domingo, 31 de outubro de 2010

Pensamentos de domingo

«Quando um estúpido faz algo de que se envergonha, diz sempre que esse é o seu dever.»
Bernard Shaw

«Acordo sem simpatia dá uma relação antipática.»
Hugo Hofmannsthal

«O homem que só bebe água tem algum segredo que pretende ocultar dos seus semelhantes.»
Charles Baudelaire
In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações.

Michael Brecker

sábado, 30 de outubro de 2010

Maio ainda tão longe

Interrogo-me muitas vezes sobre o que pensarão de si próprios os nossos dirigentes políticos. É uma interrogação que regularmente me assola e, nestes últimos dias, voltou a assolar-me.
Por mais que tente, não consigo compreender como é possível um político afirmar convictamente que "A" tem de ser assim e que nem pensar ser de outro modo e, depois, afirmar o seu contrário, com a mesma ou maior convicção. Na política dos primeiros anos da nossa democracia, estas contradições também se davam, mas eram espaçadas de meses ou anos; agora, talvez devido ao avanço tecnológico, o diz e o desdiz político pode ser intervalado apenas de horas.
Na era de Sócrates, estas situações tornaram-se rotina. O líder do PS convive extraordinariamente bem com elas, pratica-as em abundância e não revela sinal de remorso. O processo que levou ao recente acordo, entre o Governo e o PSD, sobre o Orçamento do Estado, confirmou esta boa prática governativa e confirmou um outro exímio praticante da mesma: Teixeira dos Santos. Este, depois de, num dia, ter lido um desenvolvido texto a justificar a ruptura das negociações e a explicar a irresponsabilidade das propostas do PSD e de ter chamado mentiroso a Catroga, foi, poucas horas depois, telefonar a quem apelidou de mentiroso, prestou-se a ir a casa dele e foi nessa casa que acabou a assinar um acordo.
O sentido da dignidade desapareceu completamente da política. Já ninguém liga a isso, já ninguém sabe o que isso é.
António Guterres fugiu para não se atolar no pântano, como, na altura, explicou. Sócrates nem isso é capaz de fazer. Sócrates, Teixeira dos Santos e o resto da equipa gostam do pântano, vivem e convivem bem no pântano.
Passos Coelho, apesar do pouco tempo que leva de exercício na função de líder, também já mostrou pendor para a mesma prática — ainda que, ao contrário do entufado Sócrates, tenha tido a iniciativa de pedir desculpa, quando, pela primeira vez, deu o dito por não dito. Contudo, agora que voltou a desdizer-se, ainda não deu sinais de que repetirá o acto de contrição.
Para além de tudo o resto, Portugal vive uma crise que também é derivada da elite medíocre que o governa. Do ponto de vista político, técnico e ético estes políticos são do pior que trinta e seis anos de democracia revelaram. Como foi possível juntar num só governo tanta gente deste jaez?
Políticos assim, quando se olham ao espelho, vêem o quê? Que ideia têm de si próprios? Como se auto-avaliam?
Lamento que o mês de Maio ainda esteja tão longínquo.

Ao sábado: momento quase filosófico

«Platão "provou" a imortalidade da alma em vários dos seus diálogos, mas a sua argumentação mais conhecida estará talvez no diálogo Ménon, em que Sócrates demonstra que a alma deve ter existido antes de a pessoa nascer.
Curiosamente, a maior parte das pessoas não está interessada na possibilidade da vida eterna antes de chegarem à Terra, possivelmente porque, mesmo que tenham existido nessa altura, não se recordam. [...]
De qualquer maneira, a prova de Sócrates para a imortalidade pré-natal é que um dos jovens escravos iletrados de Ménon surge com o teorema de Pitágoras sem jamais ter estudado geometria! Consequentemente, devia estar a recordá-lo. Devem lembrar-se desse teorema: num triângulo rectângulo o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Hã? Mal conseguimos lembrar-nos do que aprendemos no décimo ano, quanto mais antes de nascermos.
Sócrates parece limitar-se a guiar o rapaz para a "descoberta" do teorema que está guardado algures no fundo da sua psique.
Eis Sócrates em acção, a desenhar com um pau no chão:
Sócrates: Diz-me rapaz: Sabes que uma figura como esta é um quadrado?
Rapaz: Sei.
Sócrates: E sabes que um quadrado tem estes quatro lados iguais?
Rapaz: Certamente.
Sócrates: E estas linhas que desenhei no meio do quadrado também são iguais?
Rapaz: Sim.
E Sócrates continua, obtendo respostas de uma única palavra do rapaz, até ao desfecho:
Sócrates (para Ménon): Reparaste, Ménon, que não estive a ensinar nada ao rapaz, apenas a fazer-lhe perguntas, e que agora ele imagina que sabe qual é o tamanho que uma linha tem de ter para produzir uma figura de meio metro quadrado, não é verdade?
Para Sócrates, isto é prova de que o rapaz está a recordar conhecimento que já tinha, por isso, ipso facto, existe uma psique imortal — na verdade, uma psique imortal que teve 20 valores a Geometria.
Para um educador moderno, o problema que a prova de Ménon coloca é que parece que Sócrates está a ensinar o teorema ao rapaz — usando o método socrático de instruir através de uma série de perguntas e respostas.
O Ménon Moderno:
Um casal inscreve-se num curso de Chinês.
— Estão a pensar ir à China? — pergunta o professor.
— Oh, não — responde o homem. — Acabámos de adoptar um bebé chinês e quando ele começar a falar queremos perceber o que diz.
No mínimo, o argumento de Sócrates levanta aqui questões sobre o que é e como funciona a memória: na realidade, funciona misteriosamente.
Três velhotes vão ao médico para fazer um exame à memória. O médico pergunta ao primeiro:
— Quanto é três vezes três?
— São 285! — responde o homem.
Preocupado, o médico volta-se para o segundo homem.
— E o senhor? Quanto é três vezes três?
— Hm... Segunda-feira! - grita o segundo homem.
Mais preocupado ainda, o médico dirige-se ao terceiro homem.
— Bem, que diz o senhor? Quanto é três vezes três?
— Nove! — responde o terceiro homem.
— Excelente! — exclama o médico . — Como é que chegou a esse resultado?
— Oh, é fácil — responde o homem. — Basta subtrair os 285 a segunda-feira!»
Thomas Cathcart, Daniel Klein, Heidegger e um Hipopótamo Chegam às Portas do Paraíso, pp.126-130.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Fragmentos

«A sua mãe era zarolha. Tinha o cabelo muito louro e era zarolha. O olho bom era celeste e calmo, como se ela não fosse muito inteligente, mas em compensação boa, de sobra. O seu pai era coxo. Tinha perdido a perna na guerra e passara um mês num hospital militar perto de Düren, pensando que daquela não saía e a ver como os feridos que se podiam mexer (ele não!) roubavam os cigarros aos feridos que não se podiam mexer. Quando lhe quiseram roubar os cigarros, porém, ele agarrou no colarinho do ladrão, um tipo sardento e de maçãs do rosto largas, costas largas, ancas largas e disse-lhe: alto aí! Com o tabaco de um soldado não se brinca! Então o sardento afastou-se e caiu a noite e o pai teve a impressão de que alguém olhava para ele.
Na cama ao lado havia uma múmia. Tinha os olhos negros como dois poços profundos.
- Queres fumar? - perguntou ele.
A múmia não respondeu.
- Fumar é bom - disse ele, e acendeu um cigarro, procurou a boca da múmia entre as ligaduras.
A múmia estremeceu. Talvez não fume, pensou ele, e retirou-lhe o cigarro. A lua iluminou a ponta do cigarro, que estava manchada por uma espécie de bolor branco. Então voltou a introduzir-lho entre os lábios, ao mesmo tempo que lhe dizia: fuma, fuma, esquece-te de tudo. Os olhos da múmia não o largavam, talvez, pensou ele, seja um camarada de batalhão que me reconheceu. Mas porque é que ele não diz nada? Talvez não consiga falar, pensou. O fumo, de repente, começou a sair por entre as ligaduras. Ferve, pensou ele, ferve, ferve.
O fumo saía à múmia pelas orelhas, pela garganta, pela testa, pelos olhos, que nem assim deixavam de olhar para ele, até que ele soprou e lhe retirou o cigarro dos lábios e continuou a soprar mais um bocado sobre a cabeça ligada até que o fumo desapareceu totalmente. Depois apagou o cigarro no chão e adormeceu.
Quando acordou, a múmia já não estava a seu lado. Onde está a múmia?, disse ele. Morreu esta manhã, disse alguém da sua cama. Então ele acendeu um cigarro e pôs-se a esperar pelo pequeno-almoço.»
Roberto Bolaño, 2666, pp. 731-732.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Fiquei sensibilizado

Fiquei sensibilizado ao ouvir o discurso de candidatura de Cavaco Silva à Presidência da República. Impressionou-me o seu currículo de sabedoria, de competência, de seriedade, de honradez, de equilíbrio, de conhecimento, de sensatez, de sentido de compromisso e de muitos outros atributos que o candidato fez questão de enumerar e de anunciar como seus. Entusiasmou-me saber que há, neste país, um político que coloca os interesses de Portugal acima de tudo: acima de interesses pessoais, de interesses partidários, de interesses eleitorais e, até, de interesses familiares — ficou claro, pelas suas palavras, que os interesses da família Cavaco Silva foram subalternizados aos interesses da Pátria. Descansou-me ouvir dizer que o candidato será um guardião dos desprotegidos, dos desempregados e dos pobres. Mobilizou-me saber que, com este candidato, Portugal caminhará no sentido da Justiça social, do desenvolvimento Económico, da excelência da Educação, ou, dito numa só palavra, caminhará no sentido do Progresso.
Depois, reparei que o candidato Cavaco Silva era o Presidente Cavaco Silva. O Presidente que há cinco anos exerce as funções para as quais novamente se candidata. Dessensibilizei-me, desimpressionei-me, desentusiasmei-me, apaguei a televisão.

Às quartas

MOMENTO NUM CAFÉ

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta

Manuel Bandeira

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Registos do fim-de-semana

«Quem fez esta vigarice devia ir preso» (Manuela Ferreira Leite - sobre o orçamento)

Orçamento de Estado perdoa autarcas com processos no Tribunal de Contas

Governo propõe extinguir organismos que já estavam extintos

Portugal cai para 40.º lugar na liberdade de imprensa
Sol (22/10/10)

Despesa das administrações públicas este ano ultrapassa em 3417 milhões o limite do previsto

Educação terá menos 800 milhões para gerir

Madeira aumenta financiamento aos partidos

Assembleia Legislativa da Madeira
recusa diminuir os vencimentos dos políticos da região

Público (22/10/10)

«Sinto tristeza com a situação que vivemos» (Cavaco Silva)

Financiamento: Partidos insistem nos donativos anónimos
Expresso (23/10/10)

Governo quer tirar benefícios a igrejas, mas não à Igreja Católica

Famílias com rendimento mensal acima de 629 euros perdem abono já em Novembro
Público (23/10/10)

Compreendo a tristeza de Cavaco Silva, como imagino que ele compreenda a minha. É possível que haja razões comuns na nossa comum tristeza. Mas talvez eu tenha razões para estar ainda um pouco mais triste: enquanto professor, fui alvo de sucessivos decretos-leis que visaram destruir a função docente, e essa legislação teve sempre a assinatura e o elogio público do sr. Presidente da República; enquanto português, vi o meu País ser publicamente enxovalhado pelo presidente da República Checa e vi o sr. Presidente da República de Portugal, a seu lado, não proferir uma palavra contra esse enxovalho; enquanto cidadão, assisti a uma grotesca comunicação que o sr. Presidente da República Portuguesa dirigiu aos País, a propósito de uma fandanga história de escutas; e, enquanto contribuinte, vejo o sr. Presidente da República a acumular, alegre e naturalmente, o seu vencimento e a reforma do Banco de Portugal.
Apesar de existirem muitas outras razões, estas, só por si, justificam que eu esteja um pouco mais triste do que Cavaco Silva.

«Quem fez esta vigarice [de orçamento] devia ir preso» terá dito Manuela Ferreira Leite, no Conselho Nacional do PSD. Eu também concordo. E se a ex-líder social-democrata não se importar, eu acrescentaria: e quem fez o orçamento do ano passado também, e do ano anterior a esse igualmente, e, já agora, o do ano... O problema é saber onde parar. E, no seguimento, a própria Ferreira Leite poderia também ver-se metida neste imbróglio.
É claro que os políticos não são todos iguais e que Sócrates já ultrapassou, há muito, todos os limites da decência política — já são poucos aqueles que duvidam de que ele ficará na história como um exemplo de incompetência difícil de ultrapassar. Sócrates não tem par, e é pena ainda não ser possível acusar criminalmente um político, pois ele seria, sem dúvida, o primeiro a ter de responder na barra do tribunal.
Mas o problema não reside apenas na vigarice deste orçamento, o problema reside numa vigarice muito maior. E quanto a essa vigarice maior, quer o PS quer o PSD estão de acordo. Refiro-me à vigarice de ser o sector público a ter de suportar as burlas e as trapaças do sector financeiro privado. Refiro-me à vigarice que é aceitar que o sector financeiro privado e o sector privado em geral vivam a reclamar contra o Estado e, quando as fraudes por eles provocadas vêm à tona, seja o Estado a pagar os danos. Refiro-me à vigarice de vivermos num sistema que permite que os lucros astronómicos fiquem na posse de poucos e os prejuízos sejam pagos por todos.
E contra esta vigarice não oiço muitos a levantar a voz, nomeadamente, não oiço a voz de Manuela Ferreira Leite.
É, pois, com interesse que acompanho o que se está a passar em França. Não me refiro, obviamente, às acções criminosas de arruaceiros profissionais, refiro-me à oposição firme, através de sucessivas greves gerais e de manifestações, de milhões de Franceses, à política que, sistematicamente, prejudica quem trabalha e mantém intactos os obscenos privilégios da minoria economicamente dominadora.
Há, assim, duas vigarices: a vigarice deste orçamento e a vigarice que suporta as regras deste sistema económico. Opormo-nos seriamente à primeira vigarice implica opormo-nos também seriamente à segunda.

domingo, 24 de outubro de 2010

Pensamentos de domingo

«O homem que rouba a confianças dos outros é o pior dos ladrões»
Textos Judaicos

«Há tolices bem embaladas, assim como há tolos bem vestidos.»
Sébastien-Roch Chamfort

«A política é talvez a única profissão para a qual se pensa que não é precisa nenhuma preparação»
Robert Stevenson
In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações.

Lester Young e Teddy Wilson

sábado, 23 de outubro de 2010

Ao sábado: momento quase filosófico

Dualistas vs Fisicalistas

«O debate mente-corpo continua até hoje, mas tornou-se mais subtil e mais complexo, apesar de os termos básicos não terem mudado. Ainda há dualistas de vários tipos que afirmam que a mente é uma coisa diferente dos impulsos neuroeléctricos do cérebro. E há os fisicalistas que defendem que os estados mentais são idênticos a estados neurais. E depois temos os funcionalistas, que são basicamente neutros nesta questão, por isso quem é que precisa deles?
Um divertido contributo filosófico para o debate sobre o que pode ser uma mente é o chamado "problema do morto-vivo". [...]
O problema do morto-vivo é um desafio para os fisicalistas, que afirmam que, depois de descrevermos o cérebro e a forma como ele funciona electricamente, não há mais nada para descrever. O funcionamento das nossas "mentes" — sensações, pensamentos, intenções — está sujeito às leis da física e todas as nossas "mudanças de ideias" são o resultado de causas físicas, neuroeléctricas.
O filósofo americano do século XX Saul Kripke colocou a questão fisicalista fundamental da seguinte forma: Imagine-se um Deus que dá vida a um mundo exactamente igual ao nosso, que funciona exclusivamente de acordo com as leis da física. Teria o Criador de fazer mais alguma coisa para criar a consciência humana? [...]
Entram os defensores dos mortos-vivos. Presumivelmente, os mortos-vivos são seres humanos sem consciência mas, não obstante, andam de um lado para o outro e fazem todas as coisas que os seres humanos fazem. Assim, se os mortos-vivos existem, isso exclui o fisicalismo porque se o fisicalismo estivesse certo os mortos-vivos teriam consciência!
Mas espera um instante. Talvez os mortos-vivos não existam. (Nós nunca vimos um, e temos ido a algumas festas bem paradas). Não há problema, dizem os mais manhosos defensores da teoria dos mortos-vivos. A simples possibilidade de os mortos vivos existirem é suficiente para contestar o fisicalismo. Assim, os defensores dos mortos-vivos imaginam cenários concebíveis. Diz o filósofo britânico contemporâneo Robert Kirk que podemos imaginar microliliputianos dentro da cabeça de Gulliver a desligarem-lhe os nervos receptores e os nervos motores. Estes pequenos trapaceiros recebem todas as entradas no cérebro de Gulliver e lançam os seus próprios sinais para os músculos. Para o simples observador, Gulliver parecerá o mesmo de sempre, apesar de não ter consciência. Com efeito será um zombie. Dessa forma, diz Kirk, uma vez que conseguimos imaginar este cenário, a consciência deve ser algo diferente dos simples sinais físicos.
Mas esperem, exclamam os fisicalistas! Ser concebível não é o mesmo que ser possível! É possível conceber estes nanoliliputianos, mas a verdade é que eles não são possíveis no mundo real.
Nesta fase, o argumento deixa de poder ser expresso em palavras e a nossa mente — ou cérebro, conforme preferirem — desliga-se.»
Thomas Cathcart, Daniel Klein, Heidegger e um Hipopótamo Chegam às Portas do Paraíso, pp.120-123.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Os nossos rankings e as nossas avaliações

O passado fim-de-semana foi fim-de-semana de rankings. Há dez anos que, por esta altura, se publicam os chamados rankings das escolas do ensino básico e secundário. Estes rankings elaboram-se tendo por base os resultados alcançados pelos alunos nos exames nacionais. Exclusivamente esses resultados.
Dos jornais que costumo ler, Sol, Público e Expresso, só o primeiro não publicou o seu ranking (até agora, pelo menos). O Público foi, aliás, o grande paladino da defesa da publicação dos rankings. Na altura em que se discutia se o Ministério da Educação devia ou não devia fornecer à comunicação social os resultados dos exames nacionais, era seu director José Manuel Fernandes, que vivia obcecado, e depois deslumbrado, com a divulgação da lista ordenada das escolas, segundo as classificações obtidas pelos alunos nas provas nacionais. (Estávamos, em Portugal, no início de uma fase, que ainda hoje se desenvolve, de se pretender importar e copiar do sector privado o seu ideal de concorrência e de competitividade e os seus paradigmas de gestão. O mundo empresarial era, e ainda é, apontado como o arquétipo. Muita gente vivia, e alguma ainda vive, rendida ao seu modo organizacional e às suas pseudotécnicas de avaliação. Ora, os rankings correspondiam e correspondem na perfeição a esta visão do mundo, uma visão que só tem como inteligível aquilo possa ser reduzido a uma folha de Excel).
Cumpridos dez anos de rankings, foi curioso ler o balanço que os jornais realizaram do trabalho produzido. O curioso está aqui: directores de jornais, jornalistas e entrevistados são unânimes em apontar vários e graves defeitos aos rankings, mas todos os anos publicam-nos. São de tal forma graves que anulam a possibilidade de qualquer pretensa virtude que eles pudessem ter.
Todos sabem que, do ponto de vista da avaliação da qualidade do trabalho desenvolvido por cada escola, os rankings publicados valem zero. Todos sabem. Mas, ano após ano, os jornais publicam-nos. É uma boa maneira de vender papel? É, sem dúvida. Há alguma seriedade nisto? Não descortino nenhuma. Vende-se o papel e vende-se a ilusão de que se está a revelar uma informação objectiva. Mas o que se está a vender é mais um faz-de-conta, que se junta a tantos outros faz-de-conta em que este país vive. Neste caso, é o faz-de-conta de que avaliamos a qualidade das escolas através de um ranking.
Vivemos, na verdade, em plena época de faz-de-conta que avaliamos. Avalia-se sem nenhuma substância, sem nenhum rigor, sem nenhuma fiabilidade, mas há quem viva feliz neste enorme e contínuo simulacro: são os rankings das escolas, é a avaliação dos professores, é avaliação da função pública, foi a avaliação dos conselhos executivos. É uma vergonha atrás de outra vergonha. O rei vai nu, mas o povo gosta de imaginar que ele veste um fato de lantejoulas.
É, todavia, interessante verificar que os emergentes grandes defensores da avaliação são aqueles que, simultaneamente, revelam não possuir a mais pequena ideia de como essa avaliação se realiza. É quase caricato constatar isto, mas é verdade. Três exemplos: José Manuel Fernandes queria avaliar a qualidade das escolas e acabou a fazer listagens de nomes de estabelecimentos de ensino sem nenhuma credibilidade avaliativa; Lurdes Rodrigues, que não tinha a mais pálida ideia de como se poderia avaliar o desempenho dos professores, produziu uma barbaridade legislativa sobre avaliação que ninguém imaginava ser possível; Teixeira dos Santos que pretendia avaliar o desempenho dos membros dos conselhos executivos, num determinado ano escolar, acabou a classificar currículos, que nada tinham que ver com o desempenho no ano escolar avaliado. Resultados de tudo isto? Injustiças em quantidade e qualidade nunca observadas, atropelos, compadrios, «cunhas», prepotências, enfim, de mal passou-se para muito pior. Algum ganho sério? Nenhum. Foi aventureirismo, foi irresponsabilidade, foi incompetência de quem promoveu tudo isto? Foi, sem a menor dúvida. Quem promoveu tudo isto deveria ter, mas desgraçadamente não tem, esta noção: ninguém deve fazer coisas que não sabe, coisas para as quais não tem preparação nem formação.
Também não deixa de ser caricato (e ao mesmo tempo penoso) ver como alguns directores das escolas pior e melhor classificadas se desdobram em grotescas explicações para justificar o «embaraço» ou a «glória» das suas classificações. Trambolhões, de um ano para o outro, de duzentos ou trezentos lugares no ranking justificam-se como? Subidas vertiginosas, de um ano para o outro, de duzentos ou trezentos lugares justificam-se como? Como se explicam estas bruscas e radicais alterações no ranking? Nos primeiros casos, por repentina e enigmática impreparação do corpo docente? Ou por uma má «fornada» (sic) de alunos, naquele ano? No segundo caso, por repentina e enigmática excelência do corpo docente? Ou por uma maravilhosa «fornada» de alunos, naquele ano?
Seria higiénico para o país que o Ministério da Educação, os jornais e alguns directores de escolas ganhassem siso e evitassem esta deprimente encenação que anualmente se repete.

Quinta da Clássica - Shostakovich

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Às quartas

CHILDE HAROLD — CANTO QUARTO

II

Tinha vindo para Sul
Em perfumados jardins
Em negras luminosas noites
Perseguindo como um tigre a própria fome
Rondava o silêncio
Arrebatado convocava
o poema escrito para habitar a vida

Entre colunas lagos e suspiros
Erguia o jogo e o canto das palavras:

«Das filhas da beleza nem só uma
Trouxe magia assim
És quem desliza e canta
a flor da água
Música e água é tua voz para mim

Em beleza te moves como a noite
Deste país — escura e cintilante
E em teus gestos e teus olhos se combinam
O que é mais sombrio e mais brlhante»

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Registos do fim-de-semana

Subida do IRS vai ser mais acentuada para os contribuintes
com rendimentos inferiores


Deduções e benefícios fiscais no IRS: cortes de 75% para algumas famílias


Combate à fraude e evasão fiscal aquém do anunciado pelo Governo

Público (15/10/10)

Banca portuguesa emprestou ao Estado mais 81% do que em 2009

Três bancos em risco

Ministério da Justiça fala em iminente 'colapso financeiro'

Ex-chefe da Marinha corrige 1.º-ministro nos submarinos

Kadhafi e Chávez por Portugal
Sol (15/10/10)

Só a Venezuela e a Grécia são piores do que nós
— Previsões do FMI para 183 países no período de 2010-2015


E a factura mais alta vai para... Os trabalhadores do Estado


IRS: Há famílias de classe média que vão pagar mais 93% de imposto

Expresso (16/10/10)

Governo falha entrega do Orçamento
— Documento incompleto chega a Jaime Gama a minutos da hora limite —

Prolongadas por um ano garantias do Estado aos bancos


Parcerias público-privadas vão custar 841 milhões de euros no próximo ano


Fecho de escolas e mega-agrupamentos vão continuar


Portugal não tem conseguido combater a pobreza


Deputado Vítor Baptista [PS] implica secretário nacional [PS] e chefe de gabinete de Sócrates em alegada tentativa de suborno

Caso Queiroz: Laurentino Dias esconde parecer da Procuradoria
Público (16/10/10)

Em 183 países, só a Venezuela, de Chávez, e a Grécia terão um crescimento económico pior do que Portugal, até 2015. Contudo, esta previsão do FMI foi feita sem ter em conta o novo pacote de austeridade do Governo do PS, o que, inevitavelmente, agravará ainda mais a situação.
Depois de termos ouvido Sócrates repetir, durante semanas a fio e até ao limite do cansaço, que tínhamos sido os últimos a entrar em crise; depois de termos ouvido o discurso histriónico de Sócrates repetir até à exaustão que tínhamos sido os primeiros a sair da recessão; ficamos agora cientes de que seremos dos piores do mundo, se não mesmo a pior economia do mundo, nos próximos cinco anos. Somos governados por um lunático.

Lunático e prestidigitador. Sócrates conduziu Portugal ao desastre: estamos na pior situação económica e financeira, desde 1974. É conhecido que crise foi internacional, mas a verdade é que nós estamos no grupo europeu dos quatro países mais incompetentemente governados (ainda que o caso da Irlanda seja de outra natureza). Perante os factos, Sócrates comporta-se como um aprendiz de ilusionista e deseja que acreditemos em duas coisas:
— que os mercados financeiros, sem razão que o justifique, deram para embirrar connosco e começaram a exigir juros muito altos. Embirraram porquê? Embirraram porque sim. São maus para nós e para mais dois ou três. Porquê? Não se sabe. Apenas se sabe que a culpa não é do Governo;
— que ele é um homem de coragem. Transformar a incompetência em coragem é o mais recente acto de prestidigitação de Sócrates.
Só a gigantesca dimensão da tragédia que estamos a viver é que nos impede de podermos usufruir do ridículo de termos um primeiro-ministro assim.

Uma nota final. É com carinho que leio as queixas do sector financeiro relativamente ao recente pacote de austeridade, na parte que lhes diz respeito. Por exemplo, vejo com preocupação que o anunciado novo imposto para a banca possa atingir cifras que se situam entre 0,01% e 0,05%. É algo de «injusto», como diz Miguel Rocha Leónidas, da Deloitte & Associados, no Expresso. Naturalmente que é injusto, em particular, se comparado com o aumento do IVA de 6% para 23%, de alguns produtos alimentares, ou se comparado com o corte nos salários, entre 3,5% e 10%, dos profissionais do Estado. É uma injustiça que ninguém compreende, e os financeiros têm a minha solidariedade.

domingo, 17 de outubro de 2010

Pensamentos de domingo

«Quem tem coragem para enfrentar os perigos vence-os antes que eles o ameacem.»
Públio Siro

«Algumas pessoas foram consideradas corajosas porque tinham medo de fugir.»
Thomas Fuller

«Os bons prometem pouco e fazem muito; os maus prometem muito e fazem pouco.»
Textos Judaicos
In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações.

Vienna Art Orchestra

sábado, 16 de outubro de 2010

Ao sábado: momento quase filosófico

Corpo, Alma, Mente, Estados Mentais, Imortalidade e por aí fora

Muitas das funções da alma descritas pelos pré-socráticos e por Platão e Aristóteles são aquilo a que chamaríamos actualmente funções da mente: locomoção, conhecimento, percepção, desejo, vontade, raciocínio. De facto, a palavra grega para alma é
psique, uma palavra que utilizamos agora com a acepção de "mente". A psicologia, o estudo moderno da psique, é o estudo da mente, não o estudo da alma.
Então, o que é que nós, ocidentais, temos em mente quando nos referimos a uma "mente"? Proporcionará ela alguma pista para a questão da imortalidade? Por exemplo, em que medida é que ela difere daquela parte do nosso corpo situada no crânio — o cérebro? Se a alma é apenas a mente e a mente é apenas o cérebro, lá se vai qualquer hipótese de imortalidade. Uma expressão que se ouve frequentemente na UCI é ilustrativa: morte cerebral.
No século XVII, René Descartes, o pai da filosofia moderna, apresentou a visão dualista de que a Mente e a Matéria (que inclui o cérebro) são dois tipos completamente diferentes de seres que ocupam reinos diferentes com regras diferentes, sem nenhum ponto em comum. Mas isso suscita uma questão: se não coincidem de alguma forma — se existem em esferas separadas —, como é possível que a matéria possa causar alterações na mente e a mente possa causar alterações no mundo material? Aparentemente, por exemplo, os objectos físicos causam as percepções que temos deles e a nossa "vontade" parece levar partes do nosso corpo a mexerem-se. E depois existem certas substâncias químicas que podem provocar alterações substanciais nas nossas mentes [...].
Afinal, qual é exactamente a ligação entre Corpo e Mente? [...]
Os "comportamentalistas lógicos", incluindo o filósofo britânico do século XX Gilbert Ryle, aprofundaram o conceito. Ryle ridicularizou a visão de Descartes de que a mente e o corpo são dois tipos diferentes de seres e que de certa forma a mente "habita" no corpo. Ryle chamou a essa ideia "o fantasma na máquina". Declarou que Descartes nos tinha induzido ao longo de séculos a tentar definir que tipo de entidade é esse fantasma, quando na verdade a mente nem sequer é uma entidade. Ter uma mente não significa possuir uma determinada coisa; significa simplesmente ter certas capacidades e disposições. Achamos que os estados mentais, como as crenças e os desejos, originam o nosso comportamento. Na verdade, o nosso comportamento é causado por disposições para nos comportarmos de determinadas maneiras e os nossos estados mentais reflectem simplesmente essas disposições. Isso aparentemente não deixa nada que seja imortal; é difícil imaginar capacidades e disposições imortais. [...]
[Mas] se os estados mentais não causam nada de onde vêm as criações da mente? Serão todas as nossas criações apenas produções do sistema eléctrico do nosso cérebro? Se assim for, um sistema informático sofisticado não poderia criar uma piada de primeira classe? Avaliemos por nós próprios. Programadores apresentaram este desafio aos supercomputadores da Universidade de Edimburgo e aqui estão as piadas que a máquina criou:
"Que tipo de linha tem dezasseis bolas? Um taco de bilhar!"
Numa escala de riso de um a cinco, que lhe parece?
"Que tipo de pessoa tem fibra moral? Um cultivador de cereais."
[É melhor pararmos por aqui...]
Thomas Cathcart, Daniel Klein, Heidegger e um Hipopótamo Chegam às Portas do Paraíso, pp.114-120.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Fragmentos

«Apesar de tudo ela estava em paz com o mundo, pois embora não tivesse estudado para ser professora primária, como era seu sonho, agora era ervanária e, segundo alguns, vidente, e imensas pessoas estavam gratas por algumas coisinhas que ela fizera por elas, nada importante, pequenos conselhos, pequenas indicações, como, por exemplo, recomendar-lhes que introduzissem na sua dieta a fibra vegetal, que não é comida para seres humanos, isto é, o n osso aparelho digestivo não consegue digerir e absorver, mas que é boa para ir à casa de banho e para fazer as necessidades ou, com perdão do Reinaldo e do distinto público, para defecar. Só o aparelho dos animais herbívoros, dizia Florita, é que contém substâncias capazes de digerir a celulose e portanto de absorver os seus componentes, as moléculas da glucose. A celulose e outras substâncias semelhantes são o que nós chamamos fibra vegetal. O seu consumo, apesar de não nos fornecer elementos energéticos aproveitáveis, é benéfico. Ao não ser absorvida, a fibra faz com que o bolo alimentar, no seu percurso pelo tubo digestivo, mantenha o seu volume. E isso vai gerar pressão no interior do intestino, o que estimula a sua actividade, fazendo com que os restos da digestão avancem facilmente ao longo de todo o tubo digestivo. Ter diarreia não é bom, salvo raras excepções, mas ir à casa de banho uma ou duas vezes por dia proporciona tranquilidade e moderação, uma espécie de paz interior. Não uma grande paz interior, não sejamos exagerados, mas sim uma pequena e reluzente paz interior. Que diferença entre o que representa a fibra vegetal e o que representa o ferro! A fibra vegetal é comida de herbívoros, é pequena e não nos alimenta, só nos proporciona uma paz do tamanho de um feijão saltitão. O ferro, pelo contrário, representa a dureza em relação aos outros e em relação a nós mesmos na sua máxima expressão. De que ferro é que estou a falar? Pois do ferro com que se fazem as espadas. Ou com que se faziam as espadas e que também representa a inflexibilidade. Em qualquer dos casos, era com o ferro que se matava. O rei Salomão, esse rei tão inteligente, provavelmente o mais inteligente que alguma vez houve na História, por sua vez filho do rei das mañanitas e protector da infância, embora se diga que certa vez ele quis cortar um menino ao meio, quando mandou construir o Templo de Jerusalém proibiu taxativamente que se utilizasse o ferro como material de suporte na construção, nem no mais pequeno pormenor, e também proibiu que se utilizasse o ferro na circuncisão, uma prática, diga-se de passagem e sem vontade de ofender, que talvez tenha tido razão de ser naquela época e naqueles desertos, mas que agora, com as medidas de higiene modernas, me parece um exagero. Eu acho que os homens deviam ser circuncidados aos vinte e um anos, se quiserem, e se não quiserem não faz mal nenhum.»
Roberto Bolaño, 2666, pp. 526-528.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Uma noite de sábado

No passado sábado, fui à inauguração do «Espaço Paixão - Clássica/Jazz», na Fnac do Chiado. O programa anunciava uma conversa entre Rui Vieira Nery e José Duarte, seguida da actuação de Pedro Burmester e Mário Laginha, que apresentavam os seus novos discos. O início estava marcado para as dez da noite.
Este programa era uma tentação a que não era legítimo resistir. Não resisti, e fui. A única reserva que tinha era em relação a Vieira Nery, não sou apreciador de estilos afectados, mas, enfim, pensei: não há-de ser nada.
Homem prevenido vale por dois e, não fosse o diabo tecê-las, fui mais cedo do que a hora marcada, para assegurar lugar sentado, que a boa música é para se ouvir em todas as posições, menos em pé.
Disciplinadamente, aguardei que a hora prevista para o início do evento chegasse. A hora chegou. Aguardei mais um pouco: cinco minutos; dez minutos; quinze minutos. A conversa entre Nery e Duarte não havia forma de começar. Pelas 22,20h sobe ao pequeno palco um rapaz, razoavelmente bem despenteado, a informar o público que «o programa ainda não se tinha iniciado, porque o prof. Vieira Nery estava um pouco atrasado. Problemas com o trânsito.» «Mas contamos começar dentro de dez minutos» acrescentou o rapaz, com um ar razoavelmente consternado.
Enquanto escutava este aparentemente improvisado relações-públicas da Fnac, julguei-me, por instantes, em Nova Iorque: claro, o trânsito, sempre o maldito trânsito. Coitado do Nery, engarrafado no meio daquele movimento louco. Passado o delírio, acordei em Lisboa: trânsito? Sábado, às dez da noite?! Na baixa de Lisboa?! A minha antipatia pelo prof. Nery rapidamente duplicou e verifiquei que, para além do ar afectado, o prof. Nery tem uma segunda qualidade: não é pontual.

Às 22,30h, o vazio do palco mantinha-se. Às 22,40h fiquei a conhecer o gerente da Fnac Chiado. Um jovem, na casa dos trinta, pouco experiente, mas a ficar preocupado com a face mal-disposta que alguns de nós, pacientíssimos espectadores, lhe revelávamos, de modo a que não tivesse dúvidas acerca do nosso estado de espírito. Subiu ao palco e informou que o «senhor professor Vieira Nery ainda estava um bocadinho atrasado...» o final da frase do gerente já não foi audível. Entre umas gargalhadas bem sonoras e uns ditos pouco simpáticos (para os quais dei a minha colaboração), o discurso do gerente, felizmente, tornou-se incompreensível. Penso que foi nessa altura que ele tomou a decisão dar início ao programa, invertendo a ordem anunciada. Começar-se-ia pela música e depois viria a conversa.
Os ânimos serenaram. Era principalmente para isso que lá estávamos (ainda que eu aprecie ouvir o nosso especialista de Jazz).
A deslocação ao Chiado ficou justificada com a actuação quer de Pedro Burmester, que tocou Schubert e Schumann, quer do Trio de Mário Laginha (Bernardo Moreira, contrabaixista, e Alexandre Frazão, baterista) que tocou arranjos seus sobre músicas de Chopin — isto é, uma versão «jazzística» de algumas peças daquele compositor, que tinham sido dadas a conhecer no Festival de Chopin, realizado em Junho.
Deliciados com o que tínhamos ouvido e de espírito apaziguado, fomos convidados a descer ao piso inferior onde iria ser servido um cocktail e onde a conversa inicialmente anunciada iria decorrer. É que, finalmente, o prof. Nery havia chegado!
Confesso que não me vim logo embora, por duas razões: pelo respeito que tenho por José Duarte e pela curiosidade de saber o que iria dizer o prof. Nery, relativamente ao seu «pequeno» atraso.

O respeito por José Duarte mantenho-o e a curiosidade sobre o que o prof. Nery iria dizer sobre o seu atraso também a mantenho, porque sobre isso ele disse nada. Isto é, o prof. Nery considerou que não tinha de dar satisfações a ninguém nem pedir desculpas a ninguém. Falou como se nada de anormal tivesse ocorrido. Presumo, pois, que, para o prof. Nery, é usual chegar atrasado e é usual os outros esperarem por ele. Reparei, todavia, que há quem goste de esperar, porque houve quem lhe batesse palmas. Esses têm o que merecem. Os outros, como eu, é que tiveram o que não mereciam, mas, em contrapartida, ficamos todos a conhecer muito melhor o prof. Nery — para além de afectado nos modos e de atrasado nos horários, tem uma terceira qualidade: é mal-educado.
Definitivamente, a grosseria e a pesporrência estão na moda.

Às quartas

Árvores Homens

Ontem à tarde
voltava eu com as nuvens
que entravam sob roseiras
(grande ternura redonda)
entre os troncos constantes.

A solidão era eterna
e o silêncio inacabável.
Detive-me com uma árvore
e ouvi falar as árvores.

O pássaro só fugia
dessa oculta paragem,
só eu podia estar
entre as rosas finais.

Eu não queria voltar
em mim, receando dar-lhes
desgostos de árvore diferente
às árvores iguais.

As árvores esqueceram-se
de como eu era homem errante,
e, esquecida a minha forma,
ouvia falar as árvores.

Demorei-me até à estrela.
Em voo de luz suave
fui indo até à margem,
com a Lua já no espaço.

Quando eu ia a sair
vi as árvores fitar-me.
De tudo davam conta,
dava pena deixá-las.

Eu ouvi-as falar,
entre névoas de nácares,
com brando rumor, de mim.
Como desenganá-las?

Como dizer-lhes não,
que estava de passagem,
que a mim não me falassem?
Não queria atraiçoá-las.

E muito tarde, ontem à tarde,
ouvi-me a falar às árvores.

Juan Ramón Jiménez
(Trad.: José Bento)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A equidade — a opinião de Pedro Valadares

As anunciadas medidas de austeridade prevêem o aumento, em um ponto percentual, da contribuição dos trabalhadores do Estado para a Caixa Geral de Aposentações. O Governo justifica tal medida com o facto de se proceder ao «alinhamento» com as contribuições dos trabalhadores do sector privado para a Segurança Social.

Ora o Governo mente e sabe bem que mente: a Taxa Social Única cifra-se em 11%; a quotização para a Caixa Geral de Aposentações passa a cifrar-se, também, em 11%. O problema é que os trabalhadores do Estado ainda descontam - obrigatoriamente - mais 1,5% para a ADSE, o que perfaz um desconto total para o «regime de protecção social convergente» (antigo «regime de protecção social da função pública») de 12,5%.

Anunciado, que está, o corte substancial das comparticipações da ADSE, percebe-se que o esbulho feito aos trabalhadores da Administração Pública outro destino não terá que não seja o financiamento dos diversos buracos em que o desnorte orçamental deste Governo enfiou o país.

Pedro Valadares

Bonecos de palavra

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Registos do fim-de-semana

Partidos já preparam eleições em Maio

Sócrates ignora divisões no Governo e no PS


Tribunal de Contas arrasa contrato do troço que resta do TGV
Sol (8/10/10)

Corte de salários aos funcionários públicos varia entre os 50 e 725 euros

Greve geral por sacrifícios iguais para todos


Falta colocar 403 professores nas escolas
Público (8/10/10)

Cortes de salários na Função Pública são definitivos

«Sócrates é um dos melhores líderes na Europa» (Tony Blair)
Expresso (9/10/10)

Governo recua e volta a admitir acumulação de salários e pensões na função pública
— Gestores, médicos, autarcas e Presidentes entre os beneficiados —

FMI avisa que Portugal será a pior economia da União Europeia em 2015
— É o país que vai crescer menos, que terá o pior défice orçamental e externo da zona euro e uma das taxas de desemprego mais elevadas. Até a Grécia estará melhor —

Queixa-crime contra PGR no Supremo
Público (9/10/10)

Blair afirmou que Sócrates é um dos melhores líderes da União Europeia. Blair também disse que o seu exemplo de integridade é Georges W. Bush. A segunda afirmação tem a virtude de tornar inteligível a primeira.

Na entrevista que Teixeira dos Santos, ministro das Finanças, deu esta semana ao Expresso, há passagens curiosas. Por exemplo: «A questão que se coloca agora não é a de saber se as medidas deviam ter sido tomadas há mais tempo ou não, mas perceber qual vai ser a nossa atitude perante estas medida.» É surpreendente que Teixeira dos Santos — que sempre que lhe dá jeito fala em avaliação e que é preciso avaliar o trabalho realizado por cada um e que essa avaliação deve permitir premiar o mérito e que ele é que é o campeão da avaliação — fuja tão simpaticamente à avaliação do seu próprio trabalho.
É, sem dúvida, interessante ouvi-lo dizer que não importa «saber se as medidas deviam ter sido tomadas há mais tempo ou não». Naturalmente que é um pormenor irrelevante saber se as medidas foram tomadas no devido tempo ou não. Naturalmente que é uma minudência desprezível saber se, no devido tempo, foram ou não foram realizadas acções preventivas relativamente à crise anunciada. Naturalmente que é um detalhe insignificante saber por que razão, no devido tempo, o eng. Sócrates e o dr. Santos zombaram dos sucessivos avisos que os «pessimistas» lhe dirigiram. Naturalmente que é uma particularidade sem sentido avaliar por que motivo o eng. Sócrates e o dr. Santos, em 2009, em plena crise, esbanjaram dinheiro com tudo e com todos. Naturalmente que nada disto interessa ao dr. Santos.
Mas, pelo menos, reconheça, sr. ministro, que, a nós, — isto é, a quem vai pagar a crise — talvez o assunto possa despertar algum interesse...


Outra passagem sui generis da entrevista, e que me leva a pensar que o ministro das Finanças é um adepto da pantomina, é esta: «O Governo fez o que lhe competia e surpreendeu os partidos da oposição, principalmente o PSD, que não contava com um corte na despesa desta dimensão e que parece que ficou sem fala.» O nosso ministro peca por modéstia: o Governo não surpreendeu só os partidos da Oposição, o Governo surpreendeu Portugal inteiro, se não mesmo o Mundo. Como, de igual modo, ficámos particularmente surpreendidos ao saber, pelo FMI, que seremos a pior economia entre os 27 países da União Europeia, em 2015. A pior, sr. ministro! A pior de toda a União Europeia! Então não haveríamos de ficar surpreendidos? Sem dúvida que ficámos surpreendidos. Surpreendidos e sem fala.

E continuámos surpreendidos ao lermos, na mesma entrevista, que «a redução dos salários terá um carácter permanente.» Reconheço que o ministro das Finanças tem uma capacidade inesgotável de nos surpreender: o eng. Sócrates afirmou, há menos de uma semana, que a redução salarial era para vigorar em 2011, mas, logo a seguir, vem Teixeira dos Santos pôr na linha o primeiro-ministro, e mostrar que ele, primeiro-ministro, não sabe o que diz. Faz Teixeira dos Santos bem. Que a voz nunca lhe doa e a vontade de nos surpreender nunca termine.


Finalmente, a derradeira surpresa que o Governo e o dr. Santos nos reservavam: a acumulação de salários e de pensões na Função Pública vai continuar! Por outras palavras: o regalório vai prosseguir e a moralidade é só para os outros.
A coragem, a coerência, o sentido de justiça e de equidade do Governo e do dr. Santos deixam qualquer um sem fala.

domingo, 10 de outubro de 2010

Pensamentos de domingo

«Optimista: proponente da doutrina segundo a qual o preto é branco.»
Ambrose Bierce

«Os optimistas são uns cómicos.»
Elsa Triolet

«O optimista não sabe o que o espera.»
Millôr Fernandes
In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações.

Dizzy Gillespie Quintet

sábado, 9 de outubro de 2010

Ao sábado: momento quase filosófico

Alma, Corpo e Reencarnações

«Vamos esclarecer o que é a alma [...] A antiguidade grega é boa para começar. Aparentemente, aqueles tipos de toga tinham muito tempo para reflectir sobre coisas como a alma. (Quem fazia o jantar enquanto os tipos puxavam pela mioleira é uma questão para a ética feminista.) Os gregos eram dualistas: eles pensavam que a alma e o corpo eram dois seres completamente diferentes. Um dos primeiro filósofos gregos, Tales de Mileto, considerava que a alma era simplesmente a força que move o corpo. Comentou perspicazmente que uma das grandes diferenças entre um corpo morto e um corpo vivo é que o primeiro não se mexe, pelo menos numa superfície plana. Ipso facto, alguma coisa deve abandonar o corpo quando este morre — como, por exemplo, o motor. Outros filósofos pré-socráticos repararam que os mortos parecem já não saber nada e acrescentaram o conhecimento às funções da alma. No entanto, outros constataram que os mortos também parecem não ver nem ouvir e acrescentaram a função de aprender pelos sentidos.
Mas foi Platão que organizou um retrato abrangente da alma. Ele afirmou que a alma é composta por três partes: a Razão, o Espírito (ou a Vontade) e os Apetites. A Razão é a parte mais elevada, a parte que consegue estar em comunhão com as Ideias ou Formas eternas como a Beleza, a Sabedoria, o Triângulo — que é o Triângulo Ideal, a "Forma" triangular de onde todos os triângulos terrenos imperfeitos recebem a sua triangularidade. (Não perguntem.)

A Vontade é uma das partes irracionais da alma, mas tem a vantagem de ser mais nobre que os Apetites. Devidamente dominada, a Vontade tende para a Razão. Por outro lado, os Apetites resistem à Razão, empurrando-nos para os nossos desejos sensuais que implicam problemas com um
P maiúsculo (isto é, Problemas). [...]
Para Platão, o objectivo supremo da alma é remover a sua natureza sensual e avançar para o conhecimento das Formas; a imortalidade está reservada apenas à parte racional. Por outras palavras, contemplar o triângulo é melhor ainda do que sexo, drogas e
rock n' roll. [...]
[Os que defendem a imortalidade da alma, enfrentam ainda um outro problema: a alma reencarna ou não? ]
— Acreditas na reencarnação?
— perguntou um jogador de golfe a um amigo durante um jogo no campo municipal.

— Claro que sim — respondeu o amigo.
— Então, como é que queres voltar à Terra?
— Quero voltar como lésbica.
— O quê?! Porquê?

— Quero continuar a fazer amor com as mulheres, mas quero jogar nos
tees mais curtos [lugares onde as mulheres jogadoras de golfe iniciam o jogo antes de cada buraco].»
Thomas Cathcart, Daniel Klein, Heidegger e um Hipopótamo Chegam às Portas do Paraíso, pp.96-106-114.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A Educação que temos era uma inevitabilidade? Era

Em Portugal, a Educação vive contradições insanáveis. Não conheço, nem quero conhecer, o que se passa nos gabinetes do Ministério da Educação, conheço apenas o que neles é produzido e que até nós chega. E o que nos tem chegado, ao longo dos últimos anos, é a imagem do caos, da desorientação instalada.
Era uma inevitabilidade isto acontecer? Era. Lamentavelmente, não poderia ser de outro modo. Na verdade, não chega proclamar aos ventos grandes paixões pela Educação e proclamar aos ventos que a Educação é a grande prioridade do país, se não se sabe como nem para onde deve ser conduzida essa paixão. Não chega ter meia dúzia de clichês na ponta da língua para encher discurso. Não chega e não é sério.
Nos partidos políticos, não há quem se dedique, com rigor e profundidade, a pensar a Educação (se há, nunca chegou a ministro). Os políticos profissionais sofrem de um gravíssimo defeito: julgam que a política é o reino do discurso apelativo, salpicado de meia dúzia de ideias gerais, e que o aprofundamento dos assuntos não é da sua competência, porque eles têm coisas mais importantes para fazer. A eles apenas lhes cabe dar as orientações gerais, porque as coisas mais técnicas os técnicos que as resolvam. Ora, esta ligeireza e pueril irresponsabilidade resultam sempre em desastre: nem as grandes ideias ou grandes orientações podem alicerçar-se no vazio ou no desconhecimento da realidade e das questões técnicas, nem as questões técnicas são puramente técnicas e nada resolvem se não estiveram vinculadas a ideias.
Há, por conseguinte, uma impreparação de base dos líderes que compromete a possibilidade de existência de uma verdadeira política educativa para Portugal. Há umas frases bonitas, há uns slogans, há uns «bitaites», há uns sorrisos e pouco mais.

Por exemplo, que semelhanças políticas existem entre Guterres e Sócrates? Nenhumas. Todavia, ambos proclamaram grande paixão pela Educação. O que os une? Nada. Que semelhanças políticas há entre Ana Benavente, Lurdes Rodrigues e Isabel Alçada? Nenhumas. Todavia, todas elas foram escolhidas e estiveram ao serviço de primeiros-ministros do mesmo partido político, neste caso do PS. O PS tem uma política para a Educação? Não tem. Tem uma ideia para a Educação, em Portugal? Não tem. Não pode ter, se tivesse, não poderia ter escolhido para concretizar essa política ou essa ideia, gente tão díspar que pensa e age de modo totalmente contrário.
Faltando ideias claras no topo (primeiros-ministros e ministros), as estruturas intermédias do Ministério da Educação trabalham anarquicamente, ao sabor das conjunturais correlações de forças nelas existentes e das variações de humor dos sucessivos(as) ministros(as) e Governos. Há, todavia, deve reconhecer-se, uma corrente dentro desse Ministério que tem sobrevivido a várias intempéries políticas, é a corrente prosaicamente designada de «eduquês», ou, numa versão mais erudita, a corrente dos «cientistas» da educação. O problema é que o «eduquês» é, ele próprio, uma amálgama de contradições e de más opções. Estes «cientistas» vivem no mito e na obsessão de cientificizar o acto educativo. Paradoxalmente, o seu permanente insucesso é também a sua salvação: a não concretização do seu objectivo (perdão, «meta» — em «eduquês», agora, os objectivos passaram a ser metas e as metas passaram a ser objectivos...) é o que aparentemente justifica a sua existência e a sua permanente azáfama.

Sucedem-se as modas pedagógicas, com a mesma regularidade e naturalidade com que se sucedem as modas do vestuário. Fazem e desfazem, dizem e desdizem como se tudo acontecesse pela primeira vez: trocam-se objectivos por metas, por metas finais, por metas intermédias, já houve correlação entre objectivos gerais e objectivos específicos, já não há, os objectivos assumiram outra natureza, mas há as capacidades, há as competências, as valências, as polivalências, os parâmetros, os indicadores, os instrumentos de concretização e as estratégias, as reprovações que passaram a retenções, há os projectos educativos, mais os projectos curriculares de escola, mais os projectos curriculares de turma, mais os planos de enriquecimento curricular, mais os planos de desenvolvimento dos departamentos, há a multiculturalidade, mais a inclusão, mais a educação para a saúde, para a educação sexual e para a ambiental, há os processos e os produtos, o extracurricular e o complemento curricular, há a avaliação diagnóstica, que antes era qualitativa, mas que agora pode ser quantitativa, há as monitorizações disto e daquilo e a homogeneização de processos, há o apoio pedagógico e os planos de recuperação, há as aprendizagens relevantes, as competências específicas, as gerais e as fundamentais e há tudo aquilo que o «cientista» da educação quiser porque a imaginação é infinita e a paciência dos professores que suportam tudo isto também o é.

O estado a que a Educação chegou é grave. A Educação, em Portugal, baloiça entre extremos que, paradoxalmente, por vezes convergem: baloiça entre a política do facilitismo como matriz de todo acto de ensinar e de aprender (que comporta a absoluta não directividade, a rejeição do esforço e do sacrifício, a total liberdade do auto-desenvolvimento, o fim das reprovações) e o desejo de cientificizar a educação (que atinge delírios frequentes, ao procurar burocratizar o ensino e a aprendizagem ou a desmembrá-los numa incomensurável atomização de comportamentos).
A ausência, há vários anos, de uma política educativa tem possibilitado e potenciado os desvarios dos «técnicos» da Educação. Ao que acresce a presente obsessão pela manipulação dos resultados estatísticos — que justifica que não se olhe a meios para atingir os fins, e que se despreze a cultura do conhecimento, do rigor, do trabalho e da responsabilidade.
Chegados a este ponto, e se este caminho não for interrompido, tornar-se-á, a breve prazo, um imperativo proceder ao julgamento cívico (já que o criminal ainda não é possível) de quem durante anos fez e faz da política em geral e, em particular, da política educativa um jogo diletante e uma montra de vaidades.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Estamos a ser justamente castigados?

É um dito mais ou menos consensual considerar que, em democracia, cada povo tem os políticos que merece. Nós, que somos um povo manso mas dado a permanentes desequilíbrios psicológicos, conseguimos sempre arranjar modo de colocar um «talvez» nestas verdades mais ou menos universalizadas. Na realidade, não é fácil aceitar que, mesmo sendo o povo que somos, estejamos a ser justamente castigados. Não seremos, certamente, assim tão maus, de modo a que tenhamos de cumprir pena tão pesada.
É certo que em algumas coisas não estamos sozinhos. Temos os gregos, os espanhóis e os irlandeses como parceiros de desgraça, mas já duvido que esses povos tenham de suportar aquilo que nós suportamos.
Para além de comummente suportarmos a incompetência dos políticos que conduzem os respectivos países ao desastre, nós, portugueses, ainda temos de suportar os Almeida Santos, os Ricardo Gonçalves e outros que pululam pela cena política e que, aposto, os gregos, os espanhóis e os irlandeses não têm.

O dr. António de Almeida Santos, que considera ainda não ter chegado a hora da sua reforma, tem-se ocupado ultimamente, de modo tão dedicado quanto desagradável, ao exercício público da sobranceria e do desdém, que manifestamente nutre por nós. Não vou recordar os esdrúxulos elogios que, há tempos, ele dirigiu ao dr. Jardim, o governador da Madeira — isso são contas de outro rosário, ainda que indicadores de anomalia na lucidez —, recordo apenas o seguinte:
— o dr. Santos considerou inaceitável haver reuniões plenárias na Assembleia da República, à sexta-feira. Para ele, a sexta-feira já é fim-de-semana e ao fim-de-semana não se trabalha;
— o dr. Santos considera inaceitável que o novo aeroporto de Lisboa seja em Alcochete. Para ele, há o perigo de os terroristas dinamitarem as pontes sobre o Tejo e, desse modo, o aeroporto ficar isolado de Lisboa;
— o dr. Santos considera ainda que se o Governo sofre com a crise o povo também deve sofrer.
O dr. Santos não se satisfaz com os insultos que nos dirige à inteligência, ele quer vingar-se de nós. Não nos suporta e quer nos ver a sangrar. Agora, que já não irá mais a votos, diz tudo o que sente, já não precisa de esconder nada, e mostra como deve ter sofrido todos estes anos em que teve de mendigar votos ao povo, em que teve de trabalhar à sexta-feira, em que teve, com risco de vida, de passar as pontes sobre o Tejo.
E nós, para além do défice, do primeiro-ministro que temos, dos cortes no vencimento e em tudo o resto, ainda temos de suportar o dr. Santos.

O dr. Ricardo Gonçalves é uma figura diferente. É uma figura que, felizmente, pouca gente conhece. Mas é notório que se quer tornar conhecido, e quando não é possível ser-se conhecido por boas razões, servem as más.
O dr. Gonçalves é deputado da Nação. Tem o vencimento de deputado da Nação, que é de 3.815,17 euros. Como deputado da Nação, recebe ainda despesas de representação, no valor de 370,32 euros; ajudas de custo, no montante de 69,19 euros, por dia (se não faltar, significa 69,19 x 22 dias = 1.522,18 euros); 40 cêntimos por quilómetro, por cada viagem semanal de ida e volta que faça entre a sua residência e a Assembleia da República (ou seja, entre Braga e Lisboa); para além de outras verbas relativas a deslocações em trabalho político, e de ter direito a um seguro de vida, a um seguro de saúde e a médico e enfermeiro diariamente no Parlamento.
O dr. Gonçalves, deputado da Nação, ganha estes milhares de euros mensais e tem as regalias acima enunciadas, mas, há dias, veio dizer para os jornais que está prestes a passar fome.
Não é com o meu voto que o dr. Gonçalves está onde está, nem nunca será, todavia, este dr. Gonçalves, além de insultar os pobres e de envergonhar quem nele votou, também enxovalha o bom nome do lugar onde se senta a representar o povo e enxovalha a própria República, que ontem celebrou os 100 anos do seu nascimento.
Por muito menos, Bill Clinton teve de responder perante o Senado e quase foi destituído. Ao dr. Gonçalves nada acontece?
Só a nós é que nos acontecem as coisas más? Para além do défice, do primeiro-ministro que temos, dos cortes no vencimento e em tudo o resto, ainda temos de suportar o dr. Santos e o dr. Gonçalves?

Reparo que, quer o primeiro-ministro quer o dr. Almeida Santos quer o dr. Ricardo Gonçalves, todos são do PS. Mas trata-se, naturalmente, de uma infeliz coincidência.

Às quartas

Numa Sala Antiga

Paredes antigas e vermelhas,
velho aroma estranho de carvalho,
canção mole de aranha fiandeira,
pó, e dos objectos sobe o cheiro;
nas mesas todas, muita comida,
muitas taças e vinho dourado,
sobe-desce de linhas de fumo.
Um silêncio cansado e estranho
após o almoço na sala antiga.
Um silêncio defunto e estranho,
madeira podre um verme mastiga.
Fora o vento de outono retumba
nos olmeiros, em negros ramos nus:
um silêncio nublado e estranho
em que uma mosca casmurra zumbe,
zumbe, zumbe...
e morre nos caixilhos soturnos.

Gustav Krklec
(Trad.: Aleksandar Jovanovic)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Registos do fim-de-semana

O 'mistério' do Mercedes que não é de ninguém
— Um Mercedes S450, de 134 mil euros, adquirido pelo Governo, está envolto em mistério. Ninguém parece querer assumir a propriedade do luxuoso veículo —

Passos exige que Sócrates admita falhanço

Governo tem mais 1,4 mil milhões do que precisa

Corte de despesa está apenas no princípio
— Redução de gastos necessária em 2012 equivale ao valor de subsídios de férias e Natal no Estado —
Sol (1/10/10)

Estado encaixa 250 milhões de euros com os cortes no abono de família a 1 milhão e 383 mil crianças e jovens

Medidas chegariam para colocar o défice em 3,3 por cento

8,8% é o défice público sem receitas extraordinárias que o Governo se prepara para atingir este ano

Mercados reagem com entusiasmo muito moderado ao plano do Governo
Público (1/10/10)

«O povo tem de sofrer as crises como o Governo sofre» (Almeida Santos)

Sócrates ainda insiste em TGV e terceira travessia

Ministros apanhados de surpresa pelos cortes

Já só o BCE é que põe dinheiro em Portugal
Expresso (2/10/10)


Portugueses são quem vai apertar mais o cinto na Europa logo a seguir aos gregos

Doentes já pagam 23 por cento dos gastos de saúde

Refer pede autorização para novos empréstimos

Governo manda estudar forma de tornar operacional TGV incompleto
Público (2/10/10)

Desde há cerca de dois anos, foram crescendo as vozes que insistentemente alertavam para o desastre a que o Governo estava a conduzir o País. Desde há cerca de dois anos, essas vozes eram apelidadas de vozes do passado, alarmistas, irresponsáveis e de outros epítetos que José Sócrates alegremente dirigia a quem o contestasse. O curioso é que Sócrates — para além de desdizer, com a maior convicção que se pode imaginar, tudo o que anteriormente havia dito, também com a maior convicção que se pode imaginar — vem agora justificar o momento da tomada de decisão destas medidas com um argumento que deixa impressionado quem o ouve: «Só agora é que estou convencido». Mais curioso ainda é que Sócrates apresenta este argumento como sendo um trunfo a seu favor, como sendo uma inigualável qualidade sua. O problema é que quem paga os tardios convencimentos do sr. engenheiro, somos todos nós. Porque, agora, vamos pagar em dobro ou em triplo os seus desvarios, o seu aventureirismo, a sua irresponsabilidade e a sua falta de atempado convencimento.

Corajoso como ninguém (mais uma vez assim se definiu Sócrates) atira para cima dos mais fracos a responsabilidade de pagar a sua crise orçamental:
— em cada 10 euros de contenção, 6 são pagos por toda a população (em particular, pelos profissionais do Estado cujos vencimentos baixam entre 3,5% e 10%); 3 euros são pagos pela redução da actividade do Estado; e apenas 1 euro é pago pelas empresas, banca, detentores de maiores rendimentos e investidores.
Não quero imaginar o que seria, se Sócrates não fosse corajoso como é.

Entretanto, também ficámos a saber que os portugueses já pagam 23% dos gastos da Saúde. Contudo, quem ouvia Sócrates discursar para as câmaras de televisão ficava sempre convencido de que a Saúde, em Portugal, era universal e praticamente gratuita. Ultimamente, do que mais se ouve falar, por parte do Governo, é no fantástico Estado Social que Portugal possui, da universalidade do Serviço Nacional de Saúde e da sua tendencial gratuitidade. Mas o que estamos a saber é que, feitas as contas, a tendencial gratuitidade significa tendencial e contínuo aumento da comparticipação dos doentes nas despesas da Saúde.

Por fim, é reconfortante saber que, apesar de tudo, continuam os estudos para o TGV. Para um TGV a iniciar e a terminar a marcha no Poceirão...
Somos governados por gente ímpar.

domingo, 3 de outubro de 2010

Pensamentos de domingo

«A política é constituída por homens sem ideais e sem grandeza.»
Albert Camus

«A corrupção dos governantes quase sempre começa com a corrupção dos seus princípios.»
Baron de Montesquieu

«Deus apenas fez a água, mas o Homem fez o vinho.»
Victor Hugo
In Paulo Neves da Silva, Dicionário de Citações.

Steve Kuhn

sábado, 2 de outubro de 2010

Ao sábado: momento quase filosófico

Tempo e Eternidade: a encruzilhada

«Para [Paul] Tillich a vida eterna não é a vida sem fim na "doce rotina"; é uma vida vivida no Eterno Agora. O problema é que perdemos o contacto com a dimensão eterna; ficamos "separados" dela e caímos no desespero, mas ela continua presente. O truque é tentar alcançar aquela perspectiva transcendental. Agora mesmo!
Para compreender aonde Tillich quer chegar, temos de sair do tempo linear tal como o vivemos, o género de tempo do "antes e depois", do "então, até sábado" em que pensamos normalmente. Em vez disso, temos de tentar levar o nosso cérebro a pensar na ideia de Tempo em si — o tempo como dimensão, o tempo como princípio organizador. Em busca de ajuda, recorremos uma vez mais ao filósofo contemporâneo Allen Stewart Königsberg, ou, como é conhecido por todos excepto pela mãe, Woody Allen. Diz Königsberg: "O tempo é a forma que a natureza encontrou para evitar que tudo aconteça em simultâneo."
[...] Não é frequente termos a probabilidade de citar o filósofo analítico Ludwig Joseph Johann Wittgenstein juntamente com Woody Allen e Paul Tillich, mas parece-nos que esta será uma boa ocasião. Na sua obra fundamental, o Tractatus Logico-Philosophicus, L. J. J. W. diz "Se considerarmos a eternidade não como uma duração temporal infinita mas como intemporalidade, então a vida eterna pertence a quem vive no presente." [...]
Em termos psicológicos e espirituais, pode ser problemático entrar em contacto com o Eterno Agora. Temos tendência quer para viver no passado quer para antecipar o futuro e acabamos por nunca conseguir estar aqui agora. [...]
Isto suscita uma das questões mais eternas da filosofia: A experiência da duração do tempo depende de quem a vive [...]?
Um tipo vai a conduzir o seu carro estrada fora e vê um agricultor a erguer um porco sob uma macieira. Sempre que o agricultor levanta o porco, o animal morde uma maçã. O tipo que vai no carro pára e pergunta o que se passa.
— Estou a dar de comer ao meu porco.
— Não pouparia muito tempo se abanasse a árvore e deixasse o porco comer as maçãs do chão? — pergunta o homem do carro.
Responde o agricultor:
— O que é o tempo para um porco?»
Thomas Cathcart, Daniel Klein, Heidegger e um Hipopótamo Chegam às Portas do Paraíso, pp.96-100.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A naturalidade de serem os profissionais do Estado a pagar, em dobro, as consequências da crise

Tornou-se uma assumida naturalidade que, em momentos de crise, sejam os profissionais do Estado a pagar, em dobro, isto é, em impostos e em salário, as consequências dessa crise (para além dos desempregados, que as pagam de modo desmedido). Contudo, quando se pergunta pelo fundamento dessa naturalidade, as respostas escasseiam e as poucas que se ouvem não fazem mais do que repetir clichês, cuja justificação nunca aparece.
Por que razão se considera natural que seja um segmento específico da população particularmente penalizado? Quais são os conceitos de justiça social que sustentam essa penalização directamente dirigida?
A resposta clichê costuma ser esta: «É o Estado que tem dívidas, é o Estado que está a gastar demais, por conseguinte, tem de ser ele a poupar nas despesas que tem. Ora como uma das maiores despesas que o Estado tem é com os salários dos seus profissionais, é aí que tem de cortar.» Normalmente, este clichê é acompanhado de um ar sapiente, próprio de quem profere uma evidência inquestionável.
Como não estou na posse desse saber supremo, permito-me a leviandade de fazer algumas observações. Começarei por observações abstractas, observações de princípio, para, depois, me referir à crise específica que estamos a atravessar.

Em abstracto.
1. Quando um Estado tem dívidas em excesso, essa responsabilidade é dos seus profissionais? Isto é, são os profissionais do Estado que elaboram e que aprovam o seu Orçamento Geral? São os profissionais do Estado que discutem e definem as prioridades e tomam as opções em termos de gastos e de investimentos? Não são. Os profissionais do Estado não são tidos nem achados em nenhuma destas decisões. Essas decisões cabem e são tomadas exclusivamente pelos políticos que governam o País. Os bons ou maus orçamentos do Estado não são da responsabilidade dos seus profissionais. Por que razão, então, são eles co-responsabilizados (baixando-lhes os salários) naquilo de que não têm responsabilidade?

2. O Estado gasta a mais na Saúde? Gasta a mais na Educação? Gasta a mais na Justiça? Gasta a mais na Defesa? Gasta a mais nos subsídios sociais? Gasta a mais na Agricultura? Etc. etc. etc.? Vamos admitir que sim, que gasta a mais em tudo isto. A questão seguinte é esta: O «gasta a mais em tudo isto» é gasto com quem? É gasto com os profissionais do Estado?
Os gastos a mais na Saúde são feitos a tratar da saúde dos profissionais do Estado? Em Portugal, os profissionais do Estado são, se não me engano, cerca de 700 mil; os portugueses são cerca de 10 milhões. Significa que há cerca de 9 milhões e 300 mil portugueses que usufruem dos hospitais e dos centros de saúde e que não são profissionais do Estado. Por que razão, então, hão-de ser os profissionais do Estado particularmente responsabilizados (baixando-lhes os salários) por esses gastos excessivos?
O exemplo que acabei de dar na Saúde, aplica-se a qualquer outra área da governação. As escolas, os tribunais, os hospitais, as forças armadas, etc. estão ao serviço de quem? Apenas dos profissionais do Estado? Não. Estão ao serviço dos profissionais do Estado, em particular? Também não. Estão ao serviço de toda a população. Então, por que razão hão-de ser eles, os profissionais do Estado, particularmente responsabilizados (baixando-lhes os salários) por esses gastos considerados excessivos?

3. O Estado tem profissionais a mais? Vamos admitir que sim. Quem contratou esses profissionais? Foram os profissionais que se contrataram a si próprios? Quem deu autorização para essas contratações ditas excessivas? Os governantes, mais ninguém. Por que razão hão-de ser os profissionais do Estado particularmente responsabilizados (baixando-lhes os salários) pelas más decisões dos governantes? Foram apenas os profissionais do Estado que elegeram esses governantes? Não foram os 6 milhões de eleitores? Nesse caso, temos de voltar a perguntar: por que razão hão-de ser os profissionais do Estado especialmente responsabilizados?
Não vislumbro — mas, como se imagina, teria todo o interesse nisso — que fundamentos sérios existem para sustentar uma penalização especificamente dirigida aos profissionais do Estado.

Agora, em concreto.
A presente crise não foi despoletada pelos profissionais do Estado. Começou por ser despoletada pela ganância, pela irresponsabilidade, pelo desvario de um sector privado, concretamente, pelos mercados financeiros. Foi despoletada por criminosos (alguns estão na cadeia) e por aventureiros privados. Esse sector privado, que em épocas de desenfreada acumulação de riqueza vitupera o Estado, veio implorar ajuda ao Estado para pagar as dívidas que a sua irresponsabilidade e usura provocaram. E os Estados pagaram. E os Estados endividaram-se ainda mais por causa do sector privado. (No caso português, o Estado ainda se endividou proporcionalmente mais que a maior parte — proporcionalmente mais, atendendo à nossa frágil economia — porque temos um Governo eleitoralista e objectivamente incompetente).
Sendo assim, se, em concreto, a origem e o desenvolvimento da crise residiu no sector privado, por que razão hão-de ser os profissionais do Estado particularmente penalizados?

Quer do ponto de vista abstracto, quer do concreto, não encontro nenhuma justificação para que se diga e se aceite com naturalidade, e como uma fatalidade, que os profissionais do Estado têm de ser especialmente penalizados.
Como não sei por que razão, a ter de haver penalização, ela não é proporcionalmente repartida por todos, em função das efectivas responsabilidades que tiveram no despoletar da crise.
Mas tudo isto são, certamente, perplexidades próprias da minha leviandade e da minha ingenuidade.