segunda-feira, 17 de Novembro de 2014

Elites que fedem

Imagem de António Gralheira
As nossas elites fedem. Putrefactas, exalam um odor nauseabundo e derramam pus em tudo o que tocam. Somos o país medíocre que somos porque temos as elites que temos e pela conivência do sistema que as promove e das gentes que as toleram.
Nauseia olhar para os protagonistas que sem nenhum pudor destroem o país, ao mesmo tempo que se lambuzam com milhões de euros que furtam a tudo e a todos e que sem remorso depositam nas suas contas pessoais.
Roubo, corrupção, compadrio e incompetência são partes do manto que envolve as figuras públicas (e não públicas) responsáveis pelo estado cadaveroso em que nos encontramos.
À absolutamente incompetente governação política de PSD, CDS e PS, que há décadas nos dirige, junta-se uma inimaginável panóplia de actos criminosos que banqueiros, gestores, autarcas e agora altos responsáveis da administração pública garbosamente e impunemente vêm praticando.
O prândio parece não ter fim e os comensais das diferentes elites não se mostram tímidos e servem-se abundantemente.
Repugna olhar para o estado de apodrecimento político, cívico e ético em que nos encontramos. Contudo, vemos a doença a alastrar e nada fazemos.
Só um país muito doente elege a incultura e a arrogância para a sua presidência. Só um país muito doente condecora quem foge das responsabilidades governamentais. Só um país muito doente aceita que os responsáveis políticos por uma bancarrota comentem, conferenciem e solenemente opinem sobre tudo e sobre todos. Só um país muito doente admite que a mentira consecutiva se instale na chefia de um governo. Só um país muito doente tolera pagar a destruição de cinco bancos — BPN, BPP, BCP, BANIF, BES — ou permite o afundamento de empresas como a PT.
Estamos doentes e gostamos de estar doentes. Gostamos do estado de lamúria e de queixume a que nos entregamos. Vamos permitindo que o sistema se perpetue. Não temos brio. Nem sequer afoiteza temos para o mínimo, que é acabar com o ciclo infernal de governos PS e PSD/CDS. Vamos fazendo de conta que acreditamos que a rotatividade de caras altera políticas. Vamos fazendo de conta que acreditamos que uma Justiça lenta, burocrática e inquinada por leis ardilosas e ineptas pode resolver-nos o problema. Vamos fazendo de conta que não temos nada com o assunto e que a culpa é do destino.
Entretanto, as elites fedem. Roubam, corrompem, destroem.

domingo, 9 de Novembro de 2014

Merkel, a educação e Portugal

Imagem de Gil Coelho
Do ponto de vista da substância, é irrelevante o que Angela Merkel diz sobre a educação em Portugal. Merkel é absolutamente ignorante sobre a educação portuguesa e não é, nem nunca foi, em lado algum, uma referência sobre assuntos educativos. Deste ponto de vista, o que Merkel diga ou não diga tem um valor estéril.
Todavia, de outros pontos de vista, o que Angela Merkel disse acerca do número de licenciados em Portugal já não é irrelevante. 

Do ponto de vista conceptual, é relevante, ainda que não constitua surpresa, que a chanceler alemã defenda uma estratificação planificada das vocações dos jovens de cada país. Segundo ela (e muitos outros), uma percentagem pré-determinada e minoritária dos jovens deve ter acesso a uma formação superior, e a restante percentagem, maioritária, deve ficar com uma formação média, cuja designação eufemística é a de curso profissionalizante ou vocacional. A este propósito, é curioso assinalar a facilidade com que encontramos, nas ideologias auto-classificadas de personalistas e que afirmam a defesa intransigente do indivíduo e da sua liberdade de escolha, buracos negros nesse mesmo personalismo e na consequente defesa da liberdade individual, sempre que esteja em causa a manutenção dos interesses instalados no modelo social dominante. Na verdade, pretender condicionar o desenvolvimento das vocações dos jovens, em função de percentagens que o modelo social existente necessita para se perpetuar, é atraiçoar grosseiramente os ditos valores personalistas, de que políticos como Merkel se reclamam representantes.
É igualmente curiosa a designação (já antiga) de cursos profissionalizantes ou de cursos vocacionais (mais recente) para designar os cursos que muito cedo se focalizam em exclusivo no desenvolvimento de competências técnicas, e que, em regra, descuram por completo a formação humanista. Na realidade,  a designação é eufemística, pois pretende amenizar a verdadeira desvalorização formativa e social que estes cursos comportam: a nível formativo, amputam a educação dos jovens, retirando-lhes o acesso a uma componente fundamental da educação, a componente ministrada pelos saberes humanistas; a nível social, «vocacionam» os jovens para assumirem exclusivamente funções de execução técnica, cuja orientação e controlo é realizada pelos que têm acesso à formação de nível superior. Mas, além de eufemística, esta designação é deliberadamente enganadora — como se qualquer curso superior não fosse também ele um curso vocacional e profissionalizante, curso que justamente possibilita a realização da vocação de quem o escolheu e que capacita para o exercício de uma profissão.
Última curiosidade: é precisamente junto daqueles que dizem chamar a si a intransigente defesa dos elevados valores humanistas que encontramos o mais ostensivo abandono desses valores, feito em nome da capacitação profissional, ou, se se preferir, da capacitação vocacional. Segundo este modo de ver as coisas, a assimilação dos elevados valores humanistas deve ficar restrita à elite que, vá-se lá saber como, faz deles tábua rasa quando reserva para si própria a exclusividade do acesso a esse mesmos valores e o acesso à direcção da sociedade.

Analisada agora do ponto de vista político, a afirmação da chanceler é igualmente relevante. É relevante que a alemã Angela Merkel se considere possuída do direito de opinar publica e depreciativamente sobre a política educativa de um outro país soberano, independentemente de ser falso (e o que ela afirmou é grosseiramente falso) ou verdadeiro aquilo que diga. Para além da evidente falta de sentido de Estado e de respeito institucional a que deveria sentir-se obrigada, Merkel vai consolidando a  estratégia político-ideológica que afirma o poder alemão como o verdadeiro poder da Europa. O poder que põe, dispõe, define e manda.
Esta é a estratégia do poder político alemão desde há alguns anos, e que um político como Passos Coelho, pela posição de impressionante subserviência que sempre manifestou, ajuda a consolidar. Aqueles que, como Passos Coelho, abdicaram de representar quem os elegeu e abdicaram de representar a soberania, a nação e a história de que emanam serão objectivamente co-responsáveis pelas graves consequências de eventuais desmandos germânicos que novamente venham a colocar a Europa no centro de um conflito bélico. 

segunda-feira, 3 de Novembro de 2014

Engalanados

Imagem de António Gralheira
Cavaco Silva condecora Durão Barroso, por razões que a razão desconhece. No acto solene nenhum partido da oposição se faz representar. Durante a cerimónia, os elogios são múltiplos e recíprocos.
Ascenso Simões, ex-secretário de Estado de um governo de José Sócrates mostra-se queixoso, com razões que a razão também desconhece, por Cavaco Silva ainda não ter condecorado aquele ex-primeiro-ministro. Santos Silva, ex-ministro daquele ex-primeiro-ministro insurge-se contra a possibilidade dessa condecoração ser dada por Cavaco Silva, considerando que isso [ainda?] sujaria [mais?] o currículo do seu ex-chefe de governo. Manuel Alegre discorda de Santos Silva e concorda com Ascenso Simões, exigindo que Cavaco Silva condecore José Sócrates. Nos bastidores daquilo a que erradamente se chama política, insinua-se que, se Cavaco Silva decidisse condecorar José Sócrates, este recusaria.
Portugal olha-se ao espelho e vê-se representado deste modo: no meio de uma gravíssima crise económica, social e financeira a nossa elite atribui-se medalhas, discute medalhas e luta por medalhas.

Não temos modo de aprender: continuamos mestres no mexerico, no entretenimento fútil, na arte da aparência, na inutilidade, enquanto o desemprego ronda os 14%, os jovens não conseguem o primeiro trabalho, os salários continuam miseráveis, a educação degrada-se, a saúde deteriora-se, a justiça anedotiza-se e o futuro é tétrico.
Mas tudo é normal, desde que as televisões medíocres prossigam na transmissão de programas medíocres, as revistas nauseabundas divulguem alcovitices nauseabundas, o facebook não imploda, o smartphone não avarie e as futeboladas não acabem. Aceitamos a pobreza material e de espírito como duas inevitabilidades geradas por uma misteriosa genética. Aceitamos a incompetência com uma misteriosa indiferença. Aceitamos a corrupção com uma misteriosa complacência. Aceitamos tudo o que nos façam com um impressionante marasmo. Não parecemos gente de carne, osso e sangue, parecemos uma massa mole.
Medalhados, condecorados e engalanados assim vamos tudo aceitando.

segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

Pausa



Por razões de natureza profissional, este blogue fará uma pausa
até ao início do próximo mês de Novembro.


quarta-feira, 8 de Outubro de 2014

Passos, Crato e Bava: diferentes faces da mesma realidade

1. Passos Coelho não demite Nuno Crato, nem este se demite.
O primeiro-ministro não demite o ministro da Educação, porque, antes do interesse do país, tem sempre em melhor conta o interesse do governo que chefia. Caso contrário, neste três anos e meio de governação já teria demitido a quase totalidade da sua equipa e ele próprio já não exerceria funções.
Existem dois princípios sem os quais o exercício da política se torna obsceno. Um desses princípios diz que o fundamento do exercício de uma função política é exclusivamente a defesa do bem público; e o outro diz que a acção política tem de estar sempre vinculada a valores e regras éticas. Ambos os princípios têm estado sistematicamente ausentes na acção política de Passos Coelho: o bem público nunca tinha sido tão desprezado e destruído como o foi (e continua a ser) desde que tomou posse como chefe do actual governo; e a violação das regras éticas começou com as promessas, que se revelaram escandalosas mentiras (e com base nas quais venceu as eleições), e tem prosseguido com uma desgraçada regularidade ao longo do seu mandato.
Deste primeiro-ministro nada há a esperar de benéfico para o país, nem das suas decisões políticas nem dos seus comportamentos. Por exemplo, a sua inaceitável recusa em esclarecer os montantes dos reembolsos que diz ter recebido da ONG a que presidiu, enquanto era deputado em regime de exclusividade, legitima a pergunta: que esconde Passos Coelho?
Devendo ser o primeiro-ministro a referência política e comportamental de um governo, não admira que o seu ministro da Educação lhe siga o exemplo. Na verdade, só a mesma ausência de princípios no exercício de um cargo público é que explica o facto de Nuno Crato ainda não ter apresentado a demissão. Todavia, o enorme lamaçal dentro do qual esbraceja deveria ser mais do que suficiente para o levar a perceber que o interesse público e os valores éticos lhe apontam um único caminho: o da porta de saída.

2. Depois do interminável rol de crimes de diversa natureza, de incompetências, de desonestidades e de irresponsabilidades, que quase todos os membros da suposta elite financeira portuguesa têm protagonizado, surge um outro rol mas agora relativo à gestão das grandes empresas portuguesas. Depois do cenário apocalíptico que vai sendo revelado acerca do grupo das empresas Espírito Santo, estamos a ser confrontados com a situação da Portugal Telecom. Vemos que uma suposta elite de excelência dos gestores portugueses está a ser colocada na rua por objectiva incompetência e por manifesta falta de zelo e de respeito pelos accionistas. Henrique Granadeiro e Zeinal Bava são os dois mais recentes exemplos da mediocridade das nossas elites. Ambos são responsáveis pela enorme destruição de valor daquela que já foi a maior empresa portuguesa. Ambos foram obrigados a demitirem-se.

3. As nossas supostas elites política, financeira e de gestão revelam uma mediocridade confrangedora. Quanto tempo mais vamos permitir que elas prossigam a destruição do país?

sábado, 4 de Outubro de 2014

Nuno Crato: da incompetência à indecência

Imagem de Vítor Nunes
Nuno Crato tinha, ainda que um pouco inexplicavelmente, uma imagem pública de competência, na altura em que era apenas uma possibilidade para futuro ministro da Educação de um governo de direita. Quando a possibilidade se transformou em realidade e Nuno Crato assumiu as funções de governante, em muito pouco tempo se verificou o quão essa imagem era falsa. O ministro e a sua equipa rapidamente mostraram uma incompetência e uma ignorância inimagináveis. Os dislates surgiam a um ritmo impressionante, quer do ponto de vista conceptual quer administrativo. 
Crato juntou-se, assim, a Rodrigues e a Alçada, e os três fizeram desta última década não só um período perdido como um período ruinador para a educação. E também como Rodrigues, Crato juntou agora à incompetência a indecência, no modo como se comporta com os professores. Rodrigues teve persistentemente comportamentos indecentes para com os docentes, e Crato, mais uma vez, segue-lhe o exemplo. O respeito por quem tem a função de educar as gerações que chegam às escolas devia ser um dos primeiros deveres a que qualquer ministro da pasta deveria sentir-se obrigado. Contudo, a realidade mostra precisamente o oposto. Neste momento, após semanas de escandalosa incompetência na organização do concurso de professores contratados, assiste-se a uma situação que repugna, seja qual for a perspectiva pela qual possa ser vista:
— a incompetência gerou uma errada graduação dos professores que se submeteram a concurso;
— a incompetência não reconheceu de imediato esse erro colossal. Permitiu que ele se mantivesse e se consolidasse;
— a incompetência demorou semanas a corrigir a graduação.
A esta série de incompetências segue-se a indecência:
— os professores que, fruto do erro colossal, foram incorrectamente colocados, e que, por ordem do Ministério da Educação (ME), já leccionavam há semanas nessas escolas, foram agora informados de que tinham de abandonar as suas escolas e rumar para outras escolas ou para o desemprego;
— os alunos vêem partir os professores com quem já estavam a trabalhar e vêem chegar professores que desconhecem;
— os docentes que deslocaram família e bens para as localidades onde tinham sido colocados, vêem-se obrigados a tudo desfazer e, no caso de nova colocação, retomarem nova deslocação, ou, no caso de não terem sido colocados, regressarem a casa e rumarem aos centros de emprego;
— os directores das escolas recebem do ME a indicação de que devem proceder à rescisão dos contratos anteriormente assinados. Fazem-se e desfazem-se contratos como numa república de bananas.
Na verdade, só uma enorme falta de decência por parte do responsável político, Nuno Crato, explica este mísero cenário. Em relação aos alunos, trata-se duma indecente falta de respeito pedagógico por quem aprende; em relação aos professores, trata-se  duma indecente falta de respeito pela sua dignidade enquanto profissionais e pela sua dignidade enquanto pessoas.
E, perante isto, Nuno Crato não tem a decência de se demitir.

quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

Manifestação no dia 5 de Outubro


Recebido por e-mail, do Movimento Boicote & Cerco:











«Se a Escola Pública está a ser atacada a um ritmo sem precedentes (o que compromete cada vez o desenvolvimento e os sonhos das nossas crianças e jovens) não podemos continuar com as tradicionais formas de luta das últimas décadas. Por isso no dia Mundial do Professor a 5 de Outubro, o Movimento Nacional de Professores Boicote&Cerco apela a que se juntem TODOS em defesa de uma Escola Pública de qualidade. Professores, funcionários escolares, psicólogos, encarregados de educação e alunos devem seguir o exemplo de união demonstrado entre alunos e professores no dia 25 Setembro em Lisboa à frente do MEC e de dia 26 Setembro em Sta Maria da Feira na Escola Fernando Pessoa protestando contra o Ministro Nuno Crato. 
SE O CRATO NÃO NOS DEIXA SONHAR, NÃO O DEIXAREMOS DORMIR! Dia 5 de Outubro junta-te à coluna do Boicote&Cerco e façamos história com uma grande manifestação de TODA a sociedade em defesa da Escola Pública! CONVIDEM TODAS AS PESSOAS! Mais informações em: https://www.facebook.com/groups/boicote.cerco/»

domingo, 28 de Setembro de 2014

O estado em que vamos estando

1. O primeiro-ministro tem de dizer quanto recebeu de reembolsos das despesas que apresentou à tal ONG com a qual diz ter colaborado, durante o período em que foi deputado em regime de exclusividade. Tem de o fazer por duas razões: primeira, porque em relação a um primeiro-ministro, que foi deputado em regime de exclusividade, não pode permanecer a dúvida sobre se alegados reembolsos eram de facto e apenas pagamentos de despesas realizadas, ou se eram, na verdade, uma forma encapotada de pagar um vencimento por serviços prestados; segunda, porque infelizmente a palavra do primeiro-ministro já há muito tempo deixou de ter valor. Não lhe resta, por isso, outra alternativa senão a de apresentar provas do que diz. Mas, anteontem, no Parlamento, o primeiro-ministro recusou-se a colaborar no esclarecimento das verbas que recebeu. A sua imagem e a sua credibilidade ficaram ainda mais degradas. Se prosseguir nessa recusa, a vida política de Passos Coelho não será longa. 

2. Hoje, saberemos se é António José Seguro ou António Costa o candidato que o PS apresentará ao cargo de primeiro-ministro, caso este partido vença as próximas eleições legislativas. Para os portugueses, haverá diferença substancial em ser um ou em ser o outro o candidato a primeiro-ministro? Desgraçadamente não. Na realidade, entre aquele que pouco se diferencia do governo actual e aquele que diz ter um imenso orgulho no governo de Sócrates, qualquer opção é má. Nenhum dos dois protagoniza uma política capaz de ser alternativa à política dominante no cenário europeu. Ambos são reféns da incapacidade de enfrentar os enormes e poderosos interesses instalados que estão a conduzir a um empobrecimento generalizado e a um retrocesso civilizacional. Costa foi o n.º 2 do governo socialista mais à direita que, desde 1974, governou Portugal, e Seguro foi a oposição socialista mais inepta que um governo de direita teve, desde 1974. O PS é um partido largamente contaminado pelo mesmo tipo de interesses que contaminam o PSD e o CDS. Seja Seguro ou seja Costa nada de realmente importante se alterará.

3. E o futuro nada tem de promissor, enquanto continuarmos inertes na passividade em que vamos vivendo.

quarta-feira, 24 de Setembro de 2014

Para clicar




25 de Setembro: protestos no Porto, Coimbra e Lisboa




Concurso de professores: «E depois do caos?»

Comunicado da ANVPC recebido por e-mail:


Comunicado: E depois do caos?

A criação da Bolsa de Contratação de Escola (BCE) pretendia reparar a discricionariedade e profundo sentimento de desagrado evidenciado pelos Professores Contratados resultantes da utilização, por parte de algumas escolas, de critérios de seleção e recrutamento que revelavam elevada “autonomia criativa”, designados até em blogues de educação como “critérios manhosos”, amplamente utilizados no âmbito da Contratação de Escola. Pretendia ainda, segundo a tutela, agilizar o processo de colocação de Professores.

Se a intenção do MEC em uniformizar, a nível nacional, os critérios de seleção era, na sua vertente teórica, apreciável, já a implementação, na sua vertente prática, originou o caos total. Esse caos trouxe consigo elevados prejuízos para os Alunos, Pais, Diretores e Professores, por via de toda a confusão gerada com a implementação de um concurso marcado por um elevado índice de impreparação por parte da tutela (técnico e concetual) e pelo impasse criado com a demissão do Diretor Geral de Administração Escolar.

Vejamos ainda que as listas de graduação da BCE, apresentadas pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC) na passada sexta-feira (dia doze de setembro) não cumprem, a nosso ver, os desígnios de um concurso público, nomeadamente no propósito do rigor, da transparência e da fiabilidade necessária nesta tipologia concursal. Esse forte handicap consubstancia-se na impossibilidade de qualquer candidato entender a razão da sua ordenação, e a dos restantes opositores ao concurso, não permitindo, a título de exemplo, a possibilidade de apresentação de um Recurso Hierárquico fundamentado, caso subsista alguma dúvida de legalidade processual. [Ver comunicado da ANVPC em http://anvpc.org/comunicado-um-concurso-publico-docente-verdadeiramente-obscuro/ ]

Urge, por isso, encontrar soluções, que, de forma célere, minimizem o impacto do caos gerado por uma planificação concursal que falhou redondamente, acentuada pelo erro crasso de uma fórmula matemática que não apresentava as competências requeridas para calcular corretamente a soma de dois coeficientes. 

Face ao exposto, não obstante a proposta que a ANVPC irá enviar oportunamente para o MEC com medidas de médio e longo prazo, torna-se urgente reparar a atual situação, vivida nos vários concursos em marcha, através das seguintes medidas: 
  • Divulgação urgente, pela DGAE, de todas as listas públicas relativas a todas as colocações realizadas no passado dia 12 de setembro, da BCE, por grupo de recrutamento, referindo o nome do candidato, escola de colocação, número de horas do horário, etc. Só assim poderão ser compreendidas futuras medidas de reparação do problema, a apresentar pelo MEC;
  • Divulgação de todos os subcritérios de seleção especificamente associados a cada escola TEIP e AUTONOMIA, uma vez que na aplicação os docentes apenas tinham acesso ao subcritério, mas não conseguiam saber a que escola reportava;
  • Divulgação das cotações associadas a cada item de resposta, em cada subcritério definido por cada escola específica;
  • Divulgação da cotação final, total, de cada subcritério, por candidato, por escola e por grupo de recrutamento;
  • Revisão dos subcritérios que foram propostos pelos diretores e aprovados pelo MEC que poderiam levar, em sede de concurso BCE, a respostas dúbias, assim como à indução de “falsas declarações” (no caso de docentes que concorriam a mais que um grupo de recrutamento) para todos os candidatos;
  • Reconstituição das colocações que foram realizadas a 12 de setembro (que tiveram por base uma lista de graduação dos professores que o próprio ministro reconheceu que foi gerada por uma fórmula incorreta), sem prejuízo para os docentes já colocados e a colocar;
  • Obrigatoriedade dos Diretores das escolas TEIP E AUTONOMIA comprovarem documentalmente as respostas dadas aos subcritérios definidos pelas escolas, por parte dos professores que ficaram, e/ou venham a ficar, colocados na BCE;
  • Reparação da situação de todos os professores que tendo ficado colocados na Contratação Inicial lhes foi vedado o direito de acederem a uma colocação na BCE, independentemente do número de horas da sua colocação;
  • Ser apresentada uma solução a todos os Professores a que lhes era permitida, a 1 de setembro de 2014, a renovação contratual e em que a mesma, nos limites da Contratação Inicial, não veio a acontecer (por motivos alheios ao seu interesse, tendo, em alguns casos, o horário ficado, até à data, vazio). Veja-se que alguns destes docentes realizariam, deste modo, mais um contrato anual, sucessivo e completo, ficando por isso, de acordo com os normativos legais vigentes, com entrada semiautomática no quadro já no próximo ano letivo 2015/2016 (aplicação da “norma-travão”);
  • Dispor para o futuro, e definitivamente, de um único concurso nacional de seleção e recrutamento de professores que englobe a totalidade das escolas, deixando de existir um concurso nacional somente para escolas TEIP e AUTONOMIA;
  • Ser retomado, de imediato, todo o processo de seleção e recrutamento no âmbito da Contratação de Escola, uma vez que todas as ofertas “desapareceram” do SIGHRE há vários dias;
  • Todas as colocações advindas da resolução dos problemas já detetados pelos docentes e pela tutela, realtivas à BCE, Contratação Inicial/Reserva de Recrutamento e Contratação de Escola, deverão produzir efeitos retroativos a 1 de setembro de 2014.
Um concurso público deve cumprir os critérios estabelecidos na própria lei, de transparência, rigor e equidade entre os candidatos. A Associação Nacional dos Professores Contratados lamenta que pelo segundo ano consecutivo os Professores Contratados não tenham sido colocados nas escolas no dia 1 de setembro, resultante da má planificação concursal realizada pelo MEC e com prejuízo para todos os agentes educativos. Aliás, não se compreende que o MEC não consiga efetuar uma eficaz calendarização de atividades do concurso de professores, permitindo o tranquilo arranque do ano letivo, quando detém um ano para a sua preparação e a obrigação de obter economias de escala resultantes da experiência acumulada ao longo dos anos.

A exigência do planeamento antecipado dos concursos (com uma calendarização pública de todos os momentos concursais), da colocação de professores e da tranquila abertura do ano letivo deve mobilizar todos os agentes educativos, pois estamos perante um problema de dimensão, e interesse, nacional.

A ANVPC e os Professores Contratados continuarão a pautar a sua ação fundada no trabalho colaborativo entre os agentes educativos que permita a construção de pontes em prol do Rigor, da Qualidade e da Excelência da Escola Pública.


A direção da ANVPC

23.09.2014

domingo, 21 de Setembro de 2014

Poemas

NON PIANGERE, LIÚ

Um postal chega informando-te
que deves apresentar-te
para examinarem os teus olhos.

Mas os teus olhos derreteram no fogo,
e as lágrimas únicas, que depressa secaram,
caíram na capela.

Também outras coisas chegam —
facturas, renovações de assinaturas,
cintilantes cartões de plástico prometendo crédito —
não muito para uma vida gasta
ao serviço da realidade.

Não tens de lhes responder.
Nem ao meu pedido de uma gota
de auxílio no meu próprio inferno.

Não chores, digo-me,
é tudo uma comédia
e as comédias têm um final feliz.

O fogo surgirá do sol
e eu olharei para o coração dele.

Peter Porter
(Trad.: José Alberro Oliveira)