segunda-feira, 25 de maio de 2015

Uma plêiade de candidatos

Imagem sem autor identificado.
Jardim, ex-presidente do Governo Regional da Madeira, admitiu recentemente que poderia ser candidato às próximas eleições presidenciais. Não admira, em Portugal, o decoro político não existe. É uma constante da nossa vida colectiva vermos personalidades com um passado político lastimoso apresentarem-se em público com um ar e um discurso notavelmente impolutos. 
Os exemplos são inúmeros. Alguns dos mais recentes.
Sócrates, ex-primeiro-ministro, depois de ter conduzido o país à ruína e à humilhação de pedir ajuda financeira externa, foi viver para Paris e de lá regressou triunfante: reivindicando, protestando, ironizando... E deram-lhe palco. E esse palco foi a televisão pública. Não tivesse sido preso, e ainda hoje o teríamos a ocupar tempo num espaço que é pago por todos nós. 
Teixeira dos Santos, ex-ministro das Finanças de Sócrates, o responsável n.º 2 pela nossa caminhada para a bancarrota, apresenta-se amiúde nos órgãos de comunicação social como o salvador, como aquele que — depois de ter sido durante anos cúmplice de Sócrates e primeiro responsável pela desastrosa política financeira levada a cabo pelo Governo — conseguiu pressionar o seu chefe a pedir o resgate, perante a situação catastrófica do país, que o próprio tinha ajudado a construir. Aparece aqui e acolá como palestrante, como conferencista, como conselheiro... e há quem o convide e há quem se disponibilize para o ouvir. 
Durão Barroso, ex-primeiro-ministro, protagonista de uma escandalosa fuga das responsabilidades que tinha assumido, regressou de semblante vibrante, após dez anos de malfeitorias à Europa e a Portugal, autoconsiderando-se herói e merecedor de medalhas e honrarias. 
Santana Lopes, ex-primeiro-ministro (durante uns meses), modelo de futilidade e de irresponsabilidade política, demitido por cúmulo de casos anedóticos e levianos, vai-se auto-avaliando publicamente como possuído de currículo e de credibilidades suficientes para se candidatar a Presidente da República.
Não admira, pois, que Jardim — figura que, num país minimamente civilizado, teria sido espontaneamente ridicularizado pelos eleitores — se sinta ainda com o à-vontade suficiente para colocar a hipótese de poder vir a ser um candidato presidencial.
Chamem Valentim Loureiro, Pimenta Machado, Vale e Azevedo, Isaltino de Morais, Miguel Relvas, Dias Loureiro, Ricardo Salgado... e ficaremos com uma plêiade de candidatos única e admirável.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Exames Nacionais: encomendas e manipulações

Já tive oportunidade de apresentar, neste blogue, o que penso sobre os múltiplos problemas que envolvem a elaboração, realização, avaliação e classificação de exames nacionais (v. coluna lateral do blogue: «Pastas da Educação — Exames Nacionais - apontamentos»). Trata-se de um assunto sério cuja discussão pública tem sido, lamentavelmente, protagonizada por fanatismos ideológicos ou pela leviandade. 
Contudo, de quando em vez, surge alguém com lucidez a lembrar que, nesta coisa dos exames nacionais, o rei vai mesmo nu. As afirmações do presidente do Conselho Científico do Instituto de Avaliação Educativa, proferidas no passado sábado, são disso um exemplo. Seguem-se excertos dessas afirmações, retiradas do sítio do Público:

«O presidente do Conselho Científico (CC) do Instituto de Avaliação Educativa (Iave), João Paulo Leal, disse [...] que o actual Ministério da Educação e Ciência (MEC) tem feito “a encomenda dos exames nacionais”, [...] com a indicação de que se deve “manter a estabilidade nos resultados” dos alunos “em relação aos anos anteriores, porque socialmente é difícil de explicar que as notas tenham grandes variações”.» 

«Na sua intervenção, Leal [...] explicitou que aquele organismo “tem feito os exames escolhendo os itens de maneira a que se repliquem as notas dos exames dos anos anteriores”.» 

«Na conferência, [João Paulo Leal] deixou claro que se podem promover resultados, em média, mais altos ou mais baixos, alterando, simplesmente, as cotações dos vários itens ou, então, uma ou duas questões em todo o exame. Apontou como exemplo, duas perguntas de gramática muito semelhantes para não especialistas, mas que têm variações de acerto que caem de 12% para 71%, consoante se pede um verbo na negativa ou no condicional. Da mesma forma, a Matemática, indicou duas questões similares podem ter resultados díspares, de 80% ou 40%, conforme a resposta implica um raciocínio ou dois raciocínios articulados, explicou.» 

«“Hoje temos um historial de cinco mil itens a Português, por exemplo. Se quero que haja notas altas é muito fácil. Pego numa ou em duas perguntas, substituo-as por outras, aparentemente semelhantes, e a minha expectativa em relação aos resultados dá um salto de cinco valores”, sublinhou.» 

«Disse, ainda, pensar que “não é segredo para ninguém que as equipas do Iave que realizam os exames fazem uma estimativa de que resultados, em média, cada exame vai ter”: “Com uma diferença de mais ou menos um valor em vinte, acertam em 95% dos casos”, disse, sublinhando que aquelas equipas “conseguem fazer um exame para a nota que querem”.»

domingo, 10 de maio de 2015

Sonny Rollins


Pensamentos



«Seja no que for, temos de ter em conta a finalidade.»
Jean de La Fontaine
«Quem não tem necessidades próprias dificilmente se lembra das alheias.»
Mateo Alemán 
«Todos nós temos talentos diferentes, mas todos nós gostaríamos de ter iguais oportunidades para desenvolver os nossos talentos.»
John Kennedy 
In Paulo Mendes da Silva, Dicionário de Citações, Âncora Editores.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Hoje: greve a mais uma indecência da política de Nuno Crato


Texto do pré-aviso de greve apresentado pelos sindicatos de professores:
GREVE 
Das zero horas do dia 6 de maio de 2015 às 24h00 do dia 22 de maio de 2015  
— A todo o serviço relacionado com a realização das sessões da parte oral e da parte escrita do exame da Cambridge “Preliminary English Test (PET)”— 

ASPL, FENPROF, SEPLEU, SINAPE, SIPE, SIPPEB e SPLIU, ao abrigo do artigo 57.º da Constituição da República Portuguesa e nos termos do Código do Trabalho e dos artigos 394.º a 396.º da Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas, aprovada pela Lei n.o 35/2014 de 20 de junho, estendem o prazo da convocatória da Greve Nacional de Professores que está a decorrer desde o dia 7 de abril a todo o serviço atribuído aos docentes, relacionado com a realização das sessões da componente oral e da componente escrita do teste Preliminary English Test (PET), de Cambridge English Language Assessment da Universidade de Cambridge, de 6 a 22 de maio, devido à alteração do calendário das sessões da componente oral. Ressalve-se que há um dia coincidente entre o período de greve já marcado e o que agora se convoca (6 de maio), dia da componente escrita do teste, para tornar claro que este pré-aviso de greve, para além dos professores de Inglês, abrange todos os outros professores que venham a ser designados para a vigilância da prova escrita da Cambridge que, simultaneamente, constitui teste diagnóstico previsto no Despacho n.o 11838-A/2013, de 10 de setembro, publicado em 11 de setembro.  
A manutenção desta greve deve-se, exclusivamente, ao facto de o MEC não ter aceitado que a participação dos docentes neste processo se faria a título facultativo ou, pelo menos, que da sua recusa em participar não resultaria qualquer ação disciplinar. Não obstante o esforço negocial das organizações sindicais, o MEC não aceitou que assim fosse.  
A esta greve poderão aderir todos os docentes que, não sendo dispensados de participar naquele processo de avaliação ao serviço da entidade estrangeira Cambridge, pretendam, contudo, não se envolver no mesmo.  
Como tem sido repetido pelos professores e pela Plataforma dos Sindicatos de Professores, é abusiva a utilização de docentes das escolas públicas e particulares com contrato de associação para servirem interesses que lhes são alheios e mesmo desconhecidos e que, com a anuência do governo português, designadamente dos serviços do IAVE/MEC, se ingere no sistema educativo português.  
Os professores portugueses não podem ser obrigados a exercer uma atividade que não só não constitui dever profissional estabelecido para a sua profissão (participação em atividades que não correspondem a conteúdos curriculares estabelecidos nem são parte do plano de atividades da sua escola/agrupamento), como acresce ou prejudica a atividade que se encontra fixada no seu horário de trabalho.  
É incompreensível e inaceitável que, por esta razão, o MEC, através do IAVE, tenha decidido anular aulas a milhares de alunos, prejudicar o normal desenvolvimento do seu processo de avaliação de final de período letivo e sobrecarregar ainda mais o horário de trabalho dos docentes convocados. Convocatória esta que, note-se, não assenta em qualquer fundamento legal conhecido e foi feita, em muitos casos, de forma ilegal, quer pelos meios utilizados, quer pelos prazos de antecedência. As organizações sindicais acima identificadas, ao apresentarem este pré-aviso de greve, criam condições para que os professores se coloquem fora de um processo que rejeitam, sendo que o cumprimento integral do seu horário de trabalho, de acordo com a distribuição feita pelas suas diversas componentes, não permitirá que seja efetuado qualquer desconto na remuneração devida. 
[...]
A Plataforma de Sindicatos de Professores não se opõe a quaisquer protocolos que o Estado português decida fazer, através do governo, com entidades públicas e privadas, nacionais ou estrangeiras, sempre que, para os fins estabelecidos, quer na Constituição da República Portuguesa, quer para os consagrados na Lei de Bases do Sistema Educativo, tal venha a revelar-se indispensável. O que entende é que, por um lado, este protocolo com a Cambridge, se configura completamente despropositado e, por outro lado, a existir, deverá ser absolutamente transparente. Entende também que o envolvimento das escolas e, eventualmente, de docentes, nos mesmos, não pode ser imposto, nem poderá prejudicar a sua atividade profissional e o interesse e os direitos dos alunos. 
Ao mesmo tempo, tendo em conta as condições estabelecidas para o desempenho destas funções, as organizações sindicais supracitadas entendem ainda que a trabalho extraordinário deverá sempre corresponder o seu respetivo pagamento, não sendo, contudo, essa a questão principal. Os docentes têm hoje uma enorme sobrecarga de trabalho e não podem ser forçados a aumentá-la ainda mais para servirem interesses alheios aos do país e nos quais não se reveem. Para além disso, considera-se que também não lhes compete, como é evidente, serem angariadores de alunos para se submeterem a estas ou outras provas semelhantes, como pretende o MEC, nem tão pouco serem intermediários entre esta entidade estrangeira e as famílias dos seus alunos.  
Lisboa 21 de Abril de 2015
As Organizações Sindicais de Professores
(Agradecimento ao António Ferreira, pelo envio do texto do pré-aviso de greve)

domingo, 3 de maio de 2015

Reavivando a memória - 2


«Muitas povoações foram incendidas na Polónia: milhares de pessoas sucumbiram nos incêndios, ou foram abatidas enquanto fugiam. Duas guerras grassavam simultaneamente: a da frente de batalha de homens armados e a das outrora imunes vilas e aldeias. E também no mar começara uma guerra, cujo curso viria a ser tumultuoso, não respeitando quaisquer limites. Nesse dia 5 de Setembro, os submarinos alemães afundaram cinco navios mercantes desarmados, quatro britânicos e um francês. [...] 
Todos os dias se registavam novos casos de desrespeito e desprezo pelas leis da guerra por parte dos alemães. A 6 de Setembro, num campo próximo da aldeia de polaca de Mrocza, os alemães abateram dezanove oficiais polacos que já se tinham rendido [...]. Outros prisioneiros de guerra polacos foram trancados no casinhoto de um chefe de estação dos caminhos-de-ferro que em seguida os alemães incendiaram. Todos os prisioneiros morreram queimados. [...] 
Em Bedzin, a 8 de  Setembro, várias centenas de judeus foram levados para dentro de uma sinagoga à qual foi posto fogo. Duzentos deles morreram queimados. No dia seguinte os alemães acusaram cinicamente os polacos deste crime, prenderam um determinado número de reféns e executaram trinta numa das principais praças públicas.»
Martin Gilbert, A Segunda Guerra Mundial, D. Quixote e Expresso. 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Dia Mundial do Trabalhador... do Colaborador...

Celebrar o Dia do Trabalhador numa época em que o trabalhador é considerado cada vez mais uma despesa, um empecilho ou um mal necessário tem evidentemente um lado cínico, por parte de quem assim o considera.
Na verdade, só a falta de coragem política do poder dominante é que impede que se institua oficialmente o dia ou os dias: do Capital, do Patrão, do Banqueiro.
Ou, numa linguagem modernaça e mais abrangente, o dia do Empreendedor, do Financeiro, do Gestor, do Administrador, do CEO, do CFO, da Governance, do Benchmarking, da Accountability, da Análise Custo-Benefício, da Análise Custo-Eficácia, da Análise de Risco, da Análise SWOT.
Ou o dia do Competitivo, do Brainstorming, do Empowerment, da Avaliação de Desempenho, da Avaliação Externa, da Avaliação Interna, das Evidências, do Focus Group, das Competências, da Gestão Orientada para Resultados, dos Indicadores de Contexto, dos Indicadores de Eficácia, dos Indicadores de Eficiência, dos Indicadores de Impacto, das Taxas de Cobertura, dos Top-Down, dos Inputs, dos Outputs, dos Outcomes, dos Objectivos Estratégicos, dos Objectivos Operacionais, dos Objectivos SMART.
Ou, até, o dia do Auditor, da Liderança, da Triangulação, da Key Performance Indicators, dos Stakeholders, da Missão, do Painel de Peritos, do Standard, do Value-For-Money.
Que vale um trabalhador comparado com este universo de intelligence
Celebrar o Dia Mundial do Trabalhador é, para o pensamento dominante, um anacronismo: até porque já não há trabalhadores, há somente colaboradores. Certamente que, por determinação superior, o 1.º de Maio passará em breve a ser designado como o Dia Mundial do Colaborador.
A médio prazo, quando a realidade estiver um pouco mais madura, tentar-se-á que a designação passe a ser a de Dia Mundial do Colaboracionista...

sábado, 25 de abril de 2015

Quadragésima primeira visita

Todos os anos o 25 de Abril visita-nos. Vai na quadragésima primeira vistoria. Nas primeiras revistas, o 25 de Abril encontrava mulheres e homens que festejavam e lutavam. Mexiam-se, reagiam, ganhavam, perdiam, faziam coisas boas, menos boas, asneiras, mas tinham iniciativa, aprendiam, desenvolviam-se em conhecimento e na melhoria das suas condições de vida. Em pouco tempo, estas mulheres e estes homens deram um salto significativo na sua qualidade de vida. De situações de miséria, muitos passaram a ter o mínimo que a decência humana exigia e exige. A saúde, a educação, a habitação deixaram de ser privilégio de alguns e tornaram-se bens acessíveis a todos.
Foi demais? Não foi demais. Foi de menos. Ficou muita coisa por fazer, muita coisa por mudar. 
Este processo social incomodou alguma gente? Incomodou. Incomodou demais? Não incomodou demais, incomodou de menos. Na verdade, o incómodo causado a alguma gente foi incomensuravelmente menor que o incómodo que alguma dessa gente causou, durante décadas, a milhões de portugueses — mulheres, homens, crianças, idosos.
A partir de certa altura, a energia dos actores destas mudanças foi quebrando. A ideia de que não se podia «ir longe demais», de que as alterações não podiam ser radicais, de que os interesses estabelecidos não podiam ser todos postos em causa começou a medrar e as mudanças pararam. Pouco tempo depois, as mudanças começaram a regredir e muitas foram apagadas do mapa das conquistas. Reinstalaram-se interesses, poderes e valores das elites que tinham sido desapossadas, com o 25 de Abril de 1974.
Chegados à quadragésima primeira vistoria, vemos o quanto voltámos ao passado. O quanto foi perdido em qualidade de vida e o quanto foi perdido em vontade e energia. A cultura do «inevitável» impôs-se, a corrupção instalou-se ao nível mais elevado, a incompetência ganhou estatuto de cidadania, as desigualdades sociais e económicas multiplicaram-se, o serviço nacional de saúde deixou de responder às necessidades e o sistema educativo público começou a ser destruído. 
Quarenta e uma visitas depois encontramo-nos degradados, anestesiados e crédulos, como quase sempre... 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Poemas


OCIDENTE-ORIENTE

Era algo que se estendia no túnel da História,
Algo enfeitado e minado
Levando seu menino de nafta envenenado,
Por venenoso mercador cantado;
Era um Oriente — criança que pede,
Grita «Socorro!»
E o Ocidente, seu senhor nunca errado —
Mudado está agora este mapa;
O Universo em chamas,
Oriente-Ocidente: um só
Túmulo
Em cinza os tem juntado...

Adonois ('Ali Ahmad Sa'id)
Trad. Doina Zugravescu

domingo, 19 de abril de 2015

Pensamentos


«Aquilo que vem ao mundo para nada perturbar não merece nem contemplações nem paciência.»
René Char 
«Quando a ordem é injusta, a desordem é já um princípio de justiça.»
Romain Rolland 
«O segredo da ordem social reside na paciência dos outros.»
(Madame de) Stael
In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações, Âncora Editora.


domingo, 12 de abril de 2015

Ténue ou imaginária?

Imagem de Manuel Moura
reacção que o anúncio de uma possível candidatura de António Sampaio da Nóvoa à Presidência da República suscitou dentro do PS confirma, uma vez mais, o que já foi confirmado múltiplas vezes ao longo das últimas décadas: no que diz respeito a opções políticas, grande parte dos protagonistas do Partido Socialista apenas se distingue do PSD em questões de pormenor e de circunstância. Na verdade, a poderosa e quase sempre dominante ala direita do PS confunde-se, na substância, com o pensamento político e com os interesses que o PSD defende. As diferenças são simples minudências, são irrelevâncias, se comparadas com o que objectivamente os liga. Descontada a retórica balofa, normalmente acompanhada de uma arrogância desmedida, observamos com facilidade que o paradigma político de sociedade é o mesmo, os valores nucleares são os mesmos, as metas e os objectivos políticos, económicos e financeiros de médio e longo prazo, para o país, são os mesmos e que a prática política é semelhante. É fundamentalmente no discurso e no linguajar que a divergência surge, isto é, as diferenças restringem-se ao domínio que menos importa, para a vida das pessoas. É apenas na retórica parlamentar ou na retórica de palco que uma certa encenação de diferenças se desenvolve. Mas a encenação não esconde nem apaga a realidade — a realidade do presente e a do passado.
Um olhar sobre a evolução política do país nas últimas três décadas e meia, em que sistematicamente ocorreu uma alternância no poder entre PS e PSD (coligados ou não com o CDS, à excepção do episódio de uma coligação formal entre ambos, que durou cerca de dois anos), permite ver uma linha de continuidade nas opções políticas fundamentais: progressiva desvalorização do trabalho e valorização do capital;  perda de direitos laborais directamente proporcional à criação de condições privilegiadas para os detentores do poder financeiro e económico; aprofundamento ininterrupto da privatização da economia, acompanhada de uma intenção objectiva de depreciação económica e social do sector público. Na realidade, PS e PSD são duas faces da mesma moeda, e historicamente o primeiro não só tem tido a função de preparar terreno e abrir portas para que o segundo entre e se instale, como, em várias circunstâncias históricas (como foi o caso mais recente da acção política dos governos de Sócrates), foi mesmo o PS quem levou a cabo uma política de desmedida agressividade e afrontamento directo com o sector público, particularmente evidente nos domínios da educação, justiça e saúde, e amplamente elogiada por toda a direita portuguesa.
O modo como vários protagonistas e dirigentes do PS se manifestaram publicamente contra a possibilidade de um eventual apoio socialista à candidatura de Sampaio da Nóvoa apenas consolida um percurso já antigo. O carácter grotesco e desnorteado dessa reacção revela o pavor e o horror que lhes suscita qualquer assomo de pensamentos e de comportamentos inequivocamente posicionados à esquerda. O pavor e o horror que um pensamento de esquerda provoca a estas personalidades do PS é o mesmo pavor e o mesmo horror que provoca à generalidade das personalidades do PSD. A confluência de interesses entre estas duas partes conduz a uma quase obscena promiscuidade, que culmina na propositura pública, por parte de elementos do PSD, de candidatos militantes do PS às próximas eleições para a Presidência da República. Luís Amado e Jaime Gama, ambos socialistas, têm sido nomes sugeridos ou apoiados por figuras do PSD e por elas avaliados como excelentes hipóteses para uma candidatura.
Se as reacções públicas de rejeição da candidatura de Sampaio da Nóvoa, por parte de dirigentes socialistas, se tornarem na posição oficial do PS, isso revelará que a linha de fronteira entre estes dois partidos passou de ténue a imaginária.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Pensamentos


«O mundo é uma gaiola de loucos»
Tommaso Campanella 
«Este mundo só é chato em duas ocasiões: na guerra e na paz.»
Millôr Fernandes 
«O mundo divide-se em pessoas boas e pessoas más. As pessoas boas têm um sono tranquilo. As pessoas más divertem-se muito mais.»
Woody Allen 
In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações, Âncora Editora.