmo tempo que anunciam que o partido de Sócrates tem cerca de 40% de intenções de voto, essas sondagens dizem existir mais de 30% de eleitores indecisos. Com um nível assim de indecisão, não se entende como há alguém que possa aventurar-se a dizer que o partido A ou B tem esta ou aquela percentagem. Eventualmente teria, se aqueles 30% decidissem não votar em ninguém. Ora, isso ninguém sabe. Portanto, mais recato e contenção seriam aconselháveis, significaria mais seriedade e menos manipulação.

3.
Mas se o absurdo acontecer (absurdo para mim, naturalmente, e para todos aqueles que se recusam a votar neste PS, no PS de Sócrates), isto é, se os portugueses renovarem a maioria absoluta existente, confesso que só não farei as malas e não emigrarei para bem longe porque não tenho essa possibilidade.
Se a tivesse, fá-lo-ia de imediato, e com dois proveitos óbvios:
— a minha saúde mental e emocional seria preservada — durante os próximos quatro anos deixaria de ver e ouvir noticiários e de ler jornais portugueses, viveria na absoluta ignorância política; falaria apenas, por telefone, com familiares e amigos que cá ficassem, ainda que com a condição de não pronunciarem palavras começadas por S, e não viria cá passar férias; o meu cérebro e o meu coração, durante o período da nova legislatura, ficariam, assim, a salvo das bárbaras agressões que nos último quatro anos diariamente sofreram;
— o segundo proveito seria que, emigrando, eu poderia dar um contributo para que Sócrates ficasse a governar apenas para aqueles que gostam mesmo dele, que o apreciam mesmo e nele votam. Aliás, a concretizar-se uma maciça emigração de móbil semelhante ao meu, alcançaríamos um cenário certamente perfeito e justo: Sócrates deixaria de ter a oposição a aborrecê-lo, a incomodá-lo, a importuná-lo, deixaria de ter campanhas negras, ou de outra cor; e aqueles que gostam do PS, que votam PS, que dão tudo pelo PS, ficariam com Sócrates todinho para eles.
Todinho. E só para eles...

Faltam 3 dias

Faltam 3 dias para decidirmos se queremos manter o primeiro-
-ministro de um Governo que, no ano passado, foi co-responsável pela perda de 71 milhões de euros de fundos estruturais da União Europeia. Desta quantia perdida, 64 milhões foram na agricultura, 5 milhões em ajudas regionais e 2 milhões nas pescas. É a perda mais elevada entre todos os países da UE. Mais um «recorde» e mais um «momento histórico» alcançado por Sócrates.
Faltam 3 dias para decidirmos o que queremos fazer a este primeiro-ministro.

Gostei de ler

Viagem a um universo paralelo
«Domingo passado, bem cedinho, tive acesso a um universo paralelo. Lia jornais e blogues, e estava tudo bem. Enfim, pelo menos o costume. Um bocadinho surpreendido pela ferocidade de algumas certezas, mas nada de grave. Pela terceira chávena de café, no entanto, tudo mudou.

Era uma entrevista de um primeiro-ministro, no "Diário de Notícias". Um bravo primeiro-ministro que nunca na sua vida fez qualquer pressão sobre um só jornalista deste planeta ou de outro. Nunca. Um primeiro-ministro que sempre buscou ter uma relação "distante" com a comunicação social. (Ao contrário de quem? De Cavaco Silva, adivinhou.) O primeiro-ministro em questão prepara-se afincadamente para os debates políticos. Não só porque odeia como ninguém o pecado da soberba, como igualmente, mesmo principalmente, porque a "comunicação social moderna" (no tempo dos faraós era diferente) não lhe concede a devida oportunidade para dar conta ao país das suas obras, coisa que os debates finalmente lhe permitem fazer.

Fora das obras resta-lhe pouco tempo para outras atenções. Não faz ideia de quantas pessoas viram os debates em que participou. Não perde um só segundo do seu precioso tempo a pensar em eventuais desventuras da oposição. Desconhece até o nome dos presidentes das maiores empresas. Não lê as entrevistas dos grandes empresários. Só acredita na ciência, em particular a dos "cientistas políticos", que adora. É mesmo, pela distracção, quase uma espécie de Professor Tournesol. Só lhe falta andar de pêndulo na mão, apaixonado pela radiestesia. Desde que a oposição não lhe chame "zuavo", está tudo bem. E detesta, com intenso desprezo, aqueles que vêem "conspirações em todo o lado". (É verdade, juro.) Coerentemente, deixa a "maledicência" aos outros, aos especialistas da infâmia.

Ah, e é amicíssimo da cultura! Só vê, de resto, a RTP 2, porque não tem telenovelas nem concursos. Porque o que lhe interessa é, no fundo, a espiritualidade. Não sendo católico, nem acreditando em milagres - era o que faltava, meu Deus! -, gosta da partilha da espiritualidade. "Partilha", note-se, não o vão tomar por um monge solitário perdido no árido deserto. Isso é que não. Solidário, mas não solitário.

Por pura coincidência, este primeiro-ministro - este santo e impoluto homem, esta fatal maravilha da nossa idade - chama-se, a fazer fé no "Diário de Notícias", exactamente como o deste nosso mundo, José Sócrates. Sim, esse mesmo. Há, de facto, coisas extraordinárias.»
Paulo Tunhas, i (23/9/09)

Quinta da Clássica - Tchaikovsky

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Faltam 4 dias

Faltam 4 dias para decidirmos se queremos premiar um primeiro-ministro que deliberadamente engana os portugueses, quando justifica as «reformas» que fez com o denominado «interesse do país», em detrimento do que classifica de «interesses particulares, ou corporativos». Todavia, Sócrates nem uma vez explicou em que consistia o interesse do país ou o que ganhou o país com essas «reformas». No caso da avaliação dos professores, qual foi o interesse do país? Que ganhou o país em ter um modelo de avaliação incompetente? Que ganhou o país em ter uma ministra em guerra aberta com os professores? Que ganhou o país em assistir a duas gigantescas manifestações de professores e a duas greves com adesões maciças? Que ganhou o país com a instabilidade nunca vista nas escolas? Que ganha o país em ter, neste momento, um sistema de avaliação pior que o anterior, desacreditado e coberto de ridículo? Queremos manter por mais 4 anos um primeiro-ministro assim?

Às quartas

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!), porque não raia

Já na esfera de Lísia a tua aurora?


Da santa redenção é vinda a hora

A esta parte do mundo, que desmaia.

Oh! Venha... Oh! Venha, e trémulo descaia

Despotismo feroz, que nos devora!


Eia! Acode ao moral que, frio e mudo,

Oculta o pátrio amor, torce a vontade,

E em fingir, por temor, empenha estudo.


Movam nossos grilhões tua piedade;

Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, ó Liberdade!


Manuel Maria Barbosa du Bocage

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Faltam 5 dias

Faltam 5 dias para decidirmos se queremos ter durante mais 4 anos um primeiro-ministro que pressiona, persegue e intimida jornalistas. Apesar do Ministério Público ter, obviamente, arquivado a queixa-crime contra o jornalista João Miguel Tavares (porque teve a ousadia de escrever: «Ver José Sócrates apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina»; e por lhe ter aconselhado recato e decoro, em termos morais), Sócrates decidiu pedir a abertura da instrução do processo, dando a entender que quer manter a perseguição ao jornalista.
Temos, assim, um primeiro-ministro que não tem a mínima cultura democrática, um primeiro-ministro que se comporta como um candidato a tiranete, seguindo, certamente, os exemplos de Hugo Chavez e Muammar Kadafi, por quem nutre, respectivamente, pública amizade e notória reverência.

Alternando fases de dramática vitimização com momentos de patológica ferocidade, o primeiro-ministro é cada vez mais um político desequilibrado que, há muito, já perdeu o suporte mínimo de credibilidade. Pode este homem continuar a chefiar o Governo por mais 4 longos anos?

Uma colaboração que denuncia o medo e a falsa avaliação existentes na Função Pública

O texto que se segue tem a sua autoria devidamente identificada. É apresentado de forma anónima pelas razões que o próprio texto apresenta.

O País das estatísticas e do faz-de-conta
«Felizmente que o dia 27 de Setembro está próximo. Nesse dia podemos dizer: sim, quero este governo, com as suas políticas do faz-de-conta, da farsa, das estatísticas, das estatísticas falsas ou: não, não quero, chega de se querer fazer passar por aquilo que não se é, de se fazer passar por Salvador da Pátria.
Nesse dia podemos exercer livremente o direito de voto e dar a saber ao senhor primeiro-ministro que não tivemos felicidade nenhuma com a sua governação, que não podemos continuar com receio de expressar a nossa discordância, que contrariamente ao que diz: a qualidade dos serviços públicos não melhorou, que a alteração de carreiras e vínculos da função pública não premeia os melhores. Que tudo não passa duma falsidade.
Foi principal prioridade deste governo, em nome da justiça, aplicar o celebre SIADAP( Lei nº 26-B/2007 de 28 de Dezembro), que diz, nos seus art.º 1º alínea 2, art.º 45º alínea b) e art.º 46 alínea 1, o seguinte:
«O SIADAP visa contribuir para a melhoria do desempenho e qualidade de serviço da Administração Publica, para a coerência e harmonia da acção dos serviços [...]; Para a melhoria dos resultados obtidos na prossecução de objectivos individuais em articulação com os objectivos da respectiva unidade orgânica […]; O parâmetro «Resultados» decorre da verificação do grau de cumprimento dos objectivos previamente definidos que devem ser redigidos de forma clara e rigorosa […].»

Pura demagogia. Nada disto corresponde à verdade. Vejamos.
Há serviços na Função Publica que traçam os objectivos aos seus funcionários no mês de Setembro e Outubro, para o ano em curso, e o chefe exige do notado a assinatura com a data reportada ao mês de Março.
Onde está a coerência e a harmonia citada no art.º 1º da referida Lei?
Mas não ficamos por aqui. As classificações de serviço também são dadas a conhecer muito além da data estabelecida, e com a exigência daquela ser retroactiva. Nesta situação duas coisas podem acontecer: o funcionário assina e, mesmo que não concorde com a classificação, não pode recorrer, ou, se não assinar, porque não concorda com a nota e porque está a violar a Lei, corre o risco de perseguição.
Isto não são casos abstractos, mas reais. Existem no meu serviço. Eu só não assino publicamente este texto precisamente por causa da asfixia democrática, tão falada ultimamente e que não é assim tão pontual. Já mais colegas, noutras instituições, me disseram que se está a passar o mesmo e sentiram também esse problema.

Outra coisa, não menos curiosa, é o argumento apresentado de não atribuição de relevante aos trabalhadores-estudantes, de forma generalizada.
Mas não é tudo. Contou-me, há algum tempo atrás, uma amiga que trabalha numa Instituição da Segurança Social, que foi repreendida por esclarecer um utente dos trâmites a seguir para resolver um problema causado por aquela Instituição, causada não por um funcionário, mas pela própria funcionalidade do serviço.
Afinal onde está a qualidade dos serviços? O importante não é a qualidade mas sim a quantidade. O nosso governo só se preocupa com as estatísticas.
Nos meus serviços (instituição pública, mas não ligada ao ensino) o sindicato foi impedido de entrar, com o argumento de que a sua presença iria contribuir para o aumento do tempo de espera dos utentes. Argumento “interessante”… Este argumento acaba por cair por terra quando se conclui que os utentes chegam a esperar 3 a 4 horas, porque os funcionários públicos, à semelhança dos professores, correram para as reformas antecipadas (fruto das más politicas de pensões e de carreiras), e não foram substituídos.
Perante tanto atropelo, temos que reflectir que futuro queremos para o nosso país. Se queremos que continue a ser um país onde as estatísticas amordaçam tudo e todos, ou se queremos um país com serviços públicos de qualidade?»

Bonecos de palavra

Para ampliar, clicar na imagem.

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Faltam 6 dias

Faltam 6 dias para decidirmos se queremos continuar a ser governados por um primeiro-ministro cuja acção, no final de 4 anos e meio, suscita esta avaliação: «Nos planos financeiro, económico e ético não me recordo de um período mais decadente, depois do 25 de Abril.» (Medina Carreira, Portugal, Que Futuro?)

Registos do fim-de-semana

Mais de metade dos hospitais estão congestionados
— Estudo conclui que maiores hospitais do SNS são ineficazes e sugere que as reformas do Governo podem não estar a seguir o melhor caminho
Público (18/9/09)

Hospital a meio gás
— Desde que foi entregue ao gestor privado, Hospital de Cascais baixou a produção para metade —

Mais queixas de violação
— Até Agosto a PJ abriu 295 inquéritos, quase tantos como no ano de 2008
Sol (18/9/09)

Tensão Máxima
— Procurador vai finalmente investigar escutas —

Cavaco nomeará chefe de Governo de quem desconfia?
i (19/9/09)

Professores de novo nas ruas contra "PS de Sócrates"

Portugal já tem mais de 500 mil desempregados

Cavaco quer respostas sobre segurança

Dívida dos hospitais do SNS sobe mas prazos descem

«Construir o novo aeroporto, sem dúvida que sim, mas quando for justificado e deve arrancar por módulos. Neste caso [TGV] tenho dúvidas substantivas» (Ernâni Lopes]
Público (19/9/09)

Professores disseram em Lisboa um último «Adeus, Milu»

Presidência fez uma investigação em Belém
— Possível vigilância preocupa Cavaco Silva —

Jovens enfermeiros sem trabalho ao fim de seis meses

Chefes da polícia contra novo estatuto profissional
Público (20/9/09)

domingo, 20 de Setembro de 2009

Movimentos independentes organizaram manifestação de protesto contra 4 anos de política educativa desastrosa

Algumas imagens da manifestação de ontem, a que, mais uma vez, os sindicatos faltaram — apesar de Mário Nogueira, da Fenprof, ter-se comprometido, há três meses, a realizar acções de protesto em Setembro, antes das eleições legislativas.












Faltam 7 dias

Faltam 7 dias para decidirmos se queremos continuar a ser governados por um primeiro-ministro que elevou a dívida pública, esta da exclusiva responsabilidade do Estado, a números alarmantes. O nosso endividamento público era, em 2004, 58,3% do PIB. Em 2008, atingiu os 66,4%! Nos anos em que governou, Sócrates fez sempre crescer a dívida pública a níveis superiores àqueles que herdou do Governo anterior.

Gerry Mulligan

Pensamentos de domingo

«Nunca admirei muito a coragem dos domadores de leões, já que pelo menos enquanto estão dentro da jaula estão livres de serem atacados por outros homens.»
Bernard Shaw

«O golfe é uma forma extraordinariamente cara de jogar ao berlinde.»
G. K. Chesterton

«Através do contacto por computador [internet] encontrei-me com um perfeito "gentleman". Felizmente ainda me restam mais três encontros para fazer.»
Anónima
In José Manuel Veiga, Manual para Cínicos.

sábado, 19 de Setembro de 2009

Faltam 8 dias

Faltam 8 dias para decidirmos se queremos continuar a ser governados por um primeiro-ministro que levou o endividamento do país a um nível nunca visto. A nossa dívida externa era, em 2004, 64% do PIB. Em 2005, primeiro ano do Governo de Sócrates, subiu para 70%. No ano seguinte, cresceu para 81% do PIB. Em 2007, atingiu o valor de 91%! E em 2008, ascendeu a 97% do PIB!! Sócrates é um dos responsáveis pela dívida monstruosa que vamos ter de pagar. Disto, Sócrates não fala na campanha eleitoral.

HOJE É DIA DE NOS MANIFESTARMOS NOVAMENTE

FORAM 4 ANOS DE ATROPELOS À EDUCAÇÃO!

FORAM 4 ANOS DE GUERRA AOS PROFESSORES!

FOI O INQUALIFICÁVEL ESTATUTO DA CARREIRA DOCENTE, FOI O INCOMPETENTE MODELO DE AVALIAÇÃO, FORAM AS INACEITÁVEIS QUOTAS NAS CLASSIFICAÇÕES E NO ACESSO AOS ESCALÕES SUPERIORES, FOI O ARBITRÁRIO CONCURSO PARA PROFESSOR TITULAR, FOI O PERVERSO MODELO DE GESTÃO, FOI O ESTATUTO DO ALUNO, FOI... UMA LISTA SEM FIM!

SÓCRATES DESPEDIU LURDES RODRIGUES PELA TELEVISÃO, MAS NÓS AINDA NOS QUEREMOS DESPEDIR DELA.
VAMOS, HOJE, À 5 DE OUTUBRO, DESPEDIRMO-NOS!


CAVACO SILVA NÃO SOUBE ESTAR À ALTURA DAS SUAS RESPONSABILIDADES E PROMULGOU LEGISLAÇÃO ILEGAL E INCONSTITUCIONAL.
VAMOS, HOJE, A BELÉM, LEMBRAR-LHE ISSO!


SÓCRATES É O PRIMEIRO RESPONSÁVEL PELAS BARBARIDADES POLÍTICAS E TÉCNICAS QUE FORAM COMETIDAS CONTRA OS PROFESSORES.
VAMOS, HOJE, A S. BENTO, DIZER-LHE: SÓCRATES NUNCA MAIS!

Ao sábado: momento quase filosófico

Acerca da Filosofia da Religião
— Crença em Deus III (continuação) —

«O matemático e filósofo francês do século XVII, Blaise Pascal, defendeu que decidir se se acredita ou não em Deus é essencialmente fazer uma aposta. Se optarmos por nos comportarmos como se houvesse um Deus e quando chegarmos ao fim constatarmos que não havia, não há grande problema. Bem, talvez tenhamos perdidos a capacidade de aproveitar plenamente os Sete Pedacos Mortais, mas isso é insignificante quando comparado com a alternativa. Se apostarmos que Deus não existe e, no fim, descobrirmos que existe um Deus, perdemos a Grande Enchilada, a bem-aventurança eterna. Por conseguinte, segundo Pascal, a melhor estratégia é viver como se Deus existisse. Os académicos conhecem isto como a "aposta de Pascal". Para o resto dos comuns mortais, é conhecido como dar uma no cravo e outra na ferradura.
Inspirada nos Pensamentos, de Pascal, uma velhota vai ao banco com uma pasta cheia com cem mil dólares em notas e pede para abrir uma conta. O cauteloso banqueiro pergunta-lhe onde obteve o dinheiro.
— A jogar — explica ela. — Sou muito boa jogadora.
Intrigado, o banqueiro pergunta:
— Que género de apostas faz?
— Oh, de todos os tipos — responde a velhota. — Por exemplo, aposto 25 mil dólares consigo em como ao meio-dia de amanhã terá uma borboleta tatuada na nádega direita.
— Bem, adoraria aceitar essa proposta — diz o banqueiro —, mas não seria honesto ficar com o seu dinheiro devido a uma aposta tão absurda.
— Deixe-me esclarecer uma coisa — diz a mulher. — Se não apostar comigo, terei de procurar outro banco para depositar o meu dinheiro.
— Bem, bem, não seja precipitada — diz o banqueiro. — Eu aceito a aposta.
A mulher regressa no dia seguinte ao meio-dia, com o advogado como testemunha. O banqueiro vira-se, despe as calças e convida os dois a observar que ganhou a aposta.
— Muito bem — diz a mulher —, mas não se importa de se curvar um pouco só para ter a certeza?
O banqueiro faz o que lhe é pedido e a mulher assume a derrota e conta 25 mil dólares em notas da sua pasta.
Entretanto, o advogado está sentado com a cabeça nas mãos.
— O que é que ele tem? — pergunta o banqueiro.
— Oh, não sabe perder — responde ela. — Apostei 100 mil dólares com ele em como, ao meio-dia de hoje, o senhor nos mostraria o rabo no seu gabinete.»
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar...

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Faltam 9 dias

Faltam 9 dias para decidirmos se vamos premiar Sócrates — o primeiro-ministro das reformas falhadas: reforma da Educação; reforma Penal; reforma da Segurança Social; reforma das Forças Armadas; reforma da Função Pública. Todas estas reformas têm um ponto em comum: falharam. Porquê? Porque tinham como objectivo único poupar dinheiro, sem que nada mais interessasse. Porque foram realizadas por ministros política e tecnicamente incompetentes, comandados por um chefe de Governo prisioneiro de um patológico orgulho pessoal.

Amanhã, 19 de Setembro

Fragmenti veneris diei

«Os suíços gostam tanto de regras como os holandeses de marijuana e de prostituição. Em muitas partes da Suíça, não é permitido aparar relva e sacudir tapetes ao domingo. Não se pode estender a roupa na varanda num dia qualquer da semana. Nem se pode puxar o autoclismo depois das dez da noite.
Conheci uma inglesa que estava a viver na Suíça e que repetidas vezes quebrou as regras suíças. Como no dia em que chegou a casa tarde a casa, depois de ter feito um turno tardio, e resolveu partilhar com os colegas umas gargalhadas e umas cervejas. Nada de excessivo, apenas aquela habitual descompressão pós-laboral. No dia seguinte, encontrou um bilhete afixado na porta, que dizia o seguinte: "É favor não rir depois da meia-noite."
[...] Tudo na Suíça é regulamentado, até mesmo a anarquia. Uma vez por ano, no feriado do Primeiro de Maio, os anarquistas partem as montras de algumas lojas, mas isso é feito precisamente à mesma hora. Como ironizou um suíço, numa rara manifestação de humor: "Sim, nós cá temos anarquia. É durante a tarde."
Eric Weiner, A Geografia da Felicidade, Lua de Papel, p. 48.

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

Faltam 10 dias

Faltam 10 dias para decidirmos se devemos premiar quem se comporta assim numa entrevista. Clique na seta do áudio para ouvir, para além das repetidas mentiras relativas à Educação, a grosseria e a má educação de Sócrates, em vários momentos da entrevista a Maria Flor Pedroso, na Antena1(14/09/09).
Faltam 11 dias para decidirmos se queremos ter durante mais 4 anos este político à frente do Governo do nosso país.